Depois da Tempestade

Giordana  Medeiros

E chega a tempestade, negra e ameaçadora, com seus raios faiscantes a iluminar a noite, com rajadas de vento derrubando galhos e, até mesmo, árvores inteiras; soma-se a isso o ensurdecedor barulho dos trovões. As enxurradas, produto da cruel intempérie, com suas fortes correntezas tragam o que estiver no caminho. Tudo numa trágica e perfeita sinfonia, que ao final deixa a cidade com um aspecto desolador como se houvesse ocorrido uma guerra, um verdadeiro embate entre os minúsculos homens e a natureza colossal. E deste embate, quase sempre, saem vitoriosas as forças naturais que regem de batuta em punho o espetáculo da natureza.

Ouço uma música no rádio e a tempestade distrai-me. A chuva molha a janela, mas me seca o coração. Enquanto os raios resplandecem na noite, afogo-me em escuridão. Estou tão só. E depois da tempestade então? Tudo fica insuportavelmente triste. Os sobreviventes emergem de seus abrigos, com suas roupas ensopadas, felizes por não terem sido vítimas da fúria implacável da natureza. As crianças temem os trovões, choramingam por suas mães tapando inutilmente os ouvidos; já eu, até gosto de trovões, música da Terra, e música é essencial à alma.

Meu espírito é trovoada, tempestade de raios, enxurrada e ventania: fenômeno da natureza. Coração selvagem e alma de intempérie. Engana-se quem acredita que meu espírito é um deserto seco e árido. Desconhece a tempestade que posso guardar em mim. E depois da tempestade o que resta é calmaria. O barco não foi tragado pelo mar. É só içar novamente as velas e continuar a navegar.

Brasília é estranhamente bela. Quando já estamos ávidos por chuvas, com o espírito ressequido, a cidade nos premia com tempestades avassaladoras. Mostra a força da natureza, fazendo-nos lembrar quão minúscula é a nossa existência. Os raios cortam o céu, brilhantes, terrivelmente belos, fatalmente perigosos. E sempre há notícias de pessoas que morreram em função de descargas elétricas. Mas depois da tempestade o que resta é prece, reverenciando a natureza.

Eu gosto mesmo é da “Canção da Terra”, que venham raios e trovões, sou o “Bêbado da Primavera”, com passos vacilantes, procurando o caminho de volta para casa, enquanto cai em poças de lama. Se Mahler inspirou Thomas Mann, tenho o privilégio de banhar-me também em suas obras que, como um terremoto, fazem tudo desmoronar. Confesso não ser tão inovadora quanto ele. Preciso de fundamentos, postulados e exemplos, para que possa fazer a semente da criatividade germinar. Estou muito aquém do que desejo ser. O que fazer se a chuva não me purifica de meus pecados e nem leva meus desenganos em suas águas? Depois da tempestade tudo que me resta é tão dolorido… Como se infligisse penitências flageladoras em meu próprio espírito. Escrever não é diferente. É revelar meus sentimentos mais profundos e isso não é nada agradável. Depois da tempestade fico assim: toda melancolia.

Se pudesse escrever como se compusesse uma sinfonia…. Traria de mim um triste solo de cello, um meloso violino e a dor aguda da flauta. Resgataria dos confins de meu ser, a essencial percussão, que estrondaria os ouvidos anunciando a minha Tempestade. Minha obra em louvor à natureza. Música para ouvir-se com o espírito, para embalar sonhos e trazer esperança. Soaria assim: um tanto estranha, num primeiro momento, mas ao final far-se-ia compreender. Uma sinfonia para ser aclamada e não temida. E depois da tempestade, então, só me restaria o inquietante silêncio.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | 1 Comentário

Navegação de Posts

Uma opinião sobre “

  1. Oi minha “querida” amiga Giordana!

    Agradeço fortemente sua visita em “meu quarto de pensamentos”!
    Fiquei muito feliz mesmo! Eu sinto que sua presença por lá é de um valor imenso pra mim!

    Sobre meus textos, eu queria fazer um dueto contigo um dia, para puxarmos juntos o romantismo que quero que inicie novamente em ti! Esta é aquela idéia que tive em relação ao que lhe disse há um tempo atrás! lembra? Agora, se achar que isso for dar resultado pra você… você é quem sabe tá? heheh!!

    Estou comentando neste texto porque foi o que me atraiu!
    Sabe, quando lembro ou leio a palavra “tempestade”, vem em minha mente o status de pensativo! Ficar comigo mesmo, entende? Vou para minha janela do quarto e observo todas aquelas gotas, sinto o cheiro da terra…
    Às vezes acho que sou anormal perante esse momento! Mas parece que quero buscar sempre alguma coisa!

    Escreveu muito bem pequenos fatos! E grandes e curiosos fatos também, que são os seus!

    Um forte abraço pra você tá?
    se cuida…
    🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: