Uma crônica que nunca estará na primeira página do The New York Times

 

Giordana Medeiros

 

Moscas zonzas pairavam sobre nossas cabeças. Um odor nauseabundo lembrava todo instante a pobreza daquele lugar. Tudo tão sujo que me levava a crer na imundice também de nossos espíritos. A podridão dos homens. A decomposição das almas. Tudo feio e carcomido pelas intempéries: chuva de orgulhos, seca de compaixão, frio de sentimentos. Um retrato do passado corroendo o futuro. Almas penadas perambulavam próximas de nós sob o sol de meio dia. Quente, árido, sujo. Os nossos lábios secos que recusavam orgulhosamente um gole daquela água de procedência duvidosa. A pobreza resplandecia cobrindo como um véu a imagem das pessoas. Pessoas sem nome que se arrastam pela vida. Crianças aflitas berravam pelo mingau ralo que provavelmente seria sua única refeição do dia. Os barracos de madeira e lonas plásticas surgiam do chão tal qual feridas e em volta de tudo, o lixo e o esgoto se acumulavam. Uma garotinha passou por nós com um pedaço de madeira entre as pernas, um simulacro de um cavalo, a princesa da miséria sobre seu corcel.

Fotografávamos tudo, eu e mais dois amigos, como urubus sobre a carniça, explorávamos ao máximo aquela imagem. Tínhamos como objetivo retratar a oposição entre a miséria e a opulência para um trabalho escolar. Foi-nos incumbido, o dever de retratar a miséria com sua imagem tão desagradável, a que fechamos os olhos, a que negamos nossa piedade. Com uma câmera na mão, confesso que não esperava algo diferente, mesmo assim me choquei com aquela visão. A miséria é degradante. Leva as pessoas a condições subumanas. Pessoas que vivem como animais: chafurdando o lixo em busca de algo comestível. Não importa o sabor, não importa o cheiro. “O bicho, meu Deus, era um homem!” Comendo os restos sem pudores, com a boca aberta deixando à mostra a dentição putrefata. Mastigando a vida para poder engoli-la com mais facilidade. Desesperadamente fechei os olhos, que não conseguiam crer naquela realidade. Naqueles barracos de madeira equilibrando-se sobre o chão, minúsculos como jaulas. Nem animais viviam em tais condições. Bati o máximo de fotografias possível. Um pouco enjoada, não pelo lugar, não pela pobreza, não pelas pessoas, não pelo lixo; mas por mim, pela minha apatia diante dos horrores da miséria; encostei-me numa árvore próxima. Eu que tinha tanto e não me importava com os que tinham pouco. Guardo até hoje a imagem da menina com seu “cavalo de pau”, para poder despertar-me quando me acomodo muito.

“A sociedade é desumana mais sei que ainda temos chance”. Fechamos os olhos para o que é feio em nosso país. Escondemos nossas favelas, nossos escombros da guerra pela sobrevivência. Como quem esconde o lixo sob o tapete. Mas há um momento em que tudo vem à tona. E nossas favelas estão ali: bem diante de nossos olhos. Batem com força em nossos rostos, para que sintamos na pele a dor daquelas pessoas. As cicatrizes do capitalismo. A desigualdade gritante que divide o mundo em submundos. Uma família feliz em volta de sua piscina. Opulência, desperdício, arrogância. Contrapondo-se à miséria absoluta: uma família paupérrima circundada de fezes e lixo. E há pedintes nas ruas, nas calçadas, implorando nossa misericórdia para que lhes entreguemos centavos de nossa piedade. E arrogantemente voltamos nosso rosto para o lado, para não ver. Para não ver!  Recolhemo-nos em nossos mundos de grades e câmeras a fim de nos protegermos deste mundo tão hostil que nos afronta com suas feições tão feias.

E lá estava a família sob a lente de minha câmera, assustada pela intromissão de alienígenas em seu mundo. Crianças tão limpas, tão bem vestidas, com roupas engomadas querendo usurpar-lhes aquele pedaço de lixo. Então, aquelas pessoas tão sofridas, tímidas e temerosas não fitavam a câmera diretamente. Tinham medo da luz porque viviam nas trevas. Tinham vergonha de sua condição, mas não nos agrediam. Não da mesma forma que nós três o fazíamos, com nossa câmera indiscreta revelando, descobrindo, destacando. Fugiam de nós como se fossem índios. Mas os incivilizados éramos nós que não pedimos para entrar no mundo que os pertencia. Éramos os invasores, que, tal como fizera Pero Vaz de Caminha, relatávamos a nossa expedição a esta terra inexplorada. Onde a pobreza dominava e não havia o conforto de nossos apartamentos de classe média, nem mesmo o asseio que se revela no mundo moderno. Lixo, descaso, miséria. Onde políticos embriagados com a própria voz desfilavam corajosos, beijavam crianças e prometiam, prometiam…

Nós adentramos, naquela realidade, munidos de uma arma. Uma câmera que revelava, principalmente a nós mesmos que havia algo por trás da beleza de nossos monumentos, encravado em nossa pele, uma ferida para qual existe cura, mas negligenciamos-lhe os cuidados fundamentais. E ela cresce numa velocidade assustadora. E vai tomando nossa cidade, vai cobrindo o Planalto Central, um mar de barracos, que são relocados para as cidades satélites distante dos centros turísticos para que ninguém veja o que fazemos com nosso povo. E não há quem faça algo. A violência inflige medo nos mais ricos, e a miséria o inflige nos mais pobres. É uma luta pela sobrevivência. Mas quem se importa? Num mundo cuja indignação não ultrapassa as janelas de nossas casas? Onde permitimos a violência contra os monges no Tibet, e o massacre da população do Iraque? A desigualdade econômica num país de terceiro mundo jamais ocupará as primeiras páginas de um jornal como o The New York Times. Porque somos egoístas. Não nos comovemos. Eu nunca mais retornei àquela invasão. Tenho certeza que meus amigos também não. Cruzei meus braços, fechei meus olhos e resignei-me com a parte que me cabe neste mundo, sem me preocupar com o que falta a tantos. Só que hoje revi minhas fotografias e a menina com seu “cavalo de pau” fez-me reviver aquele dia. E da minha revolta nasceu esta crônica, que nunca estará na primeira página do The New York Times.

 

 

 

 

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | 1 Comentário

Navegação de Posts

Uma opinião sobre “

  1. Bá … minha cara, lembrou-me meus primeiros textos esse ai, nossa, política, economia, desigualdade social e de fundo uma pincelada de “quando o sol bater na janela do teu quarto”.
    Gosto desse ar crítico, apesar de achar tão bonitinhos as crônicas que incentivam, incorajam … mas nao seria o caso desta?
    Adorei, só pra me tornar assim, bem clichê!
    Bjs
    Elis.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: