Arquivo do mês: janeiro 2008

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                                          As Pessoas da Sala de Jantar

Giordana Medeiros

O que está sob as aparências? O que se esconde sob o manto da hipocrisia? Um casamento frustrado? Filhos que não serão felizes um momento sequer em seu destino traçado em linhas tortas antes deles nascerem?  Será que minha típica família burguesa poderá sobreviver a todos estes questionamentos, que nunca foram feitos por puro medo? Como poeira, estas questões vão se acumulando sobre os móveis, sobre as pessoas, sobre o mundo. Toda uma realidade escondida, sob o peso de perguntas nunca antes feitas. E respostas que não precisam ser ditas. Uma silenciosa guerra à mesa de jantar. Como se nenhum dos que compõe esta cena se conhecesse realmente, embora convivamos diariamente e tomemos parte das aflições uns dos outros. Que tal solicitarmos a um Deus de madeira oca que nos traga uma harmonia que nunca existiu? Somos uma família? Ou pessoas estranhas vivendo realidades inventadas? Talvez possamos nos encontrar em algum consultório psiquiátrico onde curemos nossas doenças ou nos libertemos deste sentimento que nos corrói por dentro, tornando-nos mais vazios a cada dia.

“Ave Maria, cheia de graça, concedei-me uma paz que não existe, dei-me esperança que não me alcança, fazei-me boa como nunca fui… E abençoe minha família, Amém.” Estamos vivendo. Você sabe… Mas os dias já não são para sempre… E “o futuro não é mais o que era antigamente”. Por favor, não desista de mim. Eu que vivo este pesadelo de náufrago, isolada numa realidade que não me concede saída. Deixe-me sonhar que já não posso. Essas palavras mordazes, ditas entre sorrisos, que machucam tanto. Somos tão diferentes, tão díspares, como podemos ser uma família? E os retratos nas paredes? Quando fomos tão felizes? Já nem me lembro mais… Foi. Escorreu entre os meus dedos e não pude reter. No fim, resta-nos um silêncio dolorido, em que aceitamos desculpas que não foram proferidas. E continuamos seguindo, mas sem saber bem por onde.

Será que um dia já me perceberam verdadeiramente? Ou apenas quando pedi socorro, debatendo-me, afogando-me em ilusões, compreenderam o quanto sofria? Então engoliram suas culpas. Todos temos de “engolir sapos”. Aquele sentimento engasgado na garganta que nos momentos de raiva fere imensamente. Como estilhaços de uma bomba que ferem quem não queremos ferir. “Se você engravidar filhinha, será um cataclismo na família, e a família é o mais importante, não?” “Se rezar todas as noites Deus a amenizará de todos os seus pecados e faltas” E esse estranho ressentimento que me inunda o espírito também diminuirá? Acredito que nunca fui boa o suficiente. E quando já não tinha mais onde me sustentar tudo ruiu sobre mim. Passei quase uma década procurando saber onde errei. No fim, foi uma série de erros. Todos erramos.

Agora nos sentamos à mesa e engolimos nossas dores. Sorrimos amarelo e não conversamos sobre o que realmente dói. E um gosto amargo se mistura ao sabor do filet mignon do almoço: “– uma delícia!” E nossas mágoas, e nossos preconceitos e nossa imensa dor? Onde escondemos tudo isso? Sob nossas máscaras sorridentes de família feliz que apresentamos a nossos amigos falsos, a toda esta sociedade hipócrita fundada em aparências. Por que nos impõe este peso tão grande de sermos felizes? E se não o formos? Se temos de suportar nossos fracassos, como nos apresentaremos aos outros que nos cobram sucessos inalcançáveis como bom emprego e corpo atlético? “Filha minha não será mãe solteira.” Até onde podemos nos olhar sem enxergar nosso lado mais sombrio? Uma aflição que se sobrepõe ao amor. É tão difícil amarmos uns aos outros quando já não nos conhecemos mais.

“Quando chegar, tranque o portão. Protegemos a quem amamos.” E vivemos amordaçados, temerosos, pois desconhecemos àqueles com quem vivemos.  Todos sob as máscaras que criamos para nos proteger uns dos outros. “Espere-me na escada” que leva ao céu ou ao inferno, o que estiver mais próximo. Uma explosão de rancor que transborda em minha alma. Mas nem eu mesma sei realmente o porquê. “E as pessoas da sala de jantar? Estão preocupadas em nascer e morrer.” Não enxergam a sua volta, tão ocupadas em seu mundo mesquinho. Míopes, só vêem o que está adstrito a sua pessoa. Somos escravos do nosso egoísmo. “Passe-me o feijão, sim?” E aquela cadeira vazia? Quando será novamente ocupada? Não está faltando alguém? Por que ignoramos este detalhe ou fingimos que o desconhecemos? “É acertado previamente não se falar assuntos desagradáveis à mesa”. Quando, então, apresentaremos todas as nossas queixas? Se é vedado à palavra? Se é proibido discutir aquilo que realmente nos aflige? Quero falar de todo este sentimento que me entope, que me ocupa em toda minha capacidade e, ao final de uma década, já não há mais espaço em mim onde aprisioná-lo. Mas enquanto continuarmos mudos, saboreando nossas mágoas, sorrindo falsamente uns para os outros, jamais tomaremos real conhecimento de nós mesmos.

“Você sabe quem sou? Você sabe quem realmente sou?” Sou um fantasma, uma sombra que se esgueira pelos cantos a procura de uma luz que não pode gerar. E está tudo tão escuro será que percebe? Creio que não há luz no fim do túnel. Só o som de nossas acusações reverberando em nossos espíritos. Pode ser verdade, mas quem tem coragem de provar? É melhor nos escondermos sob os escudos da aparência para que todos apreciem a estabilidade de nossa família, tão feliz nos retratos. E na realidade há sempre uma sombra caindo sobre nós. Polidamente nos sentamos à mesa e comemos nossos legumes. Quando na verdade queremos gritar: escutem-me! Eu sofro! Nós sofremos! Enfrentamos uma guerra diária sem pegarmos em armas, que deixa tantos feridos quanto uma guerra real. “Mas feche a janela que vai chover, e saiba: amo você”. Sim, sob as cinzas da dor há ainda uma brasa incandescente de amor.  Um resquício de alegria, um momento em que fomos verdadeiramente felizes, uma semente de esperança.  E é esta esperança que nos sufoca, que nos impele, todos os dias, a encontrar algo que faça valer à pena. E, no final, sempre encontramos.

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Para Giovanna, grande amiga, sempre presente em seus comentários tão gentis. 

                                                     Sangue e Lágrimas 

Giordana Medeiros

Nunca sei por onde começar um conto. Ás vezes enfoco o clima, como uma ferramenta de inserção do leitor na cena presenciada pelos personagens. Ou, no uso de minha onipotente vontade como escritor, penetro no espírito destes últimos, procurando dar destaque a sentimentos desses seres fictícios, que invariavelmente me parecem tão vivos quanto eu mesmo. Dessa vez não vou usar desses arcabouços literários para dar vazão a minha criatividade. É certo que a língua limita muito do que pretendo realmente escrever. É preciso muita desenvoltura com a gramática para criar textos de relevo. Mas como dizia, vou inserir vocês, caros leitores, diretamente na cena, chocante, de um homem derrotado pela vida. Vejam-no no quarto, sentado sobre a cama, uma lamina afiada na mão direita traçando um caminho rubro no pulso esquerdo e, com alguma dificuldade, corta também o pulso direito. O sangue mancha os lençóis de um vermelho quente. Deitado, o rapaz (percebo agora, é somente um rapaz, a juventude é marcante em seu rosto impúbere), aguarda que sua vida esvaia-se pelos talhos em seus pulsos. Espera que encontrem seu corpo inerte envolto de uma poça de sangue e lágrimas.

O que o levou a este ato derradeiro? A essa ação fatalista, de ceifar, com suas próprias mãos, a vida que outrora pulsava desesperadamente em suas veias? Talvez encontremos algo em sua carta de suicida escrita por ele horas antes e deixada sobre o criado-mudo:

“Caros parentes, não lhes deixo nada, nem mesmo minha funesta presença. Do mesmo modo não deixo um legado a ser seguido. Acumulo derrotas pela vida. E não tenho riquezas ou bens. Até mesmo meu pobre coração há muito não me pertence. Espero que se recordem de mim como uma doce lembrança e esqueçam-se como sempre fui um ser soturno, que caminhava solitário pela vida. Talvez essa seja a atitude mais sensata que tive em toda minha curta história. Não orem por mim, pois minha alma finalmente se livra dos grilhões que a reprimem. Tudo que a prendia nesta realidade insólita era a casca que a sufocava. Deixo este corpo como uma borboleta liberta-se de um casulo. Cheguei numa encruzilhada e não sei qual caminho seguir. Falta-me coragem para escolher a via dolorosa. A Via Crucis do corpo. Nunca fui santo. Nem sou um herói. Sou um covarde. Um homem fraco que preferiu a morte a viver a dor de cada dia e respirar o odor que exala a sobrevivência. Agora sentirei o perfume dos cravos e rosas e a singeleza dos lírios. “Olhai os lírios do campo em lembrai de mim”. Não culpo ninguém, não deixo mágoas, nem nenhum ressentimento. Este é meu ato desesperado de vida! Adeus.”

Não nos deixa muitas explicações. Mal sabe ele que esta carta jamais chegará às mãos de seus entes queridos, tendo em vista que fará parte do inquérito que lhe apurará a morte.  E fica-nos a incógnita: o que levou nosso jovem rapaz ao suicídio? Vejamos seu corpo tal qual faria um legista. Não há sinais de agressões, muito menos de uso de drogas injetáveis. Será que se embriagou para dar cabo a sua vida? Não há garrafas de bebidas alcoólicas ao redor. É certo que não saiu do quarto durante todo dia. Então que aflição tomou-lhe devastadoramente o espírito que lhe insuflou desejos lúgubres? Quisera ser entendedor desta alma atormentada, desse ser pitoresco que se debate como um afogado em busca de socorro. Entretanto é demasiado tarde para oferecer-lhe uma mão de conforto. Agora exangue, o corpo alvo destaca-se em meio à lagoa rubra que toma o leito. Um último sopro e lá se foi uma vida.

Todavia o que fizemos para impedir esta pretensa “fatalidade”? Estávamos todo este tempo assistindo atônitos à morte lenta de um homem e em nenhum momento nos sobreveio um único gesto de piedade. Não adianta benzer-se e encomendar-lhe a alma. Somos os grandes culpados por esta morte. Pesará eternamente em nossos ombros a responsabilidade deste suicídio. O que fizemos? Assistimos uma vida esvair-se em sangue e lágrimas com olhos de pesquisadores. Tratamos um ser humano como uma cobaia. Procurávamos repostas quando tínhamos de encontrar saídas. Podem tentar safar-se da responsabilidade dizendo que fui eu, o escritor onipresente, que os inseriu nesta história. Mas foram vocês que, sem questionar, preferiram restar, insensíveis a dor, neste conto. Agora vocês são espectadores cruéis de um sacrifício. Imolei este cordeiro para provar-nos a insensibilidade. Temos um coração endurecido, não nos emocionou a agonia deste pobre rapaz. Queríamos estudar quando o essencial era socorrer.

Quando a família encontrar o corpo inerte sobre a cama, o luto os tomará de assalto. Haverá um grande alvoroço. Acionarão ambulâncias, polícia e amigos. E todos, ao menos naquele momento, se unirão num grande pesar. “O que poderíamos ter feito?” Questionar-se-ão. Em um momento muito impróprio, estudarão suas atitudes. Assumirão culpas, perguntar-se-ão entre si se haviam evidências que pressagiassem esta morte. Nunca saberão, como nunca saberemos, a razão deste suicídio. “Ele era muito hermético.” Lembrar-se-ão. Nunca se abria com relação a sentimentos. Nem mesmo quando se despediu, em sua derradeira carta, foi direto quanto aos motivos desta morte prematura.

Agora, como antes, não usarei de clichês e frases feitas pra dar fim a este conto funesto. Deixo-os pasmados diante da família aflita. Remoendo suas responsabilidades. Uso desta artimanha literária de modo não dar fim a algo que nem começou. Não iniciei ou dei fim a um conto. Transportei-os porta a dentro numa realidade. E, neste momento, abandono-os. Procurem refletir sobre esta história. Pesem suas culpas. E acreditem que todos tivemos nosso papel nesta farsa. Há algo que não revelei, talvez propositalmente. Ao lado da cama um livro de Caio Fernando Abreu estava aberto neste poema:

 

Ex-pedir

pedidos de socorro

em todas as direções

postado à janela

o laço na mão

ex-pirar

por dentro inútil

medo em branco

examinando possibilidades

as mais diversas

de escape que não há.

