Arquivo do mês: novembro 2007

 

 

   Em Lugar Algum 

Giordana Medeiros

São três horas da tarde em algum lugar. O sol quente amolecendo as pessoas. Tarde sem vento. Nem uma leve brisa. Talvez beija-flores, velozes, voassem nos jardins desse lugar. Dou-lhe o título de algum lugar mesmo sabendo ser lugar algum. Em lugar algum há pessoas, e animais (vira-latas fuçando latas de lixo), e carros, e pistas, e barulho, e prédios, e casas, e tudo que pode haver em um lugar qualquer. Lugar frenético, cidade frenética. Lugar onde as pessoas não se reconhecem. E muitas delas nem ao menos conhece a si mesma… Rostos anônimos que se cruzam sem palavras. Gente que se amontoa no metrô, sem cumprimentos, apenas se esbarram sem desculpas. E ninguém se toca realmente. Empurram-se, mas não se tocam. Não se entendem, nem se sentem verdadeiramente. Corpos anônimos que se esbarram, amontoam-se, mas não interagem. E se todo homem for, na verdade, uma ilha? Por quem os sinos dobrarão?

E se um bebê, de lugar algum, tocar o rosto da mãe? Procurando sentir aquela que o alimenta; descobrindo as feições de quem era, para si, apenas um corpo? Ele guardar-lhe-ia o sorriso? O cheiro? Se a mãe então tocar o bebê? Será que ambos se reconheceriam? Corpos com faces. Para estes, tudo tomaria um outro significado. Tornar-se-iam importantes, significantes entre si. E o bebê diria com sílabas trôpegas: “mã-mã”. Para alimentar-se, ou mesmo, querendo o contato físico daquele corpo quente que o enche de carinhos, que o faz sentir-se seguro e protegido. Então para proteger-se não é necessário isolar-se? Alguém pode proteger-nos? E, se assim for, podemos reconhecer nosso protetor?

Vejo, na praça de lugar algum, uma criança tocar um cachorro. O cão abana o rabo, feliz pelos afagos. Lambe, em contrapartida, a mão que o acaricia. Sente o gosto salgado do suor da criança, sente-lhe, ainda, o cheiro. E guarda estas informações eternamente na memória. Se anos depois, essa mesma criança, já um adulto, tocar novamente o cão, este se recordará do primeiro toque. Saudoso e servil lamberia a mão que o afaga. Como o cão de Ulisses. O único a reconhecer o dono no retorno da guerra de Tróia e dos anos distante na famosa Odisséia. Cães têm uma memória muito melhor que a dos homens. Esquecemo-nos facilmente. Às vezes fingimos que esquecemos: para nos isolarmos em nossas ilhas. Para não nos ferirmos. Para proteger nossos interesses egoístas. E se todos fossem como os cães… Seria fácil nos reconhecermos. E assim, adquirirmos faces uns para os outros.

Vejo também, em lugar algum, um cego tocar um rosa. Vermelha, mas ele não sabe que aquela rosa é vermelha. Apenas reconhece-a como rosa por seu perfume característico. Como será a visão de uma rosa para um cego? E se esse ferir-se com um inesperado espinho? Saberia que o rubro sangue de suas veias mancharia as pétalas da rosa de um vermelho que não lhe é próprio? O vermelho vida. O vermelho pulso. O vermelho que nos mantém vivos. E se a rosa fosse despetalada pela mão furiosa do cego? Que a esmagaria com ódio de sua beleza ferina, cuja imagem jamais veria. Ele não enxergaria o vermelho morte em suas mãos. E não saberia que as cores da tristeza são mais frustrantes quando não vistas. Assim seguimos todos vivendo isolados, em nossas ilhas, em lugar algum.

Mas, se um dia, em função de um milagre qualquer, as pessoas tomassem consciência umas da outras? Passassem a interagir e conversar? Reconhecendo-se afinal. Despertariam da cegueira que assola lugar algum. Adquirindo todos, rostos e identidades. Não um mero número, mas faces, expressões e sentimentos. Os corpos que outrora apenas se esbarravam, tocar-se-iam. Ganhando vida e nomes. Seria o amanhecer de uma nova era. Um verdadeiro e admirável mundo novo. Onde todos interagiriam, trocariam experiências, sonhos e medos. Não seria apenas uma multidão, mas um povo. E lugar algum se tornaria o lugar. Cidade que, num efeito em cadeia, despertaria novas cidades, depois estados, países, continentes e quiçá, o mundo. A civilização de um planeta qualquer, que a partir de então seria o planeta. Porque nenhum homem é uma ilha isolada. E ao ouvir o dobrar dos sinos, saberíamos que eles dobram por cada um de nós e por todos ao mesmo tempo. Reconhecer-mo-ia-nos um só corpo. Membros de uma mesma realidade. E cada badalada soando em nossos corações revelaria um único pesar.

  

  

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                                                    Depois da Tempestade

Giordana  Medeiros

E chega a tempestade, negra e ameaçadora, com seus raios faiscantes a iluminar a noite, com rajadas de vento derrubando galhos e, até mesmo, árvores inteiras; soma-se a isso o ensurdecedor barulho dos trovões. As enxurradas, produto da cruel intempérie, com suas fortes correntezas tragam o que estiver no caminho. Tudo numa trágica e perfeita sinfonia, que ao final deixa a cidade com um aspecto desolador como se houvesse ocorrido uma guerra, um verdadeiro embate entre os minúsculos homens e a natureza colossal. E deste embate, quase sempre, saem vitoriosas as forças naturais que regem de batuta em punho o espetáculo da natureza.

Ouço uma música no rádio e a tempestade distrai-me. A chuva molha a janela, mas me seca o coração. Enquanto os raios resplandecem na noite, afogo-me em escuridão. Estou tão só. E depois da tempestade então? Tudo fica insuportavelmente triste. Os sobreviventes emergem de seus abrigos, com suas roupas ensopadas, felizes por não terem sido vítimas da fúria implacável da natureza. As crianças temem os trovões, choramingam por suas mães tapando inutilmente os ouvidos; já eu, até gosto de trovões, música da Terra, e música é essencial à alma.

Meu espírito é trovoada, tempestade de raios, enxurrada e ventania: fenômeno da natureza. Coração selvagem e alma de intempérie. Engana-se quem acredita que meu espírito é um deserto seco e árido. Desconhece a tempestade que posso guardar em mim. E depois da tempestade o que resta é calmaria. O barco não foi tragado pelo mar. É só içar novamente as velas e continuar a navegar.

Brasília é estranhamente bela. Quando já estamos ávidos por chuvas, com o espírito ressequido, a cidade nos premia com tempestades avassaladoras. Mostra a força da natureza, fazendo-nos lembrar quão minúscula é a nossa existência. Os raios cortam o céu, brilhantes, terrivelmente belos, fatalmente perigosos. E sempre há notícias de pessoas que morreram em função de descargas elétricas. Mas depois da tempestade o que resta é prece, reverenciando a natureza.

Eu gosto mesmo é da “Canção da Terra”, que venham raios e trovões, sou o “Bêbado da Primavera”, com passos vacilantes, procurando o caminho de volta para casa, enquanto cai em poças de lama. Se Mahler inspirou Thomas Mann, tenho o privilégio de banhar-me também em suas obras que, como um terremoto, fazem tudo desmoronar. Confesso não ser tão inovadora quanto ele. Preciso de fundamentos, postulados e exemplos, para que possa fazer a semente da criatividade germinar. Estou muito aquém do que desejo ser. O que fazer se a chuva não me purifica de meus pecados e nem leva meus desenganos em suas águas? Depois da tempestade tudo que me resta é tão dolorido… Como se infligisse penitências flageladoras em meu próprio espírito. Escrever não é diferente. É revelar meus sentimentos mais profundos e isso não é nada agradável. Depois da tempestade fico assim: toda melancolia.

Se pudesse escrever como se compusesse uma sinfonia…. Traria de mim um triste solo de cello, um meloso violino e a dor aguda da flauta. Resgataria dos confins de meu ser, a essencial percussão, que estrondaria os ouvidos anunciando a minha Tempestade. Minha obra em louvor à natureza. Música para ouvir-se com o espírito, para embalar sonhos e trazer esperança. Soaria assim: um tanto estranha, num primeiro momento, mas ao final far-se-ia compreender. Uma sinfonia para ser aclamada e não temida. E depois da tempestade, então, só me restaria o inquietante silêncio.

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