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“Sinto a sua falta”

Giordana Medeiros

“Era somente mais uma noite chuvosa e solitária de primavera”. Pensou e encolheu-se dentro do casaco de couro preto. Pisava nas poças de lama com o tênis que fazia um som estranho. Como se a água houvesse se embrenhado na borracha da sola. Ele se incomodava com o som, mas o que há de se fazer? Tirar o tênis é que não iria. Queria mesmo era acender um cigarro. Mas a chuva não favorecia isso. Então continuou seu caminho sob a chuva. Calça molhada, tênis enlameados. A jaqueta de couro protegia o tórax.  “Pelo menos não pegaria um resfriado”. Entrou num armazém. “Incrível estar aberto àquela hora”. Comprou chiclets, um maço de cigarros e comida para o gato. Aproveitou para fumar um pouco, entretanto quando foi acender o cigarro o dono do armazém indicou-lhe uma placa onde constava um cigarro cortado transversalmente. O símbolo mundial de proibição do fumo. Apagou o cigarro. Um pouco contrariado, na verdade. “Nessa maldita cidade não há ao menos um local em que alguém possa fumar em paz?” Pensou. Janine dizia que ele pensava demais, que nunca concretizava seus pensamentos. Era tudo apenas um projeto. Um plano a longo prazo. Não concluía nada e que seu destino seria sempre ganhar um cachê miserável e viver sozinho com um gato repugnante.

– Astronauta não é repugnante. Resmungou baixinho. O gato era o seu único companheiro. Ainda se lembrava de quando o achou na rua, um filhote apenas. Ouviu o miado distante. Aproximou-se de um monte de caixas de papelão e encontrou o gato abandonado. Seu coração foi tocado por aquele ser, tão desamparado, tão sozinho… E, a partir de então, ele tornou-se sua família. Era tão apegado ao gato que todas as mulheres com quem se envolvera desprezavam o animal. Talvez pela sua falta de estirpe. Era apenas um gato vira-latas. Não era um siamês ou um persa. Era brasileiríssimo. Tão brasileiro quanto Vila Lobos. Queria colocar esse nome no gato, mas ficaria demasiadamente impróprio colocar o nome de um espécime canino em um felino. Então colocou o nome que lera uma vez num livro. Não lembrava qual. Fazia muito tempo que o lera. E impunha a todas as garotas com quem se relacionava a presença do gato. Algumas aceitavam. Outras desistiam de ambos: dele e do gato. Como Janine. Mas parece que Janine não o abandonou por causa do gato. Ela achava-o sem ambições. Passivo. Covarde até. Ela queria alguém com “iniciativa”, um homem ambicioso. Que galgasse postos e crescesse profissionalmente.

Ela era um simples escritor. De poucos leitores. De pouco dinheiro. De nenhuma fama. E ela deixou-o. No início sofreu muito. Depois se acostumou com a dor. Era sempre uma pontada no peito.  Uma dor profunda que vinha da alma e marejava-lhe os olhos. E ainda havia aquele terrível tique nervoso. Como conquistar uma garota piscando o olho esquerdo constantemente? Por isso nunca teve beldades. Apenas mulheres feias, com quem poderia dividir a solidão. Entretanto nunca desejou mulheres maravilhosas. Queria apenas companhia. Alguém a quem abraçar quando as idéias somem e a inspiração falte. Sua lascívia não era exigente. Ele não era exigente. Contentava-se e realizava-se com pouco. O seu editor, Charles, negociava a preços módicos as publicações. Era o suficiente para manter, numa sobrevida, a ele e ao gato. Não gastava muito. Por isso poderia sobreviver com pouco. Mas as mulheres… As mulheres são terríveis! Querem presentes e jantares, e automóveis, e vestidos, e perfumes… Luxo, luxo, luxo! Ele precisava apenas de dinheiro para pagar a conta de um sebo onde comprava livros usados. E algum dinheiro para o cigarro.  No mais, não era de fazer desperdícios.