 

Pensem o que quiserem.

  

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Descobrindo a fonte da juventude

Giordana Medeiros

Um dia veio-me uma alegria tão grande e pura que, sem razão alguma, sem motivo algum, sorri. Um sorriso virginal em lábios ressequidos pela amargura. Nem sabia como faze-lo, tanto tempo não sorria. Ele surgiu subtamente e tomou-me de assalto. E foi uma emoção tão intensa que me rejuvenesceu 20 anos.

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                 O ébrio e as estrelas                        

Giordana Medeiros

– Mera distração. Talvez um pouco de excesso de desprendimento. Provavelmente credulidade fria e cega nas pessoas. Como nomear todas as faltas que cometi aquela noite, aquele dia por completo, esta vida inteira em que vivi aos tropeços? Queria ter estado lá. Juro. Sou patético. As coisas acontecem ao meu redor que nem percebo. Num instante e tudo muda. Numa fração de segundo, deixo de ser quem sou. E um tornado invade minha existência, o que resta de mim, então, é uma cidade desolada. Foi assim naquela noite fatídica. Desmoronei por completo. Sempre tive alicerces frágeis. E tudo que queria era não estar tão sozinho naquele momento. Confesso ter chorado. É que sempre fui muito triste. E aquele vislumbre de felicidade ter se apagado por completo, fez-me sofrer deveras. Sei que tudo que imaginava era uma simples ilusão, por si só diáfana, intangível, e, porque não dizer, impossível? Cri inocentemente. Acreditei esperançosamente.

A vida encarrega-se de dar fim às ilusões. Tudo que sobra, então, é uma lágrima, cruzando-me a face, salgando-me os lábios.  O doce convertendo-se em amargo. Um soluço contido. As pernas moles, a cabeça pesando. É uma dor tão intensa que parece ferir o corpo inteiro, quando o único lugar atingido é o coração. Seria clichê dizer que o meu despedaçou-se por completo? Irrecuperável. Desde então não acredito em mais nada e ninguém. Tenho medo de entregar-me novamente e sentir a mesma dor. Não sei se suportaria viver tudo aquilo novamente. Acredito que, talvez, fosse diferente. Entretanto tenho um pavor enorme de crer. Fecho os olhos para não ver. Tranco o coração para não sentir. E em meu espírito tudo está tão sombrio. Aceito minha solidão, despeço-me do mundo. Os deuses são inatingíveis. Tento convencer-me disso. Para dar uma explicação mais plausível a mim mesmo. Esperaria toda minha vida, por somente um único instante sob a luz daqueles olhos.

O estranho é que me prometi não mais falar sobre isto. Mas as memórias ressurgem vez em quando e fazem-me sentir aquele turbilhão de emoções novamente. Estávamos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes. E se tudo houvesse ocorrido de maneira diferente? Teriam se apagado em mim todas as expectativas criadas para aquele momento? Talvez tenha sido melhor daquele jeito. Para jamais dissolverem-se em nada as ilusões que me guiam até hoje. Foi uma dor tão grande que me abriu feridas em todo o espírito. E para recordar-me basta tocar-las fundo, fazendo-as sangrar novamente. E dessa dor surgem estas palavras tão sentidas. Não com os fatos. Não com aquele primeiro e, ao mesmo tempo, derradeiro momento. Não com ninguém. Provavelmente comigo mesmo, que me subjuguei à vontade alheia, que me submeti a condições intransponíveis, que me afastaram ainda mais do inatingível Olimpo.

O que se há de fazer? Só lamento que tudo tenha ocorrido daquela maneira. Não sei por que estou falando isto para você. Provavelmente não esteja compreendendo nada do que estou dizendo. Não quero entrar em pormenores, tudo bem? Quero apenas que me escute, mais um pouco, que suporte estas lágrimas que me marejam os olhos. Não quero chorar. Não novamente. Queria somente compreender. Foram exíguas vinte e quatro horas. Tempo em que tudo poderia ter sido e não foi. E esta dor que sinto agora, teria sido convertida em júbilo, numa felicidade incomparável. Quando estaria, por, ao menos, meros instantes, próximo de meu sonho. Agora já se passaram cinco insuportáveis anos. Sei que esperaria a vida inteira por apenas mais uma chance. Por mais uma oportunidade. Para pedir desculpas por minha imensa fraqueza. Será que há perdão para mim? Estou, durante todos estes anos, escrevendo cartas mudas sem destinatário, onde confesso meus imperdoáveis erros. Guardo-as todas, pois não tenho a quem enviá-las. Acumulam-se pela minha vida, pelas gavetas, pelos armários, pelas estantes. Estão em toda parte, principalmente, no meu frágil e ferido coração. E na verdade não dizem o quanto sofri. Os momentos de tristeza e descrença na vida. Apenas confessam minhas culpas, e, de diversas formas confessam meu amor. Faz cinco anos, três meses e seis dias. Conto, sofro, vivo, espero-os. Acredito que, um dia, esta dor diminua. Não mais sou guiado pela ilusão de ter meu amor correspondido. Afinal que chance tenho eu frente a deuses? Sei que estas palavras não o interessam em absoluto. Que razão há em confissões de um jovem ébrio? Acho que estou atormentando-o. Sinto muito. Pegarei meu paletó e deixarei este balcão. Acredito que me embriagarei por mais algum tempo, se não se importa… Saboreando a solidão. Estes anos infinitos de espera. Quando a verei? Jamais, creio eu. Estamos separados por um abismo intransponível. Pertencemos a mundos diferentes. Ela nunca se submeteria a minha abjeta realidade. E eu nunca ousaria macular o mundo de cristal em que ela vive. Ao mesmo tempo tão esplendoroso e frágil. “You float like a feather /in a beautiful world /I wish I was special /you’re so fucking special…” Eu queria ser tão especial para ela quanto ela o é para mim. Mas reconheço minha insignificância. “I’m a creep/ I’m a weirdo.” O que inferno estou fazendo aqui? Com esta ladainha melosa? Vou para a escuridão do meu quarto, chorar até raiar o dia, até que sequem estas lágrimas, ou, mesmo, até que meu coração conforme-se com este sofrimento pungente que o domina. Sei que não entendeu nenhuma palavra do que lhe disse. Também não direi quem é a “Deusa Coroada”, razão dos meus tormentos e desta dor lancinante que me castiga há tantos anos. Nem mesmo contarei as minúcias desse relacionamento tortuoso em que me envolvi numa época em que ingenuamente cri numa realidade fantasiosa. Um delírio apenas. Uma ilusão que me infligiu as mais dolorosas penas. Amei sobremaneira. Confesso que até tentei distrair meu coração com outras moçoilas, mas minha vida pertence somente a uma única mulher. Pode compreender-me? Sim, pode trazer a conta. Acredito que, se falar um pouco mais, direi coisas das quais me arrependerei.

Deixemos a história como está. Que razão pode haver nestas palavras impulsionadas pela bebida e pelo tardar das horas? Vê? Faz uma bela noite lá fora. Estrelas minúsculas brilham no céu. E uma lua sorridente compraz-se de minha imensa dor. Onde está deusa de meus sonhos? Não sei e nunca saberei. Estamos separados tanto física quanto emocionalmente. Sei que enquanto tenho-lhe tanto amor ela, de mim, não conhece nada. Talvez nem saiba de minha existência. Sou tão minúsculo, entende? Se ao menos pudesse dizer-la quanto amor eu dedico-lhe. Não lhe exigiria que sentisse o mesmo por mim. Quero apenas um instante ao seu lado. Satisfar-me-ia com sua doce presença. Em escutar-lhe a voz tão suave e, ao mesmo tempo, tão forte e sonora. Viu? Estou denunciando-me. Adeus! Adeus! Caro amigo obrigado por dar-me atenção por estas horas. Estou imensamente grato por sua bondade. Espero que não tenha vivido tantos tormentos quanto eu. Na verdade sou imensamente só. E sua companhia fez-me um grande bem. Até outro dia! Espero não o ter importunado com meus infortúnios. Uma última dose! Pronto! Adeus! Adeus! Terei como ouvintes somente as estrelas pelo fim desta madrugada.

“When you were here before / could’nt look you in the eye /you’re just like an angel /your skin makes me cry /you float like a feather /in a beautiful world /I wish I was special/ you’re so fucking special/but I’m a creep /I’m a weirdo…”        

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