Depois da tempestade, a calmaria

 

Giordana Medeiros

 

Tomou um pouco de seu chá. Sentada na cama, a luz do dia não feria mais seus olhos. Agora ela tinha certeza que a vida retomava seu rumo. Por que, há um ano, ela apenas sobrevivia. O desenlace amoroso com seu antigo noivo deixou-a em frangalhos. Foi difícil sair do fundo do poço. Mas sua música sempre foi um alicerce para ela. Compôs seu novo cd e nesse período trabalhou ininterruptamente. É comum buscar a vida pelo campo profissional. Ela se entregou a criação, e fez nascer uma obra sincera de todas as tormentas que lhe assaltaram nesse período de desitoxicação do amor. Pois ela estava viciada em amar, e não compreendia como era viver sem este, sem estar atada emocionalmente a um homem, e isto nunca foi bom. Pois, não se pode entregar de forma tão incondicional a ninguém. Devemos sempre estar resguardados de nossa essência, pois esta é a única parte de nós que nos pertence realmente. Seguiu seu caminho, teve ajuda profissional, é claro, compareceu a inúmeras sessões de terapia, e teve de reestruturar sua vida. Mas agora ela sentia-se muito bem. Estava amando de novo, mas de uma forma muito mais saudável. Sem aquela dependência espiritual em que se baseavam suas antigas relações. Um suspiro profundo, agora ela estava com um advogado, compartilhavam dos mesmos interesses, e eram mais compatíveis intelectualmente. Ela não tinha certeza se este era o homem com quem formaria uma família, se este seria aquele que ficaria ao seu lado pelo resto de sua vida, mas isso não mais a preocupava. Ela deixaria tudo seguir seu rumo sem precipitações e cobranças. A vida é bem simples se não criamos grandes expectativas. E ela começou a aprender isso.

Ela ficaria horas sob as estrelas numa banheira quente, pelo prazer de estar sob a luz pálida da lua, e não para curar suas feridas. Elas ainda estão lá, em seu espírito, mas se cicatrizam lentamente, e aos poucos vão parando de doer.  Não precisava mais chorar horas a fio imaginando como poderia ter evitado o que ocorreu. É tão ruim quando o amor acaba, restam somente as lembranças, nem sempre muito boas. Mas ela preferia alimentar as melhores e deixar definhar as menos agradáveis. “Foi um caminho longo até aqui”. Pensou, mas ela sabia que poderia chegar a esta paz de espírito. Nesse quarto de hotel aguardava chegar o momento do show que faria logo mais, dividiria sua vida e sua dor com milhares de pessoas a quem desconhecia, mas que estavam profundamente ligadas ela. Pessoas que lhe dedicavam um carinho especial, que estavam prontas para ouvir sua dor sem cobranças, e dividir sua própria vida com ela. Estavam conectadas, pelas canções que ela interpretava magistralmente, com toda a carga de sentimentos que a inspirou escrever-las. Suspirou, ainda sentia falta de algumas coisas, como a nuca de seu ex-noivo, de seu bom humor… Mas as discussões que tiveram forçaram o fim da relação. A situação estava insustentável. Por isso ambos chegaram ao consenso de terminarem antes que se tornassem inimigos. E ela passou um bom tempo se recuperando, juntando os pedaços de seu espírito, reaprendendo a seguir. Nesse período, ainda sofreu a perda de sua avó, uma confidente que sempre esteve ao seu lado nos momentos mais difíceis. Era ela quem segurava sua mão desde pequena e a ajudava a contornar os obstáculos no caminho. E agora teria de aprender a fazer isso sem apoios. Havia ainda seus amigos, seu irmão gêmeo, seus fãs, sua família… Mas ela tinha de fazer isso sozinha, pois não poderia mais depender de estruturas exteriores. Ela teria que se firmar sozinha e reaprender a andar.

