Arquivo do mês: março 2008

Sobre o lado ímpar da memória

O anjo da guarda esqueceu

Perguntas que não se respondem

 

João Cabral de Melo Neto

                                       Entre lembranças e esquecimentos 

Giordana Medeiros

 

Será que esqueci aqueles anos felizes em que tudo era pura magia? Era criança ainda. E tudo tinha seu mistério, havia ainda fantasia. Hoje em dia sei que tudo perdeu aos meus olhos a sua luz. A maturidade retira o brilho das coisas. A vida do adulto é somente obrigações. Quando poderei brincar? Fazer de conta que sou um rei, um guerreiro ou um cowboy? Quando criança desejava imensamente ser adulto, crescer com rapidez, porque me parecia divertida a maturidade. Só que quando adentrei nesta fase espinhosa da vida, não pude compreender porque queria deixar de ser criança. O maior sonho do adulto é voltar à infância. A diferença é que, para aquele, este sonho é irrealizável. Sinto uma fome insaciável de algo que me falta ao espírito. Foram tantos anos perdidos, que não sei como resgatá-los ou fazer doer menos o desperdício desse tempo tão caro. Uma época em que poderia ter sido feliz e não fui. Há ainda em mim a ânsia de um sorriso que nunca surgiu, e também de uma lágrima recolhida. Era tão criança ainda… E na infância o homem não aceita a dor por ser algo que não se coaduna com sua realidade. Todavia, quando adulto, resigna-se ao sofrimento. Chegando a um ponto de este lhe ser essencial. Já sofri tanto que não posso imaginar minha vida sem esta pena. Inflijo-me os piores castigos, porque necessito desta dor. É minha salvaguarda e não existo sem ela.

Entretanto há momentos que sinto necessidade de cerrar os punhos, crispar os dentes e fazer-me valente frente à vida. Irei reagir às sevícias? Não, sou cão que ladra, mas não morde. Acabo por me conformar à realidade. E tudo se mantém como sempre foi. Os anos passam velozes, tão rápido que nem os vejo. É um tempo tão longo quando vivido e depois, quando recapitulado pela memória, tenho certeza de não o ter aproveitado como deveria. Existe instantes dentro de outros instantes, um átimo de tempo, que demoram horas e não duram um dia. E os anos então, foram tantos desperdiçados com questões despropositadas. Problemas que criei quando na verdade não fazia sentido questionar. A vida resolve-se da melhor maneira possível. Meu tempo passou aos tropeços e com inúmeros percalços sem razão. Querelas desmotivadas, impulsionadas por futilidades. Poderia somente ter deixado o tempo correr mansinho. “Vida louca vida, vida breve, se não posso lhe levar quero que você me leve”. Poderia ter me lançados em seus braços e só deixar seguir. Mas queria controlar meu destino. Forjar um leme para uma nau à deriva. Procurava respostas desnecessárias. Não percebia “que a cada hora envelhecia dez semanas”

Por onde anda o anjo que me trouxe à vida, e fez-me esquecer que esta tinha sentido? Agora tento compreender por que, com os anos, assoma-se tão difícil viver. A simples respiração é algo inexplicável. Fenômeno físico e químico tão espetacular que é nos impossível viver sem ele. A primeira respiração já se configura um ato jurídico: a aquisição da personalidade. A partir de então somos sujeitos de direitos, e que direitos? Sei que tudo nos atola de obrigações. É necessário viver e a vida é breve. Entretanto existem momentos em que tudo vem num turbilhão e o que mais quero é GRITAR! Já passou, já passou, já passou… Enxugo a testa com as costas a mão. É apenas um desvario, espero não ter causado espanto.  Assombro sim, mas não espanto. Na minha infância lembro ter medo do bicho-papão, como era bom sentir este temor… Ficava acordada a noite inteira numa vigília impulsionada pelo pavor. Ouvia a respiração de meus irmãos, tão leve… Como poderiam dormir diante de semelhante ameaça? Sentia um misto de medo e ansiedade que o monstro viesse assustar-me. Entretanto ele não apareceu jamais surgido da escuridão de meu armário. Os anos passaram e não é mais bicho-papão que me provoca insônias, mas os monstros do dia-a-dia: as contas a pagar, os problemas no trabalho ou aquela prova que se aproxima. Meus monstros tomaram existência física.

