Arquivo do mês: outubro 2008

Tarde de primavera

Giordana Medeiros

O cantar do rio, transparente como mil cristais transformando a luz que os atravessa em arco-íris… Luzes que se derramam pelas pinturas, cores, cores, cores… Há as frias e as quentes… E as tardes mornas de dormências, corpo sob a sombra amistosa de uma árvore. E eu pensando em cristais e arco-íris. O rio arrulha como uma pomba, provo de sua água para purificar-me de todos meus pecados. Água benta… E sinto-me mais livre, nesses dias em que sou atacado desta infinita leniência. Não preciso ser todo tempo… Posso dar-me o luxo de não ser, por algumas horas, neste episódio humano…

˜˜˜

As noites se seguem como sentenças, madrugadas perdidas… Embriagadas pelo vinho, tinto, que não se pode tomar gelado, pois é bebida quente… E espero que esquente estas noites de solidão em que posso deixar-me ao sabor dos devaneios. Permaneço impassível a esta dor. Posso sofrer em silêncio e engolir o soluço. Sou como uma estátua de pedra, mas com os pés de barro. Porque sou suscetível e frágil. Mas posso erguer muros intransponíveis mesmo para aqueles que quero mais próximos. Não os permito desvendar-me. Sou enigmático como uma esfinge. E gosto de ser assim… Às vezes…

˜˜˜

Encontro-me nas páginas de um livro, como se minha essência houvesse sido grafada há anos atrás, e toda minha existência tivesse a única finalidade de encontrá-la. Escavei fundo esta obra, para achar o tesouro que não está evidente, é necessário ler as entrelinhas, onde estão todas as respostas. Para as questões mais importantes não há respostas aparentes. Não é fácil encontrá-las. A vida é como um conjunto de indagações, não se deve respondê-las todas, deixemos algumas ao sabor do vento para que se percam como folhas levadas pela leve brisa da primavera. Permito-me ficar em dúvida…

˜˜˜

Atrás desta imagem que me mostra o espelho há todo um mundo, o avesso do meu, tão destro… E queria ser gauche só às vezes, ser o avesso dos ponteiros, seguir um ritmo anti-horário, morrer antes de envelhecer e ir rejuvenescendo, para usufruir com mais sabedoria os momentos que se perderam, pois era extremamente jovem, tudo era tão prematuro, e não sabia lidar com tais situações. Se pudesse reescrever meu destino com uma borracha apagaria os momentos infelizes e com nanquim desenharia minha verdadeira existência, mas não sei se existi realmente… Será? Acho que sim…

˜˜˜

Minha estrela é aquela a esquerda, próxima ao cinturão de Órion que você insiste em chamar de Três Marias. Você apropria-se das constelações… Contento-me com uma estrela apenas, pequenina que não se enquadre em nenhuma delas, que possa ser minha confidente, assistindo-me nestas noites sem fim… Tornando-se espectadora da minha dor, destas noites onde posso distrair-me escrevendo sob a luz pálida de uma lua crescente, olhando as estrelas pela janela, o vinho adormecendo as feridas e encharcando o espírito… Entre as possibilidades e a efetividade… A realidade é muito estreita e prefiro os caminhos largos, sou tendente a devaneios…

˜˜˜

De olhos fechados, suspiro profundamente, mergulho neste rio, como faria Ofélia, mas, a maioria das vezes, sou como Fausto. E sei que sou corruptível. Quero a juventude eterna, quero a mansidão dos espíritos, quero uma paisagem calma e bucólica… E a realidade apresenta-me estas imagens desesperadoras, não é o que eu espero, não é o que espero… Seria tão bom se tudo não fosse tão frágil. Se o que nos ligasse não fosse uma tênue linha, o fio com que Atópros com sua tesoura dourada, sentencia nosso destino. E se não houvesse destino por que caminhos seguiríamos? Não quero pensar, não quero pensar, já me é tão duro saber, porque não posso fingir que não há nada? Só por hoje, deixe-me fingir que eu não sei… Não sei…

˜˜˜

Um infortúnio viver, se tudo não corresse a passos largos, e a vida não seguisse por caminhos diversos… Sou como um sonâmbulo cujo caminho é traçado pelo sonho, que não enxerga por aonde vai realmente… Vou pelas correntes que me tragam, pelas vagas que me levam, junto com toda essa massa insana que se insurge violenta… Exibem cartazes, gritam palavras de ordem, exigem, usam seus punhos… Quisera, somente poder tocar novamente as flores. Não mais me deixam tocá-las, cercam seus jardins, separam-me dos mal-me-queres e amores-perfeitos, mantém as flores prisioneiras, ou o verdadeiro prisioneiro sou eu?

˜˜˜

Seguiram todos, ostentando luto por aquele que se foi, o sangue que se derrama sobre nós não nos purifica, ao contrário nos enche de culpas. Não sou aquele que portava a espada, mas sou quem permitiu que ocorresse. Poderia ter feito algo, mas cruzei os braços egoisticamente, e consenti com o assassinato. Fui fraco e covarde e permiti que dizimassem aquilo que me restava de humanidade. Agora carrego luto que me pesa sobremaneira, não pelo peso da dor, mas por um peso maior: o da culpa. Entrego o caixão, cujo corpo leve e frágil que mal o ocupa, está inerte e manso, e eu não posso derramar lágrimas por um ato que foi todo meu, não era eu quem portava a espada, mas o golpe fatal fui eu quem desferiu e sofro as conseqüências de minha omissão… “É o descaso o que condena…”

˜˜˜

Segure minha mão para que possa atravessar este caminho de trevas e dor… Não posso continuar sozinho e tenho medo do que há no outro lado, posso estar enganado, pode ser apenas o medo que me paralisa, mas prefiro estar com você. Será que pode ficar comigo, somente esta noite, em que tudo me transporta por vales tortuosos, horizontes perigosos e selvas abomináveis? Esta solidão é bem mais dolorida quando sei que preferiu não estar ao meu lado. Por onde anda que lhe procuro e não lhe acho? Será que prefere este vale de mil tormentas, a este coração tonto e apaixonado que somente toca uma nota só desde que lhe conheceu? Sou um pássaro enjaulado, que perdeu o canto…

˜˜˜

Há um exército a nossa procura, mil homens armados que nos buscam incessantemente, procuram-nos, pois somos suspeitos de um crime: sabe qual é? Também o desconheço, mas sei que sou culpado. Minhas mãos estão manchadas de sangue e minha alma carrega uma nódoa que se alastra sobre mim… Serei preso e condenado ao cadafalso. O carrasco não terá pena de mim ao cobrir-me o rosto, para que não vejam a minha expressão de dor quando saltar para a morte certa. Serei apenas mais um para quem não haverá clemência, um daqueles cujo crime é tão grave que obriga que os desconheçam. Meu crime, minha culpa, minha dor. “Pudera voltar para margem daquele rio que arrulhava para mim tão puro.” Pensarei nos meus derradeiros instantes, pois segui até aqui, após estas noites infinitas, sem recordar-me daquelas tardes a beira do rio que, como cristais, decompunha a luz em dezenas de arco-íris…

˜˜˜

“Hoje eu apenas falaria, talvez com menos palavras. Mas é porque, na verdade, já foi usada minha voz. Naquele tempo ele acordava com espanto: como o grito de mil feridos recentes.” E acordo, destes sonhos, destas realidades, desta existência, na margem esquerda do rio, sob a sombra acolhedora de um salgueiro, numa pintura romântica e saudosista. Houve um tempo em que eu era assim. Não há muito do que desistir, não há o que seguir, somente esse cheiro de relva, esta dor aguda que não se cura com goles de vinho, e uma sensação imensa de desolamento. Um dia que se une a tantos outros em que pude desfrutar de meus sentimentos, esquecido do mundo, das pessoas e das flores, que não pude e não posso tocar. Como consolar mal-me-queres? E revelar a real natureza do amor a amores-perfeitos? Deixe-me estar mais um tempo nesta sombra. Afinal, é primavera.

 

Citação de Cecília Meireles

Categorias: Uncategorized | Tags: | 2 Comentários

Depois da tempestade, a calmaria

 

Giordana Medeiros

 

Tomou um pouco de seu chá. Sentada na cama, a luz do dia não feria mais seus olhos. Agora ela tinha certeza que a vida retomava seu rumo. Por que, há um ano, ela apenas sobrevivia. O desenlace amoroso com seu antigo noivo deixou-a em frangalhos. Foi difícil sair do fundo do poço. Mas sua música sempre foi um alicerce para ela. Compôs seu novo cd e nesse período trabalhou ininterruptamente. É comum buscar a vida pelo campo profissional. Ela se entregou a criação, e fez nascer uma obra sincera de todas as tormentas que lhe assaltaram nesse período de desitoxicação do amor. Pois ela estava viciada em amar, e não compreendia como era viver sem este, sem estar atada emocionalmente a um homem, e isto nunca foi bom. Pois, não se pode entregar de forma tão incondicional a ninguém. Devemos sempre estar resguardados de nossa essência, pois esta é a única parte de nós que nos pertence realmente. Seguiu seu caminho, teve ajuda profissional, é claro, compareceu a inúmeras sessões de terapia, e teve de reestruturar sua vida. Mas agora ela sentia-se muito bem. Estava amando de novo, mas de uma forma muito mais saudável. Sem aquela dependência espiritual em que se baseavam suas antigas relações. Um suspiro profundo, agora ela estava com um advogado, compartilhavam dos mesmos interesses, e eram mais compatíveis intelectualmente. Ela não tinha certeza se este era o homem com quem formaria uma família, se este seria aquele que ficaria ao seu lado pelo resto de sua vida, mas isso não mais a preocupava. Ela deixaria tudo seguir seu rumo sem precipitações e cobranças. A vida é bem simples se não criamos grandes expectativas. E ela começou a aprender isso.

Ela ficaria horas sob as estrelas numa banheira quente, pelo prazer de estar sob a luz pálida da lua, e não para curar suas feridas. Elas ainda estão lá, em seu espírito, mas se cicatrizam lentamente, e aos poucos vão parando de doer.  Não precisava mais chorar horas a fio imaginando como poderia ter evitado o que ocorreu. É tão ruim quando o amor acaba, restam somente as lembranças, nem sempre muito boas. Mas ela preferia alimentar as melhores e deixar definhar as menos agradáveis. “Foi um caminho longo até aqui”. Pensou, mas ela sabia que poderia chegar a esta paz de espírito. Nesse quarto de hotel aguardava chegar o momento do show que faria logo mais, dividiria sua vida e sua dor com milhares de pessoas a quem desconhecia, mas que estavam profundamente ligadas ela. Pessoas que lhe dedicavam um carinho especial, que estavam prontas para ouvir sua dor sem cobranças, e dividir sua própria vida com ela. Estavam conectadas, pelas canções que ela interpretava magistralmente, com toda a carga de sentimentos que a inspirou escrever-las. Suspirou, ainda sentia falta de algumas coisas, como a nuca de seu ex-noivo, de seu bom humor… Mas as discussões que tiveram forçaram o fim da relação. A situação estava insustentável. Por isso ambos chegaram ao consenso de terminarem antes que se tornassem inimigos. E ela passou um bom tempo se recuperando, juntando os pedaços de seu espírito, reaprendendo a seguir. Nesse período, ainda sofreu a perda de sua avó, uma confidente que sempre esteve ao seu lado nos momentos mais difíceis. Era ela quem segurava sua mão desde pequena e a ajudava a contornar os obstáculos no caminho. E agora teria de aprender a fazer isso sem apoios. Havia ainda seus amigos, seu irmão gêmeo, seus fãs, sua família… Mas ela tinha de fazer isso sozinha, pois não poderia mais depender de estruturas exteriores. Ela teria que se firmar sozinha e reaprender a andar.

Agora ela havia tomado uma decisão que sempre lhe foi o seu calcanhar de Aquiles: os problemas alimentares que lhe perseguem desde a infância. Ela decidiu não mais definhar devido à pressão da mídia. Exigindo corpos insanamente esguios, impedindo-a de conviver com o seu corpo de uma maneira compreensiva. Alcançaria o que ela realmente é: não somente uma figura carismática, mas uma pessoa, que não vive de sua aparência física, mas de sua arte, de seu trabalho como compositora, de suas canções que trazem conforto para tanta gente e para ela mesma. Ela viveria sem pressões, alimentar-se-ia sem exageros, mas sem a cobrança doentia de um corpo perfeito. Ela assumiria seu corpo, assumiria o comando de sua vida, as suas idiossincrasias que todos os seres humanos possuem… Por que ela era humana também. E só agora ela entendia isso… Ela finalmente se sentia completa. Poderia observar-se no espelho sem culpa, sentindo-se bem com o que via. E se respirava agora, foi porque teve o carinho de uma gama imensa de pessoas sustentando-lhe nos momentos mais difíceis. E em sua música abriu a caixa de Pandora, liberando as dores aprisionadas por tanto tempo no seu espírito. Nesse momento ela se sentia bem também na solidão. E sem a obrigação de ser a estrela que exigiam que ela fosse. Ela não é uma estrela porque toda a luz que irradia vem de seus fãs, que a amam, que apreciam seu trabalho. Ela é a lua, que toma emprestado a luz das verdadeiras estrelas. Ela compreendia-se finalmente, tinha consciência de sua essência, e não mais permitiria que lhe quebrassem as asas e exigissem que voasse. Ela vivera uma tormenta, mas sempre depois dela vem a calmaria, e agora o oceano acalmava-se, e ela alcançara a estabilidade de sua nave. E conseguira tomar o controle do leme, seguindo por rotas que ela mesma escolhera. Não caminhos traçados por terceiros que lhe exigiam ser quem ela não é realmente.

E havia uma multidão aguardando que ela abrisse seu coração, que libertasse seus fantasmas. Milhares de pessoas que interagiriam com suas músicas que cantariam em uníssono suas canções. E seriam uma só pessoa: a que comanda o espetáculo e os que se entregam ao comando… Uma interligação fantástica entre todos que vibram com ela, que sentem com ela e sofrem com ela. No fim são todos um. Observava a imagem na janela, mais uma cidade com que partilharia toda esta mágica, uma vibrante união! Ela seguia por caminhos mais estáveis e ousaria mais em seus shows, agora ela faria uma união entre o intimismo das canções acústicas, e a força dos solos das guitarras, uma apresentação dividida em duas partes. Ela tentava entender porque tantas pessoas gostavam de suas músicas, torciam por suas vitórias, mas a devoção de seus fãs era incompreensível. É como uma relação amorosa sem fim, sem também, as terríveis discussões que acompanham as desventuras do coração. Mas ela estava ali, firme, decidida, construindo sua carreira, guiando sua vida, se sentido completa e feliz. Sabendo manter-se inteira mesmo sem um parceiro, um amante, que lhe sustente, pois ela firmou suas bases, e não mais se atrela sem resguardar-se, a nenhuma relação. E ela sabe que sempre haverá novas oportunidades de ser feliz. Por que ela é Alanis Nadine Morissette, não só uma cantora e compositora, mas uma mulher que merece ser feliz e ser amada, como todas as mulheres do planeta. E sentido esta paz de espírito tirou o roupão e vestiu-se para a apresentação, revigorada e, novamente, feliz.

Categorias: Uncategorized | Tags: | 2 Comentários

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: