Arquivo do mês: dezembro 2007

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Carta aos amigos

Giordana Medeiros

Certo, resolvi escrever-lhes esta carta, mas não sei por onde começar. Talvez falando sobre mim… Digam à mãe que eu consegui um emprego. É muito trabalho e o salário é péssimo. Todavia, para quem não tinha praticamente nada, é um grande passo. Não é nada humilhante: lavo pratos em uma boate. lavo pratos, não acreditem em histórias que porventura venham a contar. Atenho-me a ficar apenas na cozinha. Sei que “boate” é apenas um eufemismo para aquele lugar, mas não contem à mãe. Existe muita coisa para ser vista nesta cidade. É tão bonita e antiga. A diferença do Brasil é que nele tudo é muito novo, Brasília é recentíssima. Enquanto tudo aqui é costumeiro, antiquado. As roupas são longas e pesadas. Disseram-me que é porque ainda é inverno. Faz um frio de doer até a medula dos ossos.

 A água parece congelar as mãos. Na boate não há aquecimento. O que torna o trabalho mais penoso. No Brasil dir-se-ia insalubre. Moro num apartamentozinho de fundos. Só vejo paredes sujas, escurecidas pelo tempo e frias. Tudo aqui é muito frio. As pessoas, o clima, a cidade. Muito diferente do Brasil onde tudo, desde o tempero até o povo, é muito quente e acolhedor. Pátria-mãe Brasil. Tenham certeza disso. Se porventura os salários são mais dignos aqui, não temos a mesma dignidade que nos concede o país em que somos cidadãos. Fora dele não somos nada. Nada além de imigrantes. O que é quase nada por aqui.

Chamam-nos de “cucarachas”, baratas, a todos os latino-americanos. Desconhecem tudo sobre o Brasil. Julgam que vivemos todos em casas de palafitas no meio da floresta amazônica. E que próximo a estas há um campo de futebol. O estranho é que nunca aprendi a jogar futebol. Aliás, como é de conhecimento de vocês nunca tive êxito em qualquer esporte. Tenho talento somente para a literatura, o que se há de fazer? Aqui há um grande acesso a narcóticos, é muito fácil adquirir drogas em sua grande variedade. Não tenho coragem de usá-las. Dizem que sou careta. Que seja.

Escrevo uma única carta para todos os amigos do Brasil por que não tenho o endereço de todos para mandar uma correspondência mais individualizada. Devia ter-los anotado todos em uma agenda. A fim de poder contar-lhes pormenorizadamente sobre minha estadia aqui no exterior. Poderia ainda enviar-lhes e-mails, contudo, não tenho computador aqui. Nem ao menos sei quando terei. O que ganho é muito pouco, Só o fundamental para uma sobrevida. Sinto tanta saudade do Brasil. É demasiadamente estranho sair às ruas e não haver nem ao menos uma pessoa com quem se possa falar em português. Sinto-me isolada. Ainda tenho claustrofobia. Em meu minúsculo apartamento, sou tomada de um grande desespero, às vezes. Falta-me ar e tenho vertigens. Entretanto espero alguns minutos (às vezes horas) e tudo volta ao normal. “É tudo uma questão de costume”. Já dizia minha velha mãe.

E como ela anda? Como passa os dias sem minha companhia? Sente muito minha falta?E o dinheiro que lhe envio, é suficiente para os remédios? Estava tão adoentada quando parti. Tenho crises de consciência por tê-la deixado sozinha. Desde que papai morreu, era eu sua única companhia. E agora estou tão distante… Escrevo-lhe sempre, muito embora não receba respostas. Provavelmente ela ainda esteja magoada com minha partida. Espero que ela acostume-se a minha ausência. Como também venho tentado fazê-lo. Viver é duro, penoso e degradante.

Entretanto espero por momentos felizes em breve. Quando me aceitarem num programa de bolsa de estudos de uma universidade daqui. Receberei uma quantia (não muito grande) em dinheiro e poderei morar no dormitório da faculdade. Diante do que direi adeus a esse cubículo e ainda economizarei o dinheiro do aluguel. Ando lendo muito no meu tempo livre. Trouxe alguns livros do Brasil e ainda leio outros aqui numa biblioteca pública. Deixam-me entrar, mas em razão de ser estrangeira não me permitem fazer um cartão da biblioteca, forçando-me a passar dias inteiros naquele prédio antigo. Não tem nada não, até que gosto. Faria mais para ter acesso àqueles belos livros. Estou relendo Caio, Lispector, Pessoa e Lygia (em casa) e Joyce (na biblioteca).

Tenho vivido meus melhores dias assim. Os piores nem lhes conto para não lhes trazer preocupações. Vou vivendo. Vou seguindo. Um dia desses contraí uma forte gripe: fiquei um dia inteiro na cama. Perdi um dia de salário. O que me preocupa é que vivo no limite. E não quero pedir ajuda à mamãe. Ela já é tão sacrificada. Não quero que se preocupe comigo. A vida é uma miséria só. Estou aprendendo a ser mais humilde aqui.  Tudo que havia em mim de orgulho e soberba foi arrancado pelos dentes vorazes da fome e pelas garras afiadas da necessidade. Estou magérrima. Minhas colegas da boate dizem ser melhor assim. Aqui os homens têm um fetiche estranho por garotas anoréxicas. Quem sabe não encontre algum “gringo” que se apaixone realmente por mim? Deixaria, então, de lavar pratos, conseguiria um visto de permanência e não viveria mais na ilegalidade.

Às vezes sonho com isto. Mas sonhar está cada vez mais raro. Acho que estou perdendo a esperança. Os sonhos se vão e o que resta é escuridão. A escuridão do quarto frio. Úmido. As paredes estão cobertas por um mofo negro que contribui para noites de crises asmáticas. As roupas não secam por aqui. Visto tudo um pouco molhado, com o frio fico coberta por uma fina camada de gelo. Tenho um cobertor velho e espesso comprado num brechó para me esquentar. Queria poder passar dias e semanas inteiras sob este cobertor. Esperando, só esperando. Que um dia nasça um sol amarelo e quente e venha me trazer um pouco de calor ao coração.

Ouço uma música distante: é uma Festa de Ano Novo.  Estão fazendo a contagem regressiva. Feliz Ano Novo! Mas tudo está tão velho para mim. Minhas roupas rotas, meus sapatos esburacados. Minha alma está aos frangalhos. Quando voltar ao Brasil, terão de me juntar os cacos. Sim, voltarei, não sei quando (ainda não tenho dinheiro suficiente para a passagem), entretanto, espero que seja em breve. Não agüento de saudades.  Aqui não há “saudade” acreditam? As pessoas sentem falta uma das outras, mas não sentem saudades. Sentimento muito próprio de um povo que é só coração como o latino-americano. Sinto saudade do tempero da mamãe, das conversas com os amigos, de deitar-me em uma rede e somente ver o tempo passar. Ouço as pessoas felizes desejando-se Feliz Ano Novo e eu aqui, sozinha em minha dor. Feliz Ano Velho! Pois não há nada de novo neste ano para mim, o mesmo trabalho, o mesmo abandono, a mesma dor.

Meus amigos, quando receberem esta carta, leiam-na pausadamente para que, em suas mentes, permaneça por bastante tempo, a minha imagem. Quero que pensem em mim sempre. Tanto quanto penso em vocês. Aqui isolada em um mundo diferente sinto-me uma alienígena. Como se pisasse num solo que não fosse o da Terra. Outro mundo, outra língua, outros hábitos. Tudo muito diferente. Sofremos para nos adaptar. Minha mãe dizia que devemos ser camaleões e transmudar-mo-nos conforme o ambiente. Tento fazer isto, mas é tão difícil… Os “gringos” acham que não somos gente e cospem em nossa cara. E se revidamos, a polícia prende apenas aos latinos de pele curtida que inventaram de invadir este país sem serem convidados.

Continuo escrevendo, à mão, pois não tenho nem ao menos uma velha e obsoleta máquina de escrever. Passo noites em claro escrevendo. Lembram da peça de teatro que estava idealizando? Coloquei-a no papel. Não é nada Shakespeareano, mas acredito ser uma bela história. No domingo assistirei a uma peça de teatro. Sunday, Blody Sunday. Minha alma sangra, há uma grande ferida em mim que nesta terra só aumenta. Quando criança imaginava minha vida fora do Brasil. Tudo é tão diferente do esperado. Sinto uma solidão imensa. Aqui se aprende a ser patriota. A valorizar nossa terra e nossa gente. Cresce em mim um amor pelo Brasil que não existia. Valorizo até nossos defeitos, tão sutis vistos à distância. Acredito agora que meu país é o melhor do mundo. Uma nação privilegiada, com clima ameno (juro que esqueci os dias onde a umidade do ar em Brasília descia a menos de dez por cento). Sinto tanto frio. Estou com as mãos dormentes. Vou preparar um café e depois eu retorno.

Voltei com uma xícara fumegante nas mãos. O sabor do café brasileiro é indiscutivelmente o melhor. Sinto tanta saudade que até as ruas sujas, as favelas, a violência, a discrepante desigualdade social fazem-me falta. Não nos querem aqui. As nações ricas rejeitam os filhos do subdesenvolvimento. A imigração é infinita. Todos em busca de uma vida melhor. Acabamos por viver às mínguas à luz do desenvolvimento e da riqueza. Os pobres são os que sofrem mais. Quando voltar ao Brasil, acredito que vocês espantar-se-ão com as marcas que essa terra deixou em meu espírito. Vagando pela riqueza sob o julgo da miséria absoluta. Hoje em dia, raros são os que obtêm êxito no exterior. Infelizmente não sou um deles. Estarei de volta, em breve, e, ao tocar o solo do meu país, nascerei novamente. Pois a antiga eu morreu neste chão coberto pela neve. Uma lápide fria e alva. Tal qual mármore de carrara, contudo bem mais modesta. Perguntarão pelo meu orgulho: deixei-o ao relento e congelou, perguntarão pela minha dignidade: mofou como as paredes úmidas de meu quarto. Perguntarão pelo meu coração: este sempre esteve no Brasil, quente ainda, pulsantemente vivo. Despeço-me agora com um profundo pesar. Esta hora que estive com vocês foi revigorante. E trouxe-me alegria e uma tênue esperança.

Um abraço a todos.

Voltarei em breve.

P.S.:

 Um Sonho 

Foi um sonho tão forte que acreditei nele por minutos como uma realidade. Sonhei que aquele dia era Ano Novo. E quando abri os olhos cheguei a dizer: Feliz Ano Novo!

Não entendo de sonhos. Mas este me pareceu um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta um ano novo. É tão difícil mudar: às vezes escorre sangue.

Clarice Lispector

   

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Feliz Natal

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Que as festas possam ajudar a tocar os corações endurecidos do mundo moderno. Que uma chama, mesmo que tênue, de esperança possa ajudar a crepitar felicidade entre as cinzas de amargura que tomam o espírito dos homens. A vida pode ainda ser muito boa. Creio nisto, espero que vocês também.

Alegremo-nos: é Natal. Acreditem: há ainda uma luz no fim do túnel. E o pior dos homens pode vir a reconciliar-se com o mundo e com a vida. Por que não? É necessário acreditar. Não uma fé cega e enlouquecida. Mas uma crença saudável. Um otimismo que ilumine os nossos dias. O fundamental é plantar-se as sementes certas, para que a colheita seja bastante farta e recompensadora.

                                                      Feliz Natal.

                                                                                                    

                                                                           Giordana Medeiros

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“Sinto a sua falta”

Giordana Medeiros

“Era somente mais uma noite chuvosa e solitária de primavera”. Pensou e encolheu-se dentro do casaco de couro preto. Pisava nas poças de lama com o tênis que fazia um som estranho. Como se a água houvesse se embrenhado na borracha da sola. Ele se incomodava com o som, mas o que há de se fazer? Tirar o tênis é que não iria. Queria mesmo era acender um cigarro. Mas a chuva não favorecia isso. Então continuou seu caminho sob a chuva. Calça molhada, tênis enlameados. A jaqueta de couro protegia o tórax.  “Pelo menos não pegaria um resfriado”. Entrou num armazém. “Incrível estar aberto àquela hora”. Comprou chiclets, um maço de cigarros e comida para o gato. Aproveitou para fumar um pouco, entretanto quando foi acender o cigarro o dono do armazém indicou-lhe uma placa onde constava um cigarro cortado transversalmente. O símbolo mundial de proibição do fumo. Apagou o cigarro. Um pouco contrariado, na verdade. “Nessa maldita cidade não há ao menos um local em que alguém possa fumar em paz?” Pensou. Janine dizia que ele pensava demais, que nunca concretizava seus pensamentos. Era tudo apenas um projeto. Um plano a longo prazo. Não concluía nada e que seu destino seria sempre ganhar um cachê miserável e viver sozinho com um gato repugnante.

– Astronauta não é repugnante. Resmungou baixinho. O gato era o seu único companheiro. Ainda se lembrava de quando o achou na rua, um filhote apenas. Ouviu o miado distante. Aproximou-se de um monte de caixas de papelão e encontrou o gato abandonado. Seu coração foi tocado por aquele ser, tão desamparado, tão sozinho… E, a partir de então, ele tornou-se sua família. Era tão apegado ao gato que todas as mulheres com quem se envolvera desprezavam o animal. Talvez pela sua falta de estirpe. Era apenas um gato vira-latas. Não era um siamês ou um persa. Era brasileiríssimo. Tão brasileiro quanto Vila Lobos. Queria colocar esse nome no gato, mas ficaria demasiadamente impróprio colocar o nome de um espécime canino em um felino. Então colocou o nome que lera uma vez num livro. Não lembrava qual. Fazia muito tempo que o lera. E impunha a todas as garotas com quem se relacionava a presença do gato. Algumas aceitavam. Outras desistiam de ambos: dele e do gato. Como Janine. Mas parece que Janine não o abandonou por causa do gato. Ela achava-o sem ambições. Passivo. Covarde até. Ela queria alguém com “iniciativa”, um homem ambicioso. Que galgasse postos e crescesse profissionalmente.

Ela era um simples escritor. De poucos leitores. De pouco dinheiro. De nenhuma fama. E ela deixou-o. No início sofreu muito. Depois se acostumou com a dor. Era sempre uma pontada no peito.  Uma dor profunda que vinha da alma e marejava-lhe os olhos. E ainda havia aquele terrível tique nervoso. Como conquistar uma garota piscando o olho esquerdo constantemente? Por isso nunca teve beldades. Apenas mulheres feias, com quem poderia dividir a solidão. Entretanto nunca desejou mulheres maravilhosas. Queria apenas companhia. Alguém a quem abraçar quando as idéias somem e a inspiração falte. Sua lascívia não era exigente. Ele não era exigente. Contentava-se e realizava-se com pouco. O seu editor, Charles, negociava a preços módicos as publicações. Era o suficiente para manter, numa sobrevida, a ele e ao gato. Não gastava muito. Por isso poderia sobreviver com pouco. Mas as mulheres… As mulheres são terríveis! Querem presentes e jantares, e automóveis, e vestidos, e perfumes… Luxo, luxo, luxo! Ele precisava apenas de dinheiro para pagar a conta de um sebo onde comprava livros usados. E algum dinheiro para o cigarro.  No mais, não era de fazer desperdícios.

Parou em frente ao seu prédio. Tudo escuro. Quebraram a luz do hall de entrada e nas escadas não havia luz há algum tempo. Entretanto estava tão acostumado àquele caminho que não lhe incomodava o breu. O gato é que ficava com as pupilas dilatadas. Via muito mais que os seres humanos. Olhos de gato verdes, verdes, verdes. O escritor tinha olhos de gente: castanho escuro. Um sorriso triste e uma solidão imensa. E nunca havia alguém com quem comentar um livro que havia escrito. As mulheres que existiram em sua vida não eram afeitas a leitura. Hábito muito esquecido hoje em dia. Os jovens só querem saber do último exemplar do Harry Potter. Ele seria sempre o escritor por todos ignorado. Mas, se morrer, quem sabe alguém resgataria suas obras? E a elas fosse dado o devido destaque? Por que a arte é necrófila. Sacia seus desejos na carne putrefata dos que se foram.  E depois, alguém que foi ignorado durante toda vida é “redescoberto” e suas obras (sim, chamam, a partir de então, de “obras”) são lidas e discutidas exaustivamente nos círculos e saraus literários.

