Arquivo do mês: outubro 2007

 

                                                               Sobre o tempo

Giordana Medeiros

O tempo é uma concepção física. Na realidade ele não existe. Foi inventado. Aliás, o homem tem uma habilidade fantástica de criação. Se algo não existe, ele simplesmente inventa. Tal qual eu crio textos e personagens pitorescos que não existem além do meu mundo imaginário. E de tanto inventar eu acabo perdida em minhas criações. Misturo realidade à fantasia. É difícil discernir entre as duas. No meu mundo o tempo não existe. Não se revezam noites e dias. Nem mesmo há a decrepitude e a morte. Os anos não se sucedem, tudo permanece estático como numa fotografia, guardo assim meus momentos, meus tão preciosos momentos. Uma lembrança persistente de algo que não pude e não quero jamais esquecer.

O tempo foi criado por velhos que ansiavam por algo que justificasse a sua senilidade. Eu não preciso desta justificativa. A razão de adquirir mais sabedoria não está no passar dos anos. Mas na experiência amealhada durante a vida. A morte não é o desfecho de uma linha temporal. E sim um novo começo. Não creio no “continum” espaço tempo. Nem mesmo necessito de máquinas do tempo para reviver o passado. Tudo é presente. E o futuro. Ah, o futuro… Este me enche de esperança. E na verdade todos esperam. “Meu pai sempre esperou por mim. Ainda minha mãe sempre esperou por mim, bem como meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim”. Es-pe-ran-ça. Verde e raquítica, um insetozinho frágil que às vezes pousa em mim.

E os homens temem o passar do tempo: tic-tac, tic-tac. De repente soam os sinos anunciando que este é o momento. E existe a vida.  Eu não quero limar as marcas que o tempo deixa em mim. Porque a marcas mais profundas são impossíveis de serem apagadas. Estão incrustadas na alma. Diamante bruto. Como um cuidadoso ourives, lapido-as para deixá-las mais agradáveis ao olhar. Gemas que brilham ao sol. A verdade é que imaginei este texto de forma bem diversa do que escrevo agora. As palavras são indomáveis. Selvagens, debatem-se e escapam de meu laço. E o tempo esvai-se silenciosa e fatalmente. Mas não aceito o tempo. O segundo tem uma medição própria. E há relógios que nunca atrasam. Os trens em Londres seguem o ritmo do Big-Ben. Precisão inglesa. Santos Dumont inventou o relógio de pulso e assinou a sentença humana. Desde então estamos todos a correr contra o tempo. Seria tão fácil se apenas o deixássemos passar suave. Mansinho. Einstein procurava fissuras no “continum” espaço tempo. Queria conceber uma viagem temporal. Os homens valorizam muito o passado e têm muita curiosidade quanto ao futuro. Querem desfazer os erros cometidos e verificar as conseqüências de suas escolhas. Eu não posso mentir, gostaria de modificar acontecimentos de meu passado e espiar o que será meu futuro, por que tenho medo, meu Deus, tenho tanto medo!

Dizem que se atravessarmos um buraco negro viajaremos no tempo. Uma máquina do tempo natural. E os americanos nem a patentearam ainda. Se George W. Bush não estivesse tão entretido fazendo guerras já teria atentado para este detalhe.  E colocaria um “traditional mark” enorme no espaço. “A América para os americanos e o tempo para os americanos (do norte)”. Se os critico não é por despeito, mas por senso de justiça. Sei que se não houvessem descaradamente se locupletado da riqueza do terceiro mundo seu desenvolvimento não teria sido tão assombroso.

“Só o tempo dirá”.  O tempo não usa palavras. Tiramos nossas próprias conclusões. “Entregam-nos espelhos e vemos um mundo doente”. Entretanto “o tempo é o melhor remédio”, para curar nossa febre, nossos delírios, nossa ânsia de vida. Tenho vertigens, meu tempo está no fim. Mas nunca houve realmente um fim. Só um novo início. A vida prescinde de mim. E não encontro modos de apagar o que fiz. Não sei mais o que dizer. Sei que no fim tudo acontece tal qual tínhamos previsto. 

