Reflexões em frente ao mar

 

Giordana Medeiros

 

Poderia ficar aqui só observando o mar. Salgado, salgado. Lágrimas também são salgadas. Mas a dor é doce. Como o solo de um violino. Já o violoncelo é grave. Sisudo. Poderia haver dias assim sempre. Quando molho meus pés nas ondas que vem ao meu encontro, elas puxam a areia em volta deles. Entretanto não as deixo me levarem. Muito embora queira lançar-me no mar e morrer tal qual Alfonsina Storni. Ilha de sentimento circundada por um mar de desilusões. Às vezes é bom sofrer. Torna a alegria mais fantástica mesmo que ela seja somente esporádica. A espuma branca das ondas que quebram deságua em mim despojando-me de meus sonhos. Vejo-os sendo levados mar adentro, náufragos dessa minha nau a deriva. E tudo isso me traz de volta lembranças tristes, de minha infância perdida, de minha juventude sacrificada, de anos que passaram somente no tempo, mas permaneceram eternamente gravados na memória.

Lembro que, quando criança, minhas irmãs faziam-me todo tempo reconhecer ser a mais feia das três.  Era tão desengonçada e ridícula. E naquele tempo os adultos, por pena de meu constrangimento, diziam-me que, quando crescesse, como o Patinho Feio, tornar-me-ia um belo cisne. Estou muito distante de ser um cisne. E mesmo tendo amadurecido não desabrochei completamente. Sou um botão encruado… Existem pessoas que arremessam rosas ao mar para Iemanjá. Eu lanço minhas lágrimas para quem quer que seja. Netuno talvez, sereias provavelmente… O horizonte parece tão distante. E vejo, ao longe, barcos à vela que deslizam calmos no oceano plácido. Se tivesse a beleza de minhas irmãs provavelmente não sofreria tanto nos assuntos relacionados ao coração. Sempre fui rejeitada por todos. Acho que não sou uma boa companhia. Ou talvez assuste aos outros a minha aparência tão estranha. Minhas irmãs tinham todos que elas bem entendessem. Eu nunca tive ninguém. E quem me interessava era rapidamente fisgado por elas. Não havia tempo para mostrar-me interessante também.

Contudo não interessa a ninguém uma garota como eu. Sempre preterida, esquecida por todos, deixada de lado como a um objeto desagradável. Se pudesse lançar meu corpo nessas ondas para que o mar me trouxesse outro, mais aprazível às pessoas, que as fizessem notar-me finalmente… Óbvio que não há possibilidade do mar presentear-me assim. Pode trazer-me mensagens em garrafas, de pessoas distantes, tentando diminuir sua solidão. Mas nunca uma maneira de dar cabo a minha. Quando as águas encharcarem-me os pulmões em que pensarei? Um último instante de lucidez num ato desesperado. Sei bem em quem pensarei, mas não há um caminho que me leve ao seu olhar. O som das ondas é relaxante. Batem nas pedras com violência, desmanchando-se em espuma. Como se fervilhassem. Água em ebulição. Sentimentos em ebulição. Borbulhando em minha alma. Ninguém me vê. Sou invisível. Desprezível.

Hoje o sol se pôs ao som do Bolero de Ravel. E da praia observava-o ser engolido pelo mar. Gosto do oceano mesmo que more tão distante do litoral. Brasília tem o seu céu, infinito, azul brilhante, onde os pensamentos viajam sem destino, com nuvens fofas em que se vêem tudo que a imaginação determinar. E elas sempre me mostram o que não quero ver. A lua surge finalmente, recepcionada por estrelas minúsculas, mas nem por isso menos belas. Todavia não estão sozinhas, existe o universo ao seu redor. E ao meu lado não há ninguém. A tristeza talvez. A solidão eternamente… A maresia deixa tudo um pouco úmido. A brisa do mar assanha-me os cabelos. É tão bom sentir o perfume do oceano. Algas sobre a areia, conchas que as crianças catam para suas brincadeiras. Eu guardava minhas conchinhas por tanto tempo depois que voltava do litoral… Existem tantas conchinhas nas praias quanto estrelas no céu. E nenhuma jamais me trouxe uma pérola quando a abri. A concha guarda no seu interior o que tem de mais precioso. Sou uma concha que enclausura a beleza em sua alma. E a alma é-nos exterior? Ou fica dentro de nós?

Há as marés que tornam o mar mais bravio. E nas ressacas ele ultrapassa o limite das praias penetrando na cidade ao redor. O que escrevo tem a força das ressacas do oceano. Insere-se com força, penetra no espírito. Mas não retorna. Faz dele sua morada. O luar reflete-se nas águas, pálido, faz o oceano competir com o céu em luminosidade e beleza. No litoral do Brasil as noites são quentes e as pessoas ficam macilentas. Mas as noites frias de Brasília são mais fiéis ao meu desconsolo. Provavelmente porque tenha me habituado ao frio do outono e do inverno da capital. Noites frias em que a minha vigília se perdura nas madrugadas de solidão profunda. Uma dor aguda que se apossa de mim. Um dia um monge budista muito sábio disse-me algo que me marcou muito: ele disse que “pensar viagens toda noite leva-me sempre a um pouso diferente, mas o sonho que sonho é sempre o mesmo: um lar”. Acho que preciso um pouso para acalmar-me o espírito, que não sejam as águas mornas desse mar que me chamam insistentemente.

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3 opiniões sobre “

  1. É sonoro, singelo, poético e desesperador.
    Esse tom desabafo, com um quê de melancolia e lamentação pintou toda uma cena, formou-se um quadro. E vejo sim, um belo cisne na lagoa de águas claras que repousam nesta obra de arte!
    Bjs amiga.

  2. O comentário acima já diz tudo. Espero que encaixe no seu coração. 😉

    Lembra-se de “pegar as roupas no varal”? Eu disse pra você que tinha passado por minha mente algo de bom.

    Queria agradecer muito, muito, muito, só por aquela conversa. Um forte abraço pra ti.
    se cuida.
    🙂

  3. Mary

    Muito triste seu personagem. Não vejo nada de feio no personagem.
    Embora se ache o patinho feio, há quem o ache o mais lindo cisne pois o que se tem por dentro é mais bonito do que se vê por fora. Esse cisne precisa brotar e aparecer mais. Precisa desfrutar das ondas e do Boleto de Ravel com seu lindo pôr do sol.
    Beijos.

    Mary

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