Abriu a porta do apartamento e gato veio enroscar-se em suas pernas. Sorriu tristonho:

-Então Astronauta, sentiu minha falta? Aqui está o que procura. É desta marca que você gosta, não? Abriu a latinha despejou o conteúdo na vasilha do gato que alegremente atirou-se à comida.

– Bem que você poderia comer ratos como todos os gatos. Economizar-me-ia uns bons trocados.

O gato não lhe deu atenção. Então o escritor, (melhor chamá-lo pelo nome. Pois todos um dia reconhecerão suas “obras”. Diante disso melhor dar-lhe a devida veemência). Então Francisco Reis Lins foi até a janela, acendeu o cigarro com um isqueiro barato de padaria, e ficou soltando grossas baforadas. Procurava um título para a história que havia escrito ontem. Um título que não fosse clichê. Os críticos eram cruéis com os clichês. “Solidão” então, jamais. E como se chamaria esta história tão batida de um homem em seu cotidiano solitário? Desviou seus pensamentos para a figura de Janine. Ela foi a mais bela de todas as mulheres que conhecera. Ela e seus olhos verdes, verdes, verdes. Olhos de gato. Sempre orgulhosa. Pretendia mudá-lo completamente. Queria imbuir-lhe ambição. Coragem até.  Amava-a? Sim. Era o que lhe dizia aquela dor, tão pungente que lhe arrebatava por inteiro. Lágrimas escorriam-lhe saudades pela face. Talvez uma dor que lhe era até benéfica, pois escrevia mais sensível. Mais bonito, por que não dizer? E alimentava seus escritos daquela dor. “Um escritor para escrever bem precisa sofrer, sofrer e sofrer”. Já dizia Tchecov. E por isso ele sofria. Sozinho, numa noite chuvosa, na penumbra de seu apartamento. De súbito, sentiu uma idéia para o título germinar em sua mente. Mas era tão corriqueiro, os críticos designar-no-iam de modée.  “Amar o próximo é de modée?” Pensou e teve raiva de seu temor reverencial desses perversos críticos que não entendem nada de literatura. Então num ato de coragem e de desafio foi ao computador e escreveu finalmente o título que procurava há tanto tempo: “Sinto a sua falta.”

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                                                           A Flauta Doce 

Giordana Medeiros

Ele acordou, mas não quis sair da cama, desejou estar sozinho no quarto, sob a escuridão, para restar abandonado em sua melancolia. Sem as palavras reconfortantes das pessoas. Por que não podiam apenas deixá-lo sozinho com sua tristeza? Essa dor era só dele e não queria dividir-la com ninguém. Às vezes até a tristeza pode ser doce. E não adianta tentar escapar da solidão. Em algum momento ela há de chegar e apossar-se de tudo. Preencher todos os espaços e frestas. E nestes momentos ele sente uma vontade incrível de gritar. Mas o único som que sai de sua garganta é um soluço. E lágrimas brotam-lhe dos olhos. Então chorava em silêncio, um murmúrio contido porque jamais diria a alguém a profundidade de sua dor. Aliás, ninguém se importaria mesmo.

“E a cada dia ele sobrevivia à morte de si mesmo”. Considerava tudo tão confuso… Adormecia apenas de madrugada, depois de horas sofridas em seu mundo interior. Ele sempre foi tão solitário, sua única companheira era uma flauta doce de madeira que ganhara ainda criança. O som dela ficaria muito bonito acompanhado de um cravo. Entretanto ele jamais teve companhia. É extremamente difícil encontrar alguém que toque cravo nos dias de hoje. A flauta tinha uma dor aguda e derramava notas cheias de melancolia pelo quarto. Ele todos os dias afogava-se em solidão. Seus pais consideravam tudo fruto de uma disfunção hormonal. Afinal ele era apenas um adolescente. Ele era “apenas um adolescente”, então lhe era lícito sofrer assim.

