Arquivo do mês: julho 2008

Memórias do cárcere

 

Giordana Medeiros

 

Concentrada, a garota de tez tão clara quanto as paredes do quarto que a aprisionava, percorria os olhos ávidos pelas folhas do livro. Até que uma frase chamou-lhe a atenção: “a dor é a única emoção que não usa máscaras.” Releu, ficou pensativa, analisando a frase em todo seu efeito. Seria verdade? Fechou o livro, abandonou-o sobre a poltrona. Procurou uma caneta. Achou-a no criado-mudo ao lado da cama, onde também jazia uma agenda. Nela anotou as palavras que lhe haviam impressionado tanto. Escreveu numa letra bem redonda para acentuar a beleza daquele pensamento. “Assim”, disse para si, “não o esquecerei jamais.” Saboreava aquelas palavras, senti-as amargas na boca. Era como se ela mesma as houvesse criado e ninguém mais, outrora, as proferido. Inventara-as numa cópula com a tristeza e desta conjunção nascera a frase mais verdadeira que lera nos últimos meses de clausura. Repetia mentalmente aqueles dizeres. “A dor é a única emoção que não usa máscaras.” Porque todas as demais nascem viciadas, maculadas pela capacidade humana de dissimular. Fingir sentimentos ou encobri-los para atingir seus desejos, muitas vezes, inescrupulosos.

Olhou pela janela: som côncavo de asas. Seriam anjos? Não, apenas aves assustadas que alçavam vôo. Decepcionada, continuou a observar os passantes que indiferentes a ela, prosseguiam por seu caminho. Todos tinham para onde seguir. Os carros iam e vinham, crianças felizes brincavam na praça. E ninguém tinha idéia que a felicidade também usa máscaras. Mas a dor não, é sincera. Legítima. E só ela sabia o quanto. A dor que ela sentia era muito mais que autêntica, era perene. Forte o suficiente para que nenhuma outra emoção a debelasse. Fazia meses que os médicos tentavam, inutilmente, combater a tristeza profunda em que ela se encontrava. Entretanto os remédios mostravam-se incapazes de curá-la. Acreditava não haver cura para aquela dor que lhe tomou o corpo, dominou-lhe o espírito, e a fez odiar o fato de ainda estar viva. Em vão os médicos esforçavam-se, sua família desdobrava-se. Pois para aquela dor não havia antídoto ou remédio eficaz. Ela o sabia. Por isso tantas vezes tentara a via mais fácil, menos dolorosa, mas a mais desonrosa, de dar fim àquele sofrimento. Havia nos seus pulsos a prova cabal de sua covardia. A única maneira de dar fim àquela angustia que lhe envenenava lentamente.

Quando ela talhou os pulsos sua família entrou em pânico. Procuraram especialistas, psicólogos, psiquiatras, padres, amigos, qualquer um que pudesse demovê-la da idéia fixa de morrer. “Inútil, inútil, inútil…” Pensou olhando as feias cicatrizes que a loucura deixara-lhe. Então a mandaram para uma clínica. Onde ela poderia “refazer-se”, “descansar por um período”. Longe da sociedade, dos comentários maldosos que envergonhavam seus familiares. Ela estaria a sós com seus livros, músicas e esta dor imensa que lhe inundava irreversivelmente. O quarto não era ruim. Havia televisão que ela raramente ligava, uma prateleira na parede para seus livros, um criado-mudo, uma cama com lençóis sempre limpos, trocados toda semana pelas camareiras, uma poltrona que ela logo arrastou para próximo da janela, um toca discos que trouxera de casa e, sobre a cama, um crucifixo lembrando a presença de Deus naquele recinto. Isolaram-na do mundo como se aquela tristeza fosse uma moléstia contagiosa. Estava prisioneira de sua dor. Ela tinha a opção de fazer as refeições junto aos outros doentes. Entretanto ela preferia comer no quarto. Tinha medo dos outros pacientes, alguns muitas vezes se tornavam violentos, muitos patéticos, a maioria muito, muito triste.

