Ressuscitar

Giordana Medeiros

 

“Nascemos todos os dias quando nasce o sol”. Viver é recomeçar. Reergo-me fênix das cinzas. E sou incandescente como a brasa que arde insistente. Sou labareda crepitante de uma fogueira de paixões. Embriago-me de canções até perder os sentidos. Mas na verdade estou sóbrio e assumo toda a responsabilidade por meus feitos. Fui tolo eu sei. Mas acho que ainda tenho chance. Agora me sustento em bases sólidas, chega de ilusões e devaneios infantis. Foi tanto tempo perdido com tolices. Desejos irrealizáveis que teimosamente perseguia. Entretanto a própria vida encarrega-nos de mostrar o melhor caminho. Cataliso toda dor e transformo-a em bons sentimentos. Convertendo desilusões em esperanças. “Espero. Acho que sim. De olhos fechados não me vejo. E você sorriu para mim.” Um segundo e tudo se apaga como se outrora não houvesse acontecido.

Escrevo cartas que não envio a ninguém. Nelas revelo toda minha angústia. Pessimismo com relação ao futuro, que se mostra tão assustador. Minhas dores mais profundas e os desejos irreveláveis de uma vida inteira. Tudo transposto para o papel como num diário, mas não dato estes escritos e é difícil saber de quando estou a falar. Épocas misturam-se no meu emaranhado de pensamentos. Não é um diário na realidade, mas memórias escritas na surdina. É como um confessionário sem pároco. Apenas transcrevo para papel minha dor infindável. Ninguém me conhece como realmente sou. Vêem a máscara triste de minhas feições que cobre o que há de mais belo, mais sincero e mais verdadeiro, em mim. Sou a fuga constante de uma imagem que encubro temeroso. Mas em minhas confissões revelo-me todo. Desfaço-me dos papéis que represento todos os dias nesta vida que mais se assemelha a uma tragédia de Ésquilo.

Os segundos arrastam-se preguiçosos neste domingo vazio. Não há mais dor, também não me restam alegrias nem está presente o amor.  Tudo que sobrou foi esta ausência de algo que desconheço por completo, mas que um dia esteve dentro de mim. E não guardo significados para o que escrevo. Não há sentido em minhas palavras, como estradas que não levam a lugar algum. Estradas sem nome. Destinos desconhecidos. Mas, no fim, não saímos do lugar. De volta ao ponto de partida. Luzes foscas não iluminam meu espírito. E sempre houve penumbra nos meus aposentos. Estou indiferente à vida que caminha veloz e contrária ao meu alvedrio. Ando em círculos, como a roda da fortuna que prediz a sorte dos homens. Não sou covarde ao extremo para deixar-me preencher este vazio em minha existência com vícios, que somente disfarçariam temporariamente as feridas que trago comigo. “Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira.” A vida é dura demais para realidades inventadas. Não há espaço para ilusões. E por isso não me perco mais em devaneios.

Quero explorar meu eu mais profundo, com quem me indisponho ordinariamente. Sou uma antítese de mim mesmo. E tomo decisões contraditórias que me prejudicam sobremaneira. Submeto-me, subjugo-me, subverto-me. Mas assumo meus atos mais vis, porque não posso fugir do que sou. Temo apenas chegar ao limite da dor, pois sei que ela sobrepujaria minhas muralhas. Atravessaria cortante minha armadura. Nem meus alicerces fincados na realidade seriam páreos a este ataque avassalador. Assuntos prementes são esquecidos nas gavetas de meu espírito. E deixo-os na espera infinita da minha covardia. Postergo-os para datas incertas, pois o que vivo é apenas o prelúdio do que está por vir. Há uma gama enorme de possibilidades que se enfeixa numa única via. E não fui eu quem traçou meu caminho. Talvez por nunca ter certeza de onde queria realmente chegar. Agora olho para trás e arrependo-me por não ter feito as melhores escolhas. Só isso justificaria meu gritante fracasso.