Agora ela havia tomado uma decisão que sempre lhe foi o seu calcanhar de Aquiles: os problemas alimentares que lhe perseguem desde a infância. Ela decidiu não mais definhar devido à pressão da mídia. Exigindo corpos insanamente esguios, impedindo-a de conviver com o seu corpo de uma maneira compreensiva. Alcançaria o que ela realmente é: não somente uma figura carismática, mas uma pessoa, que não vive de sua aparência física, mas de sua arte, de seu trabalho como compositora, de suas canções que trazem conforto para tanta gente e para ela mesma. Ela viveria sem pressões, alimentar-se-ia sem exageros, mas sem a cobrança doentia de um corpo perfeito. Ela assumiria seu corpo, assumiria o comando de sua vida, as suas idiossincrasias que todos os seres humanos possuem… Por que ela era humana também. E só agora ela entendia isso… Ela finalmente se sentia completa. Poderia observar-se no espelho sem culpa, sentindo-se bem com o que via. E se respirava agora, foi porque teve o carinho de uma gama imensa de pessoas sustentando-lhe nos momentos mais difíceis. E em sua música abriu a caixa de Pandora, liberando as dores aprisionadas por tanto tempo no seu espírito. Nesse momento ela se sentia bem também na solidão. E sem a obrigação de ser a estrela que exigiam que ela fosse. Ela não é uma estrela porque toda a luz que irradia vem de seus fãs, que a amam, que apreciam seu trabalho. Ela é a lua, que toma emprestado a luz das verdadeiras estrelas. Ela compreendia-se finalmente, tinha consciência de sua essência, e não mais permitiria que lhe quebrassem as asas e exigissem que voasse. Ela vivera uma tormenta, mas sempre depois dela vem a calmaria, e agora o oceano acalmava-se, e ela alcançara a estabilidade de sua nave. E conseguira tomar o controle do leme, seguindo por rotas que ela mesma escolhera. Não caminhos traçados por terceiros que lhe exigiam ser quem ela não é realmente.

E havia uma multidão aguardando que ela abrisse seu coração, que libertasse seus fantasmas. Milhares de pessoas que interagiriam com suas músicas que cantariam em uníssono suas canções. E seriam uma só pessoa: a que comanda o espetáculo e os que se entregam ao comando… Uma interligação fantástica entre todos que vibram com ela, que sentem com ela e sofrem com ela. No fim são todos um. Observava a imagem na janela, mais uma cidade com que partilharia toda esta mágica, uma vibrante união! Ela seguia por caminhos mais estáveis e ousaria mais em seus shows, agora ela faria uma união entre o intimismo das canções acústicas, e a força dos solos das guitarras, uma apresentação dividida em duas partes. Ela tentava entender porque tantas pessoas gostavam de suas músicas, torciam por suas vitórias, mas a devoção de seus fãs era incompreensível. É como uma relação amorosa sem fim, sem também, as terríveis discussões que acompanham as desventuras do coração. Mas ela estava ali, firme, decidida, construindo sua carreira, guiando sua vida, se sentido completa e feliz. Sabendo manter-se inteira mesmo sem um parceiro, um amante, que lhe sustente, pois ela firmou suas bases, e não mais se atrela sem resguardar-se, a nenhuma relação. E ela sabe que sempre haverá novas oportunidades de ser feliz. Por que ela é Alanis Nadine Morissette, não só uma cantora e compositora, mas uma mulher que merece ser feliz e ser amada, como todas as mulheres do planeta. E sentido esta paz de espírito tirou o roupão e vestiu-se para a apresentação, revigorada e, novamente, feliz.

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2 opiniões sobre “

  1. Apenas digo isso: Por isso me aproximava mais e mais desta contora que marcou momentos da minha vida.

    Parabéns pelo texto minha amiga.

    :]

  2. “Pois, não se pode entregar de forma tão incondicional a ninguém. Devemos sempre estar resguardados de nossa essência, pois esta é a única parte de nós que nos pertence realmente.”
    O que dizer depois disso?
    Esse texto tem um efeito anestésico …
    Belo texto!
    Bjs da Elis.

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