Ela não era como os demais, acreditava. Não fugia da realidade. Ao contrário enxergava-a tão claramente que, por vê-la, criou-se nela a semente de seu inclemente sofrimento. Acariciou as feridas tentando tocar aquelas que jamais se cicatrizam, muito mais profundas e graves. Como se o toque pudesse milagrosamente expurgar o mal de seu espírito. Encarou o crucifixo na parede onde um Cristo metálico de braços abertos criava a ilusão do milagre. Exigiu-lhe respostas, mas o Cristo de ferro apenas sangrava com a cabeça pendendo para o lado. Ela não era crédula. Muito difícil ter fé quando se compreende perfeitamente o mundo. Ouviu o som de batidas ocas na porta. Abriu-a e logo reconheceu o olhar manso da enfermeira anunciando o jantar. Trouxe-lhe uma sopa de legumes rala. Ela comeu pouco. Não tinha fome apesar daquele vazio que sentia. Sabia que não havia como preenchê-lo, pois o que lhe faltava não lhe podia ser dado. Deveria surgir como um gérmen que quebra a casca que o envolve e brota vigoroso e verde para a vida. Mas ela sabia que seu coração não era terreno fértil, não há possibilidade de essa semente irromper em folhas e frutos. A sua vida tornou-se uma espera infinita. Um desejo mudo de realidades irrealizáveis. “O futuro não é mais o que era antigamente.” Anos atrás, uma década talvez, ela chegou a ter um vislumbre de felicidade, mas era apenas uma ilusão. Agora não há sequer estes delírios para adornar-lhe a existência sacrificada. Não há cadarços em seus tênis, retirados previamente pelos enfermeiros para evitar enforcamentos. Era difícil de locomover-se, de modo que ela era obrigada a arrastá-los como se fossem sandálias. O som do solado de borracha do tênis friccionado contra a madeira do chão era esquisito. Deveria usar chinelos, mas era inverno e fazia muito frio.

Fechou a janela como quem fecha o coração. Trancado para os sonhos que teimam em chegar sorrateiros durante a noite. E havia ainda os pesadelos que a faziam acordar assustada durante a madrugada. Ela deitou-se e cobriu-se com o cobertor azul escuro que sua mãe trouxera-lhe logo que começou o inverno. Ficou com os olhos abertos aguardando o sono aparecer, mas provavelmente aquela seria mais uma noite de vigília. Às vezes ela ressentia-se de não professar fé alguma. É muito mais fácil esconder as frustrações sob o manto da crença religiosa. Mas a vida envenenou-lhe demasiadamente. Seu sangue tornou-se impuro. Por conseqüência, também seu coração. Ela sabia que todos a esperavam de alguma maneira. Sua família aguardava sua melhora e que ela pudesse enxergar a vida de outra forma. Podendo valer-se das emoções mascaradas para viver uma vida normal. Contudo, ela preferia a autenticidade dos sentimentos. A dor franca não encenada. Ela desligou a lâmpada, pois havia uma lua muito bela no céu, cujo luar transpassava a janela de vidro caindo palidamente sobre os poucos móveis. Seu rosto foi coberto pela luz prateada e, por alguns instantes, ela sentiu-se pura. Mas foi durante apenas um átimo. Logo veio a dor como uma nódoa numa tela em branco, crescendo vertiginosamente até cobrir todo quadro.

Juntou as mãos e pensou em rezar, contudo cria que suas preces eram inúteis e logo desistiu da idéia. Quem a escutaria? Deus? O mesmo que lhe mantinha enclausurada nesta vida? Por que este Deus impiedoso lhe dera conhecimento? Injusto condenar Deus. Se bem se lembrava, fora aquela safada da Eva que inventou de morder aquela maldita maçã. Condenando a espécie humana eternamente. Mas a maçã era apenas simbólica. O que ocorreu realmente foi o fato de o homem adquirir conhecimento, anteriormente reservado unicamente a Deus. Quando criança, lia a bíblia apenas por diversão, gostava das imagens religiosas criadas pelos homens ao longo da história. Comparava o Novo e o Antigo Testamento, a conversão do Deus bélico e impiedoso num que transborda comiseração pelos homens. Essa sabedoria contribuiu para desmitificar a religiosidade e qualquer expressão de fé em sua vida. Agora ela não cria em Deus e muito menos nos homens. Via aquela clínica em que se encontrava prisioneira de sua própria dor, como um “deserto de almas”. Era na realidade o purgatório, e todos que ali estavam cumpriam penitências por suas inúmeras faltas. Ouviu novas batidas na porta, ela gemeu um “entre”, e a enfermeira de olhar manso recolheu a tigela de sopa e deu-lhe os remédios que ela engoliu de uma só vez, com um gole d’água. Esperou a enfermeira sair para pegar novamente a agenda, e escrever numa letra ainda mais caprichada: “Às vezes é preciso viver a dor até o fim, para que depois, purificados, possamos renascer para a vida.” E assinou como de sua própria autoria.