Esse é apenas mais um dos textos que criei para meu personagem mais incerto, difícil e indecifrável. Ninguém me ouve nesta tarde tediosa de domingo. Muito embora as palavras proliferem-se, férteis, no papel, estou cercado de silêncio. Há tanto que desejo falar sobre mim… O pavor de estar sempre sozinho nesta vida de ausências. Só somente. Eu e o mundo que tripudia sobre meus constantes desenganos. Pergunto às fotografias mudas quando fui tão feliz. Foram momentos fugazes que passaram sem que pudesse saboreá-los mais detalhadamente e descobrir porque razão fazem-me tanta falta. Conservo-os na memória que tem o condão de torná-los ainda mais dourados que realmente foram. Todavia eles se foram sem pedirem-me permissão. Apenas abandonaram-me aturdido nesta vida. Talvez seja a ausência deles que me pese sobremaneira no espírito. E houve canções. Algumas inesquecíveis, outras que se apagaram, deixando apenas uma leve lembrança. Mas todas me marcaram de alguma forma. Sou o que se segue as claves de sol. E nos meus momentos mais graves fiz de minha dor uma canção. Às vezes sou doce como Debussy. Meu canto não pode ser ouvido, mas lido, como se convertesse notas musicais em palavras doloridas que se derramam sobre o papel.

Estou no limiar da dor, quando os homens tornam-se insensíveis ao sofrimento. Uma ferida que se cicatriza em meu coração, tantas vezes sacrificado. Já nem sofro mais. Talvez as lágrimas tenham se extinguido, não há mais como chorar. Mas sei que, de alguma forma, ainda dói. Doerá para sempre, pois esta mágoa está tatuada em mim.  Estou condenado a penas cruéis: à lembrança que me sevicia, à saudade que me sufoca e à solidão que me atormenta. Estou apavorado diante da vida. Paralisado diante da realidade, com suas feições pavorosas, causando-me pânico de ter de continuar sozinho. Já sonhei, confesso. Sonhos ingênuos tão delicados quanto asas de borboletas. Sonhos são frágeis. Um descuido, e todos os seus desejos convertem-se em arrependimentos. Ou em ridículas promessas, que jamais serão cumpridas. Hoje sou como alguém que perdeu o último trem para a felicidade. Esquecido na estação. Sem poder chegar ao destino desejado.

Sobrevivo a cada dia. E desfaleço a cada crepúsculo. Na roda do destino estou em franca decadência. Eis a minha vil existência, minha vida medíocre e ridícula. Cujos obstáculos a minha cavalgada se mostram intransponíveis. Minha história é triste como um fado. Queria saber contar histórias felizes. Aquelas que começam com “era uma vez” e terminam com “e viveram felizes para sempre”. Mas sempre pensei em mim como uma carruagem desgovernada a beira de um precipício. Sou fatal. Uma doença incurável. Uma melancólica carta de despedida. Haverá ainda como retomar as rédeas de minha vida e conduzi-la pelo caminho correto? Se reivindicar minha autonomia sobre minha existência, não mais me submeter aos desmandos do destino e viver realmente e não mais apenas sobreviver, poderei assumir o comando de minha vida? Renasceria com a alvorada que se anuncia e não mais me deixaria esmorecer diante dos mais terríveis desafios. Ainda há tempo. Só não sei ainda como fazê-lo. Mais importante que renascer é ressuscitar. E volto novamente à vida.

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3 opiniões sobre “

  1. Mas bá! Como dizemos aqui no sul … me deixa respirar pra comentar!
    Sangrei da primeira a última palavra! Forte, forte, forte … beílisimo texto, dá pra sentir tudo, cada sentimento ta sendo expulso nas entrelinhas … nossa! Muito bom mesmo, literalmente perfeito, desses que eu gosto muito de ler ( como já sabes) … mas é claro … preocupo-me com o “personagem” … no mais … to aqui pra falar dessa obra prima literária … é perfeito!
    Bjs

    OBS: Foi como tomar um remédio forte pra uma dor maior ainda, dilacerada … agradeço. E dos meus restos … respiro.

  2. Mary

    O personagem apesar de sofrer muito tem ponto que me chamou a atenção. Sonhou. Pode sonhar e realizar sua vida sem tanta solidão.
    O texto é realmente uma obra prima.

    Bjs.

  3. Bravo!
    admiro sempre seus textos. O pesar do início do personagem chega a sua conclusão que não há como evitar.

    Um forte abraço pra você.
    se cuida.

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