Arquivo do mês: setembro 2007

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O Teatro dos Vampiros

Giordana Medeiros

 

Às vezes, quando escrevo, uso palavras que eu não sei bem o que querem dizer. Não que lhes desconheça o significado, pelo contrário, tenho um excelente vocabulário. Na verdade não sei o que quero dizer. Entretanto digo, porque a palavra salva, como queria Clarice, já para Freud a palavra cura. E para mim que vivo afogando-me em adjetivos? A palavra é sacerdócio. Devota-se toda uma vida à escrita, à dama das artes, a literatura. É daquelas senhoras altivas que usam salto alto, cílios postiços e batom vermelho. Elegante, pede licença para sentar-se. Começo agora a conhecer-la: – que dama fina! Sorri escondendo os lábios com a mão e em tudo é comedida. Como é educada, dir-se-ia.

Eu que sou dada a desvarios, não me enquadro nesta imagem literária. As palavras limitam muito o que gostaria de dizer. Um sentimento arrebatador pode se tornar tão mesquinho quando transcrito… Aquilo que escrevo é uma simples brisa quando comparado à ventania de minha alma, ao turbilhão de idéias que me toma. Ontem mesmo escrevi uma crônica, falava sobre minha relação com meus personagens e, ainda, sobre personagens clássicos da literatura. Achei-a demasiadamente crítica, de modo que desisti de publicá-la. Sei que provocaria reações inflamadas nas pessoas, sobretudo nas mais religiosas (adoro espezinhar os mais ascéticos). Entretanto a conservarei escondida junto a outros escritos cujo conteúdo tem tendência a subverter a ordem social existente. São revolucionários em vários sentidos e julgo que ainda não estou preparada para assumi-los.

Sou muito medrosa. Arrepio-me toda por medo de barata. E às vezes tenho medo de ser quem sou. É o pavor de ser. Fico aflita quando passo dias conhecendo-me. É tão horripilante descobrir-se. A maioria das pessoas não tem idéia de quem é realmente. A imagem que outras pessoas têm de mim não é aquela que visualizo todos os dias. É como se Oscar Wilde houvesse criado um retrato para mim, tal qual o fez para Dorian Gray. Enquanto a imagem do quadro deforma-se pela força do tempo e dos atos escusos e reprováveis que cometo (nunca fui uma beata), a minha aparência é a mesma de dez anos atrás. Mas acreditem, “a cada hora envelheço dez semanas.” Sou protagonista neste Teatro dos Vampiros.

Alfonsina Storni deu cabo a  própria vida lançando-se nas águas do mar. E suas poesias, anteriormente, já faziam menção a este ato derradeiro. Queria também fazer um prelúdio à minha morte, para que esses escritos fossem lidos no réquiem do meu velório. Quem me dera ser como Ismália que perdeu a vida sob a luz da lua, ou ainda Wether cujo coração apaixonado foi transpassado por uma bala. Quero, na realidade, morrer poesia. Prosa não, pois seria prolongar demais o sofrimento, e sou avessa à dor. Quero um triste lamento, grave como um solo de cello.

Se minha vida fosse poesia escolheria a Ode à Alegria de Schiller, muito embora seja Cecília Meireles quem musique a maioria de meus momentos. A melancolia é-me uma constante, como os Noturnos de Chopin, e eu que prefiro a voluptuosidade da Nona Sinfonia de Beethoven? Escrevo assim como quem procura a definição das coisas. Mas existem aquelas que escapam aos conceitos. Como aquilo que se sente quando vemos alguém que nos feriu o coração. Existe um conceito para esta mágoa? Esta dor que nos inunda a alma tem definição?

Eu queria escrever claro, límpido como água da fonte. Mas minha escrita é poluída, turva. É que procuro revelar meus sentimentos mais recônditos, que permaneceram durante anos latentes em meu espírito. De repente tudo se esparrama sobre o papel. E tento ordenar algo que é, por natureza, caos. Assim muito do que sinto resta distorcido quando traduzido em palavras. Se me amasse tanto quanto deveria, poupar-me-ia desta dor. Entretanto tento desvendar aquilo que permaneceria apenas vago em mim: um amor que nunca foi resolvido; o rancor sufocante de uma ferida aberta que jamais cicatrizou; e, ainda, o medo martirizante de enlouquecer que me paralisa diante da vida. É um emaranhado de sentimentos que compõem a malha intricada de meu espírito, tornando tudo que escrevo obscuro e ininteligível.

Na verdade escrever é uma forma de compreender-me. Estou cada vez mais à vontade na presença desta dama tão distinta que é a literatura. Ela sorri-me timidamente. E para ela exorcizo meus demônios. Ela diverte-se com meus desvarios. Confesso-lhe um amor que renasce bento em lágrimas; a dor pungente de visualizar uma remota possibilidade de felicidade. A senhora educadamente escuta todo meu desespero, para depois distorcer meus sentimentos em palavras vãs. Se eu fosse Alfonsina Storni também haveria me lançado ao mar; sob a luz silenciosa e bela da lua, caso fosse Ismália. Tudo por medo de voltar a construir castelos de areia que serão inevitavelmente tragados pelas ondas. É a isso que se denomina esperança?