Escolhi meus caminhos, tracei minhas trajetórias, mas no fim não cheguei a lugar algum. Talvez por nunca haver em mim a certeza de onde quero realmente ir. E fiz tantos planos, que se dispersaram no ar com um dente de leão, que num sopro dissemina suas sementes. E numa leve brisa lá se foram meus sonhos. Tal qual uma pipa cujo fio rebenta e é levada livre pelo vento. Tudo que um dia sonhei se perdeu. Foram muitos os sonhos perdidos, só me restou a esperança tênue, tão frágil que temo manuseá-la. Como a um cristal ou a um vaso chinês, porque me é tão cara que, num descuido, temo perdê-la por completo estilhaçada em pequenos pedaços. Tudo que foi um dia será, e o que não foi não poderia ter sido. Contudo, fui extremamente covarde de não tentar. Esperei, apenas esperei, sem nenhuma menção de realizar. E nada me vem tão fácil. Se espero nada vem, tudo que quis tive de ir buscar. Lutando desesperadamente por cada instante que se sucedeu, e tão atabalhoadamente que parte do tempo perdido por mim foi conseqüência de minhas desacertadas escolhas.

Levanto-me para um dia que não nasceu. Onde estão minhas alvoradas? É-me tudo tão escuro, vivo uma noite eterna, onde não há o raiar dos dias, nem o cantar dos pássaros, nem mesmo o orvalho sobre as plantas. A noite é fria dentro de mim. E sinto falta de algo que me complete. Sou um quebra-cabeça complicadíssimo de montar e onde faltam peças cruciais. Espanto-me com a descrição que faço de mim. Eu por mim… Será que me conheço o bastante para conceituar-me deste modo? Sei que há algo em mim que não compreendo. Tenho um lado obscuro que desconheço por completo e que renego como a um filho pródigo. Será que poderei algum dia, assumir todas as facetas do meu espírito? E sei que um dia fui pura como água da fonte, meu coração não batia angustiado, por que não sabia… Eu simplesmente não sabia… Hoje há a imensa dor, bem como o medo, o pavor de enxergar-me por completo e entender-me claramente. Será que chegará o dia que poderei fazê-lo? Queria mesmo era retornar a infância onde tudo me era tão simples e fácil. Sinto saudades do meu sorriso sem pudores, pois naquela época não infligia os mais terríveis castigos ao meu espírito. “Como um anjo caído fiz questão de esquecer.” Finjo que esqueci, mas só finjo, na verdade recordo-me de tudo. “E mentir para si mesmo é sempre a pior mentira.” E sempre será assim, até que meus dias não sejam a extensão de uma pena, mas o clarear de uma nova esperança.

 

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                                                 (Re-)conhecendo-se 

Giordana Medeiros

 

“A personalidade que ignora a si mesma realiza-se mais completamente.”

 

Clarice Lispector. 

 

Eu queria ignorar o que sou. Desconhecer-me totalmente. É tão difícil esconder-me de mim. A vida tremulando em carne viva. Sentimentos emaranhados, indiscerníveis, incompreensíveis. Um dia esperei realmente que o instante acontecesse. Fechei os olhos e aguardei. Numa ansiedade de quem espera um novo ano. Em dez segundos, uma vida nova. Mas nada se sucedeu. Não veio o instante, todavia caiu uma chuva fina. Como se o céu chorasse por mim que devorei o fruto proibido. Fui expulsa do paraíso por um anjo com uma espada de fogo. Depois disso fui caminhando sob a garoa fria pensando: “não há sofrimento que não seja salutar. A dor é imanente à vida”. Será que algum dia fui completamente feliz? Ou, mesmo, completamente triste? E o que vem depois de sermos felizes? Será que existe o “viveram felizes para sempre”? O que vem depois? Simplesmente se fecha o livro de histórias e afoga-se na realidade. “O para sempre, sempre acaba. Mas nada vai conseguir mudar o que ficou.” E sempre fica alguma coisa. Lá no fundo, tatuado em mim. Um grande amor, uma desilusão… As decepções deixam feridas profundas. E depois que se é triste o que acontece? Abre-se um livro de histórias ou liga-se a televisão e vive-se realidades inventadas.

