Sobre seus olhos quase verdes

 

Giordana Medeiros

 

Resolvendo questões inacabadas, coisas mal terminadas que deixo pendentes só para ainda ter algo com que me preocupar. Depois o que me resta é esse gosto insosso na boca. Um sabor que faltou. Talvez um beijo, um sorriso ou mesmo um suspiro profundo lamentando o tempo que se perdeu. Os anos não retrocedem, tudo caminha aos saltos. Um instante e estamos à beira da decrepitude dos corpos e das almas. Tudo não passou de um sonho. Uma ilusão funesta que me desvirtuou os sentidos. Perdi a razão. Era tudo tão real em meu mundo, tão concreto, tão incrivelmente certo. “Sonhos tão reais que se apagaram por completo. Ou não.” Foi difícil aceitar-me nesta situação tão frágil. Quando desmoronou em mim meu castelo de fantasias, despertei para um mundo estranhamente hostil. Tento caminhar resoluto por estes caminhos sinuosos. Onde cresce uma grama “mais verde que a esperança ou o fogo dos teus olhos.”

Recordo-me bem, seus olhos quase verdes, um sentimento que quase era amor e uma existência que quase era uma vida. Tudo se resumiu num quase, algo que nunca chegou a ser. Apesar de ter empreendido todos os esforços, de ter me violentado para que se concretizasse. Estive sempre muito próximo daquilo que desejo realmente ser. Por muito pouco não sou, não existo, sobrevivo. Sentindo a grama sob meus pés descalços posso purificar-me de toda dor, seguindo minha via crucis, carregando nos ombros o peso imenso de minhas faltas, meus incontáveis erros. Sobre a testa trago uma coroa de espinhos. Serei crucificado junto dos impuros. “Pai perdoai-os porque não sabem o que fazem.” Agrido-me com a pena na mão, escrevendo tudo que jamais ousei dizer. Escrevendo compreendo mais de mim do que tentei fazê-lo durante minha vida inteira.

“De noite, porque a luz é pouca, a gente tem impressão de que o tempo não passa ou pelo menos não escorre como escorre de dia.” Nessa madrugada sombria que se estende por décadas fico tão sensível, tão suscetível aos ataques das dores da solidão, da torturante saudade que se apossa de mim. Choro num murmúrio mudo toda minha fragilidade. Quisera ser forte como uma fortaleza, mas sou minha própria armadura. Sou alvo fácil dos ataques impiedosos do destino. Agüento bravamente até o raiar do dia. Seco meus olhos inchados e submeto-me à vida. E tento tatear na escuridão os sonhos impalpáveis e etéreos que um dia já me foram mais sólidos que a minha indecifrável realidade. Vivo uma existência criptografada cujo código é-me impossível revelar. E ninguém me desvenda, não há quem ouse ultrapassar os primeiros degraus da escada que leva a minha essência. Despir-me de minhas defesas, tão débeis, que com pouco esforço são derrubadas por quem me ousa traduzir.

Assumo a posição delicada do escritor confessional. Aquele que somente consegue se entender com o auxílio da palavra. Não a falada, extremamente perigosa, pois não há como negar aquilo que se fala. Não há como alegar-se obter dictum quando nos expomos verbalmente. Mas quando escrevemos há sempre a saída da obra ficcional. Não escrevo sobre mim, mas sobre aquilo que me é mais interior. O que às vezes não corresponde ao que sou realmente. Difícil de entender? Não, é bem simples. O escritor tem a fuga das palavras escritas, que transbordam em emoção invariavelmente não reveladas verbalmente. É algo interior. Na verdade também considero complicado e não compreendo. Como posso ser tão diferente do que escrevo? Somos duas pessoas diversas: o escritor de uma humanidade muitas vezes melodramática e o verdadeiro personagem da peça teatral que represento todos os dias.

