Metal contra as nuvens

 

Giordana Medeiros

 

Juntando os cacos do que restou de mim. Não sobrou muita coisa. E nunca é realmente nunca. Doeu imensamente, mas esta dor vai passar algum dia, eu sei. Talvez não agora, pois a ferida ainda sangra e choro sem nenhum motivo aparente, mas há razão para minha tristeza. Quando Ícaro não pode alcançar o sol tombou no mais profundo precipício. Não foi nem a dor da queda, mas ter os sonhos quebrados com a mesma frieza. Da mesma maneira. Não devia ter voltado a acreditar. Fui um tolo. Voei alto, junto aos condores. Quando deveria ter mantido meus pés firmes no chão. Eu que me prometi centenas de vezes, outrora, não mais me apaixonar. Como impedir meu coração de iludir-se tão facilmente?

Minha dor explode em lágrimas. “Quando ela foi embora se fez noite em meu viver”. Sofri e mesmo já tendo vivido esta dor inúmeras vezes, desabei como se houvesse perdido meus alicerces. Agoniza meu coração, agora, eternamente. Tentando entender porque fui abrir minhas defesas e entregar-me de novo, ingênuo, a quem jamais me amou. Tudo que fiz foi apaixonar-me, acredito que pela derradeira vez. Porque não mais me entregarei, sem pudores, a nenhuma mulher. Creio que minha alma cheia de feridas e cicatrizes não será alvo de nova investida amorosa. O amor inspira sofrimento. E não mais estou disposto a sentir tamanho tormento. Não me resta nem mesmo uma única gota de paixão no coração. Esvaiu-se diante da dor. Estou alto e seco. O que será de mim?

Não acredito em ninguém mais, nem em mais nada. Não sei mais o significado da vida e não deposito minha fé nos homens. As pessoas tão egoístas com seus mundos particulares dos quais sou sempre excluído… Então, criarei meu próprio mundo também, onde não haverá nada, só o solo inóspito de meu espírito. Não mais concederei abrigo àqueles que desejam somente zombar de minha devoção. “- Sofre as agruras da solidão! Idiota! Quem lhe permitiu sonhar? Não vê que lhe é vedado acreditar?” Vivi um vislumbre de felicidade, mas foi somente ilusão. Uma miragem no deserto de minha vida. “- São sinceros seus sentimentos, mas quem se importa? Não há quem se solidarize com seu sofrimento.” Estarei sempre sozinho no mais doloroso dos abandonos. As lágrimas que não consigo reter salgam-me os lábios. Provo o sabor da rejeição novamente, gosto conhecido e tão desagradável ao paladar quanto ao coração. Mas suporto este dia como se fosse o último. E um novo dia nascerá amanhã. Com o tempo, as novas feridas cicatrizar-se-ão.

A vida é assim: uma sucessão de dores alternando-se com desejos de felicidade. Entretanto não há outra saída que suportar a existência. Sentença que nos é infligida. Pena perpétua aplicada aos homens da qual não se pode escapar. Haverá sempre a tentativa insana de fugir da vida. Mas não se sabe o que a não existência nos reserva. Provavelmente, o vazio infinito, não ser, a ausência de tudo. Um único sentimento invadir-me-ia, condenado a solidão eterna: o remorso de não ter resistido o quanto podia, de ter me entregado quando sofri apenas o primeiro ataque. Sou minha própria fortaleza. E é meu dever suportar as investidas cruéis do destino. “-Engole o soluço, seque as lágrimas e levante como se não houvesse se ferido! Como se a dor não fosse insuportável! Resiste duramente! Ergue a espada e lute pela vida!” Assim me recupero de toda mágoa.

“Sou metal, raio, relâmpago e trovão. Sou metal, sou o ouro em seu brasão. Sou metal me sabe o sopro do dragão. Não me entrego sem lutar tenho ainda coração. Não aprendi a me render, que caia o inimigo então.” Esta dor que me atormenta passará. Não haverá vestígios dela pela manhã, mas há a madrugada em que estamos sós. E no rádio uma canção triste leva-me às lágrimas. “Tudo passa, tudo passará.” Vou conseguir reerguer-me como uma cidade após o terremoto. Um abalo sísmico em meu espírito. Mas o coração ainda pulsa sôfrego, insano, puro. As madrugadas gélidas são a penitência de meus dissabores, desamores, desespero, desengano. Despido de minhas ilusões, sou apenas essência. O que há de mais sincero em mim. E nestas linhas revelo-me todo. Sem disfarces. “A arte e a fuga da emoção pessoal” Nas palavras de Joyce. E a canção continua. O mundo continua. “E nossa estória não estará pelo avesso assim. Sem final feliz. Teremos coisas bonitas para contar. E até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe para trás – apenas começamos. O mundo começa agora – apenas começamos.”

Apenas começamos. Este é meu primeiro dia.

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2 opiniões sobre “

  1. Gosto tanto dessa música … ela me parece muito dura, real, mas dura. Eu ando tentando romper correntes .. .e até agora nada … mas eu tento.
    Gostei muito do texto,é triste, mas enquanto texto, eu amei, mesmo.
    Bjs
    Elis.

  2. Oi Giordana,
    Seus textos são fantásticos! Eu já lhe disse isso. Adorei este. Mas pena que sempre os vejo tristes. Lógico que isso não é motivo pra mim não visitar o seu blog, tá?

    Você traz-me inspirações e incentivo.

    Um envolvente abraço pra você.
    se cuida.
    🙂

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