La Pathétique

Giordana Medeiros

As lembranças geralmente são dilaceradas pela força inexorável do tempo. Entretanto sempre sobram alguns momentos impossíveis de se esquecer. Algumas alegrias e mágoas, muitas mágoas. Estas últimas abriram feridas imensas em meu espírito. E só sabem doer. Latejam fazendo-me reviver um passado que preferia esquecer. De um tempo em que esperei, na verdade, idealizei uma realidade que ao final se mostrou tão diversa e perversamente diferente daquilo que eu havia sonhado. O que me fez sofrer deveras. Talvez por ter criado falsas expectativas sobre as pessoas, os fatos, os atos, sobre tudo enfim. Não posso evitar, tenho em mente uma ilusão daquilo que deveria ser a vida e de como deveriam se comportar as pessoas ao meu redor. Decepciono-me constantemente porque na verdade nada corresponde às minhas esperanças, o que, invariavelmente, ocorre de forma extremamente dolorosa.
Mas este é o momento e há a vida, que se deve aproveitar até o último suspiro. Cada batida do coração é importante. E se choro agora é porque meu coração esteve há anos descompassado. É que tentei inutilmente acompanhar a música que se entoava ao meu redor. Fracassei, pois meu coração não é dado a Alegros, sua sinfonia é composta unicamente por Adágios. La Pathétique de Beethoven. É a sonata que este grande compositor criou para ilustrar quão patética é a vida, patético também é o amor e, ainda, os apaixonados. No fim somos todos ridículos, loucos e desvairados.
Sinto uma tempestade aproximar-se, com suas nuvens da cor dos olhos de quem amei. O prenúncio de novos perigos, que me sondam e ameaçam desabar sobre mim. Sinto como se mil corações batessem em meu peito. Estou ansiosa e amedrontada. O que me espreita? A morte inevitável? Outra desilusão? Talvez a loucura que me cerca, tece sua teia, quer inocular seu veneno em minhas veias e desvirtuar-me.
-Deixe-me, que quero desfazer-me destas lembranças.
Como esquecer? Como apagar esta dor que me sufoca? Por favor, conceda-me um antídoto para esta mágoa que me envenena a alma. Ajude-me a perdoar. Principalmente a mim mesma, que tanto me fiz sofrer, acreditando em ilusões, criando realidades delirantes. Hoje tenho medo do que imagino, não me deixo divagar por muito tempo, tanto me é assustadora a imagem da loucura.
Eu tentei inutilmente, milhões de vezes, modificar o mundo, as pessoas e eu mesma. Não compreendia ainda a exatidão e oculta perfeição das coisas. Só observando demoradamente se consegue enxergar aquilo que está escondido nas minúcias, nos mínimos detalhes, aquilo que está submerso em mim sob camadas de ressentimento.
Todavia hoje sou outra pessoa. Não me torturo mais com amores impossíveis. Saibam: ninguém foi tão cruel comigo quanto eu mesma. Submeti o meu coração às mais terríveis sevícias. Minha alma restou destruída após tantas desilusões. Depois de juntar-lhe os cacos, decidi nunca mais me apaixonar. Tranquei meu coração com ferrolhos e cadeados intransponíveis. Não estarei mais suscetível a paixões. Não me entregarei novamente a insanidade. Não me desfazerei da razão. Agora esta é meu único sustentáculo.
Enfrentarei à tempestade com toda minha armada. E manterei firme o controle do meu leme. Não deixarei minha nau naufragar nestas águas turbulentas. Ondas imensas poderão balançar-me as estruturas, mas manter-me-ei impassível, estou fechada a novas aventuras amorosas. E nunca mais concederei a chave de meu coração a nenhum anjo leviano que tem como simples propósito destituir-me da sanidade.
Queimarei numa fogueira crepitante todas as terríveis recordações. Desfazer-me-ei de toda esta dor que carrego, limparei os armários de meu espírito, esvaziarei as gavetas de meu coração. Assim desprovida de todo sofrimento, sem ter por quem chorar, conseguirei prosseguir. Sem temer às tempestades e sem recear às ilusões, pois estarei insuscetível e inalcançável. Invencível em minha solidão. Esta me confere força, para não sucumbir novamente à temível insanidade. Não mais me entregarei, manterei firme minhas defesas. Protegida do mundo e dissociada dele também… Mas somente deste modo conseguirei proteger meu espírito. Conservar minha racionalidade. Não aguardo mais a fórmula milagrosa do amor. Deste remédio já provei e mostrou-se demasiadamente amargo. Bem como da loucura, muito embora esta seja doce, como manga colhida no pé. Em meio a tudo isto, procuro meu final feliz. Quando começarem a subir os letreiros finais, numa bela caligrafia, na tela de minha vida se desenhará: “Fin”. E será este realmente o fim?

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3 opiniões sobre “

  1. Eu simplismente amo textos em primeira pessoa! São exposições … como acredito que devem ser. Exposição do que faz bem ou do que faz mal, mas ainda sim … uma exposição! Lindo! Límpido!Sonoro! Uma verdadeira sinfonia … pra mim que tanto amo música, bravo! Bravo!
    Gostei demais.
    Bjs

  2. Ahhh esqueci de dizer … os três últimos parágrafos foram pra matar!
    Lindo! Lindo!
    Parabéns por mais esse belo texto!

  3. giordanna, meu deus, que blog lindoooo!
    (:

    wordpress é muito melhor, eu pelo menos acho isso. É bem limpinho, clean.

    (:

    adora você é vizinha minha.
    Obrigado pelas visitas e as coisas que escreve aqui.

    Beijos!

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