O caminho de volta para casa

Giordana Medeiros

Reconhecendo sensações, coisas aparentemente insípidas mas que me trazem lembranças de sabores, doces, amargos, salgados, agridoces… Percorrendo caminhos em que nunca antes estive, mas que inusitadamente me trazem recordações, como se outrora, fosse um tempo futuro e não passado, onde estive tão suscetível a essas lembranças de um futuro-passado, que nunca ocorreu realmente, mas preciso recordá-lo pois não sei ser feliz sem estas fantasias. Não é tudo fantasia, não é, não pode ser, não me permito ser… Talvez sejam somente lembranças de desejos esquecidos, sonhos que não envelhecem jamais. E tudo que sou está em seus olhos, minha vida está em seus olhos, meu rumo, minha rota que não posso jamais seguir pois estou perdido em mares tortuosos. Sou embarcação à deriva. E não sei o caminho de volta para casa. Sei seu sabor: era doce, como manhãs na praia, as ondas murmurando, dizendo-me para voltar. “Volte, vooolte”. Desfazendo-se em espuma sobre meus pés descalços. Sentindo a areia em contato com minha pele, grãos miúdos que brilham como ouro, mas me são bem mais preciosos. Cada minúsculo grão, porque não passamos de grãos de areia neste universo tão vasto e infinito. Onde estão meus sonhos? Em que estrela eles se perderam, nômades percorreram galáxias, e mesmo assim não conseguiram achar morada certa.

E se eu voltar, como seria? Uma manhã, cinza de novembro, onde os bem-te-vis anunciariam meu retorno. Cigarras zuniriam nas árvores com sua música de fim de ano, eu aspiraria o cheiro de terra molhada, a brisa fresca noticiando chuva recente, nos galhos das árvores ainda haveriam gotas pingando sobre a grama. Andaria confuso, relutante pois em tudo sou inseguro, não sei se me receberia, se novamente me aceitaria. Por isso mantenho-me distante. Temeroso, de jamais conseguir achar meu verdadeiro rumo. Para onde apontam todas as rotas? Sigo sem direção como ave que se delicia com seu próprio vôo. Sentido o vento sob as asas, gozando a plenitude de ser livre. Mas eu trago comigo meus grilhões que me impedem de voar alto, realidade sufocante que me cerceia os caminhos. Não preciso ater-me ao que é certo, deixe-me ser este ser falho e plenamente humano, com seus pecados, erros e desejos. Não quero a glória da divindade. Nem mesmo pretendo habitar o limiar em que vivem os semideuses. Deixe-me junto aos impuros que minha alma é negra como as noites de novembro. Noites com densas nuvens cobrindo as estrelas. E gosto de ouvir o som da chuva. No telhado há pardais protegendo-se do temporal. Quero achar abrigo para essa noite que tomou conta de mim. E todos os dias são cinzas como dias de chuva. Houve um época em que já foram felizes. Mas o tempo se desmancha num pintura de Salvador Dali. Quero a luz de seus olhos sobre mim para poder enxergar neles o destino que me fugiu e não alcanço.

Não há segredo, pois tudo sempre esteve-me claro. Desfaço-me em desilusões e em sensações fugidias, tão efêmeras quanto um sonho bom. Sei que estive bem próximo de ter realizados meus sonhos, mas consenti em perdê-los, deixei-os voar como um mágico que se desfaz de suas pombas no meio de um espetáculo. Não há magia, são truques que usamos para despistar a tristeza. Ouço uma canção distante e tento acompanhar a melodia: pode ser Mozart, mas quem toca está fora do tom. E deslizo sobre notas musicais, mas desperto com os tropeços do músico. “Pobre aprendiz, não permita que seu tutor ralhe com você”. Todos temos de começar de algum lugar. Eu vou pelo “lugar comum”. Mesmo que a crítica seja assaz ferina… Que quero saber dos críticos? Não escrevo para eles, escrevo para mim, correndo o risco de ser hermético e introspectivo em excesso. Como se me isolasse do mundo e apresentasse para este somente relances do que sou realmente. Mas não sou tudo o que está escrito, dou-me a possibilidade de me valer daquilo que não está tão evidente. Porém poucos são os que enxergam. “Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê. Mas sei que você sabe quase sem querer que eu vejo o mesmo que você.” E nesses anos em que andei distraído perdi partes de meu espírito pelos lugares por que passei. Semeando minhas mágoas, regando com minhas lágrimas e adubando com meus sonhos. Tão bonito sonhar, com aquilo que perdemos e que não há sequer possibilidade de reencontrarmos… Nessas noites onde as nuvens choram sobre mim, observo as gotas da chuva escorrerem por minha janela. É tudo parte deste romance que criei com aquilo que não escrevi, mas está claro pode ver? Sou impaciente, mas aguardo que me chame, você me chamará? Tenho medo de novamente não poder ouvir, há o temporal, o som dos carros nas ruas, buzinas estridentes… E se não puder novamente ouvir, mandar-me-á um mensageiro? Aquele que me trará sossego as minhas saudades?

Onde nasceu este conto que já me perco em palavras? Não sei por onde ir nem mesmo para que vielas escuras me guiam estas dores que derramo sobre o papel. Sou um anjo caído que fez questão de esquecer. Se me recordo de todos meus desenganos, enlouqueço. E demorei tanto até alcançar a sanidade… Hoje estou revelando-me mais que deveria, mas que desejaria. Não sou este quem fala. Sou outro por demais diverso. Tento reerguer novamente minhas defesas, pois por um segundo estive desprotegido, e minha armadura é frágil como os barcos de papel que se perdem nas enxurradas. E nunca chegaram ao seu destino, eu e os barquinhos de papel, por se desfazerem antes de alcançarem seu porto. Eu sempre quis achar uma explicação lógica para o que sinto, mas quando crescemos as respostas tornam-se vagas e obtusas. Perdem-se em labirintos os sentimentos. E tudo fica de tal forma indefinível que é impossível achar lógica nisso tudo, e meu cientificismo cai por terra. Agora tento compreender por que quero retornar se foi você quem se perdeu de mim. “Eu quero o mesmo que você”. Sei que ainda posso ser como fui um dia. Houve um momento em que pude ser o que sou sem escudos e barreiras, deste eu que fui restou-me muito pouco. Mas posso resgatar os sentimentos que me guiavam naquele momento, era jovem e ingênuo, hoje sou maduro mas continuo ingênuo, estúpido não? Sempre fui este emaranhado de sensações que no fim forma uma massa disforme mas que por sua autenticidade tem um misto de rebeldia e beleza. Como um trabalho artístico que escandaliza sem desfazer-se do senso de estética.

Eu ainda guardo as mesmas desculpas, mas você disse que “nem sempre as desculpas são sinceras, quase nunca são…” Eu não queria me machucar de novo. Mas isso causou-lhe tamanho sofrimento que me arrependo de minha covardia. Saiba apenas isso: sou aquele que procura o caminho de volta para casa… Não faz sentido? Nem tudo faz sentido, mas já me acostumei com isso. Não posso chegar ao âmago das questões, sinto falta de mim mesmo, e de seus olhos onde enxergava o destino que perdi. “A vida é o que você vê nos olhos dos outros; a vida é o que as pessoas aprendem e, tendo aprendido, nunca, embora o tentem esconder, deixam de estar conscientes de – do quê? De que a vida é assim, ao que parece.” Quando leu para mim essas palavras de Virgínia Woolf? Não, fui eu que as li para você. A vida é assim ao que parece: um todo indiscernível mas que por sua total disformidade guarda uma beleza única. Somos parecidos, eu e a vida . Meu espírito se perdeu, nestas noites solitárias, no som da chuva nos telhados, onde se refugiam pardais, no estrondo do trovão e na beleza mortal do relâmpago. Um instante apenas entre um cálice de vinho, e o tic-tac fatal do relógio. Sabores degustados, entre as intermitentes luzes de fim de ano. Já é quase natal e eu preso a estas questões que me afligiram por toda uma vida. Mais um ano de espera, infinita espera. Um dia sei que acharei o rumo que perdi. Por onde me levarem as palavras, por onde me guiarem seus olhos, por onde forem meus sonhos… Nessas noites onde as nuvens escondem o luar, não alcanço a beleza, não posso tê-la. Resigno-me às noites escuras e feias de tempestade. Afrouxo o nó da gravata, fumo um cigarro e aguardo que o dia amanheça ou a chuva pare. No fim qualquer coisa é-me indiferente.

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2 opiniões sobre “

  1. Bom, indiferente: adjetivo de dois gêneros. Ambos resultados ruins, mas que fique a diferença para o personagem no encontro do caminho da volta para casa.

    Parabéns pelo texto.
    Um envolvente abraço pra ti.
    se cuida, tá?
    :]

  2. Olá minha cara … nao teria mais belo texto pra agraciar meu retorno … que lindas palavras, que texto bom de ler … aos poucos vou lendo o resto do blog, um ou dois textos por dia, na medida do meu tempo … só lamento ter me ausentado quando este texto foi escrito, mas … antes tarde do que nunca não é mesmo?
    Espero que estejas bem, minha cara escritora!
    Abraço,
    Elis.

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