Conto 6º colocado no Concurso Internacionalizando o Jovem Escritor.

 

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                                                Para ver melhor as estrelas. 

Giordana Medeiros

Faltou energia e a cidade Ilha da Fantasia ficou às escuras.

-Mamãe, estou com medo! Disse a menina na janela do último andar do edifício Morfeu.

A mãe afagou-lhe a cabeça:

-Não tenha medo não filhinha, com as luzes desligadas fica mais fácil ver as estrelas. A menina sorriu e ficou observando o céu pontilhado de estrelas pequeninas.

-É tão bonito. Sorriu.

A velha senhora de um dos apartamentos do primeiro andar, dedilhava as contas do rosário rezando compassadamente ave-marias e padre-nossos.

-Ave Maria, cheia de graça…

No telefone público, em frente à janela da velha senhora, um homem chorava ao telefone:

-Por favor, Clarice, sinto sua falta e quero ver os meninos. Prometo que não farei de novo, nunca mais baterei em você e muito menos nas crianças… Por favor, escute, eu prometo viu?

No beco em frente um bêbado, lamuriava.

-Bebo para suportar a vida…

Cambaleando caiu no chão e não conseguiu se levantar.

Outro homem sentado em um ônibus que passava no momento, praguejou:

-Viver é uma merda.

Encostou a cabeça na janela e tentou dormir um pouco depois de horas de trabalho. Fazia jornada dupla como balconista em uma lanchonete e como motoboy de uma empresa. De hábito, quando ele chegasse em casa, os seus filhos estariam dormindo. Tinham rotinas incompatíveis e só no fim de semana ele conseguia ver os garotos.

Na rua um grupo meninos corria no escuro assustando os passantes, um deles, vendo o bêbado estendido no chão, chutou-o com toda a força. O bêbado gemeu. Os meninos, então, munidos de paus e pedras, passaram a espancá-lo. Vendo a brutalidade com que tratavam o bêbado, o homem que estava no telefone público, aos berros avançou contra os meninos que abandonaram o pobre bêbado ensangüentado e cheio de escoriações. O homem perguntou se o bêbado estava bem. Grogue pela bebida e também pelas pancadas o bêbado agradeceu ao homem.

-Muito obrigado meu filho.

-O senhor não deseja ir a um hospital? Perguntou o homem.

-Não, está tudo muito bem, respondeu o bêbado sentando-se em frente ao beco.

O homem tentou telefonar de novo a sua esposa, mas ninguém atendeu ao chamado. Com fúria colocou o telefone no gancho e se foi, pela longa avenida que lhe ligava a toda humanidade.

Saindo do cinema, um velho, trazendo consigo A Gazeta da Tarde, suspirou ao ver os mesmos meninos que espancaram o bêbado passarem aos berros, sorrindo, portando suas armas e vangloriando-se pelo que acabaram de ter feito. Deu um suspiro e profetizou:

-Os anos escorrem feito areia entre os dedos, a qual se tenta inutilmente reter.

Abriu o jornal e seguiu seu caminho para casa. Nas noites de sexta-feira, ele assistia à sessão das cinco horas no cinema Nova Eldorado e voltava para casa, onde, como de hábito, jantava e assistia as novelas da televisão. Curtia assim a sua aposentadoria solitária, entre o mundo dos sonhos da televisão e dos filmes. Só o jornal diário o trazia de volta à realidade. E esta era tão brutal, que às vezes ele só percorria os olhos sobre as fotos chamativas de mais uma atrocidade no País do Futebol.

A velha senhora que desfiava as contas do rosário ouvindo a baderna sob sua janela, tentou ver o que ocorria, mas não chegou a tempo de ver o espancamento do bêbado. Só o viu sendo socorrido todo ensangüentado por um homem. Ela fechou as cortinas, guardou a Bíblia e seu rosário. Sentou-se, como fazia todos os dias, em frente a uma foto antiga em preto em branco, onde ela figurava ainda jovem, com seu falecido esposo. Seus olhos ficaram marejados pela saudade.

-Deus esqueceu-se de mim. Disse enxugando suas lágrimas sentidas.

O poeta, que passava de carro pela rua, olhando o céu estrelado inspirou-se a escrever um poema. No mesmo instante, a bela professora, que carregava um maço de papéis, desequilibrou-se e derrubou-os em frente ao automóvel. O poeta distraído, não percebeu e, por pouco, atropelou a professora que corria desesperadamente atrás de seu calhamaço de papéis levados pelo vento. As estrelas naquele momento perderam um pouco de seu brilho quando o sonhador poeta praguejou contra a pobre professora.

Um atencioso senhor ajudou-a e ofereceu-se para acompanhar-la até em casa: a rua àquela hora da noite, no breu que se encontrava, poderia ser muito perigosa. Ela, mesmo afirmando morar a poucos metros dali, não conseguiu demover o senhor, tão dedicado, da idéia de acompanhar-la até a porta do prédio. Ela foi surpreendida quando, o outrora tão educado senhor, tentou furtar-lhe um beijo. Ela perdeu a compostura e afastou-o aos empurrões e pontapés. Fechou a porta do edifício e recostou-se contra ela. “Seria ela ainda tão bonita para provocar esse tipo de reação nos homens?”

Pensou recuperando o fôlego.

A prostituta, naquele momento, saia de casa em trajes exíguos para mais uma noite de sua labuta diária. Ela comerciava o prazer que se podia comprar, às vezes, por preços módicos, quando não tinha nem o que comer no dia seguinte. Ficou na esquina da avenida aguardando seu próximo cliente. Talvez aguardasse mais que isso, a ajuda divina provavelmente, mas nunca se atreveu a rezar. Achava-se demasiadamente impura para proferir uma oração.

O estudante que chegava da escola se dirigiu à prostituta com brincadeiras levianas. Seguia seu caminho pela Avenida dos Sonhos Perdidos, quando seu celular tocou. Sua mãe preocupada pela escuridão em que se encontrava a cidade, temia que algo de ruim acontecesse-lhe. Pediu para que tivesse cuidado com as pessoas suspeitas. O rapaz não deu a mínima atenção às preocupações e recomendações da mãe e continuou no seu caminho, não o de casa, e sim o do prédio de uma garota que ele conhecera na escola. Antes, parou numa banca de revistas para comprar o semanário de cifras para violão.

O jornaleiro, após atender o rapaz, seu último cliente do dia, fechou sua banca. Só pensava em como assistiria o jogo àquela noite, caso a energia elétrica não retornasse. Poderia pedir o radinho de pilha de seu primo. Ele devia-lhe mesmo uma grana. Não teria como recusar esse favor.

Saiu em sua bicicleta a cantarolar o hino do seu time. Ao atropelar um fotógrafo que retornava para casa disse um palavrão. A câmera do fotógrafo caiu. Mas, como este pode verificar, não ocorreu nenhum dano. O problema era a boneca de louça que levava para a filha cujo rosto havia quebrado no meio.

O jornaleiro prometeu ressarcir o prejuízo, mas o fotógrafo disse que não era necessário. Este, com um ar decepcionado, colocou a boneca em um contêiner de lixo e entrou no edifício Morfeu. Não pode ver que sua filha estava na janela devido à escuridão. A menininha correu para os braços do pai quando este chegou. Abraçou-o justamente quando a energia elétrica voltou. Ouviram-se exclamações festivas pelo retorno da luz elétrica. A reação da menina, contudo, foi muito diversa do esperado, dirigiu-se até o interruptor e desligou as luzes. Vendo espanto dos pais a esperta menininha disse que assim poderia ver melhor as estrelas.

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