Arquivo do mês: junho 2008

Ressuscitar

Giordana Medeiros

 

“Nascemos todos os dias quando nasce o sol”. Viver é recomeçar. Reergo-me fênix das cinzas. E sou incandescente como a brasa que arde insistente. Sou labareda crepitante de uma fogueira de paixões. Embriago-me de canções até perder os sentidos. Mas na verdade estou sóbrio e assumo toda a responsabilidade por meus feitos. Fui tolo eu sei. Mas acho que ainda tenho chance. Agora me sustento em bases sólidas, chega de ilusões e devaneios infantis. Foi tanto tempo perdido com tolices. Desejos irrealizáveis que teimosamente perseguia. Entretanto a própria vida encarrega-nos de mostrar o melhor caminho. Cataliso toda dor e transformo-a em bons sentimentos. Convertendo desilusões em esperanças. “Espero. Acho que sim. De olhos fechados não me vejo. E você sorriu para mim.” Um segundo e tudo se apaga como se outrora não houvesse acontecido.

Escrevo cartas que não envio a ninguém. Nelas revelo toda minha angústia. Pessimismo com relação ao futuro, que se mostra tão assustador. Minhas dores mais profundas e os desejos irreveláveis de uma vida inteira. Tudo transposto para o papel como num diário, mas não dato estes escritos e é difícil saber de quando estou a falar. Épocas misturam-se no meu emaranhado de pensamentos. Não é um diário na realidade, mas memórias escritas na surdina. É como um confessionário sem pároco. Apenas transcrevo para papel minha dor infindável. Ninguém me conhece como realmente sou. Vêem a máscara triste de minhas feições que cobre o que há de mais belo, mais sincero e mais verdadeiro, em mim. Sou a fuga constante de uma imagem que encubro temeroso. Mas em minhas confissões revelo-me todo. Desfaço-me dos papéis que represento todos os dias nesta vida que mais se assemelha a uma tragédia de Ésquilo.

Os segundos arrastam-se preguiçosos neste domingo vazio. Não há mais dor, também não me restam alegrias nem está presente o amor.  Tudo que sobrou foi esta ausência de algo que desconheço por completo, mas que um dia esteve dentro de mim. E não guardo significados para o que escrevo. Não há sentido em minhas palavras, como estradas que não levam a lugar algum. Estradas sem nome. Destinos desconhecidos. Mas, no fim, não saímos do lugar. De volta ao ponto de partida. Luzes foscas não iluminam meu espírito. E sempre houve penumbra nos meus aposentos. Estou indiferente à vida que caminha veloz e contrária ao meu alvedrio. Ando em círculos, como a roda da fortuna que prediz a sorte dos homens. Não sou covarde ao extremo para deixar-me preencher este vazio em minha existência com vícios, que somente disfarçariam temporariamente as feridas que trago comigo. “Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira.” A vida é dura demais para realidades inventadas. Não há espaço para ilusões. E por isso não me perco mais em devaneios.

Quero explorar meu eu mais profundo, com quem me indisponho ordinariamente. Sou uma antítese de mim mesmo. E tomo decisões contraditórias que me prejudicam sobremaneira. Submeto-me, subjugo-me, subverto-me. Mas assumo meus atos mais vis, porque não posso fugir do que sou. Temo apenas chegar ao limite da dor, pois sei que ela sobrepujaria minhas muralhas. Atravessaria cortante minha armadura. Nem meus alicerces fincados na realidade seriam páreos a este ataque avassalador. Assuntos prementes são esquecidos nas gavetas de meu espírito. E deixo-os na espera infinita da minha covardia. Postergo-os para datas incertas, pois o que vivo é apenas o prelúdio do que está por vir. Há uma gama enorme de possibilidades que se enfeixa numa única via. E não fui eu quem traçou meu caminho. Talvez por nunca ter certeza de onde queria realmente chegar. Agora olho para trás e arrependo-me por não ter feito as melhores escolhas. Só isso justificaria meu gritante fracasso.

