Apenas mais uma carta de amor

 

Giordana Medeiros

 

Hoje pensei em você. Aliás, penso em você todos os dias, durante as noites também. Nas madrugadas frias é sua imagem que me conforta e aquece. Quando entro no metrô, as luzes que passam velozes não me ofuscam, pois meus olhos estão a observar as estrelas. Só que diferente das demais, você é livre porque não lhe prendem constelações. Eu penso em você de diversas formas, com paixão, amor, desespero, dor, mas, a maioria das vezes, é com a inocência de quem vê o mar pela primeira vez, que minha mente lhe contempla. Duvidando da imensidão inalcançável, molhando-me com cautela, pois estou pasmo diante de tão fatal beleza. É seu olhar que me orienta pelos meus caminhos tortuosos. E seus olhos brilham para mim, são o farol que guia minha nau pela mais terrível tempestade. Às vezes fico imaginando o que você estaria fazendo, as músicas que estaria escutando, e procuro entre meus discos as canções mais belas para ouvir, confesso que são um tanto cafonas, mas todas as canções de amor não são assim, meio bregas?

Certa vez ouvi o canto de um rouxinol, pensei se alguma vez você teria escutado o cantar de um rouxinol. E isto também me fez lembrar você. Queria que visse todas as coisas belas, que vi e queria lhe mostrar e nunca tive oportunidade. Aprendi tanto nestes anos que passaram, como encontrar uma beleza sutil nas coisas mais ínfimas. E ainda a perdoar e pedir perdão. Será que você me perdoa por todos estes anos que perdemos? Esperei por você cada segundo. Tenho certeza que esperaria toda vida. Já passou tanto tempo… E você continua entre minhas melhores memórias. Aquelas que resgato há todo momento. Pode não acreditar, mas não penso em você com lascívia. Penso coisas doces e tolas que lhe fariam rir sobremaneira. Queria falar-lhe sobre tudo que ocorreu comigo durante estes anos. E queria que me contasse sobre as mudanças por que você passou também. Sei que amadureci muito, tanto quanto você. Se soubesse sobre os sentimentos que me rasgaram o espírito, sobre a dor que se apossou de mim, sobre todo meu sofrimento, todas as coisas contundentes que teimam em ocorrer comigo… Será que se emocionaria com minha imensa dor?

“Il y a toujours quelque chose d’abissent qui me torment.” Camille Claudel escreveu isto numa de suas cartas a Rodin, antes de morrer apaixonada, louca e abandonada num hospício. Tenho certeza que tudo que me falta é você. Esta carta tem sido uma das mais difíceis que escrevi. As palavras faltam-me e não quero que pareça uma simples e melosa declaração de amor. Mas no fim é isso mesmo, o que se há de fazer? Queria deitar-me em seu colo e deixar-me ficar horas só escutando sua voz. Ficaria encabulado se lesse realmente estas linhas tortas. É somente uma baboseira romântica. Acredite: nunca criei algo tão pueril. E as palavras tropeçam umas nas outras, como se falasse para você, face a face, tudo que senti, sinto e sempre sentirei. Estou “preso a canções e entregue a paixões que nunca tiveram fim”. Às vezes preferia que me dissesse não, de uma vez, seco e ríspido, para que pudesse sofrer completamente. Há sempre um “se”. E tudo fica pela metade: meias paixões, meias dores, meias realidades. Mas é tudo um sonho, não? Foi sempre tudo um sonho. Sem a mínima possibilidade de vir a realizar-se.

“Longe se vai sonhando demais, mas aonde se chega assim?” Nunca chegarei a lugar algum, pois nosso amor, ou melhor, o meu amor não é algo comum. Às vezes acho que não passa de um desvario. É tudo uma ilusão. E tenho medo de entregar-me de novo a este sentimento. Já sofri tanto que tenho receio de machucar-me novamente. “Suspiro quando penso em você. Mas chorar, só choro às vezes, e é tão freqüente.” Sei que pareço um pouco tolo, meio melodramático, por que não? Acho que sou, na realidade, um tanto ridículo. Não ria de mim. São coisas tão puras que surgem em minha mente quando penso em você. Um pensamento frágil que é vezemquando interrompido pelo som da campainha ou do telefone. Todavia depois retorno. Retornarei sempre. Até o dia que nunca seja NEVER. Diga-me logo: há alguma possibilidade para nós dois? Para mim? Livre-me desta aflição que me atormenta há anos. Ando muito amargurado, e prometi-me centenas de vezes não voltar a procurar-lhe. Mas você sempre deixou a porta aberta. E eu teimo em voltar. Pode ouvir meu coração? Ele é puro som. Um noturno de Chopin. Talvez o Bolero de Ravel. Será que pode escutar como bate intenso, trôpego e patético? Estou meio zonzo, é que quando penso em você desligo-me do mundo. E pode cair uma bomba ao meu lado, acontecer um terremoto sem que nem perceba. Mas você jamais estará ao meu lado. E é tão dolorido saber disso. Tenho certeza que se me amasse realmente, não teria me evitado por tanto tempo. É tão difícil ser racional. Pode não parecer, mas não sou um alucinado. Você sabe: “I’m too pure for you or anyone.” Veio-me agora este verso de Sylvia Plath.

Está frio aqui, vou colocar um casaco. Onde anda você que não me aquece nestes dias tristes? Sabe, já é outono, as árvores em breve estarão despidas. E os pores-do-sol aqui em Brasília estão cada vez mais belos. Estou escrevendo de madrugada e o sono já vem chegando. Luto inutilmente contra ele. E fico pensando que sonhos você estaria vivendo. Deixar-me-ia participar de seus sonhos? Um dia sonhei que sonhava comigo. E tudo no seu sonho, que era o meu também, era doce e singelo. Mas não sabia se era seu sonho realmente ou apenas o meu. É tão difícil ter certeza, pois, com você, tudo é tão divinamente imprevisível. E eu sou um descrente porque não acredito mais nos meus olhos, mesmo que tudo pareça tão lógico cuja veracidade não se duvide. Tem de ser mesmo assim? Meu amor é tão evidente, mas com você tudo permanece incógnito, invencível, inviável. Como traduzir o que sente realmente por mim? Eu já planejei tantas formas de lhe dizer amo você. E fico repetindo: amo você, amo você, amo você. Até que o sono vence e nos meus sonhos continuo repetindo: amo você.

 

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4 opiniões sobre “

  1. Nossa, senti tudo! Todas as palavras e todas as sonoridades. E confesso, extremessi com o trecho de “caçador de mim” …. putz, eu ouço muito esse som, e sinto muito o que escreveste assim, ora num tom de devaneio, ora num tom de desabafo, como todos os teus clássicos em 1º pessoa, eu amei !
    Bjs

  2. Alex

    Muito belo… como vc.
    Alex

  3. oi Giordana!
    “Apenas mais um texto rico em palavras”.
    Nem precisamos mais fazer aquele acordo que fizemos. Parabéns! ótima obra.

  4. juliana vieira

    Nossa quando comeceia a ler desejei q naum tivesse um fim!
    Me vi totalmente ludibriada em cada linha q eu q li. Bom.

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