Chega de Saudade

 

Giordana Medeiros

 

Entre as folhas que caíram no outono, no som suave da bossa de Tom e Vinícius, nos seus antigos livros que insisto em abrir somente para sentir seu perfume, nas frases soltas num momento de raiva que agora ressoam dolorosas em meu espírito; em todo lugar, sem que precise procurar, lá está você. Mesmo que sua presença física não esteja realmente presente, você estará eternamente gravada em minha memória. É tão difícil dizer adeus a tudo isto. Ainda sei seu número de telefone, quantas vezes já não o disquei e desisti da ligação antes do primeiro toque… Às vezes tudo que queria era ouvir-lhe a voz. Para satisfazer meu vício de você. A abstinência de quem amamos é sofrida. E o único remédio para este mal é o tempo que teima em se arrastar quando não estou em sua companhia.

As músicas já não têm o mesmo tom. Com você era tudo tão sonoro, era a música em minha vida. Agora tudo que tenho é o silêncio, a angustiante ausência de som, a ausência de tudo que me era mais caro. Uma madrugada, destas em que não se consegue dormir, escrevi-lhe uma canção. Não creio que seja apenas uma música qualquer. É um hino, uma elegia a tudo que você representou para mim. As notas surgiam como se sempre houvessem existido e acredito que esta poderia ser a sua música. Mas estou certo que jamais chegará aos seus ouvidos estas notas perdidas nas madrugadas frias de Brasília. É só Bossa, uma nova, mas também tão antiga, forma de se criar canções de amor. Há uma lua redonda no céu esta noite e o luar pousa sobre a cidade, delicadamente, um véu de luminosidade que revela insones amantes. Quanto tempo faz nem me lembro, dedilho o violão, entôo canções românticas que outrora partilhamos. Momentos inesquecíveis que vivemos, mas que agora existem somente em nossas memórias.

A noite clama por sua presença, ao longe pareço escutar sua voz. Onde você estaria agora? Em que vielas lúgubres haveria se metido? Tão distante de mim, de meu mundo que um dia entreguei-lhe solicito para tomar conta e devolveu-me totalmente desestruturado. Você era minha viga mestra. A base de minha existência. E hoje não tenho forças suficientes para continuar seguindo. “Sempre em frente”. Era o que me dizia a cada queda que eu sofria. A cada rasteira que levava da vida traiçoeira. E agora como posso seguir sem você? Sinto-me como um cachorro abandonado pelo dono, perdido sem poder retornar para casa. O abandono me desorientou. Não há cartas náuticas que me guiem, pois minha bússola só aponta para você. Era meu norte e escrevia meu caminho. O que posso fazer com esta dor pungente que me inflige sua ausência? E se lhe telefonar? Atenderia a minha ligação? E se ouvisse outra voz ao telefone? Um outro alguém que tomou meu lugar em seu coração? Acho que não suportaria tamanha dor.

Poderia enviar-lhe as partituras da canção que lhe escrevi por correio. A música que compus no inverno dos amores. Uma canção quente para derreter o gelo de sua indiferença. Você era meu caminho, agora não sei por aonde ir. Não acho as palavras certas para dizer-lhe o que sinto. Sei que ando tão triste… Meu coração, antes iluminado por seu amor, vive as trevas da solidão. É tudo que me resta, esta minha única e derradeira companheira, ocupando todos os espaços, derramando-se sobre mim, preenchendo os vazios que você deixou em meu espírito. Nem sei se tenho coragem de dizer o que me perturba neste momento. Se um dia você vier ler estas linhas sofridas espero que o faça de coração aberto, com o que resta do amor que outrora acredito que sentiu por mim. Os minutos transformam-se em horas, as horas em dias, os dias em semanas, depois meses, anos e décadas. E mesmo após todo este tempo, você continua sendo uma parte essencial da minha vida. Estou no labirinto do minotauro, e não sei com que artifícios posso encontrar o caminho de volta ao seu coração. Quero voltar, mas receio que não me aceitaria. Entretanto quero que seja bem feliz, mesmo que seja ao lado de um outro rapaz. E espero que tenha filhos. Extensões de você. Sementes de sua existência para que sua presença perdure neste mundo.

Enquanto a mim, não se preocupe, ainda me restam estas partituras de uma música que jamais se ouviu, claves de sol seguidas de lamentos doces. Canções de um amor que não terminou. “Amo-lhe tanto meu amor”. Repito horas a fio este refrão de minha vida. A cada instante confesso meu amor sem mistério, sempre coberto de virtudes e, ainda, tão sincero, mas que não comove seu coração inclemente. E todas as notícias que tenho suas fazem-me crer que se esqueceu realmente de mim. Não há sequer vestígios de mim em sua vida. Todavia você deixou-me marcas indeléveis. Cicatrizes profundas que me marcaram eternamente. Não posso ser feliz sem você. Estou certo disso. Você é a inspiração de todas as minhas canções. E tudo que escrevo, de alguma forma, é para você. As fotografias guardam nossos momentos felizes. Você pode não se recordar, mas houve momentos assim. Foram instantes preciosos levados pelas corredeiras do tempo. Será que me esqueceu de fato? Ou ainda tenho alguma importância em sua história?

Você nem me devolveu as cartas que um dia escrevi-lhe. Todas minhas patéticas confissões amorosas que não mais têm espaço em sua vida. Estou tão desnorteado desde o dia que me deixou. Tão sozinho… E a distancia favorece a minha dor. Às vezes creio que a solidão é-me o reflexo. Ou provavelmente o meu avesso. Sou na verdade um louco alucinado atormentado por um sentimento que se esvaiu em dor. Se pudesse ouvir a música que provém de meu coração. Percussão compassada de meu sofrimento. Ouço músicas antigas de um tempo que não retorna. Provavelmente você nem se lembre mais do que foi, nem mesmo do que poderia ter sido. E o que me resta são as lágrimas, que um dia extinguir-se-ão também. Quando nada mais terei, a não ser a dor, a solidão e a saudade. Ainda tenho esperanças que um dia retorne. Como de costume pedir-me-ia para abrir o portão, pois se esquecera das chaves. Mas “cada coisa tem seu tempo a seu tempo”. Já dizia Pessoa.

A vida é incerta, quem sabe não retorne para mim realmente? Eu estarei sempre aqui, onde me deixou. Pacientemente esperando sua volta. Enquanto isso a vida acontece a minha volta. “Sei que nunca amamos alguém. Amamos tão somente a idéia que fazemos de alguém. É um conceito nosso. Em suma é a nos mesmos que amamos.” Pessoa novamente. E de você nunca soube nada. É-me uma completa estranha. A idéia que faço de você é uma ficção minha. É um retrato que criei para amar. Uma musa inspiradora que após tantos anos de separação, creio conhecer, mas na verdade desconheço tudo. O que é você? Quem é você? É uma ilusão apenas? Será um fantasma que me assombra? A soma de todos meus desejos mais recônditos? Por que me impõe esta dor imensa de esperar-lhe em vão? Acreditando tolo que um dia retornará para mim. Uma fé invencível. Uma espera infinita, que já não mais suporto. Sei que minha tristeza não lhe alcança. Está bem sem mim. Meu único desejo, a razão de minhas preces, é que regresse, pois sem você não posso mais viver. Não há paz. Na letra de Tom e Vinícius, ao som de João Gilberto, digo que a “tristeza e a melancolia não saem mais de mim”. Determino, com minhas débeis forças, chega de saudade: “não quero mais saber desse negócio de você longe de mim”. Mas, indisciplinada, você não retorna.

 

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Uma opinião sobre “

  1. Que lindo isso, tão sonoro, muito muito mesmo … as vezes confundo a apreciação da obra com a aflição do personagem … mas … em termos literários, devo deixar claro, belíssimo texto, mais um né minha cara?
    Bjs, e espero q estejas bem.

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