Esse é apenas mais um dos textos que criei para meu personagem mais incerto, difícil e indecifrável. Ninguém me ouve nesta tarde tediosa de domingo. Muito embora as palavras proliferem-se, férteis, no papel, estou cercado de silêncio. Há tanto que desejo falar sobre mim… O pavor de estar sempre sozinho nesta vida de ausências. Só somente. Eu e o mundo que tripudia sobre meus constantes desenganos. Pergunto às fotografias mudas quando fui tão feliz. Foram momentos fugazes que passaram sem que pudesse saboreá-los mais detalhadamente e descobrir porque razão fazem-me tanta falta. Conservo-os na memória que tem o condão de torná-los ainda mais dourados que realmente foram. Todavia eles se foram sem pedirem-me permissão. Apenas abandonaram-me aturdido nesta vida. Talvez seja a ausência deles que me pese sobremaneira no espírito. E houve canções. Algumas inesquecíveis, outras que se apagaram, deixando apenas uma leve lembrança. Mas todas me marcaram de alguma forma. Sou o que se segue as claves de sol. E nos meus momentos mais graves fiz de minha dor uma canção. Às vezes sou doce como Debussy. Meu canto não pode ser ouvido, mas lido, como se convertesse notas musicais em palavras doloridas que se derramam sobre o papel.

Estou no limiar da dor, quando os homens tornam-se insensíveis ao sofrimento. Uma ferida que se cicatriza em meu coração, tantas vezes sacrificado. Já nem sofro mais. Talvez as lágrimas tenham se extinguido, não há mais como chorar. Mas sei que, de alguma forma, ainda dói. Doerá para sempre, pois esta mágoa está tatuada em mim.  Estou condenado a penas cruéis: à lembrança que me sevicia, à saudade que me sufoca e à solidão que me atormenta. Estou apavorado diante da vida. Paralisado diante da realidade, com suas feições pavorosas, causando-me pânico de ter de continuar sozinho. Já sonhei, confesso. Sonhos ingênuos tão delicados quanto asas de borboletas. Sonhos são frágeis. Um descuido, e todos os seus desejos convertem-se em arrependimentos. Ou em ridículas promessas, que jamais serão cumpridas. Hoje sou como alguém que perdeu o último trem para a felicidade. Esquecido na estação. Sem poder chegar ao destino desejado.

Sobrevivo a cada dia. E desfaleço a cada crepúsculo. Na roda do destino estou em franca decadência. Eis a minha vil existência, minha vida medíocre e ridícula. Cujos obstáculos a minha cavalgada se mostram intransponíveis. Minha história é triste como um fado. Queria saber contar histórias felizes. Aquelas que começam com “era uma vez” e terminam com “e viveram felizes para sempre”. Mas sempre pensei em mim como uma carruagem desgovernada a beira de um precipício. Sou fatal. Uma doença incurável. Uma melancólica carta de despedida. Haverá ainda como retomar as rédeas de minha vida e conduzi-la pelo caminho correto? Se reivindicar minha autonomia sobre minha existência, não mais me submeter aos desmandos do destino e viver realmente e não mais apenas sobreviver, poderei assumir o comando de minha vida? Renasceria com a alvorada que se anuncia e não mais me deixaria esmorecer diante dos mais terríveis desafios. Ainda há tempo. Só não sei ainda como fazê-lo. Mais importante que renascer é ressuscitar. E volto novamente à vida.

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Metal contra as nuvens

 

Giordana Medeiros

 

Juntando os cacos do que restou de mim. Não sobrou muita coisa. E nunca é realmente nunca. Doeu imensamente, mas esta dor vai passar algum dia, eu sei. Talvez não agora, pois a ferida ainda sangra e choro sem nenhum motivo aparente, mas há razão para minha tristeza. Quando Ícaro não pode alcançar o sol tombou no mais profundo precipício. Não foi nem a dor da queda, mas ter os sonhos quebrados com a mesma frieza. Da mesma maneira. Não devia ter voltado a acreditar. Fui um tolo. Voei alto, junto aos condores. Quando deveria ter mantido meus pés firmes no chão. Eu que me prometi centenas de vezes, outrora, não mais me apaixonar. Como impedir meu coração de iludir-se tão facilmente?

Minha dor explode em lágrimas. “Quando ela foi embora se fez noite em meu viver”. Sofri e mesmo já tendo vivido esta dor inúmeras vezes, desabei como se houvesse perdido meus alicerces. Agoniza meu coração, agora, eternamente. Tentando entender porque fui abrir minhas defesas e entregar-me de novo, ingênuo, a quem jamais me amou. Tudo que fiz foi apaixonar-me, acredito que pela derradeira vez. Porque não mais me entregarei, sem pudores, a nenhuma mulher. Creio que minha alma cheia de feridas e cicatrizes não será alvo de nova investida amorosa. O amor inspira sofrimento. E não mais estou disposto a sentir tamanho tormento. Não me resta nem mesmo uma única gota de paixão no coração. Esvaiu-se diante da dor. Estou alto e seco. O que será de mim?

Não acredito em ninguém mais, nem em mais nada. Não sei mais o significado da vida e não deposito minha fé nos homens. As pessoas tão egoístas com seus mundos particulares dos quais sou sempre excluído… Então, criarei meu próprio mundo também, onde não haverá nada, só o solo inóspito de meu espírito. Não mais concederei abrigo àqueles que desejam somente zombar de minha devoção. “- Sofre as agruras da solidão! Idiota! Quem lhe permitiu sonhar? Não vê que lhe é vedado acreditar?” Vivi um vislumbre de felicidade, mas foi somente ilusão. Uma miragem no deserto de minha vida. “- São sinceros seus sentimentos, mas quem se importa? Não há quem se solidarize com seu sofrimento.” Estarei sempre sozinho no mais doloroso dos abandonos. As lágrimas que não consigo reter salgam-me os lábios. Provo o sabor da rejeição novamente, gosto conhecido e tão desagradável ao paladar quanto ao coração. Mas suporto este dia como se fosse o último. E um novo dia nascerá amanhã. Com o tempo, as novas feridas cicatrizar-se-ão.

A vida é assim: uma sucessão de dores alternando-se com desejos de felicidade. Entretanto não há outra saída que suportar a existência. Sentença que nos é infligida. Pena perpétua aplicada aos homens da qual não se pode escapar. Haverá sempre a tentativa insana de fugir da vida. Mas não se sabe o que a não existência nos reserva. Provavelmente, o vazio infinito, não ser, a ausência de tudo. Um único sentimento invadir-me-ia, condenado a solidão eterna: o remorso de não ter resistido o quanto podia, de ter me entregado quando sofri apenas o primeiro ataque. Sou minha própria fortaleza. E é meu dever suportar as investidas cruéis do destino. “-Engole o soluço, seque as lágrimas e levante como se não houvesse se ferido! Como se a dor não fosse insuportável! Resiste duramente! Ergue a espada e lute pela vida!” Assim me recupero de toda mágoa.

“Sou metal, raio, relâmpago e trovão. Sou metal, sou o ouro em seu brasão. Sou metal me sabe o sopro do dragão. Não me entrego sem lutar tenho ainda coração. Não aprendi a me render, que caia o inimigo então.” Esta dor que me atormenta passará. Não haverá vestígios dela pela manhã, mas há a madrugada em que estamos sós. E no rádio uma canção triste leva-me às lágrimas. “Tudo passa, tudo passará.” Vou conseguir reerguer-me como uma cidade após o terremoto. Um abalo sísmico em meu espírito. Mas o coração ainda pulsa sôfrego, insano, puro. As madrugadas gélidas são a penitência de meus dissabores, desamores, desespero, desengano. Despido de minhas ilusões, sou apenas essência. O que há de mais sincero em mim. E nestas linhas revelo-me todo. Sem disfarces. “A arte e a fuga da emoção pessoal” Nas palavras de Joyce. E a canção continua. O mundo continua. “E nossa estória não estará pelo avesso assim. Sem final feliz. Teremos coisas bonitas para contar. E até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe para trás – apenas começamos. O mundo começa agora – apenas começamos.”

Apenas começamos. Este é meu primeiro dia.

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Feliz Aniversário para Alanis Morissette e seu irmão Wade Morissette. Happy Birthday!!!!!!

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