O grito

 

Giordana Medeiros

 

Três horas da manhã e o sono não chega. Horas perdidas numa angústia desmedida. Pego os cigarros ao lado da cama e fumo um, dois, três seguidos. Na garganta um soluço recolhido de uma dor que não se desfez em lágrimas. O limite foi ultrapassado há milhas atrás. E deixei que tudo seguisse em controle automático, até que não mais conseguisse guiar a minha vida. Unhas roídas, cabelos desgrenhados, olheiras profundas e negras sob os olhos. Tenho um aspecto cadavérico, adquirido ao longo dos anos, foram-se tantos, que nem lembro mais minha idade. Aliás, não lembro quem sou. Não reconheço esta imagem que me impõe a face fria do espelho. Não possuo identidade. Sou um personagem patético, e minha existência é a comédia dos meus incontáveis erros. O cinzeiro transborda em cinzas e restos de cigarros. E eu sozinho nesta noite que se estende pela eternidade. Havia caminhos, mas perdi a rota. Havia escolhas, foi quando perdi meu destino. Troquei-o por um punhado de sonhos falidos. E esperava que deles brotassem felicidade. E continuei esperando, esperando, esperando… Só não sei até quando esperar.

Agora posso tomar alguns goles de vinho. Sentar-me numa poltrona e fingir que não trago estas dores dentro de mim. Posso escutar músicas esquecidas, perdidas no infinito das horas, tentando enganar-me que há esperança. “Puta-que-pariu. A vida não pode ser tão ruim assim. Você que não consegue enxergar as flores no inverno.” Há flores no inverno? Há o tempo seco, relva amarelada e ressequida, árvores desnudas. Mas flores? Quais brotam nesse período de estiagem? Se pudesse tocar-me lá no fundo e arrancar este vazio que me tortura. Um buraco negro. O vazio que suga toda a luz ao redor. Posso assumir minha postura mais franca e tentar convencer-me que não há razão para minha angústia. Mas já esperei demais, as sementes que plantei não insurgiram em broto. Não sei plantar flores. Talvez, somente plantas carnívoras. Devorando os insetos frágeis que caem em sua armadilha mortal. Não adianta debater-se. Você caiu no meu visgo. Agora é minha carne, parte de mim. Eu escolhi a tempestade à calmaria. Sei que sucumbo a cada dia nesta jornada insana, sem destino. Sem comando. Sou um recruta que se vê escalado para o primeiro pelotão. Disseram-me uma vez, que este recebe todas as balas, enquanto os demais contra-atacam. Táticas de guerra. A vida é uma batalha constante. Mas, no fim, a nossa única recompensa é a morte. Não adquirimos nada que nos acompanhe.

Não importa o início, nem mesmo o fim. Mas o que se faz com o que se segue entre eles. Não há uma história na verdade. O que dizer sobre um cara com barba por fazer, de pijamas dando voltas em um apartamento sombrio. Posso abrir meus livros (tenho tantos), e anestesiar minha existência com histórias que não vivi, que não vivo. Amargo? Na verdade sabem-me doce. Posso ser agradável. Mas hoje prefiro ser ácido. Não quero desmerecer esta vida de merda. Não quero decepcioná-los. Aguardem, depois de tanto sofrimento, vocês vão conseguir uma nuvem muitíssimo confortável ao lado de São Pedro. Ou de qualquer santo da sua preferência (há tantos). Será que só eu vejo a escuridão? Sinto-me engaiolado. Minhas asas foram cortadas. Agora esperam que eu voe. Dá para entender? As pessoas são muito estranhas. Às vezes me compadeço de sua ingenuidade. Só às vezes. Porque quase sempre fico puto com essa burrice. Parecem moscas debatendo-se contra o vidro. Pessoas estúpidas. Hoje resolvi gritar, desvencilhar-me destas correntes que me arrastam para o fundo. E procuro respirar. Ao menos uma vez deixem-me dizer tudo que eu penso.

