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Sinfonia nº. 9

Giordana Medeiros

 

Uma vez me disseram que nunca soube amar. Ou amava exageradamente ou negligenciava meu amor. Talvez por não existirem manuais que ensinem passo a passo como fazê-lo. Algo como: “Como cuidar de seu amor”.  Na verdade, sou muito romântica. Daquelas que sempre aguardam o final feliz no cinema afogando-se em lágrimas. Entretanto, nunca vivi um amor completo. Sou o que resta de relações sem retorno, paixões platônicas e amores perdidos. Guardo o que me sobrou: sonhos irrealizáveis, dores pungentes e corações partidos. E ainda escrevo tudo, não deixo passar uma única vírgula. Também mantenho sempre alguma lembrança de um momento importante de minha vida. Como se conservasse cada lágrima derramada de imensa dor ou delirante alegria. Pode ser uma rosa, que tempos depois perde a cor e o viço, mas conserva intacto um sentimento. Outras vezes um lenço, cujo perfume guarda eternamente na memória um dos meus amores fracassados. Apego-me muito ao passado e meus textos transmitem a nostalgia incurável que me afeta.

Olavo Bilac dizia ouvir estrelas. Já eu queria que elas escutassem-me: à noite, quando o silêncio não permite ouvir o som de meus gritos. Os livros já não me dizem nada. E a solidão me dói. Não estou inspirada. Por isso as palavras fogem-me. E cada sílaba é sofrida como um parto. Minha mãe sofreu muito no meu. Nasci prematura, tinha pressa de conhecer o mundo. Foi um parto complicado. O prólogo de minha história, com mais capítulos que um livro de Marcel Proust. “Em busca do tempo perdido”. Minha jornada à procura de algo que não vivi. Talvez seja um livro de Albert Camus: “O homem revoltado”. Estou tentando retratar minha vida, como e fosse uma obra literária. Só que minha história ainda não foi escrita. Queria mesmo era ler Ulisses de James Joyce. Talvez um livro de Henry James. Machado de Assis era um mago. Li todas as suas obras.

 Eu escrevo à medida que os pensamentos nascem, de modo que surgem frases desconexas. Estou dizendo: não deveria escrever hoje. Não deveria escrever nunca. Entretanto sou teimosa. E enfrento com armas em punho à folha em branco. Firo com a pena a brancura do papel. E o papel fere-me com as palavras que surgem sobre sua superfície. Todos temos nossas armas. “Minha agressividade passiva pode ser devastadora”. Alanis Morissette escreveu isso numa canção. Faço minhas as suas palavras. Sei ser ferina.  Sei ainda, ser amorosa, só que desconfiam que não saiba. Entrego-me incondicionalmente numa paixão. Iludo-me. E quando a verdade vem-me como uma tapa no rosto, violentamente sou arremessada na realidade. Quando criança, caí do telhado de casa. Foi o mais próximo que estive de voar. Meu coração parou por um segundo. É o medo da liberdade. De estar livre da gravidade. Livre da gravidade de viver.

Na verdade minha história tem prólogo e epílogo, que será um lindo réquiem, Andante Lamentoso. Sou na verdade uma sinfonia completa. Tenho momentos de Alegro, mas mais constantes são os Adágios. “Danúbio Azul”. Talvez o “Bolero de Ravel”. Se fosse doce seria composta dor Debussy. Mas sou muito dramática. Não consigo ver-me senão como uma obra de Beethoven. Assim: pura emoção. Não se necessita de ouvidos para sentir. Genialidade. Sou um retrato antigo aos olhos de um menino. Ele não reconhece quem está na foto. E pergunta-se porque a foto não tem cores e a imagem é tão embaçada. Mas sabe que guarda uma beleza que está muito além das técnicas fotográficas que existem atualmente. Desconhece porque o menino da foto atrai-lhe, tão raquítico com seu uniforme antiquado. E ele sorri para a imagem. Um menino aos olhos de outro. Nenhum dos dois se conhece. Mas estão interligados pelo tempo. Sou atemporal. Mas preciso da cura para este vício “de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que ainda não vi”.

Se eu mesmo não me compreendo como posso exigir que os outros o façam? Sei que sou confusa. Antítese de eu mesma. Sigo por caminhos tortuosos e esse texto exige sobremaneira de mim. Não vejo a hora de terminá-lo. Quando ele se despegar de mim, sob o estado puerperal o estranharei. Como uma mãe que estranha o próprio filho. Frente à frente criador e criatura. E eu que queria escrever sobre amor? Mas nunca sei por qual destino levar-me-ão as palavras. Uma viagem insólita. Embarca-se com uma passagem para lugar algum. E chega-se aonde não se quer chegar. Como disse de início, não sei amar. Meu coração toca uma nota só. Percussão de minha vida. E a sinfonia surge com as palavras que escrevo. Metais e cordas, um solo de cello ao fim. Não transmiti nada de relevante. Paciência. Meus textos são feitos para serem lidos com o espírito. São meus sentimentos destilados. Têm alto teor alcoólico. São o absinto que turva as idéias e desvirtua os pensamentos. Agora renego estas linhas três vezes antes de o galo cantar.  Não as escrevi. Não as reconheço. Não me pertencem mais. Por fim as abandono. Soltas à própria sorte para embriagar corações alheios.

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3 opiniões sobre “

  1. “Sou o que resta de relações sem retorno, paixões platônicas e amores perdidos.”
    O que vou dizer heim?
    Belo texto, fico repetitiva mas ja percebeste que gosto mais desses em primeira pessoa né? hehehehehehe! Esse passeio que tu faz por entre palavras, seus sinônimos, sentidos, significados … elas têm , eu diria, emoções … as tuas talvez, ou sabe-se lá de quem. hehehehehe!
    Amei o texto!
    Bjs

  2. Lua

    Com certeza tuas palavras embriagam sim, corações alheios.
    O modo como cita os livros, como tem um título para cada pensamento que transmite, nossa, adorei!
    E a frase “Se eu mesmo não me compreendo como posso exigir que os outros o façam?” me marcou muito, porque diversas vezes me perguntei isso também. Então tenho tentado não mais fazer com que as pessoas me entendam, se elas tiverem vontade ficarão ao meu lado aceitando meu jeito de ser.
    Vim espiar teu blog porque a Elis me falou dele.
    Parabéns, escreves muito bem!
    Abração!

  3. Giordana, suas palavras sempre me ajudam taaaanto!

    (:

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