Sei fingir um sorriso, mas não sei forçar uma lágrima. Se choro sinceramente, não o faço quando sorrio. Às vezes pretendo ser apenas gentil. E surge aquele sorriso amarelo.  Mas as lágrimas vêm nas horas mais impróprias. Como esconder a decepção quando não se pode conter o pranto? É melhor chorar quando ninguém me vê: o travesseiro abafa o som de meus soluços. A noite vem fresca na primavera, com cheiro de relva molhada. E passa lenta sob o tic-tac do relógio. É bom ler no silêncio, não há campainhas ou telefones, só, de vez em quando, uma sirene estridente passando ao longe. Esta noite queria mesmo ouvir uma música. Cerrar os olhos e deixar-me levar por Chopin. Os dedos dançando rápidos sobre o piano. E nesse momento surge um sorriso sincero. Sei sorrir verdadeiramente também. Embora reconheça que não o faça com freqüência. Entretanto, há momentos em que brota um sorriso puro em minha face e nem percebo. Queria poder ver meu rosto quando surgisse este sorriso inusitado. Já tentei fazê-lo, mas não pude manter o sorriso sincero até ver-me no espelho. Em um segundo e lá estava novamente o sorriso amarelado. Sorrisos espontâneos são também instantâneos.  Sorrisos falsos são perenes. Aprendi isto também.

 Aconteceu-me de encontrar uma senhora debruçada à janela, com um olhar distante. Talvez ela também esperasse que o instante se sucedesse. Ficava ali aguardando, estática, olhando para algo longe de minha vista porque lhe era tão profundo que a mim era invisível ao olhar. Observei-a por longos minutos, pois queria ver-lhe a reação quando descobrisse como eu, que o instante nunca aconteceu ou acontecerá. O instante é presente e, a cada momento, vive-se novamente. Mas para ela esta descoberta não pareceu tão chocante quanto o foi para mim. Apenas piscou os olhos decepcionada e voltou aos seus afazeres domésticos. As pessoas não se importam. Por que eu haveria de me importar? Para mim tudo se sucede de forma inversa. Há algo oculto em mim. Minha Caixa de Pandora. Se abrir-la liberarei minhas tormentas sobre a terra. Só que eu não a abro. Fica tudo aqui bem escondido em mim. E ninguém me compreende porque não pode sentir o que sinto. Se comprar água de coco, espero beber água de coco. Mas as pessoas são estranhas, esperam de mim algo que não posso dar. Vêem-me e julgam-me por algo diverso do que sou, por isso, exigem de mim coisas fora do meu alcance. Como apresentar às pessoas as verdadeiras feições que me atribuo? Algo que está apenas visível àqueles que enxergam com os olhos do espírito? E geralmente, desses olhos, a maioria das pessoas é cega. Assim tomam-me por errôneos modelos, desprovidos de identidade. Coisificam-me. Sou um objeto. Muito caro a alguns, pouco agradável a outros. Sei que não me vêem como pessoa. “E sobre meus sentimentos?” Não querem saber? Sou aquela coisa frágil com a qual são obrigados a lidar. Aniquilo-me, anulo-me para que possa me enquadrar em seus conceitos. Porque temia que minhas faltas diminuíssem seu amor por mim. A vida inteira, todo momento, aceitei o papel que me concederam, aquele que escolheram para mim. Será assim para sempre?

É angustiante explodir em palavras e revelar o recôndito em mim. Deveria recolher-me em meu lugar, e aceitar as minhas limitadas possibilidades. E com as palavras sempre me conheço mais um pouco.  Eu, que pretendia desconhecer-me, esconder-me de minha alma, das verdadeiras feições acobertadas pela máscara do cotidiano, aquela que me condenaram a usar. A máscara de ferro que me sufoca aos poucos, e vai sugando-me a vida. As mágoas e ressentimentos são os grilhões que me aprisionam e tornam-me a existência insuportável. Quero libertar-me desses castigos, dessas penas que me seviciam o espírito. Porque não consigo sobreviver ao (re-)conhecimento do que é mais caro em mim. Atinjo o ápice da intelegibilidade dos sentimentos. Será que me compreendendo posso também fazê-lo pelos outros? Posso tomar por mim o sofrimento alheio? E curar-lhes as feridas como tento fazer com as minhas? Poderei assim acumular a sabedoria necessária para entender e traduzir o espírito humano, pelo simples conhecimento e desvendamento das facetas que atribuo ao meu próprio espírito? As pessoas que se (re-)conhecem e não ignoram suas tormentas talvez não se realizem mais completamente, mas encontram em si o alicerce que lhes sustenta. “A dor é imanente ao espírito.” E nela resguardo-me, é meu abrigo onde me protejo e minha companheira fiel nesta longa e solitária caminhada.

