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                 O ébrio e as estrelas                        

Giordana Medeiros

– Mera distração. Talvez um pouco de excesso de desprendimento. Provavelmente credulidade fria e cega nas pessoas. Como nomear todas as faltas que cometi aquela noite, aquele dia por completo, esta vida inteira em que vivi aos tropeços? Queria ter estado lá. Juro. Sou patético. As coisas acontecem ao meu redor que nem percebo. Num instante e tudo muda. Numa fração de segundo, deixo de ser quem sou. E um tornado invade minha existência, o que resta de mim, então, é uma cidade desolada. Foi assim naquela noite fatídica. Desmoronei por completo. Sempre tive alicerces frágeis. E tudo que queria era não estar tão sozinho naquele momento. Confesso ter chorado. É que sempre fui muito triste. E aquele vislumbre de felicidade ter se apagado por completo, fez-me sofrer deveras. Sei que tudo que imaginava era uma simples ilusão, por si só diáfana, intangível, e, porque não dizer, impossível? Cri inocentemente. Acreditei esperançosamente.

A vida encarrega-se de dar fim às ilusões. Tudo que sobra, então, é uma lágrima, cruzando-me a face, salgando-me os lábios.  O doce convertendo-se em amargo. Um soluço contido. As pernas moles, a cabeça pesando. É uma dor tão intensa que parece ferir o corpo inteiro, quando o único lugar atingido é o coração. Seria clichê dizer que o meu despedaçou-se por completo? Irrecuperável. Desde então não acredito em mais nada e ninguém. Tenho medo de entregar-me novamente e sentir a mesma dor. Não sei se suportaria viver tudo aquilo novamente. Acredito que, talvez, fosse diferente. Entretanto tenho um pavor enorme de crer. Fecho os olhos para não ver. Tranco o coração para não sentir. E em meu espírito tudo está tão sombrio. Aceito minha solidão, despeço-me do mundo. Os deuses são inatingíveis. Tento convencer-me disso. Para dar uma explicação mais plausível a mim mesmo. Esperaria toda minha vida, por somente um único instante sob a luz daqueles olhos.

O estranho é que me prometi não mais falar sobre isto. Mas as memórias ressurgem vez em quando e fazem-me sentir aquele turbilhão de emoções novamente. Estávamos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes. E se tudo houvesse ocorrido de maneira diferente? Teriam se apagado em mim todas as expectativas criadas para aquele momento? Talvez tenha sido melhor daquele jeito. Para jamais dissolverem-se em nada as ilusões que me guiam até hoje. Foi uma dor tão grande que me abriu feridas em todo o espírito. E para recordar-me basta tocar-las fundo, fazendo-as sangrar novamente. E dessa dor surgem estas palavras tão sentidas. Não com os fatos. Não com aquele primeiro e, ao mesmo tempo, derradeiro momento. Não com ninguém. Provavelmente comigo mesmo, que me subjuguei à vontade alheia, que me submeti a condições intransponíveis, que me afastaram ainda mais do inatingível Olimpo.

