Arquivo do mês: agosto 2008

Fred Astaire e Dry Martini

Giordana Medeiros

 

“A vida só é possível reinventada.” Que faço eu aqui a tentar inutilmente salvar os cacos que restam da minha? Destroços de algo que nunca chegou a ser. E foi demolido da mesma forma que algum dia o teria sido. Mas foi antes… Muito antes de quando deveria ser. Um suspiro nada mais. Um Dry Martini com duas azeitonas para eu provar o amargo e o doce. Embriagando-me com as palavras que profiro sozinha, neste bar de hotel a espera de algo, que desconheço, mas um dia chegará. Simples como as notas que deslizam pelo piano e a voz melancólica imitando Fred Astaire. “ Heaven, I’m in heaven…”  Eu estou realmente no céu. Alcancei o Nirvana, como dizem. Provo a bebida, como uma das azeitonas. A música derramando-se… Procuro amores em caminhos extravagantes. Homens sonâmbulos que provam de minha carne, arfantes, e abandonam-me; depois do deleite, fico sozinha novamente. Despida de todas as minhas armaduras. Eles desbravam meu corpo ardente, provam o sabor de minha pele, depois saciados, desfazem-se de mim. Sou tão difícil de amar. Uma casca oca que se entrega docilmente, submissa como um cão.

Ainda espero que, depois de tantas decepções, chegue aquele que não será um simples corsário de minhas emoções. Tenho convicção que ele virá em seu cavalo branco, como um príncipe das arábias. E levar-me-á dessas noites monótonas, em sua sela. Seu cheiro invadirá meus pulmões com um novo frescor. Não esse odor de suor e cigarros que acompanha todos aqueles que saquearam meu corpo. Clamo por paciência, para que suporte a infinita espera. Chegue logo meu amor! “Apressa-te que amanhã eu morro e não te escuto.” Na praia levaram-te para bem longe as vagas. E a dor foi tão grande que não me fio do tempo. Os anos passam e estou na praia, à espera do próximo navio que te conduza a mim. Mas não sei se te reconheceria. Talvez o cheiro de teu corpo far-me-ia recordar um sonho que não sonhei, tudo aquilo que nunca vivi. Em teus olhos nevoentos, acharei o amor que jamais me foi concedido. E seus lábios adoçarão os meus, tão amargos.

Enquanto isto, deixo-me levar por esses piratas que me destroem com seus toques ásperos, com seu desejo que me assalta e sua ânsia animalesca por prazer. A vida poderia ser bem diferente. Mas ela só é possível em minhas fantasias. Tão bom fantasiar. Quando não somos quem somos. E tudo é tão diverso do que é realmente. E a tua ausência me dói menos. Como se te conhecesse, e não existisses só em meus sonhos mais coloridos. Sonhos que se perdem nas noites infinitas, nestas horas de saudades em que sobrevivo a noites mornas, de solidão e silêncio. Mas há a música a formigar nos ouvidos. Será a bebida que me desnorteia os sentidos? Tiraram-me para dançar e dou voltas pela pista do bar. Tão livre, sou gaivota a flutuar pela praia acompanhando os navios. E, em um deles, sei que tu estás. Olhas-me desconfiado como se o perigo estivesse em mim e não em tuas mãos, em teus olhos que me espiam de longe, temerosos. Procurando em mim os segredos que te guiam. Mas eles estão em ti somente. Sou simples, não preciso de tradução. Compreender-me-ia com facilidade, pois tudo que sou está aos teus olhos. Acessíveis ao teu toque.

Porém, foges assustado. Como se trouxesse perigo minha presença. Por que meus olhos não mentem quando dizem: é a ti quem quero! E amedronto-te com minha franqueza. E foges para o mar, deixando-me novamente na praia. Estiveste tão próximo dos tesouros que trago comigo. Na minha tez, nos meus lábios adocicados pelo Martini, que agora se contentam e mastigar a última azeitona, perdidos ao som de Fred Astaire. Pobre de mim que pus minhas esperanças nas praias fora do mundo. Por um breve momento estive próxima do príncipe de quem de início falava. Mas novamente ele se perdeu neste mar turbulento de gentes, danças e palavras. Talvez no próximo navio retorne. Serei aquela que aguarda insone, nestas noites boêmias, que sejas tu quem me retire para a próxima dança. Uma última canção, para que possa dançar livre sem o contato de dedos grossos e peludos me guiando pela pista. Agora sou a deusa da aurora que desponta. E não me deixarei enlaçar senão por tu que fugiste de meu contato. Eu te mataria a sede com minha saliva. Com meus carinhos sentir-te-ia seguro. Todavia fugiste de minhas mãos em cálice que te beberiam como água da fonte. Um gole apenas, para não embriagar-me de você, absinto.

