Tarde de primavera

Giordana Medeiros

O cantar do rio, transparente como mil cristais transformando a luz que os atravessa em arco-íris… Luzes que se derramam pelas pinturas, cores, cores, cores… Há as frias e as quentes… E as tardes mornas de dormências, corpo sob a sombra amistosa de uma árvore. E eu pensando em cristais e arco-íris. O rio arrulha como uma pomba, provo de sua água para purificar-me de todos meus pecados. Água benta… E sinto-me mais livre, nesses dias em que sou atacado desta infinita leniência. Não preciso ser todo tempo… Posso dar-me o luxo de não ser, por algumas horas, neste episódio humano…

˜˜˜

As noites se seguem como sentenças, madrugadas perdidas… Embriagadas pelo vinho, tinto, que não se pode tomar gelado, pois é bebida quente… E espero que esquente estas noites de solidão em que posso deixar-me ao sabor dos devaneios. Permaneço impassível a esta dor. Posso sofrer em silêncio e engolir o soluço. Sou como uma estátua de pedra, mas com os pés de barro. Porque sou suscetível e frágil. Mas posso erguer muros intransponíveis mesmo para aqueles que quero mais próximos. Não os permito desvendar-me. Sou enigmático como uma esfinge. E gosto de ser assim… Às vezes…

˜˜˜

Encontro-me nas páginas de um livro, como se minha essência houvesse sido grafada há anos atrás, e toda minha existência tivesse a única finalidade de encontrá-la. Escavei fundo esta obra, para achar o tesouro que não está evidente, é necessário ler as entrelinhas, onde estão todas as respostas. Para as questões mais importantes não há respostas aparentes. Não é fácil encontrá-las. A vida é como um conjunto de indagações, não se deve respondê-las todas, deixemos algumas ao sabor do vento para que se percam como folhas levadas pela leve brisa da primavera. Permito-me ficar em dúvida…

˜˜˜

Atrás desta imagem que me mostra o espelho há todo um mundo, o avesso do meu, tão destro… E queria ser gauche só às vezes, ser o avesso dos ponteiros, seguir um ritmo anti-horário, morrer antes de envelhecer e ir rejuvenescendo, para usufruir com mais sabedoria os momentos que se perderam, pois era extremamente jovem, tudo era tão prematuro, e não sabia lidar com tais situações. Se pudesse reescrever meu destino com uma borracha apagaria os momentos infelizes e com nanquim desenharia minha verdadeira existência, mas não sei se existi realmente… Será? Acho que sim…

˜˜˜

Minha estrela é aquela a esquerda, próxima ao cinturão de Órion que você insiste em chamar de Três Marias. Você apropria-se das constelações… Contento-me com uma estrela apenas, pequenina que não se enquadre em nenhuma delas, que possa ser minha confidente, assistindo-me nestas noites sem fim… Tornando-se espectadora da minha dor, destas noites onde posso distrair-me escrevendo sob a luz pálida de uma lua crescente, olhando as estrelas pela janela, o vinho adormecendo as feridas e encharcando o espírito… Entre as possibilidades e a efetividade… A realidade é muito estreita e prefiro os caminhos largos, sou tendente a devaneios…

˜˜˜

De olhos fechados, suspiro profundamente, mergulho neste rio, como faria Ofélia, mas, a maioria das vezes, sou como Fausto. E sei que sou corruptível. Quero a juventude eterna, quero a mansidão dos espíritos, quero uma paisagem calma e bucólica… E a realidade apresenta-me estas imagens desesperadoras, não é o que eu espero, não é o que espero… Seria tão bom se tudo não fosse tão frágil. Se o que nos ligasse não fosse uma tênue linha, o fio com que Atópros com sua tesoura dourada, sentencia nosso destino. E se não houvesse destino por que caminhos seguiríamos? Não quero pensar, não quero pensar, já me é tão duro saber, porque não posso fingir que não há nada? Só por hoje, deixe-me fingir que eu não sei… Não sei…

˜˜˜

Um infortúnio viver, se tudo não corresse a passos largos, e a vida não seguisse por caminhos diversos… Sou como um sonâmbulo cujo caminho é traçado pelo sonho, que não enxerga por aonde vai realmente… Vou pelas correntes que me tragam, pelas vagas que me levam, junto com toda essa massa insana que se insurge violenta… Exibem cartazes, gritam palavras de ordem, exigem, usam seus punhos… Quisera, somente poder tocar novamente as flores. Não mais me deixam tocá-las, cercam seus jardins, separam-me dos mal-me-queres e amores-perfeitos, mantém as flores prisioneiras, ou o verdadeiro prisioneiro sou eu?

˜˜˜

Seguiram todos, ostentando luto por aquele que se foi, o sangue que se derrama sobre nós não nos purifica, ao contrário nos enche de culpas. Não sou aquele que portava a espada, mas sou quem permitiu que ocorresse. Poderia ter feito algo, mas cruzei os braços egoisticamente, e consenti com o assassinato. Fui fraco e covarde e permiti que dizimassem aquilo que me restava de humanidade. Agora carrego luto que me pesa sobremaneira, não pelo peso da dor, mas por um peso maior: o da culpa. Entrego o caixão, cujo corpo leve e frágil que mal o ocupa, está inerte e manso, e eu não posso derramar lágrimas por um ato que foi todo meu, não era eu quem portava a espada, mas o golpe fatal fui eu quem desferiu e sofro as conseqüências de minha omissão… “É o descaso o que condena…”

˜˜˜

Segure minha mão para que possa atravessar este caminho de trevas e dor… Não posso continuar sozinho e tenho medo do que há no outro lado, posso estar enganado, pode ser apenas o medo que me paralisa, mas prefiro estar com você. Será que pode ficar comigo, somente esta noite, em que tudo me transporta por vales tortuosos, horizontes perigosos e selvas abomináveis? Esta solidão é bem mais dolorida quando sei que preferiu não estar ao meu lado. Por onde anda que lhe procuro e não lhe acho? Será que prefere este vale de mil tormentas, a este coração tonto e apaixonado que somente toca uma nota só desde que lhe conheceu? Sou um pássaro enjaulado, que perdeu o canto…

˜˜˜

Há um exército a nossa procura, mil homens armados que nos buscam incessantemente, procuram-nos, pois somos suspeitos de um crime: sabe qual é? Também o desconheço, mas sei que sou culpado. Minhas mãos estão manchadas de sangue e minha alma carrega uma nódoa que se alastra sobre mim… Serei preso e condenado ao cadafalso. O carrasco não terá pena de mim ao cobrir-me o rosto, para que não vejam a minha expressão de dor quando saltar para a morte certa. Serei apenas mais um para quem não haverá clemência, um daqueles cujo crime é tão grave que obriga que os desconheçam. Meu crime, minha culpa, minha dor. “Pudera voltar para margem daquele rio que arrulhava para mim tão puro.” Pensarei nos meus derradeiros instantes, pois segui até aqui, após estas noites infinitas, sem recordar-me daquelas tardes a beira do rio que, como cristais, decompunha a luz em dezenas de arco-íris…

˜˜˜

“Hoje eu apenas falaria, talvez com menos palavras. Mas é porque, na verdade, já foi usada minha voz. Naquele tempo ele acordava com espanto: como o grito de mil feridos recentes.” E acordo, destes sonhos, destas realidades, desta existência, na margem esquerda do rio, sob a sombra acolhedora de um salgueiro, numa pintura romântica e saudosista. Houve um tempo em que eu era assim. Não há muito do que desistir, não há o que seguir, somente esse cheiro de relva, esta dor aguda que não se cura com goles de vinho, e uma sensação imensa de desolamento. Um dia que se une a tantos outros em que pude desfrutar de meus sentimentos, esquecido do mundo, das pessoas e das flores, que não pude e não posso tocar. Como consolar mal-me-queres? E revelar a real natureza do amor a amores-perfeitos? Deixe-me estar mais um tempo nesta sombra. Afinal, é primavera.

 

Citação de Cecília Meireles

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | 2 Comentários

Navegação de Posts

2 opiniões sobre “

  1. As palavras pintam a imagem que colocaste junto ao post … e tu ainda insiste em falar que gostaria de escrever como eu? E o que falar deste lugar ? Tuas palavras são tanto de tantas coisas de tanta gente … tudo passado a limpo … do teu jeito, mas ainda sim, definições …
    Lindo o texto … “afinal, é primavera”.
    Beijão da Elis.

  2. Típicos momentos tenho em minhas tardes de primavera. O ar, mudanças climáticas constantes, sentimentos, … mas partes do seu textos ficam inclusos nela agora.

    Muito bom.
    Um envolvente abraço pra ti.
    se cuida.

    :]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: