Arquivo do mês: setembro 2008

O Som das Estrelas

Giordana Medeiros

 

Posso ouvi-las assim, tão luminosas… A canção é tão triste quanto meu pranto de saudade. E às vezes é bom sentir saudade. O coração fica encolhido e bate sofrido: “tum-tum, tum-tum”. Mas, nem sempre é assim. Depende do dia. E hoje estou melancólico. A canção das estrelas embala-me conforme meu estado de espírito. Só que hoje está chovendo, muito embora, sobre as grossas nuvens de chuva possa sentir a música reverberando pelo espaço, nesse vácuo silencioso. Mas para mim as estrelas contornam as leis da física. Quem quer saber de realidade? Esse som que surge nas cordas do meu violão é alienígena, vem de uma estrela qualquer. Quem quer saber de onde vem? Umas estrelas são agudas, outras graves. Há contraltos, sopranos, tenores. Uma ópera, Tristão e Isolda, porque é mais romântico assim… E no violão sad, sad… Uma eternidade para decifrar o que sinto, na verdade, não sei definir. Entre colinas, lagos sossegados, luzes de sódio, alaranjadas na cidade, ruas desertas, pingos de chuva fazendo bolhas nas poças de lama, o amor adormece…

“Din-din, don-don”, o violão toca meu coração. Pain, pain. É dor, que vem chorando  ao meu encontro. Música bonita, fica gravada na memória, le premier bonheur du jour. Felicidade que nasce na tristeza de uma saudade. Surge uma flauta solitária e acompanha minha doce serenata. E o som que se revela agora tem mais escalas, cordas e metais… Que bravia saudade me arrasta por estas ruas, tocando, sofrendo, chorando… Sentindo amargura neste deserto infinito de pessoas. Coisas sem importância que esbarram em minha própria insignificância. Tão perto, ainda assim, tão longe. Se erguer os braços posso tocar as estrelas. Se mergulhar em meus sentimentos mais preciosos, posso fazer chover lágrimas douradas. E o piano diz que tudo é música, até o meu grito mudo de desespero. Após as claves de sol está tudo. Como se escrevesse um diário em notas musicais, compondo meu próprio destino. Música é essencial. Vou vivendo as mesmas dores e esperanças. Os caminhos estão nas partituras e cifras. As mais valiosas lembranças me conduziram até aqui. As estrelas, com seu brilho coberto por densas nuvens de dor, inspiram-me a tocar, porque não posso chorar por todo sempre.

Minhas lágrimas secaram, mas a tristeza perdura. Ferida aberta. Minha sentença ficou estabelecida nos fados e marcada em minha pele. Minha carne sangra, meu corpo padece, e sei que as músicas são eternas. Se posso unir todos os instrumentos em um único som, porque não posso fazê-lo com nossos corações? Por que somos tão dissonantes? Não afinamos nossos instrumentos como deveríamos? Somos um ou dois? Às vezes nenhum. Seu encanto foi-me suficiente para despertar-me para o som das estrelas, que só nós dois podemos ouvir. Elas são minhas mensageiras, e avisam-lhe de minha dor. Parece simples, mas é muito complicado. Eu quis te conhecer, mas depois não coube a mim somar nossos espíritos. Procuro meu rumo, mas somente vejo um horizonte escuro. A vida transborda recordações. Em tudo lhe vejo. Luminosa, esplendor que me cega. Sei que pode me ouvir. Aceita-me de novo. Estou perdido entre as canções de saudades que fiz para você. Irei ao seu encontro, amor por quem suspiro, distante. “Vou com sonâmbulos e corsários, poetas, astrólogos e a torrente dos mendigos perdulários”. Mas irei, cruzando o espaço, passando por entre as galáxias, planetas inóspitos, e poéticas constelações. Meu transporte: errantes cometas, que a você conduzir-me-ão.

Apesar de sofrer tanto, puro amor é minha vida. Todas as canções a você dedico. E não me canso de seu nome pronunciar por entre estes muros caiados de branca tristeza. Nossos encontros casuais poderiam ser muito mais freqüentes. Para não me ser dado tempo de sofrer de negra saudade. Sombra de minha imensa felicidade de lhe ver. Mas estes momentos em sua companhia são tão fugazes. Instantes que meu coração derrama para vida inteira. Li sua verdadeira essência na íris de seus olhos castanhos claros. E o som da harpa se distingue dos demais instrumentos, a música é como as ondas do mar que a tudo tragam. Por mais delicado o instrumento, sua força é atroz, terremoto de sensações. Encontro-lhe nas notas mais delicadas, mas a música não lhe limita porque o som é ilimitável, atravessa fronteiras e barreiras lingüísticas, pois a verdadeira linguagem universal é a música. Pode ouvir a percussão de meu coração marcando o compasso de todos os demais instrumentos? Sinfonia, sonata ao luar. A música adorna seus encantos, e torna-lhe mais formosa, ninfa que passeia pelos bosques de uma terra encantada. Enquanto espero a cura para sua indiferença, vou compondo as mais belas canções em meu violão de cordas cortantes, que vão dilacerando meu espírito a cada nota. Só pretendo que antes que eu profira meus derradeiros acordes tenha de volta aquilo que perdi. “As palavras são longas e desnecessárias, tudo de mim é retirado, malgrado meu inútil querer, malgrado…”

Esse triste lamento, que surge no reverberar dessas cordas, percorre os quatro cantos do mundo, continentes são cruzados, para que possa chegar essa música a seus ouvidos e assim seja-me possível tocar-lhe o coração. Único instrumento que não pude ainda desvendar. Pois não se limita às escalas, nem pode ser transcrito em notas musicais. E a chuva, aumenta-me a dor, pois se assemelha ao som de lágrimas, manchando as partituras. Celebro em toda parte a alegria de adorar-lhe com meu pranto. O amor se prolonga por estes anos, cego, fiel, cativo. É eternidade, onde se assemelha alegria e tristeza, num estranho sentimento, chama indelevelmente acesa. É tão bom sentir saudade! Bordados nas rendas que lhe enfeitam o vestido, estão os seus encantos. “O tempo é um límpido sopro que liberta de alegrias e de queixas.” Mas durante esses longos anos mantive-me de você, prisioneiro. E as estrelas, disto, são testemunhas. Vigiaram-me nas noites insones. E de toda minha dor foram companheiras. Mesmo em noites escuras, onde a chuva as esconde perversamente, impedindo-me de sonhar, o som das estrelas posso escutar. E recordo-me dos memoráveis momentos em sua deliciosa presença.

Saiba que tudo quanto sou lhe espera, porém suas visitas são tão esporádicas. Mas eu amo o efêmero e o eterno, ou ainda o eterno efêmero que se resumem as raras vezes em que lhe vejo. E mesmo que tão pouco permaneça gravei-lhe venturosamente em meu peito. Perdura esse tênue sentimento que vem me guiando desde sempre. Esta noite nevoenta de fim de setembro, faz-me recordar que já é primavera. Dentro em breve, diremos adeus a mais um ano. E não sei como me desvencilhar desta dor que me conduz por toda vida. Quando se aproxima o momento de despedir-me, de desfazer-me de seu contato, é a hora mais dolorosa para mim. E quebra-se nosso vínculo, desmancha-se o sonho, e sonhos são coisas que não se concertam, não se pode simplesmente juntar os pedaços, mas a imaginação pode fazê-lo, a imaginação pode unir todos os pedaços separados, pelo destino ou pela vida. É tão forte, que pode juntar os pedaços desta canção estilhaçada, que criei em sua homenagem. Elegia às estrelas, que me ouvem pacientes, dividindo sua canção, com este pobre escravo. E sempre que lhe vejo, sinto taquicardia, meu coração sai do compasso. Minha sinfonia desafina. A doçura de viver está em ver-lhe calada, balançando-se sob as árvores, como criança, aproveitando as tardes de primavera. “Tão cinzas” você diz.  Eu concordo e permanecemos os dois calados. Somente o som das estrelas pode ser ouvido. Fundo musical de nossa história. Você queria ouvir Joni Mitchel, eu, com meu gosto pelo clássico, prefiro Moonlight de Beethoven, você fica indiferente. “É uma música tão bonita” eu digo. Mas você está impassível a minha canção. Vejo decepcionado que minhas serenatas não produzem efeitos. E você despede-se de minha companhia com um aceno e um sorriso. Eu, abandonado, mais uma vez, sei que “esse adeus estremece minha vida”.

 

Citações de Cecília Meireles

 

 

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A comédia das relações humanas

 

Giordana Medeiros

 

A ladainha da procissão passa cadenciada pelos meus ouvidos. Ouço o som do sagrado tentar purificar o mundo de seus incontáveis pecados. Homens de pouca fé. Aceitai a cruz que vos martiriza. As faltas de seus irmãos condenaram a todos nós, filhos de Caim. Degolai o carneiro em sacrifício. Apresentai suas faltas aos homens cuja batina desde sempre está manchada de sangue. A novena prossegue, pura, fiel e esperançosa. No final a fé não é nada mais que uma esperança singela. Um desejo que nos condena e salva. Sim, porque crer é contraditório. É uma crença que nos purifica e nos aprisiona. Esperando, louvando, nos abstendo de mostrar nosso lado mais cruel. Queria ser tão pura para apenas acreditar ingenuamente, mas meu espírito carrega feridas incuráveis. E ainda manchas indeléveis. Outrora me seria fácil ajoelhar e confessar minhas culpas. Mas esse período de ascetismo se perdeu com o transcorrer dos anos, fui compreendendo a verdadeira essência das coisas. Blindando minha alma contra os avanços da crença religiosa cega. Posso ver, enxergo a fundo todos vocês. E não adianta tentar enganar-me com seus sermões. Assisto a ascendência dos verdadeiros santos e a decadência daqueles que não passam de uma figura de madeira de olhos mansos e presença inócua.  Mas não são inofensivos, são perigosos e cruéis, a Cruz de Malta enfeita seus escudos e autoriza suas espadas.

Não quero mais falar sobre isso. Sabe, hoje são 13 de setembro de 2008. A Bolívia está à beira da guerra civil e nos Estados Unidos está se vivendo uma das comuns crises econômicas cíclicas do capitalismo moderno. Também se cogita a eleição do primeiro negro da história norte-americana. O mundo anda mais tolerante, mais profano também. As meninas já não se reprimem como faziam há décadas atrás. Atualmente começam sua vida sexual muito cedo. O que não é muito bom, devido à proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a AIDS. Há também um grande número de garotas com gravidez prematura. E a igreja católica isiste em condenar o uso de contraceptivos… Estranhamente continua irredutível na sua posição conservadora de que o sexo deve se restringir a indivíduos casados e somente para a proliferação da espécie. Há quase dois bilhões de indivíduos na China, ainda há necessidade de proliferar-se a espécie humana? A igreja se mantém intolerante, e condena os avanços da ciência e sociedade. Teme perder sua posição aviltantemente conquistada, abusando da ignorância dos homens.

Os livros em minha estante já não me dizem nada. Mudos me transportam desse mundo estranho em que fui jogada sem pára-quedas e tento entender inutilmente. Pois não sei o que faria quando começasse a compreender a estranha sociedade humana. Talvez escrevesse um livro: “A comédia das relações humanas.” Belo título, inventei-o agora. Talvez fosse um best-seller vendendo milhões de exemplares no mundo inteiro. As pessoas simplesmente adoram estes livros de auto-ajuda que prometem a ilusão de torná-las mais claras para elas mesmas. Não caio nestas armadilhas. Estou preparada para responder minhas próprias perguntas. Não almejo a vida eterna que me propõe a religião. Tampouco quero ater-me às facilidades do mundo materialista. Pretendo implantar minha terceira via. Muito menos lucrativa, com certeza, mas provavelmente, a mais coerente. Uma via menos agressiva, que não ostente o hedonismo, nem mesmo a sacrificada devoção religiosa. A única exigência aos meus sectários seria ostentar a mais perfeita correção de caráter. Não porque, caso contrário, não gozariam de benesses neste ou em outro plano físico ou espiritual. Mas devido à necessidade de conviver com outros seres humanos dotados de direitos e deveres como todos os demais. Todos possuem um escudo de privilégios inerentes a existência, tanto quanto uma gama de deveres que devem ser cumpridos. Este é o ensinamento moral em que se sustentará minha irmandade. Irmandade porque gozamos da mesma ascendência africana. Pois, foi na África que os homens fincaram primeira vez os pés no chão e liberaram os membros superiores.

Evoluímos tecnologicamente. Mas a cada dia que passa creio que involuímos quanto a nossas relações sociais. E não adianta tentar convencer-me do contrário, os homens compreendem-se cada vez menos. Somos uma espécie dotada de racionalidade, não nos deveria ser tão difícil relacionarmo-nos uns com outros. Os tabus que nos limitam, as religiões que nos encarceram, a instabilidade de nossas decisões e escolhas, o medo que nos domina. Tudo contribui para que sejamos ininteligíveis para nós mesmos. Não sabemos o que esperar de nossas reações. Há momentos em que, talvez, fosse melhor não reagir, mas reagimos… Despertamos nosso lado mais animalesco, suplantamos nossos limites, nossa razão. E voltamos à selvageria de nossos ancestrais. A razão é conquistada aos poucos, é um trabalho árduo e longo. Quanto menos escolarizados, mais próximos estamos do nosso estado de ferocidade. Como se fossemos nos humanizando aos poucos. Descobrindo nossa racionalidade. Ou criando-a, levantando muros para aprisionar nossa fera interior. E estes muros são os tabus, crenças e medos de que falava.

Hoje resolvi escrever sobre algumas idéias que trago comigo há décadas, coisas que foram se sedimentando em minha mente, e que fui testando empiricamente, para confirmar minhas teorias. Agora se firmam com a força de postulados. E crio meus muros para separar-me daquilo que não compreendo. Mas procuro compreender. Observando de longe, no alto e minhas defesas, para proteger-me dos ataques impiedosos da ignorância. Não que me considere mais sábia que os demais, ao contrário, há tanto para conhecer que temo estar compreendida no meio da massa irracional. Sou eu quem atirará as primeiras pedras no condenado sobre o cadafalso. Por que abusamos tanto uns dos outros? Impuros, somos tão maus que nos divertimos com a dor alheia. E ela  não nos comove, nos alimenta. E somos tragados por nossa selvageria. Somos tomados pela multidão e, num instante, somos um. Aquele que mata. Aquele que fere. Aquele que rouba. E com a religião tentaram coagir a massa a obedecer à regras sociais. Mas não alcançamos o estágio das abelhas e formigas, justamente por sermos racionais. Criamos uma sociedade cruel e seletiva. Onde uns têm tanto e muitos não têm nada. Depois quando a religião assumiu não poder responder a todas nossas questões, criamos leis, para estabelecer um estado laico que promove a desigualdade social; e para manter a sociedade coesa com as estruturas que visam deixar-nos cada vez mais elitistas.

Mantemo-nos mansos, aceitando a sorte que nos foi imposta. Como se tudo fosse conseqüência de nossas próprias escolhas. E tudo isto não nos tenha sido imposto pela força, pelo poder que consome nossa realidade. Somos domesticados pela fé e aprisionados pelos homens. Somos sobrepujados por joguetes políticos criados para enganar aqueles sem condições bélicas ou financeiras. No fim, somente condições financeiras, pois somente os que muito possuem conseguem armar um grande exército. Até o Vaticano possui uma guarda, que visa proteger o Sumo Pontífice. E manter estável a situação de opressão religiosa. Mas atualmente as pessoas estão migrando do catolicismo para outras religiões. Só se mudam os opressores. Tudo continua igual. E o silêncio premia aqueles que se calam. A indignação castiga aqueles que se insurgem. A comédia das relações humanas se constitui desse modo: pela força. Antes a física, hoje a econômica. Simplesmente nos submetemos, desconhecemos a força que possuímos. Querem nos manter sob o véu da ignorância, pois, assim, somos facilmente enganados. Acorrentados a esta sociedade opressora. La donna è mobille, canta o tenor, mas a sociedade em que vivemos continua a mesma, algozes e vítimas  não se modificam. A novena pede paz ao mundo com seus cânticos e orações, eu solicito somente razão.

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