Beijam-me a face como Judas e entregam-me aos meus inquisidores. Mas não sou puro como Cristo. Sou Barrabás. Entretanto as pessoas não clamam por mim. Elas querem esconder-me o verdadeiro significado disso tudo. Todavia sou mais esperto que elas. Já entendi todo o jogo. E tenho meus próprios trunfos na manga. Posso jogar pelas suas regras, mas prefiro fazer as minhas. Na verdade estou com medo. E tento fazer-me valente para assustá-los. Sou covarde. Confuso. Hoje abri a Caixa de Pandora e libertei todas as minhas aflições. Sei que muitos não me compreenderão o desespero. Eu tento fazer-me claro, mas minhas águas são turvas. Não tenho pensamentos límpidos para que se possa enxergar através deles. Empresto minha voz a alguém que me usa para poder gritar. E a este de quem sou apenas um títere reconheço como a imagem que me mostra o espelho. Fincando meus pés nesse terreno movediço. Quantas horas são, já nem sei. Um dia tive algo bom dentro de mim. Mas desfez-se como a nuvem arrastada pelo vento. As pessoas disputam migalhas como as pombas no parque, avançando sobre o farelo de pão com que as velhas as alimentam. Não me conformarei com tão pouco.

Vocês assistem minha insanidade com risos maliciosos nos lábios. Eu sei. Não me envergonho de minha sinceridade. Se não querem ouvir, não leiam mais. Sei que lerão até o fim. Os homens não conseguem sobrepujar sua própria curiosidade. Leiam então. Não vou agradá-los com afagos literários. Hoje estou muito mesquinho. Serei egoísta. Um idiota-egoísta-bebendo-vinho-numa-madrugada-fria. Que se dane. Não tem nada a ver com vocês, viu? O problema sou eu. Anteriormente me chamavam de artista. Agora não sou nada além de um reles editorzinho de jornal. Ninguém lê o que escrevo. Acho que não há mais ninguém seguindo esta história. A surpresa é que não tem história realmente. Só uma seqüência de palavrões e um escritor medíocre às voltas com sua própria insônia. Pronto: resumi tudo para vocês. Quem leu até agora deve estar com ódio de mim. Não estou ligando. Sinto que me livrei de um fardo que carrego desde sempre. “Os ombros carregam o mundo”. O vento me leva. Não sei para onde. Se um dia chegar onde devo ir, os avisarei. “Ah inverno que não acaba nunca, ah vontade de chorar sem dor. Pelo tempo, pelas perdas, pelas coisas, pelas gentes, que passam e passeiam pelas notas do piano…” Cito escritores mortos e meus escritos, por si só, são um cemitério. Nada nasce aqui. Não sei plantar flores. Somente dores.

Podem ouvir o som de meus gritos? O bater acelerado de meu coração? Pareço arrebentar, talvez esteja desmoronando. Estou implodindo-me nestas linhas. E nada restará de mim quando terminarem. Talvez só a casca vazia de alguém que jamais existiu. Sou pura ficção. Não creiam em mim. Agora que já estão aliviados, posso voltar com minha “metralhadora cheia de mágoas”. Não terei piedade de vocês. Vou instigar sua revolta ao máximo. Quero que vocês me odeiem porque não posso fazê-lo sozinho. Se me vissem, não por estas linhas que não me apresentam como sou, mas pessoalmente, vocês zombariam de minha figura raquítica e patética. Sou um solitário, carregando minha pequena maldição. Imensamente tolo. Talvez já não odeie tanto a ignorância das pessoas. Sou tão estúpido quanto elas. Eu com todos meus livros, todo este grande conhecimento (que me atribuo), não consigo ser feliz. Enquanto os outros que não tiveram acesso à boa educação não tem o que reclamar da vida. Será que eles se contentam com pouco, ou eu que exijo sobremaneira? Fumo mais um cigarro. A chama ilumina a escuridão do quarto. Olho pela janela. Há uma lua sorridente no céu. E uma estrela cadente cruza a noite. Estranhamente, eu não faço nenhum pedido.

 

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | 4 Comentários

Navegação de Posts

4 opiniões sobre “

  1. Que belíssimo texto!
    Gostei muito … muito mesmo.
    Me fez ter umas idéias que assim que possível, eu conto … ou melhor, escrevo né?
    Bjs
    Elis.

  2. o que dizer senão que você tem o talento – belíssimo por sinal – de transcrever sentimentos com tanta maestria. Confesso: reli algumas vezes. Só tenho a dizer, que sua literatura melancólica (rs, eu tinha que dizer isso XD) é fantástica moça.

    beijo enorme!

  3. Nossa! o grito é muito alto.
    Porém, sabes escrever como nunca.

    Agora, quanto as flores do inverno, existe a manacá-da-serra. LINDA! heheheh!!

    :]

  4. Excelente… gostei muito do seu estilo… sou um amador/ amante dessa arte!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: