Arquivo do mês: novembro 2008

A fatalidade das horas

Giordana Medeiros

-Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

-Você pensa que me amedronta? Acha que ficarei paranóico por ter de me submeter a você? Imagina que serei manso como tantos outros que apenas escutam o fatal passar as horas?

-Tac-tic, tac-tic, tac-tic…

-Enfrentarei sua força ameaçadora com pulsos cerrados! Não serei um fraco, não sou tolo, sou muito diferente dos homens a quem está acostumado a mandar. Não recebo ordens, se me dize para envelhecer vou rejuvenescer até a tenra idade para não obedecer seus desmandos. Ser jovem ou velho que me importa? Seus conceitos não significam nada para mim. Deixo que continue sua marcha, sem pausas, sem descanso, um ultimato aos homens. Eu sou indomável e não serei um dos seus escravos.

-Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

-Desafia-me? Pois saiba que compro seu desafio. Não tenho medo de sua força exaurindo aos poucos a vida dos seres. Você é uma invenção do homem. Você não existe! É uma definição tola para medir… Medir algo que nunca antes deveria ter sido criado. A criatura submetendo seu criador. Mas me insurjo contra seu domínio. Não manda em mim seu tirano! Não sou amestrado por seu som hipnotizante. Pensa que pode me domar como faz aos outros homens…

-Tac-tic…

-É um espectro, um fantasma que assombra a humanidade. Você que tinha como intuito marcar as épocas das colheitas, se revelou um inimigo atroz. Agora fia, e corta como as parcas o fio de nossos destinos. Quem lhe deu o título de Atrópos? Você inimigo oculto, que vem sugando-me a vida, a juventude que se esvaiu como a areia de uma ampulheta. Anteriormente era assim que se mostrava, inocente, silencioso. Hoje para mais nos apavorar tomou um som mecânico. Uma máquina, a primeira a se voltar contra seu criador. Não é como uma história de Kubrick, pois você não pensa. Não pensa! Escutou-me? Você não tem idéia do que se passa… Ou têm? Esconde seus reais intentos de nós. E nos escraviza. E mede nossas vidas, determina nossa morte. Nunca haviam pensado que é você nosso maior inimigo. É culpado! Culpado! Culpado por essa voz fraca, essa pele enrugada, esses ossos frágeis como vidro. Se minha coluna encurva-se agora é em razão de muito haver estendido o fio de minha existência. Quando irá valer-se de sua tesoura dourada parca?

-Tic-tac, tic-tac….

-Não me punirá por minha insolência? Não infligirá mais castigos que me impõe?

Estes dentes em minha pele que não há como se limar? Por acaso és a Baleia Branca que venho procurando desde sempre? Algoz que reina absoluto sobre a existência na terra. Não podemos segurá-lo ou retrocedê-lo. Embora possamos atrasar o relógio, para dar-nos a falsa idéia de segurança, não há como retroceder o passar dos anos. Essa é a marcha inexorável. A vida que se esvai como água de uma fonte que corre sempre, sempre. E muita água passou por baixo da ponte. O rio que segue numa única direção, há como desviar o curso deste, mas a vida é muito diferente. Quando tudo toma um rumo… Ah, não há mais como mudá-lo. Seguimos, só seguimos. Nossa história será contada assim. E assim não é como queríamos.

-Tac-tic, tac-tic, tac-tic…

-Não se importa, não lhe comove esta dor? Este sofrimento que impõe aos homens, esta espera agonizante que tudo termine… Como tudo terminará? E tudo realmente terminará?O que se revela além do continuum espaço tempo? E lá você também é imperador? A eternidade que tanto almejamos não é nada mais que uma lenda. Tempo que reina, que domina, que nos trás a compreensão que muito se passou em nossas vidas. Tão efêmeras para você. Seu tic-tac se estenderá por séculos e minha respiração tênue não alcançará nem mais uma década.

-Tic-tac, tic-tac…

-Se ao menos pudesse mudar o curso da história como um escritor que, descontente com o andamento de um livro, modifica essencialmente o rumo que segue seu romance. E quando o livro já está escrito, há como modificá-lo?

