Brasília

            Giordana Medeiros

Em Brasília, anos atrás, antes da explosão demográfica e da urbanização desenfreada, havia dias em que uma neblina espessa e gélida cobria a cidade. Gostava de observar a névoa dissipar-se, aos poucos, para que, enfim, o sol pudesse reinar absoluto. E, depois, para coroar o espetáculo, um arco-íris belíssimo enfeitava o azul celeste. Dias assim enchiam-me de esperança. Considerava que a névoa eram meus problemas e frustrações que sucumbiam à força insistente da vida. E o arco-íris iluminado enfeitava meu futuro de cores alegres e vivas. É uma analogia bem simplória, confesso. Mas com meus singelos 9 anos significava muito para mim.

Acontece que, há muitos anos, não existem mais dias assim. E nunca mais pude cobrir-me de esperança de um futuro promissor. Talvez porque já o esteja vivendo. Compreendo a que Renato Russo referia-se quando escreveu que “o futuro não é mais como era antigamente”. Resta-me somente um réquiem de uma vida sem louros. O crescimento demográfico de Brasília roubou-me os dias de neblina. Agora os dias são quentes e secos, tal qual num deserto. Um deserto densamente povoado. Se há possibilidade de se reunir os dois conceitos, já que deserto define, geralmente uma paisagem inóspita. Aqui as cidades satélites derramam-se pelo horizonte. Ainda, ou sempre, em construção. Nesse clima árido, a terra vermelha se insere na paisagem como cor predominante. Brasília é vermelha. Cor do sangue dos que morreram aqui.  Também daqueles que vivem aqui em meio ao cerrado do planalto central, numa luta constante pela vida. (Vale a pena debelar-se por ela?).

Para mim é como se vivesse realmente num deserto, com pirâmides e esfinges enigmáticas que ameaçam devorar-me.

-Decifra-me, exige a cidade de formas modernas, e minha dúvida persiste. Nunca fui boa em charadas. Aliás, tudo tem de estar, para mim, perfeitamente explicado em seus pormenores. É que sempre corro o risco de errar se me faltam informações. Nunca compreendi a vida. E por falta de manuais de instrução ensinando como seguir por ela sem me machucar, acabei por adquirir feridas profundas. Os livros de auto-ajuda oferecem uma ilusão. E mesmo que ela seja cruel, eu prefiro encarar a realidade.

-Ensina-me a viver. Imploro, e, como resposta, da cidade futurística, escuto:

-Suporte a vida.

Quero encontrar-me, mas nunca sei onde estou. Nasci na Brasília de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Cidade de formas modernas e frias que me inquietam pela sua beleza arrogante. Por seu pretenso planejamento que fugiu ao controle. A cidade expande-se. E os homens modificam seus objetivos. Tudo virou uma desordem só. Mas ainda sobrou-me o céu, o “mar azul de Brasília” de onde meus sonhos são levados ao infinito.

Brasília, estou aprendendo a viver e conviver com suas formas geométricas arredondadas, cidade sem arestas e esquinas. Antes havia o rock nacional para ovacioná-la em suas músicas. Hoje tudo se desagregou. E das canções politizadas e inflamadas apenas restou uma leve lembrança. Desfizeram-se, até mesmo, suas formas. Atualmente não se vê o famoso “avião”, ou, como queria Lúcio Costa, a “borboleta” esvoaçante e delicada. Mas Brasília não é frágil, longe disso, dizem-na, até mesmo, insensível. Entretanto descobri-la apaixonante. Cidade, precocidade, que em pouco mais de quarenta anos criou docemente seu povo à sombra das falcatruas dos políticos do congresso nacional. Mas os brasilienses são “gente de bem” que se insurgem contra as injustiças e leviandades de nossos governantes.

A minha vida está interligada à desta cidade. Sou espectadora de seu desenvolvimento. E sua agonia é minha agonia. Pois seu crescimento desordenado fez com que prematuramente enfrentasse problemas de grandes metrópoles. Injustamente a apelidaram “Ilha da Fantasia” salientando o alto nível de qualidade de vida, comparável a países de primeiro mundo. Hoje se sabe que, como em todo país, nela há grande desigualdade social. O que me entristece é que nunca mais haverá dias de neblina. E não poderei mais esperar pelo futuro, pois o futuro é agora e tenho de acostumar-me a ele. Na realidade, como diria J. D. Bernal, “existem dois futuros, o do desejo e o do destino, e a razão humana nunca aprendeu a distingui-los”.  Como discernir entre aquilo que se quer e o que lhe está reservado?  Eu venho esforçando-me para decifrar este enigma da esfinge, cuja resposta mostrar-me-á como compreender a vida na capital do país.

  

P.S.: Não há arco-íris em Brasília há quase seis meses. 

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