Arquivo do mês: abril 2008

Quando Ícaro não pode alcançar o sol

 

Giordana Medeiros

                       

Que estrondem tambores, que os pássaros cantem e que tudo se torne belo e colorido. Ela disse sim! Ela aceitou-me finalmente. E por um segundo fui tomado do mais esplendoroso êxtase. Tudo que sofri apagou-se por completo de minha memória porque ela disse: sim. Assim como quem concede uma benção, ou como quem profere uma sentença. Ou, ainda, como quem produz a cura para toda dor. Saibam: existe o amor. Puro e singelo. Como se imagina que ele seja. Como deveria realmente ser. Amor apenas, como definir? Sei dizer o que é meu coração. Ele é um disco arranhado que só toca a mesma nota. É uma ave perdida no meio do oceano. É o som do vento por entre os galhos das árvores no temporal. E tudo que ele é não me pertence. Doei-o alegre, anos atrás. E nunca mais me foi devolvido. Esteve sempre esperando que, por um instante, com minhas asas de cera e penas, pudesse alcançar o sol. Não temo a queda inevitável. Quando Ícaro não pode alcançar o sol, caiu para o fim. Todavia para mim não haverá fim, mas um começo feliz. Não há abismo, só o olhar de quem venero. Sei que posso vir a me ferir, mas por mais perigoso que possa parecer, lançar-me-ei nesta aventura.

Escrevo de improviso e não tenho idéia do que estou criando. É o rebentar de meu coração, que não se agüenta de tamanha felicidade. Acho que não consigo conter meu entusiasmo. E o que escrevo já nem compreendo mais. Ela tocou-me o espírito e coloriu-me a vida. E disse de modo que não pudesse me confundir. Uma forma concreta, e tão estranhamente lúcida, de dizer: sim. Sim apenas. Somente sim. Uma palavra que não foi proferida com os lábios, mas com os olhos. Um simples olhar e pude perceber que ela não se esquecera de mim. Como também não consegui a esquecer. Eu quero viver uma história romântica, ao som de Debussy. Ou ao som do silêncio de um sorriso. Tanto faz. E se a canção for outra, não me importo. O que importa mesmo é que ela iluminou-me a existência. Como Midas transformou-me em ouro com um único toque. Mas sem tragédias… Hoje o mundo floriu para mim. E quero sorver até a última gota esta alegria que me toma.

Não sei se me expresso bem. Existe uma grande diferença entre o que sentimos e o que falamos. As palavras estão muito longe de representar, verdadeiramente, em sua completude um sentimento. Tempos atrás, fui tomado de um medo de não amar. Muito pior que o medo de não ser amado. Fugi de meus sentimentos. Por que cria que estava imune ao amor. Fechei-me por completo. Talvez por ter sofrido deveras. Ou porque não conseguia esquecer a causa de minha dor. Mas eis que novamente ressurge uma paixão antiga, fulminante, e apossa-se novamente de mim. Faz-me prisioneiro. E não tive outra escolha se não aceitar novamente o amor. Esta palavra sagrada.  Ela envolve-lhe por completo e tem somente quatro letras. Ela arranca-lhe suspiros, mas possui apenas duas sílabas. E causa tanto sofrimento que está sempre relacionada à dor que é monossílaba. Estranho, não é? Mas que entendo eu de sofrer? Quem foi que me ensinou o que é sofrer? Não posso dizer que sofro. Pode haver dores mais agudas que as minhas. Feridas mais profundas que as que carrego em meu espírito. Minhas dores tão patéticas frente a uma dor incomensurável. Por que, afinal, estou a falar de dor? Se quero ressaltar minha alegria? É que me acostumei ao sofrimento e este se tornou imanente a minha vida.

Está anoitecendo. Na verdade, não sei se está anoitecendo ou amanhecendo. Não dá para dizer com essa luz tão pálida em meu quarto. Uma luz que não vem de lugar algum. Apenas ilumina docemente, sem tocar em nada. E fico um minuto em silêncio esperando que o dia se defina. E não há nada em volta. Eu com um sorriso nos lábios aceito este momento especial. Quem não quer ser amado? E amar pode ser bom também. Escrevo agora, sentado sob a luz diáfana, de uma tarde, que pode também ser madrugada. Estive tanto tempo escrevendo que perdi a noção do tempo e espaço. Não reconheço meu quarto sob esta luz. É como se a lua desaparecesse sob as nuvens e deixasse sua luminosidade, que cai suavemente sobre os móveis. E tudo sob o som dos pingos de chuva batendo nas janelas. É tão estranho chover no outono. É como se meu amor mudasse o curso normal do clima. Talvez tenha mudado também a trajetória do tempo. Tantos anos se passaram e é como se nada houvesse mudado. Estou apaixonado novamente! Quero gritar. Sabendo que ninguém irá me ouvir. E se ouvirem o que me importa? Estou tão feliz que se minhas asas de cera derreterem, com certeza não sentirei meu corpo cair. Estarei pairando sobre as nuvens.