-Tac-tic, tac-tic,tac-tic…

-E os tempos inesquecíveis prestigiosos, que se sucederam tão frenéticos que não pude saboreá-los em sua completude? Décadas em que tive um vislumbre de felicidade. Os anos passam indomáveis, e quando nos damos conta nossos espíritos não se contêm em nossos corpos decrépitos. Agora não consigo reter-me em mim. Não tenho a mesma agilidade física para satisfazer-me os sentidos. Tenho pavor da senessência que se apodera de mim. Dentro em breve não terei mais controle de meu corpo, dizem que os homens rejuvenescem quando atingem a terceira idade. E não conseguem como os recém-nascidos, reter seu esfíncter, e urinam-se, pois são crianças velhas. Crianças, pois jamais deixamos de sê-lo. O mundo adulto é uma mentira! E tudo foi coordenado por você, vil robô, máquina assassina. Se quer saber, estou aqui para combatê-lo. Sei que sou um personagem Quixotesco lutando contra invisíveis gigantes… Luto contra uma força desconhecida, da qual a única representação é um relógio antigo com seu pêndulo indo de um lado para o outro. Por que temos que medir o tempo que nos resta?

-Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

-O que nos resta mesmo? Um punhado de mentiras, outro tanto de desilusões e muitas, muitas caixas de saudades. Em nossos mundos íntimos, silenciosos, guardamos nossas lembranças mais estimadas. De tempos em tempos, num suspiro, liberamos um pouco dessas saudades. Que transborda, como um copo muito cheio. Nessas noites absolutas sou tomado de uma inquietude, como se tudo que já se foi, fosse apenas um sonho, de que dentro em breve despertarei, para a vida que vivo quando não estou dormindo. Mas na realidade tenho consciência de que estou mesmo acordado. E deixo-me ao sabor das marés. Há tempo de melancolia como também o há de alegrias, mas com o passar do anos a felicidade torna-se cada vez mais esporádica.

-Tac-tic, tac-tic, tac-tic…

-Você levou todos quem amava, e esqueceu-se de mim nesse mundo trágico, não precisa e mim? Não sou parte essencial de seu enredo? Que tramas prepara na surdina, sem que me conceda participar de sua trupe? Fui excluído de seus planos, máquina? Pretende prolongar-me a pena? Insurjo-me contra você! Sou mais hábil que uma dezena de pequenas roldanas. Interligadas entre si, pelo sopro de uma vida inteira. Guardo um de seus asseclas no bolso, um relógio de ouro que pertenceu ao meu avô, você me precede e precedeu a todos nós. Pois não é sua representação física, é superior aos homens e a vida. É o tempo que se apresenta poderoso. Tende piedade de mim, Cronos. Não me devore, sou um simples mortal submetido a sua ira. Reconheço-me depois de enxergar todos os desencantos e misérias, sou um minúsculo homem que não deixará qualquer marca sobre a Terra. Alguém que ficará esquecido, sob a terra úmida. Um corpo inerte e sem vida, entregado para os vermes que se deliciarão com a carne podre em meus ossos.

-Tac-tic, tac-tic…

-Sei que “cada uma das aflições humanas dorme numa onda misteriosa do tempo”. E guarda todos os meus momentos, sei que me conhece bem. Nos meus derradeiros instantes quero que se lembre desse diálogo que tivemos. E desconsidere cada palavra de ira, cada lamento funesto. Não quero a vida eterna, não quero a imortalidade dos deuses. Sou mortal. O mais mortal dos homens, o mais servil dos servos. Quero unir os pedaços velhos e rotos da minha vida e decifrar meu destino. Por onde me levem as vagas, por que caminhos me levem as correntes. Verei a mim mesmo e com profunda piedade compreenderei e perdoarei todas as minhas faltas. E numa lágrima tudo findará.

-Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac…

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O caminho de volta para casa

Giordana Medeiros

Reconhecendo sensações, coisas aparentemente insípidas mas que me trazem lembranças de sabores, doces, amargos, salgados, agridoces… Percorrendo caminhos em que nunca antes estive, mas que inusitadamente me trazem recordações, como se outrora, fosse um tempo futuro e não passado, onde estive tão suscetível a essas lembranças de um futuro-passado, que nunca ocorreu realmente, mas preciso recordá-lo pois não sei ser feliz sem estas fantasias. Não é tudo fantasia, não é, não pode ser, não me permito ser… Talvez sejam somente lembranças de desejos esquecidos, sonhos que não envelhecem jamais. E tudo que sou está em seus olhos, minha vida está em seus olhos, meu rumo, minha rota que não posso jamais seguir pois estou perdido em mares tortuosos. Sou embarcação à deriva. E não sei o caminho de volta para casa. Sei seu sabor: era doce, como manhãs na praia, as ondas murmurando, dizendo-me para voltar. “Volte, vooolte”. Desfazendo-se em espuma sobre meus pés descalços. Sentindo a areia em contato com minha pele, grãos miúdos que brilham como ouro, mas me são bem mais preciosos. Cada minúsculo grão, porque não passamos de grãos de areia neste universo tão vasto e infinito. Onde estão meus sonhos? Em que estrela eles se perderam, nômades percorreram galáxias, e mesmo assim não conseguiram achar morada certa.

E se eu voltar, como seria? Uma manhã, cinza de novembro, onde os bem-te-vis anunciariam meu retorno. Cigarras zuniriam nas árvores com sua música de fim de ano, eu aspiraria o cheiro de terra molhada, a brisa fresca noticiando chuva recente, nos galhos das árvores ainda haveriam gotas pingando sobre a grama. Andaria confuso, relutante pois em tudo sou inseguro, não sei se me receberia, se novamente me aceitaria. Por isso mantenho-me distante. Temeroso, de jamais conseguir achar meu verdadeiro rumo. Para onde apontam todas as rotas? Sigo sem direção como ave que se delicia com seu próprio vôo. Sentido o vento sob as asas, gozando a plenitude de ser livre. Mas eu trago comigo meus grilhões que me impedem de voar alto, realidade sufocante que me cerceia os caminhos. Não preciso ater-me ao que é certo, deixe-me ser este ser falho e plenamente humano, com seus pecados, erros e desejos. Não quero a glória da divindade. Nem mesmo pretendo habitar o limiar em que vivem os semideuses. Deixe-me junto aos impuros que minha alma é negra como as noites de novembro. Noites com densas nuvens cobrindo as estrelas. E gosto de ouvir o som da chuva. No telhado há pardais protegendo-se do temporal. Quero achar abrigo para essa noite que tomou conta de mim. E todos os dias são cinzas como dias de chuva. Houve um época em que já foram felizes. Mas o tempo se desmancha num pintura de Salvador Dali. Quero a luz de seus olhos sobre mim para poder enxergar neles o destino que me fugiu e não alcanço.

Não há segredo, pois tudo sempre esteve-me claro. Desfaço-me em desilusões e em sensações fugidias, tão efêmeras quanto um sonho bom. Sei que estive bem próximo de ter realizados meus sonhos, mas consenti em perdê-los, deixei-os voar como um mágico que se desfaz de suas pombas no meio de um espetáculo. Não há magia, são truques que usamos para despistar a tristeza. Ouço uma canção distante e tento acompanhar a melodia: pode ser Mozart, mas quem toca está fora do tom. E deslizo sobre notas musicais, mas desperto com os tropeços do músico. “Pobre aprendiz, não permita que seu tutor ralhe com você”. Todos temos de começar de algum lugar. Eu vou pelo “lugar comum”. Mesmo que a crítica seja assaz ferina… Que quero saber dos críticos? Não escrevo para eles, escrevo para mim, correndo o risco de ser hermético e introspectivo em excesso. Como se me isolasse do mundo e apresentasse para este somente relances do que sou realmente. Mas não sou tudo o que está escrito, dou-me a possibilidade de me valer daquilo que não está tão evidente. Porém poucos são os que enxergam. “Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê. Mas sei que você sabe quase sem querer que eu vejo o mesmo que você.” E nesses anos em que andei distraído perdi partes de meu espírito pelos lugares por que passei. Semeando minhas mágoas, regando com minhas lágrimas e adubando com meus sonhos. Tão bonito sonhar, com aquilo que perdemos e que não há sequer possibilidade de reencontrarmos… Nessas noites onde as nuvens choram sobre mim, observo as gotas da chuva escorrerem por minha janela. É tudo parte deste romance que criei com aquilo que não escrevi, mas está claro pode ver? Sou impaciente, mas aguardo que me chame, você me chamará? Tenho medo de novamente não poder ouvir, há o temporal, o som dos carros nas ruas, buzinas estridentes… E se não puder novamente ouvir, mandar-me-á um mensageiro? Aquele que me trará sossego as minhas saudades?

Onde nasceu este conto que já me perco em palavras? Não sei por onde ir nem mesmo para que vielas escuras me guiam estas dores que derramo sobre o papel. Sou um anjo caído que fez questão de esquecer. Se me recordo de todos meus desenganos, enlouqueço. E demorei tanto até alcançar a sanidade… Hoje estou revelando-me mais que deveria, mas que desejaria. Não sou este quem fala. Sou outro por demais diverso. Tento reerguer novamente minhas defesas, pois por um segundo estive desprotegido, e minha armadura é frágil como os barcos de papel que se perdem nas enxurradas. E nunca chegaram ao seu destino, eu e os barquinhos de papel, por se desfazerem antes de alcançarem seu porto. Eu sempre quis achar uma explicação lógica para o que sinto, mas quando crescemos as respostas tornam-se vagas e obtusas. Perdem-se em labirintos os sentimentos. E tudo fica de tal forma indefinível que é impossível achar lógica nisso tudo, e meu cientificismo cai por terra. Agora tento compreender por que quero retornar se foi você quem se perdeu de mim. “Eu quero o mesmo que você”. Sei que ainda posso ser como fui um dia. Houve um momento em que pude ser o que sou sem escudos e barreiras, deste eu que fui restou-me muito pouco. Mas posso resgatar os sentimentos que me guiavam naquele momento, era jovem e ingênuo, hoje sou maduro mas continuo ingênuo, estúpido não? Sempre fui este emaranhado de sensações que no fim forma uma massa disforme mas que por sua autenticidade tem um misto de rebeldia e beleza. Como um trabalho artístico que escandaliza sem desfazer-se do senso de estética.

Eu ainda guardo as mesmas desculpas, mas você disse que “nem sempre as desculpas são sinceras, quase nunca são…” Eu não queria me machucar de novo. Mas isso causou-lhe tamanho sofrimento que me arrependo de minha covardia. Saiba apenas isso: sou aquele que procura o caminho de volta para casa… Não faz sentido? Nem tudo faz sentido, mas já me acostumei com isso. Não posso chegar ao âmago das questões, sinto falta de mim mesmo, e de seus olhos onde enxergava o destino que perdi. “A vida é o que você vê nos olhos dos outros; a vida é o que as pessoas aprendem e, tendo aprendido, nunca, embora o tentem esconder, deixam de estar conscientes de – do quê? De que a vida é assim, ao que parece.” Quando leu para mim essas palavras de Virgínia Woolf? Não, fui eu que as li para você. A vida é assim ao que parece: um todo indiscernível mas que por sua total disformidade guarda uma beleza única. Somos parecidos, eu e a vida . Meu espírito se perdeu, nestas noites solitárias, no som da chuva nos telhados, onde se refugiam pardais, no estrondo do trovão e na beleza mortal do relâmpago. Um instante apenas entre um cálice de vinho, e o tic-tac fatal do relógio. Sabores degustados, entre as intermitentes luzes de fim de ano. Já é quase natal e eu preso a estas questões que me afligiram por toda uma vida. Mais um ano de espera, infinita espera. Um dia sei que acharei o rumo que perdi. Por onde me levarem as palavras, por onde me guiarem seus olhos, por onde forem meus sonhos… Nessas noites onde as nuvens escondem o luar, não alcanço a beleza, não posso tê-la. Resigno-me às noites escuras e feias de tempestade. Afrouxo o nó da gravata, fumo um cigarro e aguardo que o dia amanheça ou a chuva pare. No fim qualquer coisa é-me indiferente.

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Corinthians Campeão da Série B do Campeonato Brasileiro

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