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Insônia

Giordana Medeiros

Caminhava absorto em seus pensamentos, sob a chuva torrencial que lhe encharcava as roupas. Via as pessoas correndo tentando proteger-se inutilmente sob as marquises, e ele fazia questão de caminhar no sentido inverso. Não como uma forma de afronta, apesar do mundo jamais lhe ter acolhido, ele não lhe guardava ressentimentos. Pensava que assim conseguiria manter-se sem mácula. Ter sua própria ideologia, longe da influência dos demais que sempre desvirtuaram seus caminhos. Se a chuva era fria e seu corpo quente, e se a roupa grudava-lhe no corpo, isso não era o bastante para forçá-lo a seguir na direção em que determinava a corrente. Seus lábios tremiam, o calor de seu corpo esvaia-se. Então, resolveu esquentar-se com um conhaque. Se entrasse em qualquer espelunca que visse, não estaria se submetendo a força cogente da maioria, afinal era terça-feira. Somente sentaria, degustaria sua bebida, sem guardar nomes, nem mesmo as feições das pessoas com quem porventura cruzasse. Na noite escura, a chuva cantava, e os raios iluminavam. Mas não se ouvia som algum e nada se via. Entrou num bar cujo neon piscava vermelho: entre. E as portas que não nos convidam? Devemos transpor-las? Sentiu olhos inquisidores sobre si. Olhos que sugestionavam, olhos jocosos, olhos de desdém, olhos que olhavam somente. E ele não queria ver ninguém.  Sentou-se no balcão, pediu o conhaque. Quando lhe foi servida a bebida, instintivamente buscou os olhos do garçom. Verdes. Por que tinham de ser verdes? Se fossem castanhos ou negros facilmente seriam esquecidos. Agora aquele verde se fixaria em sua memória, e toda vez que pensasse verde, viria a imagem do bar, do garçom, dos olhos. Era necessário pensar azul. Para que não fosse vítima desse verde incômodo. E azul, era o mar, a terra também como provara Yuri Gagarin . E se ficasse com o azul que se impunha, poderia esquecer o verde, olhos verdes. E o calor da bebida, queimando a garganta. Havia uma canção que se entoava rouca no ar provinda de uma velha jukebox. Se colocasse uma moeda poderia ouvir o que quisesse.  Talvez não houvesse Debussy, no acervo da máquina. Mas poderia haver algo mais agradável que a rouquidão daquela voz rasgando-lhe os ouvidos.

Foi até a máquina e depositou alguns centavos que trazia no bolso. Não é que encontrou uma canção que há tempos não ouvia? E ficou perto da máquina, pois temia os homens. Poderia se proteger sob o som que a jukebox transbordava. Alguns casais foram ao centro do bar e começaram a dançar. Ele não quis observar. E voltou-se para dentro de si. A música toca seu coração. E ele toca a música que ninguém pode ouvir. Ou não quer ouvir. A roupa secava no corpo. Já estava começando a cansar-se de estar ali. Até que uma mulher ofereceu-lhe um cigarro. Foi como se tivesse sido açoitado. Como percebera que ele estava ali? Recusou os cigarros de cabeça baixa, para não cruzar seus olhos com os da mulher. Ela insistiu, ele desesperadamente tentou desvencilhar-se da incômoda intromissão. O que queria de si? Que se mostrasse interessado? Não era mais afeito a desventuras amorosas… Agora só a solidão lhe era importante. Porque somente possuía habilidade de tratar consigo mesmo. Os outros lhe eram um tremendo mistério, que ele se recusava a desvendar. Deixe permanecer a incógnita. A pergunta sem resposta que soa como um toque agudo no piano. Ele saiu protegendo o rosto com as mãos para não ter de ver as feições ousadas da mulher. Ela respondeu, praguejando: “Bixa!” Sentiu novamente os olhos sobre si. Olhos de reprovação, olhos que não olhavam somente, julgavam. Saiu do bar humilhado. Por que não compreendiam que ele não queria ver ninguém? Ele não queria mais sentir. Por que os sentimentos só lhe trouxeram sofrimento. A humanidade que sapateia indecorosa sobre sua dor. A chuva não parara, mas a bebida lhe esquentara o suficiente para que seus lábios não mais tremessem.  Os raios iluminavam as ruas escuras, onde o perigo se encontrava em cada viela, prostitutas fumando com lábios vermelhos e roupas exíguas, crianças cheirando cola, outras fumando crack. Num mundo cheio de maledicências e vícios, porque não poderiam simplesmente esquecê-lo? O raio que rasga a escuridão… As mãos nos bolsos ensopados, não para esquentá-las, mas como se assim pudesse guardar a si mesmo no bolso.  Como faz uma criança ao achar uma bola de gude e abismada por sua beleza vítrea, quer protegê-la.

Ele sentiu a face rubra. O rosto formigava, seus ouvidos zuniam.  Tinha de encontrar abrigo. Não para o corpo que nada lhe valia, mas para o espírito, que estava sempre tão aflito. As coisas estavam tão diferentes. Não foram sempre assim, mas com o tempo, suas relações pessoais desmoronaram como um prédio que perde seus alicerces.  Ele não mais conhecia o que era estar com outros homens. E tinha medo de estar com estes. A sociedade lhe oprimia de forma que não mais procurava estar com ela. E nessa noite escura com o vento, as árvores sacudidas, e a chuva incessante, sentia-se mais protegido que  se estivesse com outro alguém. Encontrar-se-ia nessa noite com o que tinha de mais sincero e puro. Nem que fossem suas lágrimas salgadas e quentes que se misturavam às gotas de chuva. Lágrimas que se escondem como ele. E se esconder foi seu abrigo. Somente virando as costas para o mundo, pode se proteger da indiferença deste. Procurava desafiar a vastidão inútil do mundo, com sua insignificância também de minúsculo valor. Braços abertos para sentir as gotas caírem em suas mãos. Água límpida que lhe batizava. Num momento sentiu-se como um garoto fresco e limpo que vai de manhã para a escola. O destino é algo muito curioso. Nunca se sabe por que caminhos ele vai te levar. Você apenas segue. Sem saber o que lhe espera além do horizonte. Água abençoada que lhe expurgava as faltas, cumpra a sua sina. Desvende seus mistérios. Ele era indecifrável ao olhar leigo, necessitava de alguém que desvendasse os mais difíceis hieróglifos. Em casa, depois de abençoado pela pura água da chuva, procurou a cama como se dormir fosse um bote salva-vidas num mar tempestuoso. Ele tinha medo. Tanto, que às vezes queria levar para o sono algo consigo, algo do dia, como se fosse uma garantia que no outro dia ele acordaria. E o mundo estaria igual. Mas sempre que acordava estava tudo diferente…

Deitou-se na cama, e tentou dormir, mas a noite é perversa, impede-o de sonhar.  Na verdade ele foi expulso do sonho. E não tem mais abrigo algum. Onde pode se esconder dos olhos, que reprovam, julgam, submetem e humilham? Onde? Escutava a música da chuva, trovões graves, ventania aguda. Árvores balançando-se. São bailarinas neste espetáculo. “Porque está tudo tão frio dentro de mim?” Ele se questionava, mesmo sabendo, que para tal pergunta não havia respostas. Sabia apenas que sua chama interior havia se extinguido. Seu corpo, não mais se inflamava. Aceitava submisso. A insônia que lhe prolongava o dia. A dor que lhe aumentava o sofrimento. A solidão que lhe sustentava nos seus tristes momentos. “Estou tentando reconstruir minha vida”. Pensou e riu. À contra gosto, mais por fingimento. Como uma defesa dolorosa, um ato masoquista, ou para mostrar que ele era um mártir que fingia não estar sofrendo, quando na verdade estava dilacerado. Esperando que alguém conseguisse ver o arrependimento e a piedade que ele sentia, e que só por heroísmo sorria. “Porque lençóis tão limpos para este corpo moribundo? Deixe-me pagar minha penitência. E atravessar minha via crucis, se quiserem, coroem-me com uma coroa de espinhos…” E falou com um ar de desafio para o quarto em penumbra. Ninguém lhe respondeu. Também não aguardava respostas. Ele apenas dizia como alguém que leva uma bofetada e diz que não está doendo quando na verdade está doendo. E se santifica em sua dor. A realidade menos lisonjeira é que ele lera muitos livros, mas neles nada encontrara que desmistificasse essa existência abjeta que vivia. Se esperasse mais algum tempo talvez a chuva parasse ou o dia nascesse e o sol iluminasse o quarto, pois ele precisava de algo luminoso para a escuridão de sua vida. Ele se via tão desamparado, mas era obrigado a contar consigo mesmo, pelo menos hoje em dia é assim. As pessoas só têm um recurso: elas próprias. E por isso estava rindo, não para ofender alguém, pois ninguém lhe via agora, mas por saber de sua posição ridícula. E da situação que era um pouco cômica em si. Adormeceu sorrindo, quando o dia já amanhecia. As gotas de chuva escorriam pela janela como lágrimas. Como se a vida chorasse a morte de uma de suas vítimas.  

“Nothing is gonna change my world”

Giordana Medeiros

Tenho de redimir-me de minhas faltas, porque toda esta dor tem de existir por algum motivo. As noites estão frias no inverno. Dentro de mim, o vazio ressonante de uma catedral. Mas não sou território sagrado, sou profano, sou mortal. Ocorre que eu sigo vivendo, vivendo, os outros também, só que não se vêem como vêem a mim. A vida pode ser um terrível pesadelo. Vou fugir de retorno a mim mesmo, onde posso encontrar as portas abertas, não há como me negar acesso a esse mundo. Já me disseram que todos querem ser aceitos. E quando a própria vida nos rejeita? Não sirvo para esse mundo. E tenho os pincéis para pintar minha própria realidade. Porque poupar-me, proteger-me, é minha prioridade agora. Sou o compositor de minha dor. Se posso escapar de alguma forma de uma realidade aterradora, porque seguir sofrendo? Quero a mansidão dos espíritos. Não há como fugir de si. Tudo estava confuso, quero encontrar a lógica de meus pensamentos… Estou escrevendo de assalto, sem armaduras, sem defesa. Os pensamentos surgem no papel sem que possa impedi-los. Eu sou uma pessoa que não tinha coragem de se rejeitar, entretanto precisei que as demais pessoas o fizessem para que, então, nem eu mesmo pudesse mais viver comigo. Sou outro, no meu espírito sou outro, não o que demonstra meu físico. Imaginem uma pessoa pequena e sem força. É o que aparento ser. E dentro de mim… Dentro de mim há um tigre adormecido. Mas não há como expulsá-lo do sonho, só posso unir-me a ele, hibernando eternamente. E no sonho sou mais feliz. Toco a veia pulsante como alguém que toca a verdade no sonho. Por enquanto sou alguém deveras recente, aos poucos me encontro nesta nova realidade cujas tintas escolhi. E mesmo que seja uma felicidade vazia, estou feliz. E até para morrer serei sempre muito feliz. Uma mínima inspiração me trás a força para uma busca extremamente difícil. Exploro um interior que me era desconhecido, mas desvendo agora. E tudo que vejo me surpreende. Quero estar eternamente aqui. Posso fechar-me nesse esconderijo sem que os demais percebam. Vou permanecer aqui longe, para que nem a dor me alcance.

Sinto uma sensação de fracasso e resignação, pois sei que fiz tudo que estava ao meu alcance. Mas não foi o suficiente. Nunca é. No meu interior me fascina a total ausência de impedimentos. A vida nos cerceia tanto… Aqui, onde me encontro, não preciso me submeter a nada. Não intervenho no que me é exterior, e nada me atinge.  Há ainda a sede ruim de amor. Mas nada pode suplantar o reinado do medo. Meu coração é selvagem e não pode mais ser domesticado.  A verdade é que estava desorientado e toda a luz exterior me cegava. Aqui é escuro, mas consigo me mover com agilidade. Como se conhecesse todos os caminhos. Desconhecia a direção por que meus olhos me guiavam, mas em meus sonhos cruzo horizontes que não vejo. Apenas imagino. E imaginando, vou edificando meu mundo, minha existência de sonhos e pequenos fragmentos de realidade.  Pois extraio do que é real apenas o essencial. O restante, não necessito. Não mais. Desisti. Procurei adequar-me ao que me exigiam os homens. Falhei, simplesmente não pude alcançar os altos padrões que determinavam, porque sou pequeno e o coração deles mesquinho. As noites vão se tornando mais longas, noites intermináveis em que me encontrava numa espera muda. Esperei que fosse aceito, esperei que me inserissem, esperei, mas todos me viraram as costas. E não há quem me ampare na minha queda. Não há quem me enxugue as lágrimas, nem me acolha em seus braços, terei de seguir sozinho, não no mundo que eles impõem, mas no que escolhi para mim.  Não vale a pena toda a dor à que me submeti. Por que a “cura” é ser igual aos outros? Não sou como eles. Não sou como ninguém e meu destino é ser sozinho. Estava perdido com as soluções que me antecediam, o mundo me antecede a cada passo. Não quero mais seguir por esta direção. Sigo contra a multidão que tenta arrastar-me violentamente. Há uma música gravada em minha memória: “nothing is gonna change my world”, Accross The Universe dos Beatles, nada mais pode mudar meu universo, meu “infinito particular”.

A alma não apodrece como o corpo orgânico, torna-se abstrata. E posso imaginar o que quiser, sou imaculável em minha realidade, estou purificado, expurguei a influência dos outros em mim.  O silêncio traz um estrondo dentro de si. Eu quis, quis com todas as forças, lutei, feri-me profundamente. Está na hora de recolher os corpos e tratar as feridas. Ainda de procurar novos caminhos. Retorno para onde não deveria ter saído. Quando nasci, foi-me feita uma promessa, a que reivindiquei e não me foi cumprida. Estava ávido por algo, e aguardava com tanto fervor, que pode ter acontecido e não me dei conta, pois esperava uma emoção indefinível. Meu coração não bateu amplo. Não me dei conta que a razão de minha espera ocorria. E agora o que me resta, além de lembranças que vão sendo corroídas pela lepra do tempo? Há uma gravidade em ser o que sou que não compreendo. Será errado não se subsumir ao que é comum? “Do alto de uma montanha a gente se desacortina”, e ninguém compreende o que me levou a esta montanha e o que faço aqui, admirando um mundo que agora abandono. Adeus mundo, vasto mundo, não me chamo Raimundo, pois não procuro rimas, mas soluções. Não me ocorre nada no momento. Enxergo um tufo de margaridas, minhas flores preferidas por sua simplicidade. E nelas também não encontro soluções. Somente sei que são belas, simples e belas. Uma simplicidade que invejo, pois sou complicado como equações matemáticas logarítmicas, ou derivadas, mas não possuo a exatidão destas, porque sou humano. Complicadamente humano. Não sei ao certo o que esperavam de mim. Mas estou longe de ter alcançado. Agora vou virar as costas ao mundo que me renegou. Como o filho que vira as costas ao pai que lhe rejeitou. É minha vez de dizer-lhe que não! Sinto vontade de chorar, às vezes consigo. Outras, fica só esse nó na garganta de um soluço recolhido.

“Será maior a tua dor / que a daquele gato que viste/ a espinha quebrada a pau/arrastando-se a berrar pela sarjeta/sem ao menos poder morrer?” Versos de Ferreira Gullar. É sempre nele que me socorro quando me faltam palavras. E nessa solidão muda, posso seguir sentindo, não há como ficar impassível diante destes versos.  Outros mais: “Amigos morrem/ as ruas morrem/ as casas morrem ./ Os homens se amparam em retratos/Ou no coração de outros homens.” “Ma vie c’est sinistrée” Mas há quem se ampare na dor para criar diamantes. Estou lapidando minhas pedras. Não sei se criei algo palatável. Saboroso, não digo. Sei que tem um sabor ácido que trava na boca. É tudo que posso oferecer. Faz parte de mim. Estão expostas minhas entranhas. “Mais, où donc êtes-vous?” De novo o gosto do amor ruim. Meu coração é indomável e às vezes tem recaídas dolorosas. Cala-te e bata somente, num ritmo que possa conhecer, que não me confunda e traga-me terríveis consequências sentimentais. Frida Kahlo dizia : “lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace”. A mim somente a ilusão é-me importante. Desvencilho-me da ressaca emocional de uma vida real. Viver nos sonhos é mais agradável e menos sofrido. Posso ser o que desejo ser. Sem que ninguém tome ao menos conhecimento. E posso reescrever minha história com as tintas que me concedem os sonhos, pinto uma tela com cores frias e quentes, nada de naturezas mortas, nem mesmo a dor das telas de Francis Bacon. Somente “les promenades”de Monet. A doçura das coisas. Eis aqui minha despedida: adieux monde, maintenent je suis dans mes rêves.

1º de Junho aniversário da Alanis Morissette e seu irmão Wade Morissette. Happy Birthday!

Digressão sobre o sonho, a realidade e o livre arbítrio

Giordana Medeiros

Tenho vocação para um único destino: um dia morrer. Não sou nada além de um átimo que não muda em nada o curso do universo. Sou uma estrela cuja luz se apagou. Não me ocorre muito o que dizer. Somente vou seguindo neste labirinto de palavras, em que me perco tentando encontrar algum mísero sentido. Mas só há escuridão pelos meus caminhos. E sigo nesta zona nebulosa que está entre o sonho e o despertar.  E se acordamos depressa nos esquecemos do que sonhamos; eu me recordo de todos meus sonhos, que se mantém tatuados em meu espírito. Inúmeros desejos mudos que ficam; de alguma maneira, permanecem em mim. Sou o produto de milhares de sonhos desobedecidos. Não de propósito, acontece que quando crescemos, é necessário, aceitar o que o destino nos impõe. E os sonhos com olhos inquisidores me despertam culpa. Como se estivessem famintos, e implorassem migalhas de minha atenção para poderem tornar-se realidade. Eu os sonego meus escrúpulos. Inflijo-lhes a pior das penas: o descaso.  E ele condena. O que sou não é nem um esboço do que queria realmente ser. E sou, no mundo do ser, um miserável. No mundo do deve ser, deveria ser um cavaleiro, aquele que sempre esteve à procura do Santo Graal. Com minha espada em punho combatia os mais terríveis monstros. Hoje sou um dos monstros a quem deveria combater. Isso no mundo do ser. Pois o mundo do deve ser abandonei por completo há décadas atrás. Hoje o mundo que deveria ser real, mas não passa de faz de conta, fica acuado diante do mundo real que não deveria nem existir. Perversa realidade que distorce o faz de conta em feias imagens. Meu escudo não passa de uma tampa, cuja panela é meu elmo, minha espada não pode ferir, nem meu cavalo é mais que um pangaré, que relincha sofrido quando submetido ao meu peso. Realidade devolva-me os gigantes, que estou cansado de combater moinhos de vento!

Vou correndo numa paisagem inóspita, um deserto, e quanto mais corro, mais vazia torna-se a paisagem. E acho que estou a correr para dentro de mim. O vazio é real, no meu espírito. Solidão. Acho que jamais encontrarei a quem dedicar meus sentimentos, pois todos que cruzam comigo, não trazem consigo a luz para iluminar meus caminhos. Quero ter em frente algo que espero. Esperança que se prolonga insistente. Por que não desisto simplesmente? Nego o faz de conta e enraízo-me nesta realidade absurda. Como um quadro de Dali. Ou o realismo fantástico de Gárcia-Marquez. Transformo-me numa árvore e me fixo nessa vida, com galhos secos, pois não há folhas, flores ou frutos em mim. Só esta casca oca, talvez tenha mais semelhança com a Divina Comédia de Dante. Estou condenado a este mundo. É minha pena. Da qual não posso escapar. Não cometi crime algum, mas me foi infligido este castigo. Talvez prevendo alguma ação de minha autoria que não condiga com o que determina a lei dos homens, ou de Deus. Apesar de jamais ter acreditado que exista um realmente. Mas não sou um especialista em realidade afinal. Posso estar enganado. O que, aliás, é bem comum. Pensar é uma aventura sem garantias. Vou pensando e de repente surge este texto, em que discorro sobre tudo e nada. E nada acaba fazendo algum sentido. Pois “a vida é uma ponte entre dois nadas”. Nos dizeres de Caio F. E nessa ponte que se prolonga conforme determina o destino, encontramos a realidade. E sobre essa ponte, há um céu infinito, esse é o sonho. O que as crianças na sua grande sabedoria chamam de faz de conta. O faz de conta, o deve ser, não encontra limites. Talvez, a concepção e a morte seja a intersecção entre o sonho e a realidade, quando os dois planos se cruzam. E na morte reencontramos os sonhos que negligenciamos. Criei meu próprio conceito do que é a morte: o retorno do sonho.

É bom pensar assim. Um dia chegarei a alguma conclusão plausível. No momento tenho de contentar-me com estas soluções ingênuas que não passam de reles especulação apriorística. Sei que não passo de um insipiente. Nada que produzo pode ser levado muito a sério. Eu mesmo nunca fui levado a sério. Sou um instante, um ínfimo instante na história de milhões de anos deste universo que me parece inexplicável. Acho que o sentido das palavras ultrapassou o que queria realmente dizer. Não sei agora o que elas expressam, não posso responsabilizar-me por isso. Quero a garantia de retorno ao sonho, qualquer coisa que seja, um simples pedaço de sonho que se mantenha na realidade, como escutar o cantar de pássaros no sonho, despertar e o canto permanecer na nossa mente… Uma música que se escute antes do desfalecer e continue no sonho. Já me ocorreu isso. Como se as estrelas cantassem para mim. Mas temo que ao acordar não haja mais música. Nem mesmo em mim. Será que cabe a nós cumprir uma promessa que nos tenha sido feita? E é essa nossa missão? Ou um entrave para que deixemos de lado estas ilusões que podem nos desviar do caminho que nos traçou o destino? Querem saber por que temo tanto esta realidade? É quase um temor reverencial, é que temo que caso insurja-me contra ela perca o que tenho de racional. Já estive numa situação delicada quando resolvi desobedecer a Átropos. Agora me resigno aos seus desmandos até que consiga tomar-lhe a tesoura dourada das mãos. Sou ensandecido confirmo suas percepções. Não carrego nem um pouco de lucidez em meus escritos, na verdade nada escrevo, as palavras são-me sopradas ao ouvido. E construo estes textos que nada são, pois ninguém os lê. Somente eu. E depois de algum tempo eles perdem o sentido. São de acepção instantânea, como achocolatado em pó. Sabe de uma coisa? Tenho medo, como quando algo é bonito demais e temos medo de ao manuseá-lo, quebrar-lhe pela truculência de nossas mãos. Eu tenho tanto medo, e de tanta coisa… Acho que sou o produto de meus medos, de tanto ter medo, acabei por ficar sozinho neste deserto de pessoas.

Acho que minha própria liberdade me desampara. Poderia ser o que quisesse, escolhi justamente aquilo que não queria ser, para minar o que me concedia a liberdade. Eis o livre arbítrio. Não tenho a genialidade de Schopenhauer para discorrer sobre este, mas acredito que sempre há uma força que mina nosso livre arbítrio: as convenções sociais, as normas, os costumes, a realidade, por que não? Se pudéssemos fazer tudo que quiséssemos… O mundo seria um caos, tenho certeza… Mas se eu pudesse ser o que queria. E se não escutasse meus temores… Não há mais tempo. Como diria o coelho no livro de Lewis Carroll. “Estou muito atrasado”. Não briguei com o tempo, meu relógio não parou às seis horas e não é mais hora do chá. E tudo que digo é na verdade um “non sense”, mas sei que há algo que se aproveite em meio a este mar de sandices, apesar de saber que poucos são meus leitores. Só meus amigos fiéis: Geraldo, Giovana tem esse encontro com o que é essencialmente eu. E não sei se eles me compreendem, talvez não tenha a mínima idéia a que me refiro. Tudo bem, eu entendo. Não sou muito explícito. Mas há quem me considere explícito demais. Acho que vivo no liame da razão. Ou então só esteja mesmo dando vazão a um desejo de escrever sobre coisas que me vieram esta noite. Estou a poucos anos das trinta primaveras. Não creio que até lá tenha algo glorioso para vangloriar-me. A única coisa de que posso orgulhar-me neste momento, foi de ter conseguido terminar este texto, que não chega a ser um conto e foge do que seria uma crônica. É um texto. Um simples, ridículo e insignificante texto. Não se dêem ao trabalho de lê-lo. Bom, tarde demais.       

Quando fui outra

Giordana Medeiros

Hoje passei o dia relembrando, é que encontrei uma foto que me fez recordar tantas coisas… E sei que me espelho em Proust para seguir vivendo, pois também estou em busca do tempo perdido. Tempus fugit. Minhas memórias começariam com estas palavras. E uma menininha de onze anos, sempre tão sozinha… Aquela garotinha que tenho vontade de aninhar em meus braços para que não sofra…  Mas sei que é impossível poupá-la da dor que irá sentir. Ela segue numa madrugada fria de junho, com as mãos nos bolsos do jeans surrado, tanto quanto o all star companheiro de tantos passos. E essa menininha tão frágil, irá enfrentar diversos perigos, e se fortalecerá com as feridas em seu espírito, e lutará contra males da alma, que lhe furtarão quase duas décadas, em que ela esperava um momento que fosse seu instante. Mas era tudo um sonho. E ela só descobrirá isso se passar por todos esses percalços. No fim estará tão sozinha quanto nos seus primevos dias. Só que com mais experiência, cicatrizes, e uma bagagem enorme de sofrimento. Naquela manhã fazia tanto frio. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.” Era o que dizia a canção que tocava no walkman que levava consigo. Onde estão aqueles dias que me abandonaram por completo?  Nunca mais houve uma manhã tão fria… E a música ficou eternamente gravada em mim. “O que você vai ser quando você crescer?” Acho que era feliz, não sei, eu tinha um futuro pela frente e imaginava estar trilhando meu sucesso. E só erigi os muros da minha prisão. Agora estou enclausurada por estas lembranças. Se pudesse ter agido de forma diversa… Poderia ter procurado vias menos doloridas, e ter aproveitado mais a infância que se foi, a juventude a qual virei as costas. Hoje tenho tanto remorso. De tudo que poderia ter sido, e que não sou. Tenho tanto a lamentar. Meu sofrimento é ter perdido tanto tempo. Poderia ter me poupado de toda dor.

Se eu pudesse dar as mãos a essa garotinha para guiá-la pelo caminho certo. E soprasse-lhe ao ouvido as escolhas corretas. Por que óculos tão grandes? Por que se furtar ao convívio das pessoas? E que faz escondida atrás desses livros? É sábado! Sempre leva consigo um livro, por que a literatura é um esforço para tornar a vida real. Sua vida é um punhado de sonhos que rega com as lágrimas de seu sofrimento. Nunca se deu conta que não era de Dante, Cervantes, Shakespeare, Machado de Assis ou Kafka que sentiria falta no futuro. Eram tão poucos seus companheiros, nunca foram realmente amigos, pois os anos os levaram como o vento que leva aos poucos as dunas da praia. Eles se foram, mas deixaram sua marca em mim. Recordo-me deles, todavia seus rostos estão sumindo de minha memória, pois o tempo é na verdade uma borracha que vai apagando nossas histórias. Associava músicas a minha vida. Continuo associando, e sempre há uma música que interpreta plenamente todo sentimento de um momento. Conheço-me, mas estou sem mim. Aquilo tudo que era meu, meu futuro que me parecia tão mágico, a expectativa de uma vida brilhante, tudo se perdeu, no reboliço de uma história que ficou pela metade. Não fiz as escolhas certas, perdi-me em sonhos que não eram meus. E fechei os olhos ao que realmente gostava. Fui tola e leviana em minhas decisões. Por isso se pudesse guiar essa menininha naquela manhã fria de outono, eu far-lhe-ia seguir por um caminho diverso. Onde sei que seria muito mais feliz. Ela faria aquilo que gosta realmente, seria um tanto menos exigente consigo mesma. E perdoar-se-ia por ser tão diferente. Ela era uma menina que tinha urgência de viver. Sempre fiz tudo aos atropelos. Tola. Sei que fui… Sei que sou… Mas sou o produto de uma vida de desenganos. Existo sem que eu saiba. E morrerei sem que o queira. É isso o que tenho a dizer sobre meu tolo coração. Sobre minha existência abjeta. Talvez seja sempre melhor aquilo que passou. O presente é a sensação de um passado que desejamos viver novamente. Futuro? O que há mais para se viver? Não desejo que chegue o futuro, mas que o passado retorne.

 Para Pessoa “o mal verdadeiro, o único mal são as convenções e ficções sociais que se sobrepõe as realidades naturais”. Eu sempre fui avessa às convenções sociais. E passei a vida lutando para me manter autêntica, seguir meus próprios conceitos de moral e ética. A sociedade repudia o que é diferente, o que não compreende. Teme aquilo que não se subsume ao que é convencional. Eu sempre fui discriminada por ser o que sou. Ninguém me compreendia, não tinham idéia do que eu sentia. E me excluíam do convívio social. Sou uma caverna inexplorada que guarda milhares de seres desconhecidos. Guardo tantas descobertas em mim. Não há quem me desvende. “Nasci em num tempo em que a maioria dos jovens havia perdido a crença em Deus pela mesma razão que seus maiores a haviam tido – sem saber porquê.” E perdi a crença em mim mesma. Via-me de modo diverso dos demais e meus sonhos também não se pareciam com os dos outros. Eu nunca aceitei a divindade completamente e não soergui a humanidade como sucedânea de Deus. Sou cética, mas temo a força da fé. Na verdade nunca soube crer em Deus. Como não sei me fazer entender pelos demais. Sou tão confusa e incongruente… Creio que amar-me é ter pena de mim. Como tenho pena da garotinha indo para escola naquela madrugada fria de outono. Sei que não pode me escutar, que só a vejo na lembrança, não sinto o frio que lhe eriça os pelos, mas recordo-me de seus passos. Lembro-me que na escola tive as piores experiências sociais que se pode viver. O fato “é que sempre era outono no outono. E o inverno sempre vinha depois fatalmente. E só há um caminho para a vida, que é a vida.” O que parece não dizer nada sempre diz alguma coisa. O que quero dizer é que ela não siga pelos caminhos que segui. Neste outono, ela completa doze anos. E não haverá comemorações, seu único presente será a presença na folha de chamada. Quero que ela discirna entre o real e o sonho para que jamais venha confundir-los.

Sonhos são perigosos, são desejos tão profundos que podem misturar-se à realidade. Eu sei. Tenho algo que aquela menina, tão desajeitada, não tinha: experiência… Lembro-me das palavras que ela disse a si mesma nesse dia, que “viveria em seus sonhos que é a realidade que desejava, e a realidade seria somente o sonho, o pesadelo que tinha de viver quando estava acordada”. Foi quando o sonho que não era mais sonho se revoltou e tentou tomar de assalto a realidade. Foi uma confusão sem tamanho. Não compreendia mais nada, pois não tinha idéia do que era real. O que é real? O que eu queria ver ou o que meus olhos me mostravam? Os meus olhos me mostravam o que queria ver, ou eu interpretava os fatos de forma distorcida? Foram quase duas décadas perdidas nesse dilema. Hoje estou curada do sonho. Foi duro, mas me desvencilhei da realidade imaginada. Tenho de viver o que é imposto a mim pela vida.  Não posso conformar o destino aos meus desejos. E decidi viver, a vida, o tangível. Mas foi sofrido desvencilhar-me do sonho. É tão bom sonhar. O absurdo, o improvável é comum. Entreguei-me ao sonho, pois desconhecia os perigos de se sonhar. E aprendi. Mas foi difícil, tenho de dizer. Só se aprende pelo meio mais difícil. Se pudesse contar a ela o que terá de passar, para que possa finalmente se encontrar. Ela está perdida. Num mundo em que ninguém poderá entrar por anos. Ninguém somente ela conhecerá este sonho que assumirá o controle de sua razão. Quando ela acordar, lamentará sua tolice. Quem se entrega ao sonho e recusa a realidade, pode ter felicidade, mas esta é irreal e passageira.  E somente duas décadas depois, quando finalmente despertar, ela se dará conta disso. Se ela pudesse me ouvir… Chutando as pedras no caminho e sonhando, lá se vai ela, para longe, longe da realidade.

Canções do abandono

 

Giordana Medeiros

 

O coração se pudesse pensar, simplesmente pararia. Pois não há sentido para a vida. O sentido é não ter sentido algum. E só se vive. Vive-se só. Numa solidão abominável. E nesses dias em que a brisa é fria e chove os males do mundo sobre os homens, tenho certeza que a vida não é muito mais que isso, ou pouco mais que nada. E conheço várias histórias de corações que trabalham como relógios, batendo infinitamente, se ferindo, destruindo-se como se seu único objetivo fosse a dor. Sofrer é seu destino. Corações tolos e selvagens. Consigo ver através dessas nuvens espessas que escondem as constelações… As estrelas são minhas cúmplices. A noite que cai sobre mim é eterna. Como a imagem desse desespero mudo, de restar nessa imóvel espera, de que a dor converta-se em algo… Alguma coisa ao menos, não posso estar para sempre nesse vácuo. Deserto de pessoas. Caminho só nessas ruas repletas, não há como estar sozinho. Mas nunca me senti tão só. As palavras são longas e desnecessárias, a chuva é triste como um lamento. E um violão converte minhas dores mais profundas em doces canções. Canções do abandono. Sempre haverá uma canção para marcar os momentos mais preciosos. Recordo-me das canções mais importantes. Os acordes surgem leves nas mãos, o instrumento é feito de dor, as notas são as lágrimas, choro música. Lamento canções. Muito se esconde nessas frases, quisera poder dizer tudo, mas as palavras não conseguem exprimir o que sinto em sua completude. Sempre haverá algo a se dizer. Mas jamais digo nada. Sinto o frio de uma doença súbita na alma. Uma nódoa no meu espírito, contaminando todo o meu ser. Sei que a alegria é passageira, tem os tickets para a viagem no trem da minha vida, mas atrasou-se e teve de embarcar no trem seguinte. Feliz sou triste, talvez não saiba ser alegre, só triste. A solidão desola-me, mas a companhia de alguém me oprime. Meus hábitos são afeitos àquela, não à presença dos homens. E minha canção é uma concha quebrada de dor, porque me dói qualquer sentimento que desconheço. Talvez seja saudade que me acompanha sempre, de um passado que não se foi, e permanece em mim.

Eu penso com minha sensibilidade e sinto com meu pensamento. Algo não muito comum. Sou um homem raro. Um espécime único… Somente eu me vejo assim. Os demais me confundem com o restante dos homens, pois somente o interior difere-me deles. Não podem saber o que sou realmente por dentro. Sou alguma coisa pouco comum. Um ser desmedidamente humano e profundamente insano. Só os loucos compreendem esta imagem disforme que me representa, os sãos só vêem borboletas, manchas de tinta são toda uma existência para os insanos. Sou um sonhador, e não necessito adentrar nos reinos de Morfeu para poder ter acesso ao sonho, apenas extraio da vida o que é mais sublime, e vivo, o sonho, não a realidade, o que é muito mais fantástico, pois no sonho pode-se ser quem realmente se deseja. Acredite, não há saudade mais dolorosa que aquela das coisas que nunca foram. Sou quem não sou, e a vida é pronta, previsível e triste. Como os lances de um homem no tabuleiro de Xadrez não conseguem ludibriar o computador que se aprimora com as jogadas dos humanos. Como nos fazer imprevisíveis ao destino que se encarrega de todas nossas ações? Parca maldita que tem nas mãos o fio de minha vida. Um oceano imenso em mim. Um oceano de sentimentos que se confrontam em tempestades, mares bravios, controlando o que sou realmente. Sou levado pelas emoções: minha razão é irrisória e governada pelos sentimentos. Nem sei sequer o que sou para mim mesmo. Sei que o mundo, eu ou o mistério que nos envolve é supérfluo. Pode sobreviver-se sem compreendê-los, aliás, é de compreender que nos cansamos, viver não é compreender. Felizes os seres que viviam sem ter consciência de sua existência. A consciência é o verdadeiro pecado original, quando os homens tomaram consciência que existiam foram expulsos por si mesmos do paraíso. Pois a dor é a consciência de existir. Se eu amasse profundamente, talvez algum motivo restar-me-ia, mas a vida prejudica sobremaneira a expressão da existência.  Não há sentimento cuja ausência não sinta mais que o amor, que me abandonou. Ordinariamente, era um homem apaixonado, hoje creio que este sentimento foi-me roubado, foi extraído de minha vida. Sou indiferente àquilo que se pode chamar de amor. Não tenho mais esperanças de encontrar esse sentimento em mim. O amor que tinha extinguiu-se como uma fogueira que se consome com suas próprias chamas. Crepitou mas findou seu combustível. Não restou uma única brasa em meu peito, somente cinzas, para não esquecer o que representou em mim, e a sensação de vazio em meu peito. Escrevo o que sinto, pois assim posso ignorar solenemente a vida. A literatura é uma forma sutil e agradável de esconder-se do mundo. E assim faço das palavras meu abrigo, minha fortaleza de imagens literárias, onde sou aquilo que sinto e não o que sou na verdade. A realidade nos torna ridículos, as palavras nos faz cavaleiros, prefiro combater gigantes que me defrontar com moinhos de vento. Ter em sonho uma Dulcinéia que me inspire a esse vazio em meu coração. A literatura consiste num esforço de tornar o sonho real. E dar sentido a algo que escapa a todas as definições. Por isso escrevo.

Sei que excluo os outros de minha vida, erijo altos muros para que não me alcancem e permaneçam, para mim, outros, jamais alguém, o alguém a quem entreguei o que tinha de puro em mim, e desfalcou-me de algo que me era essencial. Escolher modos de não agir tornou-se o mais importante em minha vida. E a que dedico minha atenção e escrúpulos. Aprisiono-me numa esfera de vidro que me separa da vida, posso vê-la, mas não posso tocá-la. E sei ainda o que é o amor, mas somente sua definição, sentir não o sinto mais. Foi-se embora tudo que era amor em mim. Sei que sentir é essencial, muito mais que viver, vida efêmera que não me vale mais que um punhado de sonhos… Daria toda minha vida para ter de volta o amor que perdi. Não sou mais o que era, sou um ser incompleto que desaprendeu a amar. Agora faço o possível para afastar de mim quem quer que se aproxime. Quando criança ainda cria em meus sonhos. Eram tão reais que raras vezes não confundia a realidade com os sonhos. Agora me dizem pessimista, mal sabem que sou apenas triste. Triste e só. Por ter a certeza que fui tudo e que nada, nada mesmo, vale a pena. Nunca desembarquei do trem de minha vida, acontece que depois de mim ninguém jamais embarcou. Demoro-me nestas palavras, pois não sei mais o que devo escrever. Quero tornar clara a escuridão dentro de mim, e valho-me da luz da consciência que trouxe toda a dor em si, para descrever o que é indefinível. Minha tristeza é muda e meu amor era cego, minha dor é surda sou praticamente inacessível ao exterior. Somente o tato me resta, ocorre que me afasto do que é real e o contato físico não acontece nos sonhos. Não há sentido que me valha. Por isso minha vida não tem sentido algum. Nada possuo porque nem a mim mesmo possuo. Não sou nada, não tenho bens ou herdeiros, nada transmito que seja de algum valor, a não ser esses retalhos de palavras, que surgem de lugar algum e não tem aonde ir. Estão presas nesta página e somente quando lidas serão libertadas da prisão que as impus. Mas de minha prisão não há quem me liberte. Sou o mais desvalido dos homens, e minhas canções celebram o meu abandono. Meu trem descarrilou porque meu maquinista era míope, só via para dentro, somente o sonho via com o olhar. A realidade era que eu era o único passageiro de minha vida. E a canção de meu abandono não há quem escute, essa canção triste, minha única riqueza, pois minha alma é tudo que tenho, e esta riqueza na verdade sou eu. Eu sou tudo que tenho, e parte de mim já me foi saqueado, mas resta ainda muito a se admirar, mas não há quem se aventure a me desvendar. Minhas canções não tem ouvintes como meu trem não tem passageiros e meu pranto é um soluço seco, que engulo nesta noite fria em que me cubro de palavras para aquecer o vazio em meu peito onde só habita minha profunda melancolia. Viver não é preciso, já a canção é fundamental. Com meu violão encontro a chave de todos os mistérios. São muitas as canções de meu abandono. Uma última nota, um derradeiro acorde e o silêncio toma novamente conta de mim.