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Sobre seus olhos quase verdes

 

Giordana Medeiros

 

Resolvendo questões inacabadas, coisas mal terminadas que deixo pendentes só para ainda ter algo com que me preocupar. Depois o que me resta é esse gosto insosso na boca. Um sabor que faltou. Talvez um beijo, um sorriso ou mesmo um suspiro profundo lamentando o tempo que se perdeu. Os anos não retrocedem, tudo caminha aos saltos. Um instante e estamos à beira da decrepitude dos corpos e das almas. Tudo não passou de um sonho. Uma ilusão funesta que me desvirtuou os sentidos. Perdi a razão. Era tudo tão real em meu mundo, tão concreto, tão incrivelmente certo. “Sonhos tão reais que se apagaram por completo. Ou não.” Foi difícil aceitar-me nesta situação tão frágil. Quando desmoronou em mim meu castelo de fantasias, despertei para um mundo estranhamente hostil. Tento caminhar resoluto por estes caminhos sinuosos. Onde cresce uma grama “mais verde que a esperança ou o fogo dos teus olhos.”

Recordo-me bem, seus olhos quase verdes, um sentimento que quase era amor e uma existência que quase era uma vida. Tudo se resumiu num quase, algo que nunca chegou a ser. Apesar de ter empreendido todos os esforços, de ter me violentado para que se concretizasse. Estive sempre muito próximo daquilo que desejo realmente ser. Por muito pouco não sou, não existo, sobrevivo. Sentindo a grama sob meus pés descalços posso purificar-me de toda dor, seguindo minha via crucis, carregando nos ombros o peso imenso de minhas faltas, meus incontáveis erros. Sobre a testa trago uma coroa de espinhos. Serei crucificado junto dos impuros. “Pai perdoai-os porque não sabem o que fazem.” Agrido-me com a pena na mão, escrevendo tudo que jamais ousei dizer. Escrevendo compreendo mais de mim do que tentei fazê-lo durante minha vida inteira.

“De noite, porque a luz é pouca, a gente tem impressão de que o tempo não passa ou pelo menos não escorre como escorre de dia.” Nessa madrugada sombria que se estende por décadas fico tão sensível, tão suscetível aos ataques das dores da solidão, da torturante saudade que se apossa de mim. Choro num murmúrio mudo toda minha fragilidade. Quisera ser forte como uma fortaleza, mas sou minha própria armadura. Sou alvo fácil dos ataques impiedosos do destino. Agüento bravamente até o raiar do dia. Seco meus olhos inchados e submeto-me à vida. E tento tatear na escuridão os sonhos impalpáveis e etéreos que um dia já me foram mais sólidos que a minha indecifrável realidade. Vivo uma existência criptografada cujo código é-me impossível revelar. E ninguém me desvenda, não há quem ouse ultrapassar os primeiros degraus da escada que leva a minha essência. Despir-me de minhas defesas, tão débeis, que com pouco esforço são derrubadas por quem me ousa traduzir.

Assumo a posição delicada do escritor confessional. Aquele que somente consegue se entender com o auxílio da palavra. Não a falada, extremamente perigosa, pois não há como negar aquilo que se fala. Não há como alegar-se obter dictum quando nos expomos verbalmente. Mas quando escrevemos há sempre a saída da obra ficcional. Não escrevo sobre mim, mas sobre aquilo que me é mais interior. O que às vezes não corresponde ao que sou realmente. Difícil de entender? Não, é bem simples. O escritor tem a fuga das palavras escritas, que transbordam em emoção invariavelmente não reveladas verbalmente. É algo interior. Na verdade também considero complicado e não compreendo. Como posso ser tão diferente do que escrevo? Somos duas pessoas diversas: o escritor de uma humanidade muitas vezes melodramática e o verdadeiro personagem da peça teatral que represento todos os dias.

“Claro, claro, mais que claro, raro” Sou pedra rara, a azul turmalina, ou o verde esmeralda que me lembra seus olhos. Mas não eram verdes realmente, eram quase verdes. E quase lhe amei novamente só por enxergar em seu olhar a preciosidade de meu espírito. Como seriam nossos espíritos coadunados? Mas meus olhos não são verdes, são escuros, ébano, pérola negra. Não tão belos quanto os seus. Vêem pouco, não perceberam o desprezo em seu olhar. Nem mesmo tratar-se de uma miragem aquela porta que se abria. Agora prendo a respiração e mergulho fundo. Afogo-me em palavras e frases desconexas que se unem formando um texto confuso, complicado, ininteligível. Todavia sei que haverá aqueles que lerão nas entrelinhas, não escritas, mas onde está tudo evidente: minhas frases não ditas, deduzidas pelas emoções envolvidas. Sou puro como água da fonte. Todos conseguem ver o que sinto mesmo que guarde meus sentimentos, retraído, contenho-me, engulo o soluço, disfarço o sorriso. Entretanto deixo tudo à mostra nos meus textos. Todos sabem quando sofro. Minha dor é um canto. Som, badalar dos sinos, anunciando o trágico fim. Meu mundo girava em torno de seus olhos, quase, quase verdes.

Através dos sonhos dizimados. Cidade devastada. Recolho meus mortos, curo meus feridos. A vida continua, devo procurar uma nova razão para prosseguir. Há motivo para seguir? Inquiro-me desesperado, nesta noite que se estende impiedosa. “Há muitas noites dentro de uma noite bem como, há muitos dias num dia. Há de se compreender cada um deles.” Mas ignoramos toda essa complexidade que envolve a vida. Preferia viver nos meus sonhos onde tudo era mais aprazível. Mas os alicerces de meus sonhos eram ficados em terreno movediço. Quanta coisa se perdeu nesta vida. Planos que são esquecidos nas gavetas numa espera infinita de que um dia recorde-me dos desejos que me eram extremamente caros. Entretanto, atualmente não há espaço para eles na minha vida. Uma sobrevivência desesperada. Aspiro o ar venenoso da existência humana, contaminando a fonte de meus desejos mais secretos. “Sou um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas.” Visceralmente exposto. Sou Prometeu acorrentado, punido por sua reprovável desobediência.

“Que faço entre coisas? De que me defendo?” De todas as dores que me invadem impiedosas, de todas as penas que me foram infligidas, da existência que me tortura. “O que me ensinaram estas aulas de solidão entre coisas da natureza e do homem?” Talvez não tenha aprendido nada, ou mesmo tenha me recusado a aprender. Já sei o que significa a vida. Um vazio imenso de algo que esteve dentro de mim, mas abandonou-me, deixando-me desvalido do que me era essencial. “Aonde vai a vida a rodar? Ciranda do destino” que me traga como uma vaga e arrasta-me por caminhos que não pretendia seguir. Sinto uma brisa leve no rosto, refrescando-me as feridas abertas de torturas antigas, de novas também. A brisa é fria e branca. Vejo que é quase dia. Termina mais uma vigília dolorosa. Quanto sofrimento trago comigo. É fácil de entender, mas difícil de penetrar, nesta vida sofrida deste ser que é apenas espírito. Não há carne, vísceras ou ossos, sou só essência. Muito mais sensível. Minhas feridas não se cicatrizam, muito embora tenha perdoado meus algozes: seus olhos quase verdes que me acompanharão eternamente. Um soluço que engulo seco. Um galo canta lá fora. Quisera um pouco de afeto, compaixão talvez. Mas termino a madrugada com duas pastilhas de hortelã na boca. Faltou-me um beijo que nunca roubei.

 

Citações do Poema Sujo de Ferreira Gullar.

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