Escrevo sobre o tempo tentando adequar-me a conceitos físicos que desconheço completamente. É um castigo de Sísifo. Interminável e nunca traz conseqüência alguma.   Meus escritos não mudarão a forma como o homem se relaciona com o tempo. Nem mesmo o modo que este interfere em minha própria vida. O tempo não é real. E “é no impossível que está a realidade”. A pior mentira é aquela que contamos a nós mesmos. O passar inevitável do tempo oprime a humanidade. Por isso o ignoro, como uma criança birrenta. Recuso sua existência, porque me sinto livre. Não tenho de submeter-me a contagem dos anos e meus dias são sempre iguais. O cotidiano disfarça o inevitável. Gastei horas para criar estas linhas que serão lidas em meros minutos. Se alguém quiser desfazer-se, claro, de minutos preciosos de seu tempo.

Esperam de mim um “grande finale”. Mas não produzo cenas comuns. Disseram-me que sou autêntica. Não o creio. Muito do que escrevi, outros já o escreveram. De outras formas e com outras palavras. Mas tudo tem um mesmo sentido. Todos tomamos a mesma direção. Por caminhos diversos que chegarão ao mesmo lugar. Mas já “não me preocupo se não sei por que.” Aquilo que vejo está inacessível aos olhos da maioria das pessoas. O tempo nos acompanha. E sentimos seu peso em nossos ombros. Próximos do fim, já andamos encurvados. Os passos ficam cada vez mais lentos e os movimentos menos ágeis. O tempo leva embora toda dor que senti. E a vida termina num último desejo: “um dia sei que tudo irá bem. Que frágil esperança”. Agora só me resta um breve epitáfio: “Resquiescat in pace”.

    

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Not as We

Alanis Morissette 

Reborn and shivering
renascida e tremendo

Settled on new terrain
Sentada em nova terra

I’m sure uncasing
Certamente não estou fazendo caso

It’s faint and shaking
Está fraco e tremendo

Refrão

Day one, day one
Primeiro dia, primeiro dia

Start over again
Começar tudo de novo

Step one, step one
Primeiro passo, primeiro passo

I’m barely making sense
Eu mal consigo fazer sentido

For now I’m faking it
e agora estou fingindo

Till I’m psuedo-making it
ate que eu ilusoriamente faça isso

From scratch, begin again
Do ferimento, começa novamente

But this time I as I and not as we
Mas desta vez, eu (como/sendo) eu
e não (como/sendo) nós

Gunshy and shivering
Hesitante e tremendo

Tear it without a hand
Rasgar isso como uma mão

Fame brave but still intent
Fama de brava mas ainda intencionada

Little and hardly here
Pequena e dificilmente aqui

Day one, day one
Primeiro dia, primeiro dia

Start over again
Começar tudo de novo

Step one, step one
Primeiro passo, primeiro passo

I’m barely making sense
Eu mal consigo fazer sentido

For now I’m faking it
e agora estou fingindo

Till I’m psuedo-making it
ate que eu ilusoriamente faça isso

From scratch, begin again
Do ferimento, começa novamente

But this time I as I and not as we
Mas desta vez, eu (como/sendo) eu
e não (como/sendo) nós

Eyes met toward wide open freight
Olhos encontraram mercadoria abertas

If God’s taking bets
E se Deus tomar um partido

I pray He wants to lose
Eu rezo para ele queira perder

Day one, day one
Primeiro dia, primeiro dia

Start over again
Começar tudo de novo

Step one, step one
Primeiro passo, primeiro passo

I’m barely making sense
Eu mal consigo fazer sentido

For now I’m faking it
e agora estou fingindo

Till I’m psuedo-making it
ate que eu ilusoriamente faça isso

From scratch, begin again
Do ferimento, começa novamente

But this time I as I and not as we
Mas desta vez, eu (como/sendo) eu
e não (como/sendo) nós

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 Despedida

 

Giordana Medeiros

 

Um derradeiro beijo, o último gesto, e lá se vai um sonho para nunca mais voltar.