“Claro, claro, mais que claro, raro” Sou pedra rara, a azul turmalina, ou o verde esmeralda que me lembra seus olhos. Mas não eram verdes realmente, eram quase verdes. E quase lhe amei novamente só por enxergar em seu olhar a preciosidade de meu espírito. Como seriam nossos espíritos coadunados? Mas meus olhos não são verdes, são escuros, ébano, pérola negra. Não tão belos quanto os seus. Vêem pouco, não perceberam o desprezo em seu olhar. Nem mesmo tratar-se de uma miragem aquela porta que se abria. Agora prendo a respiração e mergulho fundo. Afogo-me em palavras e frases desconexas que se unem formando um texto confuso, complicado, ininteligível. Todavia sei que haverá aqueles que lerão nas entrelinhas, não escritas, mas onde está tudo evidente: minhas frases não ditas, deduzidas pelas emoções envolvidas. Sou puro como água da fonte. Todos conseguem ver o que sinto mesmo que guarde meus sentimentos, retraído, contenho-me, engulo o soluço, disfarço o sorriso. Entretanto deixo tudo à mostra nos meus textos. Todos sabem quando sofro. Minha dor é um canto. Som, badalar dos sinos, anunciando o trágico fim. Meu mundo girava em torno de seus olhos, quase, quase verdes.

Através dos sonhos dizimados. Cidade devastada. Recolho meus mortos, curo meus feridos. A vida continua, devo procurar uma nova razão para prosseguir. Há motivo para seguir? Inquiro-me desesperado, nesta noite que se estende impiedosa. “Há muitas noites dentro de uma noite bem como, há muitos dias num dia. Há de se compreender cada um deles.” Mas ignoramos toda essa complexidade que envolve a vida. Preferia viver nos meus sonhos onde tudo era mais aprazível. Mas os alicerces de meus sonhos eram ficados em terreno movediço. Quanta coisa se perdeu nesta vida. Planos que são esquecidos nas gavetas numa espera infinita de que um dia recorde-me dos desejos que me eram extremamente caros. Entretanto, atualmente não há espaço para eles na minha vida. Uma sobrevivência desesperada. Aspiro o ar venenoso da existência humana, contaminando a fonte de meus desejos mais secretos. “Sou um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas.” Visceralmente exposto. Sou Prometeu acorrentado, punido por sua reprovável desobediência.

“Que faço entre coisas? De que me defendo?” De todas as dores que me invadem impiedosas, de todas as penas que me foram infligidas, da existência que me tortura. “O que me ensinaram estas aulas de solidão entre coisas da natureza e do homem?” Talvez não tenha aprendido nada, ou mesmo tenha me recusado a aprender. Já sei o que significa a vida. Um vazio imenso de algo que esteve dentro de mim, mas abandonou-me, deixando-me desvalido do que me era essencial. “Aonde vai a vida a rodar? Ciranda do destino” que me traga como uma vaga e arrasta-me por caminhos que não pretendia seguir. Sinto uma brisa leve no rosto, refrescando-me as feridas abertas de torturas antigas, de novas também. A brisa é fria e branca. Vejo que é quase dia. Termina mais uma vigília dolorosa. Quanto sofrimento trago comigo. É fácil de entender, mas difícil de penetrar, nesta vida sofrida deste ser que é apenas espírito. Não há carne, vísceras ou ossos, sou só essência. Muito mais sensível. Minhas feridas não se cicatrizam, muito embora tenha perdoado meus algozes: seus olhos quase verdes que me acompanharão eternamente. Um soluço que engulo seco. Um galo canta lá fora. Quisera um pouco de afeto, compaixão talvez. Mas termino a madrugada com duas pastilhas de hortelã na boca. Faltou-me um beijo que nunca roubei.

 

Citações do Poema Sujo de Ferreira Gullar.

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Uma opinião sobre “

  1. Gosto de vir aqui pq sinto que tenho um livro nas minhas mãos … cada texto que leio é um capítulo que passo, e espero estar longe do final. Como meus livros, aqui também existem coisas rabiscadas, marcadas, grifadas … passagens que me identificaram em um ou outro momento. Gosto tando desse jogo das palavras, as regras de português, a beleza do estar bem escrito, estar coerente, coeso … enfim … gosto da beleza do literário! Por isso, deixe-me destacar um trecho que sem sombra de dúvida … eu teria sublinhado se esse texto estivesse presente em um de meus livros.

    “Afogo-me em palavras e frases desconexas que se unem formando um texto confuso, complicado, ininteligível. Todavia sei que haverá aqueles que lerão nas entrelinhas, não escritas, mas onde está tudo evidente: minhas frases não ditas, deduzidas pelas emoções envolvidas. Sou puro como água da fonte. Todos conseguem ver o que sinto mesmo que guarde meus sentimentos, retraído, contenho-me, engulo o soluço, disfarço o sorriso. Entretanto deixo tudo à mostra nos meus textos.”

    Belíssimo texto … espero que estejam bem … a escritora e o protagonista tbem!
    Bjs da Elis.

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