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Brainstorm – Clarice Lispector.

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La Pathétique

Giordana Medeiros

As lembranças geralmente são dilaceradas pela força inexorável do tempo. Entretanto sempre sobram alguns momentos impossíveis de se esquecer. Algumas alegrias e mágoas, muitas mágoas. Estas últimas abriram feridas imensas em meu espírito. E só sabem doer. Latejam fazendo-me reviver um passado que preferia esquecer. De um tempo em que esperei, na verdade, idealizei uma realidade que ao final se mostrou tão diversa e perversamente diferente daquilo que eu havia sonhado. O que me fez sofrer deveras. Talvez por ter criado falsas expectativas sobre as pessoas, os fatos, os atos, sobre tudo enfim. Não posso evitar, tenho em mente uma ilusão daquilo que deveria ser a vida e de como deveriam se comportar as pessoas ao meu redor. Decepciono-me constantemente porque na verdade nada corresponde às minhas esperanças, o que, invariavelmente, ocorre de forma extremamente dolorosa.
Mas este é o momento e há a vida, que se deve aproveitar até o último suspiro. Cada batida do coração é importante. E se choro agora é porque meu coração esteve há anos descompassado. É que tentei inutilmente acompanhar a música que se entoava ao meu redor. Fracassei, pois meu coração não é dado a Alegros, sua sinfonia é composta unicamente por Adágios. La Pathétique de Beethoven. É a sonata que este grande compositor criou para ilustrar quão patética é a vida, patético também é o amor e, ainda, os apaixonados. No fim somos todos ridículos, loucos e desvairados.
Sinto uma tempestade aproximar-se, com suas nuvens da cor dos olhos de quem amei. O prenúncio de novos perigos, que me sondam e ameaçam desabar sobre mim. Sinto como se mil corações batessem em meu peito. Estou ansiosa e amedrontada. O que me espreita? A morte inevitável? Outra desilusão? Talvez a loucura que me cerca, tece sua teia, quer inocular seu veneno em minhas veias e desvirtuar-me.
-Deixe-me, que quero desfazer-me destas lembranças.
Como esquecer? Como apagar esta dor que me sufoca? Por favor, conceda-me um antídoto para esta mágoa que me envenena a alma. Ajude-me a perdoar. Principalmente a mim mesma, que tanto me fiz sofrer, acreditando em ilusões, criando realidades delirantes. Hoje tenho medo do que imagino, não me deixo divagar por muito tempo, tanto me é assustadora a imagem da loucura.
Eu tentei inutilmente, milhões de vezes, modificar o mundo, as pessoas e eu mesma. Não compreendia ainda a exatidão e oculta perfeição das coisas. Só observando demoradamente se consegue enxergar aquilo que está escondido nas minúcias, nos mínimos detalhes, aquilo que está submerso em mim sob camadas de ressentimento.
Todavia hoje sou outra pessoa. Não me torturo mais com amores impossíveis. Saibam: ninguém foi tão cruel comigo quanto eu mesma. Submeti o meu coração às mais terríveis sevícias. Minha alma restou destruída após tantas desilusões. Depois de juntar-lhe os cacos, decidi nunca mais me apaixonar. Tranquei meu coração com ferrolhos e cadeados intransponíveis. Não estarei mais suscetível a paixões. Não me entregarei novamente a insanidade. Não me desfazerei da razão. Agora esta é meu único sustentáculo.
Enfrentarei à tempestade com toda minha armada. E manterei firme o controle do meu leme. Não deixarei minha nau naufragar nestas águas turbulentas. Ondas imensas poderão balançar-me as estruturas, mas manter-me-ei impassível, estou fechada a novas aventuras amorosas. E nunca mais concederei a chave de meu coração a nenhum anjo leviano que tem como simples propósito destituir-me da sanidade.
Queimarei numa fogueira crepitante todas as terríveis recordações. Desfazer-me-ei de toda esta dor que carrego, limparei os armários de meu espírito, esvaziarei as gavetas de meu coração. Assim desprovida de todo sofrimento, sem ter por quem chorar, conseguirei prosseguir. Sem temer às tempestades e sem recear às ilusões, pois estarei insuscetível e inalcançável. Invencível em minha solidão. Esta me confere força, para não sucumbir novamente à temível insanidade. Não mais me entregarei, manterei firme minhas defesas. Protegida do mundo e dissociada dele também… Mas somente deste modo conseguirei proteger meu espírito. Conservar minha racionalidade. Não aguardo mais a fórmula milagrosa do amor. Deste remédio já provei e mostrou-se demasiadamente amargo. Bem como da loucura, muito embora esta seja doce, como manga colhida no pé. Em meio a tudo isto, procuro meu final feliz. Quando começarem a subir os letreiros finais, numa bela caligrafia, na tela de minha vida se desenhará: “Fin”. E será este realmente o fim?

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Perfeição

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Legião UrbanaPerfeição

1
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.

2
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.

3
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.

4
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso – com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.

5
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera –
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

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A Perfeição – Clarice Lispector

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Brasília

            Giordana Medeiros

Em Brasília, anos atrás, antes da explosão demográfica e da urbanização desenfreada, havia dias em que uma neblina espessa e gélida cobria a cidade. Gostava de observar a névoa dissipar-se, aos poucos, para que, enfim, o sol pudesse reinar absoluto. E, depois, para coroar o espetáculo, um arco-íris belíssimo enfeitava o azul celeste. Dias assim enchiam-me de esperança. Considerava que a névoa eram meus problemas e frustrações que sucumbiam à força insistente da vida. E o arco-íris iluminado enfeitava meu futuro de cores alegres e vivas. É uma analogia bem simplória, confesso. Mas com meus singelos 9 anos significava muito para mim.

Acontece que, há muitos anos, não existem mais dias assim. E nunca mais pude cobrir-me de esperança de um futuro promissor. Talvez porque já o esteja vivendo. Compreendo a que Renato Russo referia-se quando escreveu que “o futuro não é mais como era antigamente”. Resta-me somente um réquiem de uma vida sem louros. O crescimento demográfico de Brasília roubou-me os dias de neblina. Agora os dias são quentes e secos, tal qual num deserto. Um deserto densamente povoado. Se há possibilidade de se reunir os dois conceitos, já que deserto define, geralmente uma paisagem inóspita. Aqui as cidades satélites derramam-se pelo horizonte. Ainda, ou sempre, em construção. Nesse clima árido, a terra vermelha se insere na paisagem como cor predominante. Brasília é vermelha. Cor do sangue dos que morreram aqui.  Também daqueles que vivem aqui em meio ao cerrado do planalto central, numa luta constante pela vida. (Vale a pena debelar-se por ela?).

Para mim é como se vivesse realmente num deserto, com pirâmides e esfinges enigmáticas que ameaçam devorar-me.

-Decifra-me, exige a cidade de formas modernas, e minha dúvida persiste. Nunca fui boa em charadas. Aliás, tudo tem de estar, para mim, perfeitamente explicado em seus pormenores. É que sempre corro o risco de errar se me faltam informações. Nunca compreendi a vida. E por falta de manuais de instrução ensinando como seguir por ela sem me machucar, acabei por adquirir feridas profundas. Os livros de auto-ajuda oferecem uma ilusão. E mesmo que ela seja cruel, eu prefiro encarar a realidade.

-Ensina-me a viver. Imploro, e, como resposta, da cidade futurística, escuto:

-Suporte a vida.

Quero encontrar-me, mas nunca sei onde estou. Nasci na Brasília de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Cidade de formas modernas e frias que me inquietam pela sua beleza arrogante. Por seu pretenso planejamento que fugiu ao controle. A cidade expande-se. E os homens modificam seus objetivos. Tudo virou uma desordem só. Mas ainda sobrou-me o céu, o “mar azul de Brasília” de onde meus sonhos são levados ao infinito.

Brasília, estou aprendendo a viver e conviver com suas formas geométricas arredondadas, cidade sem arestas e esquinas. Antes havia o rock nacional para ovacioná-la em suas músicas. Hoje tudo se desagregou. E das canções politizadas e inflamadas apenas restou uma leve lembrança. Desfizeram-se, até mesmo, suas formas. Atualmente não se vê o famoso “avião”, ou, como queria Lúcio Costa, a “borboleta” esvoaçante e delicada. Mas Brasília não é frágil, longe disso, dizem-na, até mesmo, insensível. Entretanto descobri-la apaixonante. Cidade, precocidade, que em pouco mais de quarenta anos criou docemente seu povo à sombra das falcatruas dos políticos do congresso nacional. Mas os brasilienses são “gente de bem” que se insurgem contra as injustiças e leviandades de nossos governantes.

A minha vida está interligada à desta cidade. Sou espectadora de seu desenvolvimento. E sua agonia é minha agonia. Pois seu crescimento desordenado fez com que prematuramente enfrentasse problemas de grandes metrópoles. Injustamente a apelidaram “Ilha da Fantasia” salientando o alto nível de qualidade de vida, comparável a países de primeiro mundo. Hoje se sabe que, como em todo país, nela há grande desigualdade social. O que me entristece é que nunca mais haverá dias de neblina. E não poderei mais esperar pelo futuro, pois o futuro é agora e tenho de acostumar-me a ele. Na realidade, como diria J. D. Bernal, “existem dois futuros, o do desejo e o do destino, e a razão humana nunca aprendeu a distingui-los”.  Como discernir entre aquilo que se quer e o que lhe está reservado?  Eu venho esforçando-me para decifrar este enigma da esfinge, cuja resposta mostrar-me-á como compreender a vida na capital do país.

  

P.S.: Não há arco-íris em Brasília há quase seis meses. 

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