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Para Giovanna, grande amiga, sempre presente em seus comentários tão gentis. 

                                                     Sangue e Lágrimas 

Giordana Medeiros

Nunca sei por onde começar um conto. Ás vezes enfoco o clima, como uma ferramenta de inserção do leitor na cena presenciada pelos personagens. Ou, no uso de minha onipotente vontade como escritor, penetro no espírito destes últimos, procurando dar destaque a sentimentos desses seres fictícios, que invariavelmente me parecem tão vivos quanto eu mesmo. Dessa vez não vou usar desses arcabouços literários para dar vazão a minha criatividade. É certo que a língua limita muito do que pretendo realmente escrever. É preciso muita desenvoltura com a gramática para criar textos de relevo. Mas como dizia, vou inserir vocês, caros leitores, diretamente na cena, chocante, de um homem derrotado pela vida. Vejam-no no quarto, sentado sobre a cama, uma lamina afiada na mão direita traçando um caminho rubro no pulso esquerdo e, com alguma dificuldade, corta também o pulso direito. O sangue mancha os lençóis de um vermelho quente. Deitado, o rapaz (percebo agora, é somente um rapaz, a juventude é marcante em seu rosto impúbere), aguarda que sua vida esvaia-se pelos talhos em seus pulsos. Espera que encontrem seu corpo inerte envolto de uma poça de sangue e lágrimas.

O que o levou a este ato derradeiro? A essa ação fatalista, de ceifar, com suas próprias mãos, a vida que outrora pulsava desesperadamente em suas veias? Talvez encontremos algo em sua carta de suicida escrita por ele horas antes e deixada sobre o criado-mudo:

“Caros parentes, não lhes deixo nada, nem mesmo minha funesta presença. Do mesmo modo não deixo um legado a ser seguido. Acumulo derrotas pela vida. E não tenho riquezas ou bens. Até mesmo meu pobre coração há muito não me pertence. Espero que se recordem de mim como uma doce lembrança e esqueçam-se como sempre fui um ser soturno, que caminhava solitário pela vida. Talvez essa seja a atitude mais sensata que tive em toda minha curta história. Não orem por mim, pois minha alma finalmente se livra dos grilhões que a reprimem. Tudo que a prendia nesta realidade insólita era a casca que a sufocava. Deixo este corpo como uma borboleta liberta-se de um casulo. Cheguei numa encruzilhada e não sei qual caminho seguir. Falta-me coragem para escolher a via dolorosa. A Via Crucis do corpo. Nunca fui santo. Nem sou um herói. Sou um covarde. Um homem fraco que preferiu a morte a viver a dor de cada dia e respirar o odor que exala a sobrevivência. Agora sentirei o perfume dos cravos e rosas e a singeleza dos lírios. “Olhai os lírios do campo em lembrai de mim”. Não culpo ninguém, não deixo mágoas, nem nenhum ressentimento. Este é meu ato desesperado de vida! Adeus.”

Não nos deixa muitas explicações. Mal sabe ele que esta carta jamais chegará às mãos de seus entes queridos, tendo em vista que fará parte do inquérito que lhe apurará a morte.  E fica-nos a incógnita: o que levou nosso jovem rapaz ao suicídio? Vejamos seu corpo tal qual faria um legista. Não há sinais de agressões, muito menos de uso de drogas injetáveis. Será que se embriagou para dar cabo a sua vida? Não há garrafas de bebidas alcoólicas ao redor. É certo que não saiu do quarto durante todo dia. Então que aflição tomou-lhe devastadoramente o espírito que lhe insuflou desejos lúgubres? Quisera ser entendedor desta alma atormentada, desse ser pitoresco que se debate como um afogado em busca de socorro. Entretanto é demasiado tarde para oferecer-lhe uma mão de conforto. Agora exangue, o corpo alvo destaca-se em meio à lagoa rubra que toma o leito. Um último sopro e lá se foi uma vida.

Todavia o que fizemos para impedir esta pretensa “fatalidade”? Estávamos todo este tempo assistindo atônitos à morte lenta de um homem e em nenhum momento nos sobreveio um único gesto de piedade. Não adianta benzer-se e encomendar-lhe a alma. Somos os grandes culpados por esta morte. Pesará eternamente em nossos ombros a responsabilidade deste suicídio. O que fizemos? Assistimos uma vida esvair-se em sangue e lágrimas com olhos de pesquisadores. Tratamos um ser humano como uma cobaia. Procurávamos repostas quando tínhamos de encontrar saídas. Podem tentar safar-se da responsabilidade dizendo que fui eu, o escritor onipresente, que os inseriu nesta história. Mas foram vocês que, sem questionar, preferiram restar, insensíveis a dor, neste conto. Agora vocês são espectadores cruéis de um sacrifício. Imolei este cordeiro para provar-nos a insensibilidade. Temos um coração endurecido, não nos emocionou a agonia deste pobre rapaz. Queríamos estudar quando o essencial era socorrer.

Quando a família encontrar o corpo inerte sobre a cama, o luto os tomará de assalto. Haverá um grande alvoroço. Acionarão ambulâncias, polícia e amigos. E todos, ao menos naquele momento, se unirão num grande pesar. “O que poderíamos ter feito?” Questionar-se-ão. Em um momento muito impróprio, estudarão suas atitudes. Assumirão culpas, perguntar-se-ão entre si se haviam evidências que pressagiassem esta morte. Nunca saberão, como nunca saberemos, a razão deste suicídio. “Ele era muito hermético.” Lembrar-se-ão. Nunca se abria com relação a sentimentos. Nem mesmo quando se despediu, em sua derradeira carta, foi direto quanto aos motivos desta morte prematura.

Agora, como antes, não usarei de clichês e frases feitas pra dar fim a este conto funesto. Deixo-os pasmados diante da família aflita. Remoendo suas responsabilidades. Uso desta artimanha literária de modo não dar fim a algo que nem começou. Não iniciei ou dei fim a um conto. Transportei-os porta a dentro numa realidade. E, neste momento, abandono-os. Procurem refletir sobre esta história. Pesem suas culpas. E acreditem que todos tivemos nosso papel nesta farsa. Há algo que não revelei, talvez propositalmente. Ao lado da cama um livro de Caio Fernando Abreu estava aberto neste poema:

 

Ex-pedir

pedidos de socorro

em todas as direções

postado à janela

o laço na mão

ex-pirar

por dentro inútil

medo em branco

examinando possibilidades

as mais diversas

de escape que não há.

 

Pensem o que quiserem.

  

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2 opiniões sobre “

  1. “Pensem o que quiser?”
    Putz … como amo contos assim … morte me remete a uma perda não remediável, algo imensurável … algo Caio.
    Amo, amo, amo.
    Obrigada pela primeira até a última frase.

    OBS: A dedicatória é pra … ???
    É de fato … ” pensarei o que eu quiser”
    Grata por todos os sentimentos descritos aqui.
    Bjs

  2. ooooo giordana, quantas saudade de você!
    Perdoe-me a ausência, mas é período de vestibular, quase não venho para a net!

    saudades sempre!

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