Sobre o tempo

Giordana Medeiros

O tempo é uma concepção física. Na realidade ele não existe. Foi inventado. Aliás, o homem tem uma habilidade fantástica de criação. Se algo não existe, ele simplesmente inventa. Tal qual eu crio textos e personagens pitorescos que não existem além do meu mundo imaginário. E de tanto inventar eu acabo perdida em minhas criações. Misturo realidade à fantasia. É difícil discernir entre as duas. No meu mundo o tempo não existe. Não se revezam noites e dias. Nem mesmo há a decrepitude e a morte. Os anos não se sucedem, tudo permanece estático como numa fotografia, guardo assim meus momentos, meus tão preciosos momentos. Uma lembrança persistente de algo que não pude e não quero jamais esquecer.

O tempo foi criado por velhos que ansiavam por algo que justificasse a sua senilidade. Eu não preciso desta justificativa. A razão de adquirir mais sabedoria não está no passar dos anos. Mas na experiência amealhada durante a vida. A morte não é o desfecho de uma linha temporal. E sim um novo começo. Não creio no “continum” espaço tempo. Nem mesmo necessito de máquinas do tempo para reviver o passado. Tudo é presente. E o futuro. Ah, o futuro… Este me enche de esperança. E na verdade todos esperam. “Meu pai sempre esperou por mim. Ainda minha mãe sempre esperou por mim, bem como meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim”. Es-pe-ran-ça. Verde e raquítica, um insetozinho frágil que às vezes pousa em mim.

E os homens temem o passar do tempo: tic-tac, tic-tac. De repente soam os sinos anunciando que este é o momento. E existe a vida.  Eu não quero limar as marcas que o tempo deixa em mim. Porque a marcas mais profundas são impossíveis de serem apagadas. Estão incrustadas na alma. Diamante bruto. Como um cuidadoso ourives, lapido-as para deixá-las mais agradáveis ao olhar. Gemas que brilham ao sol. A verdade é que imaginei este texto de forma bem diversa do que escrevo agora. As palavras são indomáveis. Selvagens, debatem-se e escapam de meu laço. E o tempo esvai-se silenciosa e fatalmente. Mas não aceito o tempo. O segundo tem uma medição própria. E há relógios que nunca atrasam. Os trens em Londres seguem o ritmo do Big-Ben. Precisão inglesa. Santos Dumont inventou o relógio de pulso e assinou a sentença humana. Desde então estamos todos a correr contra o tempo. Seria tão fácil se apenas o deixássemos passar suave. Mansinho. Einstein procurava fissuras no “continum” espaço tempo. Queria conceber uma viagem temporal. Os homens valorizam muito o passado e têm muita curiosidade quanto ao futuro. Querem desfazer os erros cometidos e verificar as conseqüências de suas escolhas. Eu não posso mentir, gostaria de modificar acontecimentos de meu passado e espiar o que será meu futuro, por que tenho medo, meu Deus, tenho tanto medo!

Dizem que se atravessarmos um buraco negro viajaremos no tempo. Uma máquina do tempo natural. E os americanos nem a patentearam ainda. Se George W. Bush não estivesse tão entretido fazendo guerras já teria atentado para este detalhe.  E colocaria um “traditional mark” enorme no espaço. “A América para os americanos e o tempo para os americanos (do norte)”. Se os critico não é por despeito, mas por senso de justiça. Sei que se não houvessem descaradamente se locupletado da riqueza do terceiro mundo seu desenvolvimento não teria sido tão assombroso.

“Só o tempo dirá”.  O tempo não usa palavras. Tiramos nossas próprias conclusões. “Entregam-nos espelhos e vemos um mundo doente”. Entretanto “o tempo é o melhor remédio”, para curar nossa febre, nossos delírios, nossa ânsia de vida. Tenho vertigens, meu tempo está no fim. Mas nunca houve realmente um fim. Só um novo início. A vida prescinde de mim. E não encontro modos de apagar o que fiz. Não sei mais o que dizer. Sei que no fim tudo acontece tal qual tínhamos previsto. 

Escrevo sobre o tempo tentando adequar-me a conceitos físicos que desconheço completamente. É um castigo de Sísifo. Interminável e nunca traz conseqüência alguma.   Meus escritos não mudarão a forma como o homem se relaciona com o tempo. Nem mesmo o modo que este interfere em minha própria vida. O tempo não é real. E “é no impossível que está a realidade”. A pior mentira é aquela que contamos a nós mesmos. O passar inevitável do tempo oprime a humanidade. Por isso o ignoro, como uma criança birrenta. Recuso sua existência, porque me sinto livre. Não tenho de submeter-me a contagem dos anos e meus dias são sempre iguais. O cotidiano disfarça o inevitável. Gastei horas para criar estas linhas que serão lidas em meros minutos. Se alguém quiser desfazer-se, claro, de minutos preciosos de seu tempo.

Esperam de mim um “grande finale”. Mas não produzo cenas comuns. Disseram-me que sou autêntica. Não o creio. Muito do que escrevi, outros já o escreveram. De outras formas e com outras palavras. Mas tudo tem um mesmo sentido. Todos tomamos a mesma direção. Por caminhos diversos que chegarão ao mesmo lugar. Mas já “não me preocupo se não sei por que.” Aquilo que vejo está inacessível aos olhos da maioria das pessoas. O tempo nos acompanha. E sentimos seu peso em nossos ombros. Próximos do fim, já andamos encurvados. Os passos ficam cada vez mais lentos e os movimentos menos ágeis. O tempo leva embora toda dor que senti. E a vida termina num último desejo: “um dia sei que tudo irá bem. Que frágil esperança”. Agora só me resta um breve epitáfio: “Resquiescat in pace”.

    

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2 opiniões sobre “

  1. Mais um texto perfect! hehehehehehe!
    Ao menos, neste, percebi o real sentido do “tempo” que passo lendo teu blog.
    Se eu pudesse encadernava teu blog, exatamente com todas as imagens e palavras, pra tê-lo sempre a mão,e ler, ler, ler… no “tempo” em que eu bem quisesse! hehehehehehe!
    Beijos.

  2. suas palavras sempre cheias de arrepios…

    (:

    ah giordana, como gosto de você e de seus versos.
    Obrigado sempre por tudo!

    fiz um blog mais ou menos novo, tem um tempo que tenho ele, mas nem divulguei, é sobre podcasts literarios.. eu narro contos, poesias e pápápá, se quiser escutar:

    http://www.radiopoeta.wordpress.com

    beijos querida

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