Parou em frente ao seu prédio. Tudo escuro. Quebraram a luz do hall de entrada e nas escadas não havia luz há algum tempo. Entretanto estava tão acostumado àquele caminho que não lhe incomodava o breu. O gato é que ficava com as pupilas dilatadas. Via muito mais que os seres humanos. Olhos de gato verdes, verdes, verdes. O escritor tinha olhos de gente: castanho escuro. Um sorriso triste e uma solidão imensa. E nunca havia alguém com quem comentar um livro que havia escrito. As mulheres que existiram em sua vida não eram afeitas a leitura. Hábito muito esquecido hoje em dia. Os jovens só querem saber do último exemplar do Harry Potter. Ele seria sempre o escritor por todos ignorado. Mas, se morrer, quem sabe alguém resgataria suas obras? E a elas fosse dado o devido destaque? Por que a arte é necrófila. Sacia seus desejos na carne putrefata dos que se foram.  E depois, alguém que foi ignorado durante toda vida é “redescoberto” e suas obras (sim, chamam, a partir de então, de “obras”) são lidas e discutidas exaustivamente nos círculos e saraus literários.

Abriu a porta do apartamento e gato veio enroscar-se em suas pernas. Sorriu tristonho:

-Então Astronauta, sentiu minha falta? Aqui está o que procura. É desta marca que você gosta, não? Abriu a latinha despejou o conteúdo na vasilha do gato que alegremente atirou-se à comida.

– Bem que você poderia comer ratos como todos os gatos. Economizar-me-ia uns bons trocados.

O gato não lhe deu atenção. Então o escritor, (melhor chamá-lo pelo nome. Pois todos um dia reconhecerão suas “obras”. Diante disso melhor dar-lhe a devida veemência). Então Francisco Reis Lins foi até a janela, acendeu o cigarro com um isqueiro barato de padaria, e ficou soltando grossas baforadas. Procurava um título para a história que havia escrito ontem. Um título que não fosse clichê. Os críticos eram cruéis com os clichês. “Solidão” então, jamais. E como se chamaria esta história tão batida de um homem em seu cotidiano solitário? Desviou seus pensamentos para a figura de Janine. Ela foi a mais bela de todas as mulheres que conhecera. Ela e seus olhos verdes, verdes, verdes. Olhos de gato. Sempre orgulhosa. Pretendia mudá-lo completamente. Queria imbuir-lhe ambição. Coragem até.  Amava-a? Sim. Era o que lhe dizia aquela dor, tão pungente que lhe arrebatava por inteiro. Lágrimas escorriam-lhe saudades pela face. Talvez uma dor que lhe era até benéfica, pois escrevia mais sensível. Mais bonito, por que não dizer? E alimentava seus escritos daquela dor. “Um escritor para escrever bem precisa sofrer, sofrer e sofrer”. Já dizia Tchecov. E por isso ele sofria. Sozinho, numa noite chuvosa, na penumbra de seu apartamento. De súbito, sentiu uma idéia para o título germinar em sua mente. Mas era tão corriqueiro, os críticos designar-no-iam de modée.  “Amar o próximo é de modée?” Pensou e teve raiva de seu temor reverencial desses perversos críticos que não entendem nada de literatura. Então num ato de coragem e de desafio foi ao computador e escreveu finalmente o título que procurava há tanto tempo: “Sinto a sua falta.”

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Uma opinião sobre “

  1. Muito bom! Muito bom mesmoooooooooooooooo!
    É desses textos em que fico doida pra virar a página, anciosa pra saber como vai terminar. É cíclico …. o final também exige uma “virada de página”, como se ainda tivesse muitas outras coisas à acontecer ao protagonista.É dinâmico, e a “melancolia” presente estava tão leve que parecia simplesmente fazer parte do cotidiano do protagonista. Cheguei a visualisar o Astronauta pequenino dentro da caixa de papelão! hehehehehehehehe!
    Amei o texto, és brilhante!
    Bjão
    Elis.

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