O Som das Estrelas

Giordana Medeiros

 

Posso ouvi-las assim, tão luminosas… A canção é tão triste quanto meu pranto de saudade. E às vezes é bom sentir saudade. O coração fica encolhido e bate sofrido: “tum-tum, tum-tum”. Mas, nem sempre é assim. Depende do dia. E hoje estou melancólico. A canção das estrelas embala-me conforme meu estado de espírito. Só que hoje está chovendo, muito embora, sobre as grossas nuvens de chuva possa sentir a música reverberando pelo espaço, nesse vácuo silencioso. Mas para mim as estrelas contornam as leis da física. Quem quer saber de realidade? Esse som que surge nas cordas do meu violão é alienígena, vem de uma estrela qualquer. Quem quer saber de onde vem? Umas estrelas são agudas, outras graves. Há contraltos, sopranos, tenores. Uma ópera, Tristão e Isolda, porque é mais romântico assim… E no violão sad, sad… Uma eternidade para decifrar o que sinto, na verdade, não sei definir. Entre colinas, lagos sossegados, luzes de sódio, alaranjadas na cidade, ruas desertas, pingos de chuva fazendo bolhas nas poças de lama, o amor adormece…

“Din-din, don-don”, o violão toca meu coração. Pain, pain. É dor, que vem chorando  ao meu encontro. Música bonita, fica gravada na memória, le premier bonheur du jour. Felicidade que nasce na tristeza de uma saudade. Surge uma flauta solitária e acompanha minha doce serenata. E o som que se revela agora tem mais escalas, cordas e metais… Que bravia saudade me arrasta por estas ruas, tocando, sofrendo, chorando… Sentindo amargura neste deserto infinito de pessoas. Coisas sem importância que esbarram em minha própria insignificância. Tão perto, ainda assim, tão longe. Se erguer os braços posso tocar as estrelas. Se mergulhar em meus sentimentos mais preciosos, posso fazer chover lágrimas douradas. E o piano diz que tudo é música, até o meu grito mudo de desespero. Após as claves de sol está tudo. Como se escrevesse um diário em notas musicais, compondo meu próprio destino. Música é essencial. Vou vivendo as mesmas dores e esperanças. Os caminhos estão nas partituras e cifras. As mais valiosas lembranças me conduziram até aqui. As estrelas, com seu brilho coberto por densas nuvens de dor, inspiram-me a tocar, porque não posso chorar por todo sempre.

Minhas lágrimas secaram, mas a tristeza perdura. Ferida aberta. Minha sentença ficou estabelecida nos fados e marcada em minha pele. Minha carne sangra, meu corpo padece, e sei que as músicas são eternas. Se posso unir todos os instrumentos em um único som, porque não posso fazê-lo com nossos corações? Por que somos tão dissonantes? Não afinamos nossos instrumentos como deveríamos? Somos um ou dois? Às vezes nenhum. Seu encanto foi-me suficiente para despertar-me para o som das estrelas, que só nós dois podemos ouvir. Elas são minhas mensageiras, e avisam-lhe de minha dor. Parece simples, mas é muito complicado. Eu quis te conhecer, mas depois não coube a mim somar nossos espíritos. Procuro meu rumo, mas somente vejo um horizonte escuro. A vida transborda recordações. Em tudo lhe vejo. Luminosa, esplendor que me cega. Sei que pode me ouvir. Aceita-me de novo. Estou perdido entre as canções de saudades que fiz para você. Irei ao seu encontro, amor por quem suspiro, distante. “Vou com sonâmbulos e corsários, poetas, astrólogos e a torrente dos mendigos perdulários”. Mas irei, cruzando o espaço, passando por entre as galáxias, planetas inóspitos, e poéticas constelações. Meu transporte: errantes cometas, que a você conduzir-me-ão.

Apesar de sofrer tanto, puro amor é minha vida. Todas as canções a você dedico. E não me canso de seu nome pronunciar por entre estes muros caiados de branca tristeza. Nossos encontros casuais poderiam ser muito mais freqüentes. Para não me ser dado tempo de sofrer de negra saudade. Sombra de minha imensa felicidade de lhe ver. Mas estes momentos em sua companhia são tão fugazes. Instantes que meu coração derrama para vida inteira. Li sua verdadeira essência na íris de seus olhos castanhos claros. E o som da harpa se distingue dos demais instrumentos, a música é como as ondas do mar que a tudo tragam. Por mais delicado o instrumento, sua força é atroz, terremoto de sensações. Encontro-lhe nas notas mais delicadas, mas a música não lhe limita porque o som é ilimitável, atravessa fronteiras e barreiras lingüísticas, pois a verdadeira linguagem universal é a música. Pode ouvir a percussão de meu coração marcando o compasso de todos os demais instrumentos? Sinfonia, sonata ao luar. A música adorna seus encantos, e torna-lhe mais formosa, ninfa que passeia pelos bosques de uma terra encantada. Enquanto espero a cura para sua indiferença, vou compondo as mais belas canções em meu violão de cordas cortantes, que vão dilacerando meu espírito a cada nota. Só pretendo que antes que eu profira meus derradeiros acordes tenha de volta aquilo que perdi. “As palavras são longas e desnecessárias, tudo de mim é retirado, malgrado meu inútil querer, malgrado…”

Esse triste lamento, que surge no reverberar dessas cordas, percorre os quatro cantos do mundo, continentes são cruzados, para que possa chegar essa música a seus ouvidos e assim seja-me possível tocar-lhe o coração. Único instrumento que não pude ainda desvendar. Pois não se limita às escalas, nem pode ser transcrito em notas musicais. E a chuva, aumenta-me a dor, pois se assemelha ao som de lágrimas, manchando as partituras. Celebro em toda parte a alegria de adorar-lhe com meu pranto. O amor se prolonga por estes anos, cego, fiel, cativo. É eternidade, onde se assemelha alegria e tristeza, num estranho sentimento, chama indelevelmente acesa. É tão bom sentir saudade! Bordados nas rendas que lhe enfeitam o vestido, estão os seus encantos. “O tempo é um límpido sopro que liberta de alegrias e de queixas.” Mas durante esses longos anos mantive-me de você, prisioneiro. E as estrelas, disto, são testemunhas. Vigiaram-me nas noites insones. E de toda minha dor foram companheiras. Mesmo em noites escuras, onde a chuva as esconde perversamente, impedindo-me de sonhar, o som das estrelas posso escutar. E recordo-me dos memoráveis momentos em sua deliciosa presença.

Saiba que tudo quanto sou lhe espera, porém suas visitas são tão esporádicas. Mas eu amo o efêmero e o eterno, ou ainda o eterno efêmero que se resumem as raras vezes em que lhe vejo. E mesmo que tão pouco permaneça gravei-lhe venturosamente em meu peito. Perdura esse tênue sentimento que vem me guiando desde sempre. Esta noite nevoenta de fim de setembro, faz-me recordar que já é primavera. Dentro em breve, diremos adeus a mais um ano. E não sei como me desvencilhar desta dor que me conduz por toda vida. Quando se aproxima o momento de despedir-me, de desfazer-me de seu contato, é a hora mais dolorosa para mim. E quebra-se nosso vínculo, desmancha-se o sonho, e sonhos são coisas que não se concertam, não se pode simplesmente juntar os pedaços, mas a imaginação pode fazê-lo, a imaginação pode unir todos os pedaços separados, pelo destino ou pela vida. É tão forte, que pode juntar os pedaços desta canção estilhaçada, que criei em sua homenagem. Elegia às estrelas, que me ouvem pacientes, dividindo sua canção, com este pobre escravo. E sempre que lhe vejo, sinto taquicardia, meu coração sai do compasso. Minha sinfonia desafina. A doçura de viver está em ver-lhe calada, balançando-se sob as árvores, como criança, aproveitando as tardes de primavera. “Tão cinzas” você diz.  Eu concordo e permanecemos os dois calados. Somente o som das estrelas pode ser ouvido. Fundo musical de nossa história. Você queria ouvir Joni Mitchel, eu, com meu gosto pelo clássico, prefiro Moonlight de Beethoven, você fica indiferente. “É uma música tão bonita” eu digo. Mas você está impassível a minha canção. Vejo decepcionado que minhas serenatas não produzem efeitos. E você despede-se de minha companhia com um aceno e um sorriso. Eu, abandonado, mais uma vez, sei que “esse adeus estremece minha vida”.

 

Citações de Cecília Meireles

 

 

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | 5 Comentários

Navegação de Posts

5 opiniões sobre “

  1. Que saudade daqui … e que bonito isso aqui!
    Achei belíssimo … em todas as suas formas!
    Bjs da Elis.

  2. Belíssimo texto.
    Personagem apaixonado, mas triste em quase todo. Mas deu pra entender o “porque”. Eu também confesso que gosto de sentir saudades. Logo, o meu coração está a clamar e querer estar mais e mais perto.
    Parabéns pelo texto.

    Um envolvente abraço pra ti e boa semana.
    se cuida.
    :]

  3. José Socratas

    É uma página da internet muito bem feito com as nossas colaborações.

    José Socratas

  4. há duas coisas simples e belas nos textos de Cecilia: a canção sublime que eleva nossa alma e a composição singular em suas palavras.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: