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                                                           A Flauta Doce 

Giordana Medeiros

Ele acordou, mas não quis sair da cama, desejou estar sozinho no quarto, sob a escuridão, para restar abandonado em sua melancolia. Sem as palavras reconfortantes das pessoas. Por que não podiam apenas deixá-lo sozinho com sua tristeza? Essa dor era só dele e não queria dividir-la com ninguém. Às vezes até a tristeza pode ser doce. E não adianta tentar escapar da solidão. Em algum momento ela há de chegar e apossar-se de tudo. Preencher todos os espaços e frestas. E nestes momentos ele sente uma vontade incrível de gritar. Mas o único som que sai de sua garganta é um soluço. E lágrimas brotam-lhe dos olhos. Então chorava em silêncio, um murmúrio contido porque jamais diria a alguém a profundidade de sua dor. Aliás, ninguém se importaria mesmo.

“E a cada dia ele sobrevivia à morte de si mesmo”. Considerava tudo tão confuso… Adormecia apenas de madrugada, depois de horas sofridas em seu mundo interior. Ele sempre foi tão solitário, sua única companheira era uma flauta doce de madeira que ganhara ainda criança. O som dela ficaria muito bonito acompanhado de um cravo. Entretanto ele jamais teve companhia. É extremamente difícil encontrar alguém que toque cravo nos dias de hoje. A flauta tinha uma dor aguda e derramava notas cheias de melancolia pelo quarto. Ele todos os dias afogava-se em solidão. Seus pais consideravam tudo fruto de uma disfunção hormonal. Afinal ele era apenas um adolescente. Ele era “apenas um adolescente”, então lhe era lícito sofrer assim.

O quarto era somente uma cela sombria. Alcova de seus sonhos. E tudo tinha um sabor tão amargo. Apenas a flauta era doce. Seu momento de euforia era tocar A Flauta Mágica de Mozart. Porém sabia que “a única magia que existe é estarmos vivos. Mas como não compreendemos nada disso. A única magia que existe é nossa incompreensão.” Seus livros proporcionavam-lhe um mundo novo. “Se a realidade nos alimenta com lixo a mente pode nos alimentar com flores”. Todavia no quarto não havia flores. Somente um aparelho de som onde ele escutava sinfonias. Às vezes Rock and Roll ou Jazz. Mas invariavelmente produzia sua própria música. Com sopro e dedos, no compasso, lendo partituras amareladas, tendo em vista ter-las ganhado quando criança. Nunca se desfez delas, nem mesmo dos livros com os quais fora presenteado por seu primo. Muitos deles ele relera várias vezes. Quando criança seu pai lia-lhe histórias antes de dormir. Era o momento em que mais estiveram próximos. Ninguém nunca mais lhe contou histórias. Fazia tempo que não conversava com o pai. Na verdade fazia tempo que não conversava com ninguém. Trancafiado em seu cárcere, o coração pulsava trôpego. Mas havia música, e discos espalhados pelo quarto, e livros abertos sobre a cama, e ainda fotos sem feições sobre os móveis.

Ele queria mesmo era alguém que segurasse a sua mão e guiasse-lhe pelo caminho correto. Pois estava perdido entre as vielas do seu próprio espírito. Onde não havia sinalização, apenas ruas mal iluminadas que não levavam a lugar algum. E no quarto que lhe aprisionava era, paradoxalmente, o lugar em que mais se sentia livre. Chovia. Podia escutar os pingos de chuva na janela. Levantou-se da cama para apreciar a tempestade. As nuvens negras de sua alma relampejavam sentimentos. Descargas elétricas cortavam o céu e eletrizavam-lhe a alma. Só chove e chove. Dentro de si há apenas dias cinza de chuva. Todavia compreendia que “depois de todas as tempestades e naufrágios o que ficava de si era cada vez mais essencial e verdadeiro”.

-“The dream is really over, baby”.  Há ainda algo a esperar?

Disse baixinho com um sorriso amarelado e cínico nos lábios que lhe conferia um ar sarcástico. Viu sua imagem decadente no espelho: cabelos desgrenhados, barba por fazer e olhos inchados. Não deveria torturar-se tanto assim, muito embora a dor fosse tudo o que realmente possuía.

“Parece incrível ainda estar vivo quando não se acredita em mais nada”. Os dias sucedem-se infinitamente. E ele repetia-se como um mantra todas as manhãs uma frase que lera em Perto do Coração Selvagem da Clarice Lispector: “De cada luta ou repouso me levantarei forte como um cavalo jovem”. Contudo não conseguia imprimir esta força em seu espírito. E as lutas mutilavam-lhe a alma. O que resta de nós quando a perdemos por completo? Ele por acaso assistiria o ocaso de sua própria existência? Ele já houvera uma vez visto uma estrela cadente. Entretanto passou tão rápido que não lhe deu tempo de fazer um pedido. Pensar naquilo que mais desejava. Sabia que o desejo só valia enquanto a estrela estivesse cortando o céu. Ele atrasou-se. Atrasou-se para pegar o trem da vida, que lhe deixou com todas as malas numa estação qualquer. Desde então a vida foi um espera infinita. Suas forças exíguas não lhe permitem mais lutar. E recebe golpes certeiros da realidade. Como um lutador de boxe prestes a perder o embate. Contudo sempre existe a esperança de soar a sineta no último instante e adiar a derrota para o próximo round. E diziam que a solidão até que lhe caia bem. Na verdade ela tem exatamente as suas medidas. E se ficasse muito triste podia tocar uma música na flauta doce, e ele  sempre tocava as notas certas para embalar-lhe a solidão.

 

Ps.: Todas as citações atribuídas a Caio Fernando Abreu.

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4 opiniões sobre “

  1. Muito, muito, muito bom …
    Muito bom texto … bem do jeito que eu gosto, com aquela essência meio … enfim, ter citado Caio F. Abreu já explica minha euforia!
    Belo texto!
    Bjs

  2. ser comparado ao caio é, estranhamente e maravilhosamente, um enorme elogio.

    Perdão meu sumiço. É aquela falta de tempo.

    beijos querida.

  3. Mary Leadebal Bonifácio Dias

    Cara escritora,

    Se disser que me surpreendí, estou mentindo. Sempre soube que vc fôsse capaz de escrever tantas coisas maravilhosas.

    Ótimos textos.

    Parabéns!

    Mary

  4. Garotjinha

    Queria em pauta, as notas da flauta de Fa+ ou da Flauta Doce! Com alguma urgencia!

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