Ausências

 

Giordana Medeiros

 

Um dia repleto de ausências, uma vida de esperas, sem muitas revelações. Agora que não tenho mais a quem dedicar estes vazios, qual a razão de persistirem em mim? A procura eterna de uma figura, que jamais me fora acessível. Sei que tudo que procurava, não poderia achar. Não existe. Não existe nada ou ninguém. Somente estas palavras derramadas, que transbordam de mim. Na verdade nada digo. Pois nada há que se dizer. Vive-se. É tudo. Não há definições e nem se explica. É uma sentença. Só escrevo o que sinto, por que assim diminuo a febre de sentir. De resto com que posso contar comigo? Toda a vida é apenas um sonho, sempre foi, tenho de despertar para a realidade. O mundo desfaz-se como se fosse feito de cinzas, ou qualquer material leve e poroso. Levado pelo vento como a areia das dunas. Sinto saudades do tempo em que acreditava. Hoje sou um incrédulo que se perde em lamentações. Até mesmo as manhãs em que despertava com a aurora fazem-me falta. Uma canção, que me embalou nos meus longos caminhos, traz-me de volta a melancolia das ausências, da incompletude de meus primevos dias se estendendo por toda a minha existência. Onde achar o que me falta? O que deveria completar-me e que não compreendo? Não encontro. Mesmo só, vou por estas estradas, sem direção, ou destino. Apenas sigo temeroso de estar indo por errôneos caminhos. Como saber para onde ir? Se a vida nos apresenta uma gama imensa de possibilidades? E não tenho como saber. Vou. Tentando me guiar pela escuridão. E sei que será assim até o fim de meus dias.

Algumas palavras surgem como ecos de um passado distante. Lembranças que deveriam ser apagadas, mas que persistem maculando brancas memórias. A consciência é a sentinela de minhas ações. Tudo que fiz leva consigo um pedaço de minhas virtudes. Algumas vezes sei que agi de forma leviana. Comprometi-me além de minhas possibilidades. Mas mesmo minha faltas são carregadas de inocência. Sei que não passo de um amador. Durante todo este tempo pude descobrir que o segredo da felicidade é o correr dos anos e uma memória fraca. Mesmo assim não posso dizer-me feliz. Talvez porque tudo seja ainda muito recente. A dor para desfazer-se leva mais que uma simples década. Para no fim restar somente a saudade. Quero encontrar alguém que diga que rumo seguir depois de morto. Ainda haverá caminhos? E para onde seguem todas estas estradas? E sinto, com uma fome desesperada de sentimentos. Lanço-me nestes caminhos porque espero encontrar o sentido para tudo isto.  Para essa ausência gritando em mim. Ergo-me soberano de minha vida, mas não passo de um plebeu diante do destino. E não entendo a razão de meu abandono porque tudo que fiz durante todo o tempo foi seviciar-me para ser mais aprazível para os outros. Simplesmente não compreendo. “Não fui para lugares desertos, não me abstive do convívio humano, não guardei com usura minhas palavras, não fechei os caminhos do meu pensamento, não retive impulso nenhum do meu coração. Não sei, pois, como me tornei uma criatura sozinha.” Então, após tanto me sacrificar pelos outros, não me reserva nada o futuro? Onde estão as respostas para este enigma? Sei que coloco todas minhas estrelas no céu. Para enfeitar a noite que cai sobre mim.

Nuvens cobrem meu espírito como um manto de dor. Para onde me levam estas águas partidas? Não vejo cores neste mundo, nem formas ou momentos. Apenas ouço, ao longe, sonhos sussurrarem uma outra realidade, e escuto-os de olhos fechados como se uma vida inteira fosse freada bruscamente. Estou imóvel sob a noite. Como alguém desfalecido que acordou de repente, e, zonzo, tenta reconhecer o mundo a sua volta. Que canção vale a pena de tamanha dor? Que som pode ser tão essencial que me faça sofrer tamanhos percalços? Se seguir esta música, sei que me machucarei profundamente. Entretanto não há mais como voltar. Não se pode simplesmente abandonar a sinfonia no momento do solo dos violinos. E a música continua mesmo sem o maestro que dê a direção à orquestra. Mesmo assim sei que todos os instrumentos são importantes. Desde a percussão, até metais e cordas. E a música pode trazer pedaços para preencher estes vazios em minha vida. Sinto falta de algo que perdi e que me era essencial. Todavia sei que nada perdi, e que ainda assim me falta um pedaço. Uma peça de meu quebra-cabeça, sem a qual a imagem não se completa. Sempre desejei um jardim repleto de flores onde pudesse caminhar sobre a grama molhada, descalço, para exorcizar meus desenganos. E, quando morrer, espero ter minhas cinzas aspergidas num imenso jardim, para que possa penetrar na essência das flores. Debruço-me sobre o som do vento nos galhos das árvores. O silêncio nunca é total. A brisa refresca-me o corpo nesta tarde quente. E uma garoa fria vem suavizar o calor do verão. As ausências tornam-se mais suportáveis, mas, nem por isso, menos doloridas. Se pudesse estar frente o mar infinito, sentindo as ondas resvalarem, uma por uma, em minhas mãos… É a absolvição de minhas faltas. E nada preenche o vazio de uma voz emudecida. Quem poderá restituir-me a voz? Perdi a canção. Perdi o grito, e também os sussurros. Nada posso dizer, não posso mais emprestar minha voz para estes sentimentos encravados em mim. Apenas uma lágrima viaja sobre a tristeza do meu rosto. Para responder todas as perguntas que jamais foram feitas.

Sobre minha face transfigurada pela dor segue a melancolia a derramar-se sobre mim. Sou grande mesmo não sendo nada. Carrego comigo a majestade sombria de um esplendor desconhecido. Tenho uma inteligência aguda para compreender isto. E algumas coisas mais que não me ocorrem neste momento. E frente a esta máquina, onde transcrevo minha vida repleta de ausências, sou menos reles, não sou mais um empregado anônimo. Escrevo palavras como se fossem a salvação de minha alma. E sabendo disso encontro nestas a solução destes vazios. Escrever é dilacerante. Dói profundamente, e sentimos uma solidão enorme sozinhos com nossas letras. Palavras débeis que quando reunidas, têm uma força colossal, que nos atocaia, e desprevenidos somos tomados por sentimentos devastadores. Numa só sentença podemos exprimir tudo que nos atormenta. As palavras emprestam-me sua voz. Não estou mais amordaçado, posso gritar mesmo afônico. Com o que escrevo posso sentir e fazer sentir. Criar sentimentos em quem lê estes lamentos.  Sei agora por que canto, não por outro alguém senão por mim. Para que consiga expressar estas ausências, pois não há canção que valha aquela que eu não puder cantar. E eu posso. E eu canto. E eu sangro. Pois isso é tudo que me faz sentido. Não mais a dor das partidas sem adeus, nem das lembranças esquecidas. Mas o momento eternizado neste conto. Uma dor que será esquecida pela memória em duas décadas, mas que neste texto ficou gravada. Assombroso como consegui achar respostas para uma gama de perguntas às quais jamais me ocorreu encontrar soluções. E sei que aos poucos estas respostas vão preencher os vazios de minha existência. Estou sozinho, mas mesmo assim, sei que a solidão de meus dias guardam uma aura mágica de um profundo conhecimento de mim mesmo. Agora me reconheço. Sei o que sou. E que estas ausências que tanto me atormentam também fazem parte de mim. São, na verdade, tudo o que sou.

Uma noite de música ou uma história sobre borboletas

Giordana Medeiros

A noite se aproximava, lenta, suave… Como uma dama, desenrolava seu véu sobre o dia. A lua surgia plena e prateada no céu, derramando sua luz, que surgia não de si, mas do sol, que lhe emprestava a luminosidade de que resplandecia. Cachorros vira-latas uivavam, liberando seus instintos primitivos, talvez se sentissem mais que simples cachorros de rua, o uivo transformava-lhes em lobos. Mas não eram lobos, eram cães que lamberiam sua mão se lhes concedesse um minuto de afago. E uma leve brisa fazia as árvores dançarem como moçoilas faceiras que se entregam ao prazer da música, mas que música as árvores escutavam para dançarem, balançando-se verdes, liberando uma centena de folhas sobre as calçadas? O cheiro de relva fresca denunciava chuva recente e grilos compunham sua própria sinfonia, anunciando a chegada da noite. As luzes de sódio, alaranjadas, acendiam e iluminavam as ruas competindo com o luar daquele sábado. Um grupo de jovens, alegre, falava alto e ria muito, eles brincavam, empurravam-se e quebravam a melodia daquele entardecer… Há canções a que devemos dedicar o silêncio, pois só em silêncio podemos ouvir-las… E em cada canto ouvia-se um som, um ritmo… E as ruas são cheias de pequenas poesias, como aquela goteira a pingar compassadamente sobre a lata vazia no chão… É como um piano triste e solitário. E violinos são o cantar dos grilos… E mesmo aquela sirene estridente, ajuda a compor a sinfonia citadina. Há ainda as preces do mendigo, reclamando a esmola que a vida não lhe concedia… E as pessoas apressadas pelas ruas, com passos rápidos, driblando poças de lama, falando ao celular, deixando o ambiente mais vivo. Mesmo esses sons tão comuns podem ser belos… E em silêncio vejo estas ruas sem esquinas, entregarem-se a sua canção diária. Um jornal velho é levado pelo vento e sai voando com suas asas de papel a planar sobre o chão, mas acaba por ter seu voo interrompido por um casal que passava, em cujas pernas se enrolou… Se não ficar em silêncio, pode perder estas pequenas coisas, e são tão pequenas que ninguém percebe… Ninguém mesmo. Ninguém percebia as lágrimas da moça sentada no banco da praça que tentava conter o choro, enxugando os olhos com as costas da mão. Será que se emocionava com a sinfonia citadina? Ou seu mal era um coração partido? De desilusões amorosas costumam surgir as mais belas canções, eu compunha também sua canção, desconhecida, sua solidão é-me companheira… É tudo música. E a verdadeira música está em nós. Pode ouvir? Seu coração é a percussão de meus ensaios. As estrelas são nossa platéia… Que se ilumina mais que os músicos, e onde estão nossos instrumentos?

Uma mulher aparentemente embriagada derruba um molho de chaves no chão, uma porta range ao ser aberta, os carros passam esguichando água das poças de lama nos pedestres. Um cego aproxima-se com sua bengala a bater na calçada, e o som se propaga até meus ouvidos. Os cegos ouvem melhor do que os que veem, fecho meus olhos para sentir o mundo… E o som do teclado do computador é minha contribuição para esta melodia. Let me feel the song… Um homem se entrega a corrida noturna, e escuto suas passadas longas, ele não me sente, nem toma conhecimento de mim, que observo a música desta noite. E todas as noites as canções se modificam, não há músicas iguais, cada um compõe um pedaço desta sinfonia, até mesmo o relógio e seu tique-taque infinito… O infinito é a sentença de seus dias, mas a minha sentença é a solidão. O rio da melancolia me leva nesta noite cheia de pequenos sons, um homem tropeça numa lata de lixo, pragueja e continua seu caminho, a lata ainda rola por algum tempo, depois para no meio da rua… E há tantas pessoas com quem se conectar, mas minha única conexão é com os sons que escuto, denunciando meu abandono. E sinto falta do som que me impedia de escutar todos os outros. O som de sua respiração suave que me impossibilitava de dormir para que pudesse velar seu sono… Onde está minha felicidade, que se apagou, quando não estava mais aqui para ouvir-lhe? Uma buzina apita distante, cães ladram ferozes, gatos miam assustados… É tudo música. Um homem passa com um radinho de pilha chiando o jogo de futebol, aos poucos as ruas adormecem, e tudo que fica é o silêncio… A solidão também, mas esta já me é comum. Se adormecesse poderia sonhar com um passado que me dói profundamente, pois o perdi para sempre. O futuro não retrocede e o que resta são as lembranças de felicidades perdidas… Oportunidades que não surgem mais, somente esta sensação, um pedaço que me falta, que me era essencial… Ce pays est vraiment un des coins du monde où le rire de filles éclate le mieux... Releio a frase, poderia transportá-la para esse conto, mas a noite se propaga em mim. E meus lábios se movem devagar para sentir sua musicalidade, ce pays, este país, nestas ruas, nestes lugares lúgubres… Nestas noites insanas de amor e música, a sinfonia se estende sobre todos, e o silêncio se faz mais alto que o som. Porque o silêncio fere e a música anestesia. A dor da solidão é-me mais presente que a mágoa do abandono. Quero ouvir de novo a canção que me foi tirada. Roubaram-me o som de seu sorriso, o som de seu choro, o som… Aqueles sons que não me cansava de ouvir, quando você murmurava aquela canção: “ne me quite pas…” Não me deixem lembranças, pois são tudo que possuo… E tudo isto é ainda muito pouco.