Não sei por que ainda embalo-me neste som, se não mais consigo distinguir as notas, faço minha própria música e danço e danço. Só para não entregar-me a esta dor que me ameaça novamente. Um sentimento mortal que assume o controle sobre mim. É tudo mais ou menos assim. Tudo tem seus crepúsculos, mesmo eu que sou nascer do sol. Sou também dama da noite que morre a cada dia nas mãos de um novo amor. Na espera de alguém que não se desfaça de mim ao raiar do dia. Que apenas permaneça, que se faça eternamente presente em minha vida. O príncipe das arábias que me tomará em seu cavalo branco e levar-me-á para bem longe. Tão distante que não me lembre de todas as feridas que tenho comigo. Por enquanto continuo cantando. Com força para que me possa ouvir, uma canção que te traga lágrimas e amor aos olhos. Um instante em que estaremos próximos um do outro. O meu lábio que canta e teu coração que escuta. Sentimentos coadunados, corações emparelhados. Mas amanhã não estarás diante de mim. “Foi apenas um pouco de música no meio do caminho”. E será difícil, mas tenho de continuar.

“Tudo que existe ilude. Mas tu serás uma verdade constante. Mas tu serás uma certeza profunda. Esperado vem! Em tudo haverá mudanças com tua presença. Eu mesma serei melhor, vertendo em ti o desejo de beleza, que não pôde nunca sair do meu coração.

Mostrar-te-ei radioso o mundo inteiro. E todos conhecerão as visões de eternidade que acumulei para te formar”. Se ao menos pudesse escutar meu pranto. Eu que sempre fui sozinha. “Andei sempre vestida de solidão. Todos estão para lá de minha vida. O que eu digo daqui se perde nas distâncias que vão de mim aos demais. Esperado vem! Vem para perto de mim! Há um dia que não se pode mais ser sozinha. As palavras que não se disseram viraram canções. É preciso embalar alguém.” E por onde andas que não te encontro? Será que existe realmente? Será que não é apenas um sonho bobo que criei e mantenho teimosa nestas linhas melancólicas? Não, “não se pode deixar perder um sonho sobre o mundo. Quero transferir minha alma para outro peito. Vem. Tenho uma herança de mil vidas para te dar.” Mais uma noite termina, dessa vez não fui enlaçada por nenhum pirata de sentimentos, mas fiquei com a sensação de perder novamente meu príncipe das arábias. Abandonada no porto. Acenando para o navio, numa eterna despedida.

Citações de Cecília Meireles.

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O grito

 

Giordana Medeiros

 

Três horas da manhã e o sono não chega. Horas perdidas numa angústia desmedida. Pego os cigarros ao lado da cama e fumo um, dois, três seguidos. Na garganta um soluço recolhido de uma dor que não se desfez em lágrimas. O limite foi ultrapassado há milhas atrás. E deixei que tudo seguisse em controle automático, até que não mais conseguisse guiar a minha vida. Unhas roídas, cabelos desgrenhados, olheiras profundas e negras sob os olhos. Tenho um aspecto cadavérico, adquirido ao longo dos anos, foram-se tantos, que nem lembro mais minha idade. Aliás, não lembro quem sou. Não reconheço esta imagem que me impõe a face fria do espelho. Não possuo identidade. Sou um personagem patético, e minha existência é a comédia dos meus incontáveis erros. O cinzeiro transborda em cinzas e restos de cigarros. E eu sozinho nesta noite que se estende pela eternidade. Havia caminhos, mas perdi a rota. Havia escolhas, foi quando perdi meu destino. Troquei-o por um punhado de sonhos falidos. E esperava que deles brotassem felicidade. E continuei esperando, esperando, esperando… Só não sei até quando esperar.

Agora posso tomar alguns goles de vinho. Sentar-me numa poltrona e fingir que não trago estas dores dentro de mim. Posso escutar músicas esquecidas, perdidas no infinito das horas, tentando enganar-me que há esperança. “Puta-que-pariu. A vida não pode ser tão ruim assim. Você que não consegue enxergar as flores no inverno.” Há flores no inverno? Há o tempo seco, relva amarelada e ressequida, árvores desnudas. Mas flores? Quais brotam nesse período de estiagem? Se pudesse tocar-me lá no fundo e arrancar este vazio que me tortura. Um buraco negro. O vazio que suga toda a luz ao redor. Posso assumir minha postura mais franca e tentar convencer-me que não há razão para minha angústia. Mas já esperei demais, as sementes que plantei não insurgiram em broto. Não sei plantar flores. Talvez, somente plantas carnívoras. Devorando os insetos frágeis que caem em sua armadilha mortal. Não adianta debater-se. Você caiu no meu visgo. Agora é minha carne, parte de mim. Eu escolhi a tempestade à calmaria. Sei que sucumbo a cada dia nesta jornada insana, sem destino. Sem comando. Sou um recruta que se vê escalado para o primeiro pelotão. Disseram-me uma vez, que este recebe todas as balas, enquanto os demais contra-atacam. Táticas de guerra. A vida é uma batalha constante. Mas, no fim, a nossa única recompensa é a morte. Não adquirimos nada que nos acompanhe.

Não importa o início, nem mesmo o fim. Mas o que se faz com o que se segue entre eles. Não há uma história na verdade. O que dizer sobre um cara com barba por fazer, de pijamas dando voltas em um apartamento sombrio. Posso abrir meus livros (tenho tantos), e anestesiar minha existência com histórias que não vivi, que não vivo. Amargo? Na verdade sabem-me doce. Posso ser agradável. Mas hoje prefiro ser ácido. Não quero desmerecer esta vida de merda. Não quero decepcioná-los. Aguardem, depois de tanto sofrimento, vocês vão conseguir uma nuvem muitíssimo confortável ao lado de São Pedro. Ou de qualquer santo da sua preferência (há tantos). Será que só eu vejo a escuridão? Sinto-me engaiolado. Minhas asas foram cortadas. Agora esperam que eu voe. Dá para entender? As pessoas são muito estranhas. Às vezes me compadeço de sua ingenuidade. Só às vezes. Porque quase sempre fico puto com essa burrice. Parecem moscas debatendo-se contra o vidro. Pessoas estúpidas. Hoje resolvi gritar, desvencilhar-me destas correntes que me arrastam para o fundo. E procuro respirar. Ao menos uma vez deixem-me dizer tudo que eu penso.

Beijam-me a face como Judas e entregam-me aos meus inquisidores. Mas não sou puro como Cristo. Sou Barrabás. Entretanto as pessoas não clamam por mim. Elas querem esconder-me o verdadeiro significado disso tudo. Todavia sou mais esperto que elas. Já entendi todo o jogo. E tenho meus próprios trunfos na manga. Posso jogar pelas suas regras, mas prefiro fazer as minhas. Na verdade estou com medo. E tento fazer-me valente para assustá-los. Sou covarde. Confuso. Hoje abri a Caixa de Pandora e libertei todas as minhas aflições. Sei que muitos não me compreenderão o desespero. Eu tento fazer-me claro, mas minhas águas são turvas. Não tenho pensamentos límpidos para que se possa enxergar através deles. Empresto minha voz a alguém que me usa para poder gritar. E a este de quem sou apenas um títere reconheço como a imagem que me mostra o espelho. Fincando meus pés nesse terreno movediço. Quantas horas são, já nem sei. Um dia tive algo bom dentro de mim. Mas desfez-se como a nuvem arrastada pelo vento. As pessoas disputam migalhas como as pombas no parque, avançando sobre o farelo de pão com que as velhas as alimentam. Não me conformarei com tão pouco.

Vocês assistem minha insanidade com risos maliciosos nos lábios. Eu sei. Não me envergonho de minha sinceridade. Se não querem ouvir, não leiam mais. Sei que lerão até o fim. Os homens não conseguem sobrepujar sua própria curiosidade. Leiam então. Não vou agradá-los com afagos literários. Hoje estou muito mesquinho. Serei egoísta. Um idiota-egoísta-bebendo-vinho-numa-madrugada-fria. Que se dane. Não tem nada a ver com vocês, viu? O problema sou eu. Anteriormente me chamavam de artista. Agora não sou nada além de um reles editorzinho de jornal. Ninguém lê o que escrevo. Acho que não há mais ninguém seguindo esta história. A surpresa é que não tem história realmente. Só uma seqüência de palavrões e um escritor medíocre às voltas com sua própria insônia. Pronto: resumi tudo para vocês. Quem leu até agora deve estar com ódio de mim. Não estou ligando. Sinto que me livrei de um fardo que carrego desde sempre. “Os ombros carregam o mundo”. O vento me leva. Não sei para onde. Se um dia chegar onde devo ir, os avisarei. “Ah inverno que não acaba nunca, ah vontade de chorar sem dor. Pelo tempo, pelas perdas, pelas coisas, pelas gentes, que passam e passeiam pelas notas do piano…” Cito escritores mortos e meus escritos, por si só, são um cemitério. Nada nasce aqui. Não sei plantar flores. Somente dores.

Podem ouvir o som de meus gritos? O bater acelerado de meu coração? Pareço arrebentar, talvez esteja desmoronando. Estou implodindo-me nestas linhas. E nada restará de mim quando terminarem. Talvez só a casca vazia de alguém que jamais existiu. Sou pura ficção. Não creiam em mim. Agora que já estão aliviados, posso voltar com minha “metralhadora cheia de mágoas”. Não terei piedade de vocês. Vou instigar sua revolta ao máximo. Quero que vocês me odeiem porque não posso fazê-lo sozinho. Se me vissem, não por estas linhas que não me apresentam como sou, mas pessoalmente, vocês zombariam de minha figura raquítica e patética. Sou um solitário, carregando minha pequena maldição. Imensamente tolo. Talvez já não odeie tanto a ignorância das pessoas. Sou tão estúpido quanto elas. Eu com todos meus livros, todo este grande conhecimento (que me atribuo), não consigo ser feliz. Enquanto os outros que não tiveram acesso à boa educação não tem o que reclamar da vida. Será que eles se contentam com pouco, ou eu que exijo sobremaneira? Fumo mais um cigarro. A chama ilumina a escuridão do quarto. Olho pela janela. Há uma lua sorridente no céu. E uma estrela cadente cruza a noite. Estranhamente, eu não faço nenhum pedido.

 

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Meu autógrafo da Alanis Morissette que esperei por 4 meses, custou-me uma fortuna, mas valeu cada centavo.

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