O que se há de fazer? Só lamento que tudo tenha ocorrido daquela maneira. Não sei por que estou falando isto para você. Provavelmente não esteja compreendendo nada do que estou dizendo. Não quero entrar em pormenores, tudo bem? Quero apenas que me escute, mais um pouco, que suporte estas lágrimas que me marejam os olhos. Não quero chorar. Não novamente. Queria somente compreender. Foram exíguas vinte e quatro horas. Tempo em que tudo poderia ter sido e não foi. E esta dor que sinto agora, teria sido convertida em júbilo, numa felicidade incomparável. Quando estaria, por, ao menos, meros instantes, próximo de meu sonho. Agora já se passaram cinco insuportáveis anos. Sei que esperaria a vida inteira por apenas mais uma chance. Por mais uma oportunidade. Para pedir desculpas por minha imensa fraqueza. Será que há perdão para mim? Estou, durante todos estes anos, escrevendo cartas mudas sem destinatário, onde confesso meus imperdoáveis erros. Guardo-as todas, pois não tenho a quem enviá-las. Acumulam-se pela minha vida, pelas gavetas, pelos armários, pelas estantes. Estão em toda parte, principalmente, no meu frágil e ferido coração. E na verdade não dizem o quanto sofri. Os momentos de tristeza e descrença na vida. Apenas confessam minhas culpas, e, de diversas formas confessam meu amor. Faz cinco anos, três meses e seis dias. Conto, sofro, vivo, espero-os. Acredito que, um dia, esta dor diminua. Não mais sou guiado pela ilusão de ter meu amor correspondido. Afinal que chance tenho eu frente a deuses? Sei que estas palavras não o interessam em absoluto. Que razão há em confissões de um jovem ébrio? Acho que estou atormentando-o. Sinto muito. Pegarei meu paletó e deixarei este balcão. Acredito que me embriagarei por mais algum tempo, se não se importa… Saboreando a solidão. Estes anos infinitos de espera. Quando a verei? Jamais, creio eu. Estamos separados por um abismo intransponível. Pertencemos a mundos diferentes. Ela nunca se submeteria a minha abjeta realidade. E eu nunca ousaria macular o mundo de cristal em que ela vive. Ao mesmo tempo tão esplendoroso e frágil. “You float like a feather /in a beautiful world /I wish I was special /you’re so fucking special…” Eu queria ser tão especial para ela quanto ela o é para mim. Mas reconheço minha insignificância. “I’m a creep/ I’m a weirdo.” O que inferno estou fazendo aqui? Com esta ladainha melosa? Vou para a escuridão do meu quarto, chorar até raiar o dia, até que sequem estas lágrimas, ou, mesmo, até que meu coração conforme-se com este sofrimento pungente que o domina. Sei que não entendeu nenhuma palavra do que lhe disse. Também não direi quem é a “Deusa Coroada”, razão dos meus tormentos e desta dor lancinante que me castiga há tantos anos. Nem mesmo contarei as minúcias desse relacionamento tortuoso em que me envolvi numa época em que ingenuamente cri numa realidade fantasiosa. Um delírio apenas. Uma ilusão que me infligiu as mais dolorosas penas. Amei sobremaneira. Confesso que até tentei distrair meu coração com outras moçoilas, mas minha vida pertence somente a uma única mulher. Pode compreender-me? Sim, pode trazer a conta. Acredito que, se falar um pouco mais, direi coisas das quais me arrependerei.

Deixemos a história como está. Que razão pode haver nestas palavras impulsionadas pela bebida e pelo tardar das horas? Vê? Faz uma bela noite lá fora. Estrelas minúsculas brilham no céu. E uma lua sorridente compraz-se de minha imensa dor. Onde está deusa de meus sonhos? Não sei e nunca saberei. Estamos separados tanto física quanto emocionalmente. Sei que enquanto tenho-lhe tanto amor ela, de mim, não conhece nada. Talvez nem saiba de minha existência. Sou tão minúsculo, entende? Se ao menos pudesse dizer-la quanto amor eu dedico-lhe. Não lhe exigiria que sentisse o mesmo por mim. Quero apenas um instante ao seu lado. Satisfar-me-ia com sua doce presença. Em escutar-lhe a voz tão suave e, ao mesmo tempo, tão forte e sonora. Viu? Estou denunciando-me. Adeus! Adeus! Caro amigo obrigado por dar-me atenção por estas horas. Estou imensamente grato por sua bondade. Espero que não tenha vivido tantos tormentos quanto eu. Na verdade sou imensamente só. E sua companhia fez-me um grande bem. Até outro dia! Espero não o ter importunado com meus infortúnios. Uma última dose! Pronto! Adeus! Adeus! Terei como ouvintes somente as estrelas pelo fim desta madrugada.

“When you were here before / could’nt look you in the eye /you’re just like an angel /your skin makes me cry /you float like a feather /in a beautiful world /I wish I was special/ you’re so fucking special/but I’m a creep /I’m a weirdo…”        

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2 opiniões sobre “

  1. Oi, Giordana.
    Li os seus três últimos textos: “O ébrio e as estrelas”, “Carta aos amigos” e “Sinto sua falta”.
    “Sinto sua falta” eu li no final de 2007. Os outros li anteontem.
    Eu gostei bastante desse texto (sobre o escritor e seu gato Astronauta), mas, entre os três, gostei mais do “Carta aos amigos”.
    A minha dúvida é a mesma da outra pessoa que comentou antes de mim: o texto todo é da Clarice Linspector ou só o final?
    Eu também já li e ouvi muito sobre Clarice Linspector, mas nunca li um livro dela. Sei que ela era russa ou coisa parecida, mas é só isso.
    Se você quiser posso abrir um link do seu blog lá no meu (não é aquela da Bélgica, não, é outro aqui no Brasil).
    Parabéns, os três textos estão muito bons!
    Abraços.

  2. Ufa!
    Demorei mas cheguei aqui! hehehehehehehe!
    Caio, Caio,Caio.
    O que foi que aconteceu contigo mulher?
    Seja o que for eu AMEI! hahahahaha!
    Texto ótimo … bom mesmo, desses em 1º pessoa que me prende, que deixam os sentimentos explícitos, jogados na cara , exatamente como gosto!
    Parabéns, demorei pra vir aqui, mas amei o que li.
    Beijos …

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