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Sinfonia nº. 9

Giordana Medeiros

 

Uma vez me disseram que nunca soube amar. Ou amava exageradamente ou negligenciava meu amor. Talvez por não existirem manuais que ensinem passo a passo como fazê-lo. Algo como: “Como cuidar de seu amor”.  Na verdade, sou muito romântica. Daquelas que sempre aguardam o final feliz no cinema afogando-se em lágrimas. Entretanto, nunca vivi um amor completo. Sou o que resta de relações sem retorno, paixões platônicas e amores perdidos. Guardo o que me sobrou: sonhos irrealizáveis, dores pungentes e corações partidos. E ainda escrevo tudo, não deixo passar uma única vírgula. Também mantenho sempre alguma lembrança de um momento importante de minha vida. Como se conservasse cada lágrima derramada de imensa dor ou delirante alegria. Pode ser uma rosa, que tempos depois perde a cor e o viço, mas conserva intacto um sentimento. Outras vezes um lenço, cujo perfume guarda eternamente na memória um dos meus amores fracassados. Apego-me muito ao passado e meus textos transmitem a nostalgia incurável que me afeta.

Olavo Bilac dizia ouvir estrelas. Já eu queria que elas escutassem-me: à noite, quando o silêncio não permite ouvir o som de meus gritos. Os livros já não me dizem nada. E a solidão me dói. Não estou inspirada. Por isso as palavras fogem-me. E cada sílaba é sofrida como um parto. Minha mãe sofreu muito no meu. Nasci prematura, tinha pressa de conhecer o mundo. Foi um parto complicado. O prólogo de minha história, com mais capítulos que um livro de Marcel Proust. “Em busca do tempo perdido”. Minha jornada à procura de algo que não vivi. Talvez seja um livro de Albert Camus: “O homem revoltado”. Estou tentando retratar minha vida, como e fosse uma obra literária. Só que minha história ainda não foi escrita. Queria mesmo era ler Ulisses de James Joyce. Talvez um livro de Henry James. Machado de Assis era um mago. Li todas as suas obras.

 Eu escrevo à medida que os pensamentos nascem, de modo que surgem frases desconexas. Estou dizendo: não deveria escrever hoje. Não deveria escrever nunca. Entretanto sou teimosa. E enfrento com armas em punho à folha em branco. Firo com a pena a brancura do papel. E o papel fere-me com as palavras que surgem sobre sua superfície. Todos temos nossas armas. “Minha agressividade passiva pode ser devastadora”. Alanis Morissette escreveu isso numa canção. Faço minhas as suas palavras. Sei ser ferina.  Sei ainda, ser amorosa, só que desconfiam que não saiba. Entrego-me incondicionalmente numa paixão. Iludo-me. E quando a verdade vem-me como uma tapa no rosto, violentamente sou arremessada na realidade. Quando criança, caí do telhado de casa. Foi o mais próximo que estive de voar. Meu coração parou por um segundo. É o medo da liberdade. De estar livre da gravidade. Livre da gravidade de viver.

Na verdade minha história tem prólogo e epílogo, que será um lindo réquiem, Andante Lamentoso. Sou na verdade uma sinfonia completa. Tenho momentos de Alegro, mas mais constantes são os Adágios. “Danúbio Azul”. Talvez o “Bolero de Ravel”. Se fosse doce seria composta dor Debussy. Mas sou muito dramática. Não consigo ver-me senão como uma obra de Beethoven. Assim: pura emoção. Não se necessita de ouvidos para sentir. Genialidade. Sou um retrato antigo aos olhos de um menino. Ele não reconhece quem está na foto. E pergunta-se porque a foto não tem cores e a imagem é tão embaçada. Mas sabe que guarda uma beleza que está muito além das técnicas fotográficas que existem atualmente. Desconhece porque o menino da foto atrai-lhe, tão raquítico com seu uniforme antiquado. E ele sorri para a imagem. Um menino aos olhos de outro. Nenhum dos dois se conhece. Mas estão interligados pelo tempo. Sou atemporal. Mas preciso da cura para este vício “de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que ainda não vi”.

Se eu mesmo não me compreendo como posso exigir que os outros o façam? Sei que sou confusa. Antítese de eu mesma. Sigo por caminhos tortuosos e esse texto exige sobremaneira de mim. Não vejo a hora de terminá-lo. Quando ele se despegar de mim, sob o estado puerperal o estranharei. Como uma mãe que estranha o próprio filho. Frente à frente criador e criatura. E eu que queria escrever sobre amor? Mas nunca sei por qual destino levar-me-ão as palavras. Uma viagem insólita. Embarca-se com uma passagem para lugar algum. E chega-se aonde não se quer chegar. Como disse de início, não sei amar. Meu coração toca uma nota só. Percussão de minha vida. E a sinfonia surge com as palavras que escrevo. Metais e cordas, um solo de cello ao fim. Não transmiti nada de relevante. Paciência. Meus textos são feitos para serem lidos com o espírito. São meus sentimentos destilados. Têm alto teor alcoólico. São o absinto que turva as idéias e desvirtua os pensamentos. Agora renego estas linhas três vezes antes de o galo cantar.  Não as escrevi. Não as reconheço. Não me pertencem mais. Por fim as abandono. Soltas à própria sorte para embriagar corações alheios.

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Sabores

A tristeza é salgada como uma lágrima, já a mágoa é amarga, dura de ser engolida: xarope para tosse. A esperança é o doce palpitar apressado de um coração. A paixão é apimentada, “caliente”. O amor é o eterno recomeço, saboroso igual comida caseira… São minhas emoções gustativas… Sabores para serem apreciados com o espírito. 

Giordana Medeiros

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Era uma vez… 

Era uma vez, uma noite em que tudo parecia mágico. Mas uma estrela caiu e salgou-me a boca… Seca de palavras…. Engasgada de tristeza…

Giordana Medeiros

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Sessão das quatro horas. 

Giordana Medeiros

– Do que se recorda?

– Não sei… Não sei… Será que não entende? Eu simplesmente não sei!

– Seria bom que falasse…

– Eu não posso… Não posso… Colocou as mãos no rosto desconsolado.

Um profundo silêncio seguiu-se entre os dois. Ouviam-se ao longe os cânticos litúrgicos de uma igreja próxima. Em seguida um suspiro:

– Eu não compreendo o que se passou. Não sei, nem ao menos, se ocorreu realmente… É tudo tão… Tão confuso… Um quebra-cabeça cujas peças não se encaixam. Será que estou doente?

– É possível.

– Diga-me se eu contasse-lhe tudo, não me fitaria desse modo?

– Como eu lhe fito?

– Como se eu fosse um “doido-varrido”.

– Pode ter certeza que minhas opiniões são estritamente profissionais, bem como tudo que disser não ultrapassará os limites desse consultório.

– Sabe, eu tenho… tanto medo…

– O que lhe amedronta?

– A loucura, ela espreita-me, fazendo que acredite em coisas completamente absurdas. Eu tento afirmar, ser incisivo comigo mesmo, para que esqueça estas idéias, estes pensamentos. Todavia…

– Todavia?

– São mais fortes que eu…

– O que é mais forte?

– Estes delírios.

– O que lhe dizem esses delírios?

– É melhor mantê-los em segredo, sinto-me acanhado em confessá-los.

– Você mesmo os crê absurdos. Qual a razão de não os dizer? O que seria tão vergonhoso?

– Não é vergonhoso. É algo impossível, que não ocorreria assim… Principalmente para mim…

– Por que não para você?

– Porque eu sou minúsculo, insignificante…

– O que seria tão especial que não poderia ser dedicado a você?

– Na… nada…

– Assim não teremos nenhum progresso.

– Eu estou louco?

– Pelo menos já sabe como captar e discernir entre o real e o imaginário. Já é algo bem significante. Não vai contar-me o que tanto lhe aflige?

– Em outros tempos já foi pior.

– Quando?

– Quando não conseguia distinguir as ilusões da realidade. Via-me perdido e vivendo em erro, sem querer machucar-me… Sobressaltado e temeroso.

– O que você temia?