O quarto era somente uma cela sombria. Alcova de seus sonhos. E tudo tinha um sabor tão amargo. Apenas a flauta era doce. Seu momento de euforia era tocar A Flauta Mágica de Mozart. Porém sabia que “a única magia que existe é estarmos vivos. Mas como não compreendemos nada disso. A única magia que existe é nossa incompreensão.” Seus livros proporcionavam-lhe um mundo novo. “Se a realidade nos alimenta com lixo a mente pode nos alimentar com flores”. Todavia no quarto não havia flores. Somente um aparelho de som onde ele escutava sinfonias. Às vezes Rock and Roll ou Jazz. Mas invariavelmente produzia sua própria música. Com sopro e dedos, no compasso, lendo partituras amareladas, tendo em vista ter-las ganhado quando criança. Nunca se desfez delas, nem mesmo dos livros com os quais fora presenteado por seu primo. Muitos deles ele relera várias vezes. Quando criança seu pai lia-lhe histórias antes de dormir. Era o momento em que mais estiveram próximos. Ninguém nunca mais lhe contou histórias. Fazia tempo que não conversava com o pai. Na verdade fazia tempo que não conversava com ninguém. Trancafiado em seu cárcere, o coração pulsava trôpego. Mas havia música, e discos espalhados pelo quarto, e livros abertos sobre a cama, e ainda fotos sem feições sobre os móveis.

Ele queria mesmo era alguém que segurasse a sua mão e guiasse-lhe pelo caminho correto. Pois estava perdido entre as vielas do seu próprio espírito. Onde não havia sinalização, apenas ruas mal iluminadas que não levavam a lugar algum. E no quarto que lhe aprisionava era, paradoxalmente, o lugar em que mais se sentia livre. Chovia. Podia escutar os pingos de chuva na janela. Levantou-se da cama para apreciar a tempestade. As nuvens negras de sua alma relampejavam sentimentos. Descargas elétricas cortavam o céu e eletrizavam-lhe a alma. Só chove e chove. Dentro de si há apenas dias cinza de chuva. Todavia compreendia que “depois de todas as tempestades e naufrágios o que ficava de si era cada vez mais essencial e verdadeiro”.

-“The dream is really over, baby”.  Há ainda algo a esperar?

Disse baixinho com um sorriso amarelado e cínico nos lábios que lhe conferia um ar sarcástico. Viu sua imagem decadente no espelho: cabelos desgrenhados, barba por fazer e olhos inchados. Não deveria torturar-se tanto assim, muito embora a dor fosse tudo o que realmente possuía.

“Parece incrível ainda estar vivo quando não se acredita em mais nada”. Os dias sucedem-se infinitamente. E ele repetia-se como um mantra todas as manhãs uma frase que lera em Perto do Coração Selvagem da Clarice Lispector: “De cada luta ou repouso me levantarei forte como um cavalo jovem”. Contudo não conseguia imprimir esta força em seu espírito. E as lutas mutilavam-lhe a alma. O que resta de nós quando a perdemos por completo? Ele por acaso assistiria o ocaso de sua própria existência? Ele já houvera uma vez visto uma estrela cadente. Entretanto passou tão rápido que não lhe deu tempo de fazer um pedido. Pensar naquilo que mais desejava. Sabia que o desejo só valia enquanto a estrela estivesse cortando o céu. Ele atrasou-se. Atrasou-se para pegar o trem da vida, que lhe deixou com todas as malas numa estação qualquer. Desde então a vida foi um espera infinita. Suas forças exíguas não lhe permitem mais lutar. E recebe golpes certeiros da realidade. Como um lutador de boxe prestes a perder o embate. Contudo sempre existe a esperança de soar a sineta no último instante e adiar a derrota para o próximo round. E diziam que a solidão até que lhe caia bem. Na verdade ela tem exatamente as suas medidas. E se ficasse muito triste podia tocar uma música na flauta doce, e ele  sempre tocava as notas certas para embalar-lhe a solidão.

 

Ps.: Todas as citações atribuídas a Caio Fernando Abreu.

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