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                                     Apenas mais uma carta de amor

 

Giordana Medeiros

 

Hoje pensei em você. Aliás, penso em você todos os dias, durante as noites também. Nas madrugadas frias é sua imagem que me conforta e aquece. Quando entro no metrô, as luzes que passam velozes não me ofuscam, pois meus olhos estão a observar as estrelas. Só que diferente das demais, você é livre porque não lhe prendem constelações. Eu penso em você de diversas formas, com paixão, amor, desespero, dor, mas, a maioria das vezes, é com a inocência de quem vê o mar pela primeira vez, que minha mente lhe contempla. Duvidando da imensidão inalcançável, molhando-me com cautela, pois estou pasmo diante de tão fatal beleza. É seu olhar que me orienta pelos meus caminhos tortuosos. E seus olhos brilham para mim, são o farol que guia minha nau pela mais terrível tempestade. Às vezes fico imaginando o que você estaria fazendo, as músicas que estaria escutando, e procuro entre meus discos as canções mais belas para ouvir, confesso que são um tanto cafonas, mas todas as canções de amor não são assim, meio bregas?

Certa vez ouvi o canto de um rouxinol, pensei se alguma vez você teria escutado o cantar de um rouxinol. E isto também me fez lembrar você. Queria que visse todas as coisas belas, que vi e queria lhe mostrar e nunca tive oportunidade. Aprendi tanto nestes anos que passaram, como encontrar uma beleza sutil nas coisas mais ínfimas. E ainda a perdoar e pedir perdão. Será que você me perdoa por todos estes anos que perdemos? Esperei por você cada segundo. Tenho certeza que esperaria toda vida. Já passou tanto tempo… E você continua entre minhas melhores memórias. Aquelas que resgato há todo momento. Pode não acreditar, mas não penso em você com lascívia. Penso coisas doces e tolas que lhe fariam rir sobremaneira. Queria falar-lhe sobre tudo que ocorreu comigo durante estes anos. E queria que me contasse sobre as mudanças por que você passou também. Sei que amadureci muito, tanto quanto você. Se soubesse sobre os sentimentos que me rasgaram o espírito, sobre a dor que se apossou de mim, sobre todo meu sofrimento, todas as coisas contundentes que teimam em ocorrer comigo… Será que se emocionaria com minha imensa dor?

“Il y a toujours quelque chose d’abissent qui me torment.” Camille Claudel escreveu isto numa de suas cartas a Rodin, antes de morrer apaixonada, louca e abandonada num hospício. Tenho certeza que tudo que me falta é você. Esta carta tem sido uma das mais difíceis que escrevi. As palavras faltam-me e não quero que pareça uma simples e melosa declaração de amor. Mas no fim é isso mesmo, o que se há de fazer? Queria deitar-me em seu colo e deixar-me ficar horas só escutando sua voz. Ficaria encabulado se lesse realmente estas linhas tortas. É somente uma baboseira romântica. Acredite: nunca criei algo tão pueril. E as palavras tropeçam umas nas outras, como se falasse para você, face a face, tudo que senti, sinto e sempre sentirei. Estou “preso a canções e entregue a paixões que nunca tiveram fim”. Às vezes preferia que me dissesse não, de uma vez, seco e ríspido, para que pudesse sofrer completamente. Há sempre um “se”. E tudo fica pela metade: meias paixões, meias dores, meias realidades. Mas é tudo um sonho, não? Foi sempre tudo um sonho. Sem a mínima possibilidade de vir a realizar-se.

“Longe se vai sonhando demais, mas aonde se chega assim?” Nunca chegarei a lugar algum, pois nosso amor, ou melhor, o meu amor não é algo comum. Às vezes acho que não passa de um desvario. É tudo uma ilusão. E tenho medo de entregar-me de novo a este sentimento. Já sofri tanto que tenho receio de machucar-me novamente. “Suspiro quando penso em você. Mas chorar, só choro às vezes, e é tão freqüente.” Sei que pareço um pouco tolo, meio melodramático, por que não? Acho que sou, na realidade, um tanto ridículo. Não ria de mim. São coisas tão puras que surgem em minha mente quando penso em você. Um pensamento frágil que é vezemquando interrompido pelo som da campainha ou do telefone. Todavia depois retorno. Retornarei sempre. Até o dia que nunca seja NEVER. Diga-me logo: há alguma possibilidade para nós dois? Para mim? Livre-me desta aflição que me atormenta há anos. Ando muito amargurado, e prometi-me centenas de vezes não voltar a procurar-lhe. Mas você sempre deixou a porta aberta. E eu teimo em voltar. Pode ouvir meu coração? Ele é puro som. Um noturno de Chopin. Talvez o Bolero de Ravel. Será que pode escutar como bate intenso, trôpego e patético? Estou meio zonzo, é que quando penso em você desligo-me do mundo. E pode cair uma bomba ao meu lado, acontecer um terremoto sem que nem perceba. Mas você jamais estará ao meu lado. E é tão dolorido saber disso. Tenho certeza que se me amasse realmente, não teria me evitado por tanto tempo. É tão difícil ser racional. Pode não parecer, mas não sou um alucinado. Você sabe: “I’m too pure for you or anyone.” Veio-me agora este verso de Sylvia Plath.

Está frio aqui, vou colocar um casaco. Onde anda você que não me aquece nestes dias tristes? Sabe, já é outono, as árvores em breve estarão despidas. E os pores-do-sol aqui em Brasília estão cada vez mais belos. Estou escrevendo de madrugada e o sono já vem chegando. Luto inutilmente contra ele. E fico pensando que sonhos você estaria vivendo. Deixar-me-ia participar de seus sonhos? Um dia sonhei que sonhava comigo. E tudo no seu sonho, que era o meu também, era doce e singelo. Mas não sabia se era seu sonho realmente ou apenas o meu. É tão difícil ter certeza, pois, com você, tudo é tão divinamente imprevisível. E eu sou um descrente porque não acredito mais nos meus olhos, mesmo que tudo pareça tão lógico cuja veracidade não se duvide. Tem de ser mesmo assim? Meu amor é tão evidente, mas com você tudo permanece incógnito, invencível, inviável. Como traduzir o que sente realmente por mim? Eu já planejei tantas formas de lhe dizer amo você. E fico repetindo: amo você, amo você, amo você. Até que o sono vence e nos meus sonhos continuo repetindo: amo você.

 

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Uma crônica que nunca estará na primeira página do The New York Times

 

Giordana Medeiros

 

Moscas zonzas pairavam sobre nossas cabeças. Um odor nauseabundo lembrava todo instante a pobreza daquele lugar. Tudo tão sujo que me levava a crer na imundice também de nossos espíritos. A podridão dos homens. A decomposição das almas. Tudo feio e carcomido pelas intempéries: chuva de orgulhos, seca de compaixão, frio de sentimentos. Um retrato do passado corroendo o futuro. Almas penadas perambulavam próximas de nós sob o sol de meio dia. Quente, árido, sujo. Os nossos lábios secos que recusavam orgulhosamente um gole daquela água de procedência duvidosa. A pobreza resplandecia cobrindo como um véu a imagem das pessoas. Pessoas sem nome que se arrastam pela vida. Crianças aflitas berravam pelo mingau ralo que provavelmente seria sua única refeição do dia. Os barracos de madeira e lonas plásticas surgiam do chão tal qual feridas e em volta de tudo, o lixo e o esgoto se acumulavam. Uma garotinha passou por nós com um pedaço de madeira entre as pernas, um simulacro de um cavalo, a princesa da miséria sobre seu corcel.

Fotografávamos tudo, eu e mais dois amigos, como urubus sobre a carniça, explorávamos ao máximo aquela imagem. Tínhamos como objetivo retratar a oposição entre a miséria e a opulência para um trabalho escolar. Foi-nos incumbido, o dever de retratar a miséria com sua imagem tão desagradável, a que fechamos os olhos, a que negamos nossa piedade. Com uma câmera na mão, confesso que não esperava algo diferente, mesmo assim me choquei com aquela visão. A miséria é degradante. Leva as pessoas a condições subumanas. Pessoas que vivem como animais: chafurdando o lixo em busca de algo comestível. Não importa o sabor, não importa o cheiro. “O bicho, meu Deus, era um homem!” Comendo os restos sem pudores, com a boca aberta deixando à mostra a dentição putrefata. Mastigando a vida para poder engoli-la com mais facilidade. Desesperadamente fechei os olhos, que não conseguiam crer naquela realidade. Naqueles barracos de madeira equilibrando-se sobre o chão, minúsculos como jaulas. Nem animais viviam em tais condições. Bati o máximo de fotografias possível. Um pouco enjoada, não pelo lugar, não pela pobreza, não pelas pessoas, não pelo lixo; mas por mim, pela minha apatia diante dos horrores da miséria; encostei-me numa árvore próxima. Eu que tinha tanto e não me importava com os que tinham pouco. Guardo até hoje a imagem da menina com seu “cavalo de pau”, para poder despertar-me quando me acomodo muito.

“A sociedade é desumana mais sei que ainda temos chance”. Fechamos os olhos para o que é feio em nosso país. Escondemos nossas favelas, nossos escombros da guerra pela sobrevivência. Como quem esconde o lixo sob o tapete. Mas há um momento em que tudo vem à tona. E nossas favelas estão ali: bem diante de nossos olhos. Batem com força em nossos rostos, para que sintamos na pele a dor daquelas pessoas. As cicatrizes do capitalismo. A desigualdade gritante que divide o mundo em submundos. Uma família feliz em volta de sua piscina. Opulência, desperdício, arrogância. Contrapondo-se à miséria absoluta: uma família paupérrima circundada de fezes e lixo. E há pedintes nas ruas, nas calçadas, implorando nossa misericórdia para que lhes entreguemos centavos de nossa piedade. E arrogantemente voltamos nosso rosto para o lado, para não ver. Para não ver!  Recolhemo-nos em nossos mundos de grades e câmeras a fim de nos protegermos deste mundo tão hostil que nos afronta com suas feições tão feias.

E lá estava a família sob a lente de minha câmera, assustada pela intromissão de alienígenas em seu mundo. Crianças tão limpas, tão bem vestidas, com roupas engomadas querendo usurpar-lhes aquele pedaço de lixo. Então, aquelas pessoas tão sofridas, tímidas e temerosas não fitavam a câmera diretamente. Tinham medo da luz porque viviam nas trevas. Tinham vergonha de sua condição, mas não nos agrediam. Não da mesma forma que nós três o fazíamos, com nossa câmera indiscreta revelando, descobrindo, destacando. Fugiam de nós como se fossem índios. Mas os incivilizados éramos nós que não pedimos para entrar no mundo que os pertencia. Éramos os invasores, que, tal como fizera Pero Vaz de Caminha, relatávamos a nossa expedição a esta terra inexplorada. Onde a pobreza dominava e não havia o conforto de nossos apartamentos de classe média, nem mesmo o asseio que se revela no mundo moderno. Lixo, descaso, miséria. Onde políticos embriagados com a própria voz desfilavam corajosos, beijavam crianças e prometiam, prometiam…

Nós adentramos, naquela realidade, munidos de uma arma. Uma câmera que revelava, principalmente a nós mesmos que havia algo por trás da beleza de nossos monumentos, encravado em nossa pele, uma ferida para qual existe cura, mas negligenciamos-lhe os cuidados fundamentais. E ela cresce numa velocidade assustadora. E vai tomando nossa cidade, vai cobrindo o Planalto Central, um mar de barracos, que são relocados para as cidades satélites distante dos centros turísticos para que ninguém veja o que fazemos com nosso povo. E não há quem faça algo. A violência inflige medo nos mais ricos, e a miséria o inflige nos mais pobres. É uma luta pela sobrevivência. Mas quem se importa? Num mundo cuja indignação não ultrapassa as janelas de nossas casas? Onde permitimos a violência contra os monges no Tibet, e o massacre da população do Iraque? A desigualdade econômica num país de terceiro mundo jamais ocupará as primeiras páginas de um jornal como o The New York Times. Porque somos egoístas. Não nos comovemos. Eu nunca mais retornei àquela invasão. Tenho certeza que meus amigos também não. Cruzei meus braços, fechei meus olhos e resignei-me com a parte que me cabe neste mundo, sem me preocupar com o que falta a tantos. Só que hoje revi minhas fotografias e a menina com seu “cavalo de pau” fez-me reviver aquele dia. E da minha revolta nasceu esta crônica, que nunca estará na primeira página do The New York Times.

 

 

 

 

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