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Conto 6º colocado no Concurso Internacionalizando o Jovem Escritor.

 

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                                                Para ver melhor as estrelas. 

Giordana Medeiros

Faltou energia e a cidade Ilha da Fantasia ficou às escuras.

-Mamãe, estou com medo! Disse a menina na janela do último andar do edifício Morfeu.

A mãe afagou-lhe a cabeça:

-Não tenha medo não filhinha, com as luzes desligadas fica mais fácil ver as estrelas. A menina sorriu e ficou observando o céu pontilhado de estrelas pequeninas.

-É tão bonito. Sorriu.

A velha senhora de um dos apartamentos do primeiro andar, dedilhava as contas do rosário rezando compassadamente ave-marias e padre-nossos.

-Ave Maria, cheia de graça…

No telefone público, em frente à janela da velha senhora, um homem chorava ao telefone:

-Por favor, Clarice, sinto sua falta e quero ver os meninos. Prometo que não farei de novo, nunca mais baterei em você e muito menos nas crianças… Por favor, escute, eu prometo viu?

No beco em frente um bêbado, lamuriava.

-Bebo para suportar a vida…

Cambaleando caiu no chão e não conseguiu se levantar.

Outro homem sentado em um ônibus que passava no momento, praguejou:

-Viver é uma merda.

Encostou a cabeça na janela e tentou dormir um pouco depois de horas de trabalho. Fazia jornada dupla como balconista em uma lanchonete e como motoboy de uma empresa. De hábito, quando ele chegasse em casa, os seus filhos estariam dormindo. Tinham rotinas incompatíveis e só no fim de semana ele conseguia ver os garotos.

Na rua um grupo meninos corria no escuro assustando os passantes, um deles, vendo o bêbado estendido no chão, chutou-o com toda a força. O bêbado gemeu. Os meninos, então, munidos de paus e pedras, passaram a espancá-lo. Vendo a brutalidade com que tratavam o bêbado, o homem que estava no telefone público, aos berros avançou contra os meninos que abandonaram o pobre bêbado ensangüentado e cheio de escoriações. O homem perguntou se o bêbado estava bem. Grogue pela bebida e também pelas pancadas o bêbado agradeceu ao homem.

-Muito obrigado meu filho.

-O senhor não deseja ir a um hospital? Perguntou o homem.

-Não, está tudo muito bem, respondeu o bêbado sentando-se em frente ao beco.

O homem tentou telefonar de novo a sua esposa, mas ninguém atendeu ao chamado. Com fúria colocou o telefone no gancho e se foi, pela longa avenida que lhe ligava a toda humanidade.

Saindo do cinema, um velho, trazendo consigo A Gazeta da Tarde, suspirou ao ver os mesmos meninos que espancaram o bêbado passarem aos berros, sorrindo, portando suas armas e vangloriando-se pelo que acabaram de ter feito. Deu um suspiro e profetizou:

-Os anos escorrem feito areia entre os dedos, a qual se tenta inutilmente reter.

Abriu o jornal e seguiu seu caminho para casa. Nas noites de sexta-feira, ele assistia à sessão das cinco horas no cinema Nova Eldorado e voltava para casa, onde, como de hábito, jantava e assistia as novelas da televisão. Curtia assim a sua aposentadoria solitária, entre o mundo dos sonhos da televisão e dos filmes. Só o jornal diário o trazia de volta à realidade. E esta era tão brutal, que às vezes ele só percorria os olhos sobre as fotos chamativas de mais uma atrocidade no País do Futebol.