– A tudo e todos. Como pude designar-me tal grau de importância, quando tenho consciência da minha irrelevância? Cria em situações romanescas, algumas vezes, mas o rotineiro eram os delírios persecutórios… Acreditava que todos estavam exigindo que eu me transmudasse em algo que está além de minhas parcas forças…

– É normal ter fantasias…

– Não eram simplesmente fantasias… Eram sólidas, materiais… Será que me compreende? Eram muito mais que simples fantasias… Porque me faziam acreditar…

– Acreditar?

– Que eu tinha alguma importância…

– Todos temos alguma importância.

– Eu não sou como os outros. Era como se o mundo finalmente se desse conta de minha existência. Mas nunca compreendi o que ele queria dizer-me. Isso se em algum momento ele quis realmente me falar algo… Talvez por comunicarmos-nos por línguas diversas… Uma verdadeira Comédia dos Erros… Se puder valer-me da obra de Shakespeare para ilustrar minha situação…

– Quem queria falar-lhe algo?

– O mundo, a sociedade, as pessoas…

– Alguém em especial?

– Uma vez me disseram que a humanidade em geral se resume em Deus.

– E isso era ruim?

– Não. Não deveria ser se encarasse tudo com mais humor… Tornasse-me mais leve. Mas fui condenado por Zeus a carregar o mundo nas costas. Ficava apavorado com meu possível destaque entre as pessoas. Queria a todo tempo satisfazer-lhes. Ser o que desejavam o que eu fosse. No fim restou-me um rascunho de mim mesmo. Uma obra mal acabada sedimentada por fictícios sentimentos.

– Por que só isso lhe sobrou?

– Pois foi só isso que ficou quando me dei conta de ser só um entre milhões. De ser uma minúscula formiga num formigueiro humano. Um mar de pessoas de onde sou apenas uma gota, suscetível ao mesmo destino de tantas outras: ser levado pelas ondas e correntes.

– Quando se deu conta dessa sentença?

– A vida ensina-nos da pior maneira possível. No fim nada é como esperamos.

– Não podemos criar falsas expectativas.

– Só agora me dou conta disso. Também me tornei mais humilde e menos pretensioso. Escuto mais a razão. Agora dela fiz meu sustentáculo.

– É um princípio basilar?

– Sim. Procuro não acreditar mais no que meus olhos vêem. Por mais que se apresente tentador. Tudo tem de se mostrar concreto para mim, pois só terei fé quando puder tocar as chagas de Cristo.

– Você é Cristão?

– Não, apenas tomei emprestada esta imagem bíblica. Na verdade desconfio até mesmo das coisas ligadas ao espírito.

– Interessante. Não crê em Deus?

– São questões relevantes para meu diagnóstico?

– Não está aqui simplesmente para ser taxado como louco. Tenho por finalidade, ainda, pacificar-lhe o espírito.

– Minha alma sempre foi um mar revolto e meu coração, selvagem…

– E se as ilusões provierem disso?

– Elas não são causadas pela minha instabilidade espiritual.

Novamente o silêncio se solidifica no consultório, ao fundo, o som de um sino (provavelmente proveniente da mesma igreja de onde se escutavam os cânticos litúrgicos) quebrou a serenidade do ambiente. Cinco badaladas anunciavam o fim de tarde. O céu enfeitava-se numa fusão de cores fantástica. O vermelho-alaranjado mesclando-se ao azul-anil formava o tão conhecido crepúsculo brasiliense.

– Bom, chegamos ao fim dessa sessão. Espero vê-lo na próxima semana.

– Será que há cura para meu caso?

– Não existe cura para os males da alma. Mas podemos tentar mitigar os danos que eles causam com remédios e ainda acompanhamento psicológico habitual.

– Nenhuma semente de esperança?

– Não há curas milagrosas. Contudo, com um tratamento adequado a dor diminuirá, assim como as feridas abertas em seu espírito cicatrizar-se-ão.

Quando o paciente saiu o médico ainda passou algum tempo tentando desvendar o real sentido de todas as palavras ditas e não ditas naquela tarde. Ainda se ouvia o som persistente dos louvores provenientes da igreja vizinha ao consultório. E o paciente seguiu por entre as vielas de Brasília a procura de algo que ele próprio desconhecia.

                  

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