A velha senhora que desfiava as contas do rosário ouvindo a baderna sob sua janela, tentou ver o que ocorria, mas não chegou a tempo de ver o espancamento do bêbado. Só o viu sendo socorrido todo ensangüentado por um homem. Ela fechou as cortinas, guardou a Bíblia e seu rosário. Sentou-se, como fazia todos os dias, em frente a uma foto antiga em preto em branco, onde ela figurava ainda jovem, com seu falecido esposo. Seus olhos ficaram marejados pela saudade.

-Deus esqueceu-se de mim. Disse enxugando suas lágrimas sentidas.

O poeta, que passava de carro pela rua, olhando o céu estrelado inspirou-se a escrever um poema. No mesmo instante, a bela professora, que carregava um maço de papéis, desequilibrou-se e derrubou-os em frente ao automóvel. O poeta distraído, não percebeu e, por pouco, atropelou a professora que corria desesperadamente atrás de seu calhamaço de papéis levados pelo vento. As estrelas naquele momento perderam um pouco de seu brilho quando o sonhador poeta praguejou contra a pobre professora.

Um atencioso senhor ajudou-a e ofereceu-se para acompanhar-la até em casa: a rua àquela hora da noite, no breu que se encontrava, poderia ser muito perigosa. Ela, mesmo afirmando morar a poucos metros dali, não conseguiu demover o senhor, tão dedicado, da idéia de acompanhar-la até a porta do prédio. Ela foi surpreendida quando, o outrora tão educado senhor, tentou furtar-lhe um beijo. Ela perdeu a compostura e afastou-o aos empurrões e pontapés. Fechou a porta do edifício e recostou-se contra ela. “Seria ela ainda tão bonita para provocar esse tipo de reação nos homens?”

Pensou recuperando o fôlego.

A prostituta, naquele momento, saia de casa em trajes exíguos para mais uma noite de sua labuta diária. Ela comerciava o prazer que se podia comprar, às vezes, por preços módicos, quando não tinha nem o que comer no dia seguinte. Ficou na esquina da avenida aguardando seu próximo cliente. Talvez aguardasse mais que isso, a ajuda divina provavelmente, mas nunca se atreveu a rezar. Achava-se demasiadamente impura para proferir uma oração.

O estudante que chegava da escola se dirigiu à prostituta com brincadeiras levianas. Seguia seu caminho pela Avenida dos Sonhos Perdidos, quando seu celular tocou. Sua mãe preocupada pela escuridão em que se encontrava a cidade, temia que algo de ruim acontecesse-lhe. Pediu para que tivesse cuidado com as pessoas suspeitas. O rapaz não deu a mínima atenção às preocupações e recomendações da mãe e continuou no seu caminho, não o de casa, e sim o do prédio de uma garota que ele conhecera na escola. Antes, parou numa banca de revistas para comprar o semanário de cifras para violão.

O jornaleiro, após atender o rapaz, seu último cliente do dia, fechou sua banca. Só pensava em como assistiria o jogo àquela noite, caso a energia elétrica não retornasse. Poderia pedir o radinho de pilha de seu primo. Ele devia-lhe mesmo uma grana. Não teria como recusar esse favor.

Saiu em sua bicicleta a cantarolar o hino do seu time. Ao atropelar um fotógrafo que retornava para casa disse um palavrão. A câmera do fotógrafo caiu. Mas, como este pode verificar, não ocorreu nenhum dano. O problema era a boneca de louça que levava para a filha cujo rosto havia quebrado no meio.

O jornaleiro prometeu ressarcir o prejuízo, mas o fotógrafo disse que não era necessário. Este, com um ar decepcionado, colocou a boneca em um contêiner de lixo e entrou no edifício Morfeu. Não pode ver que sua filha estava na janela devido à escuridão. A menininha correu para os braços do pai quando este chegou. Abraçou-o justamente quando a energia elétrica voltou. Ouviram-se exclamações festivas pelo retorno da luz elétrica. A reação da menina, contudo, foi muito diversa do esperado, dirigiu-se até o interruptor e desligou as luzes. Vendo espanto dos pais a esperta menininha disse que assim poderia ver melhor as estrelas.

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