Onde estão os dias que perdi, o tempo que se passou? Sem que percebesse caminhava para um beco sem saída… Que caminho seguir? Aquele que me leve para seu lado era o que escolheria, nesta noite clara como o dia, a lua deixa tudo visível, a moça que chorava, agora se levanta e tenta se recompor. Por que chorava, nunca saberei, mas suas lágrimas eram também um tanto minhas, o problema é que não tenho mais lágrimas. Nem mesmo o som, só esta música citadina de que me aposso, pois transformo o silêncio em música para não me doer tanto esta saudade… E muitos dias já se passaram, a estrada é demasiado longa, pode segurar-me a mão enquanto atravesso esses vales? O espelho denuncia-me, não se deveriam deixar espelhos pendurados em casa, eles nos obrigam a confessar nossas vidas, que os anos passaram e que somos tão velhos quanto não queremos admitir. Um grito na noite me desperta do transe que me causou a minha imagem refletida no espelho. Que desespero! Onde deixei minha antiga face, pois esta que vejo eu desconheço. Tudo é divisão. Esquisofrenia. Drama. (Citando Luis Carlos Maciel.) E minha loucura finge que isso tudo é normal. Eu sou um ser esquisito, uma versão piorada de Gandhi e uma melhorada de Hitler. Sou aquela que escuta todos os sons da noite, pois a passa acordada para sentir a vida. Viver na verdade é sofrer da vida. Mas dessa dor profunda buscar a grandeza de existir encravada na rocha. Deve-se cavar fundo. Pois é das entranhas que a retiramos. Seu silêncio me atacava, hoje sinto falta até de sua mágoa. Onde anda neste mundo estranho e tão profundamente hostil? Nele tudo é proibido, de modo que falamos, pois falar é uma forma de protesto. E protestávamos, contra tudo e todos… Onde estão nossos gritos? De repente ficamos mudos… Sinta a canção que fiz para você. É sobre você, tudo sobre você, não vê? Posso escrever estas derradeiras frases com o sangue de meus pulsos? Na verdade esta é uma história sobre borboletas. Não fazem nenhum som, e, não sei porquê, me lembram você. Mas você tinha sons tão próprios, que seu silêncio era compensado com seu sorriso. Anaïs Nin citou, uma vez, Antonin Artaud, copio a frase agora: “je suis le plus malade des surrealistes”. E completo: vraiment, je suis le plus bizarre des écrivainesEstou assim desde que borboletas começaram a nascer entre meus cabelos… Borboletas coloridas, frágeis e esvoaçantes, silenciosas, mas fatais, pois elas se multiplicam velozes, e de repente você está a ouvir a canção da noite de sábado. Tão in-lúcido, translúcido, trans-in-lúcido. Se recomeçasse a chover, o som da chuva batendo nas telhas seria outra sinfonia, as bolhas nas poças de lama, tudo isto me sensibilizaria… Amanhã novas borboletas deixarão seu casulo, começo a ver nas pessoas o que elas não sabem sobre si mesmas. Eu sei tudo desta canção, e posso repetir-la infinitamente, é minha pequena maldição. Isso é terrível. É uma viagem sem volta. No meio podemos escutar a música que surge no silêncio da madrugada. Mas este conto é somente uma história sobre borboletas, com um pouco de música no caminho…

Não me deixe ir…

Giordana Medeiros

Não me deixe ir, pois tenho medo da noite que se abaterá em minha vida… Não me deixe ir, pois temo os efeitos da solidão e da saudade, e sei que, caso fosse, não voltaria jamais. Sua indiferença dói como uma lança que transpassa meu corpo, mas sei que apenas meu coração está ferido, na verdade meu espírito, aguardei toda uma vida… E o que me resta senão desilusões? Estou cheio e cansado de procuras… Não me venha com este embuste, pretende enganar-me com falsas promessas? Estou desestruturado, não me encontro mais, antes sabia o que era. Eu era. Não sou mais. Estou. Um estado passageiro que tende para o corriqueiro, talvez…. Não me deixe ir eu lhe imploro. Se for, tudo não passará de um singelo sonho. É tudo um sonho, e a realidade oprime, suprime, submete. Forço-me a aceitar este mundo tão hostil, esta vida, minha via crucis… E quero voar, voar alto como Ícaro, tocar a carruagem de Apolo e cair. É doce cair, abro os braços para abraçar o mundo… Uma infinidade de desculpas. Onde esteve por todos estes anos? Onde eu estive? Deixe-me chorar estes anos de espera, sentir a profundidade de toda minha mágoa. Mas não choro, não mais. É doloroso sofrer sem lágrimas, a dor se intensifica e não explode. Fica gravada eternamente. E sei que tenho de ir, pois só assim poderei recomeçar, de algum ponto… Talvez de onde eu parei, do lugar em que lhe esperei todos estes anos. Uma década de expectativas, desejos, em que menti, menti a mim mesmo que seguiria. E com você meu mundo ficou estático, andava em círculos, pois esperava em vão, uma palavra… Qualquer palavra. Não precisava ser amor, não há necessidade, pois esta palavra já conheço intimamente. Ainda chove. Todos estes anos em que estive aqui aprendi a compreender os dias cinzas de chuva. Fiquei só. Numa destas ruas sem esquinas, entre as quadras numeradas e as largas avenidas.

As noites estão mornas no verão. Abro livros ao acaso, há ainda tantos para ler. Se partir, deixarei histórias pela metade. Minha própria história. Há acordes no piano que me fazem recordar, e tento esquecer aquele turbilhão de emoções que, no fim, se tornaram tão triviais… Eu era complicado, você disse, mas agora vejo tudo perfeitamente e entendo toda a trama desta peça. Ao contrário dos demais atores, não uso máscaras. Quero encontrar uma palavra, um verso qualquer que lhe faça olhar para mim. Não há palavras. Estão todas gastas, com frases desnecessárias, ditas a esmo. Escritas impulsivamente. Não há paixão, talvez somente dor. Ou quase isso. Ou quase nada. Mas o que é você senão uma ilusão? Veio de minha visão, de meu desatino. E entrou de surdina em meu peito. Mas agora que tenho de ir, sei que me abandonou por completo. Não há mais lágrimas, percebe? Tenho mesmo de ir. Você deixar-me-á partir? Tenho de preparar minha defesa. A razão de ter me fechado ao exterior. Ao humano. Mesmo que resista a este, sei que palpita dentro de mim, este humano latejante, que me impulsiona a escrever histórias, desejos, sonhos, desilusões… Amo de forma drástica. E padeço inutilmente. Sou um sonhador… Não há mais emoção nenhuma. Só lembranças de partidas e separações. Estou tão vazio… Não sou mais alvo da curiosidade de ninguém. Morri um pouco estes anos. E não sei como ressuscitar o meu lado mais belo. Minha veia mais otimista. Quero o afago de um abraço. Não posso navegar nestes mares tortuosos. Vou virar o disco que esta música está me cansando. Não quero mais insistir nesta melancolia. Se há ainda dor, que escoe pelo bueiro, com toda esta baboseira romântica. Acendo um cigarro, vou para a janela. E o som do piano toca-me como uma brisa. Se aquele carro virar a esquerda, eu telefono. Direita. Uma segunda tentativa. Se aquele homem seguir em frente, eu permaneço. Você tinha de virar, desconhecido que decidiu meu destino? Só você carregará a culpa de minha covardia.

Incrível. Tudo conspira contra mim. Onde se encontram as respostas para os mais difíceis dilemas? Podemos nos imiscuir de nossas culpas atribuindo-as a outras pessoas. Desconhecem a razão de suas faltas, mas já as processei à revelia. É madrugada de um sábado qualquer, não sei que dia é hoje. Acho que é dia primeiro de fevereiro. Quero que o dia amanheça logo e traga-me uma falsa sensação de segurança… Escovarei os dentes, pentearei meus cabelos mesmo que não os tenha bagunçado, pois passei a noite inteira numa vigília sem razão. Tentando convencer-me a partir, abandonar por completo este sonho. Recomeçar. Reinventar-me. Escrever uma nova história, mais feliz, mais real. Uma vida verdadeira, não esse emaranhado de mentiras que venho me impondo, estas vãs justificativas… Se amanhecesse teria a luz cinza claro do dia a iluminar o quarto em penumbra. Não esta luz artificial do computador lembrando-me que tenho de terminar de vez com este conto. Se der um ponto final é que me cansei de escrever e reclamar de meu abandono… Está decidido, vou-me embora para Pasárgada. Ou para onde possa ser mais feliz. Cidade imaginária. Vou inventar uma também, uma cidade em que possa levar meus amigos e onde possa ser amigo do rei. E quero somente o ar puro do campo, mas também desejo o cheiro do mar. E se nada existisse? E se tudo fosse, de qualquer modo, coisa nenhuma? E se essa coisa nenhuma que me angustia estiver me sufocando? Preciso respirar. Na janela os pingos de chuva trazem recordações indesejáveis. Recuso-me a lembrar. Não vêem que me cansei desta maldita história sem fim? Resolvi terminar este ato. Pois esta peça se prolonga eternamente. Vou reparar somente no dia real. Ali fora, ali fora o amanhecer me consola, esse amanhecer triste de dia chuvoso. No inverno ele se enche de cores, mas no verão de Brasília o cinza predomina. E só ouço o piano lamentar minha partida. Você mantém-se indiferente e não escuta meus apelos. Eu irei definitivamente. E farei o impossível para esquecê-la.

E deixo-me levar pela nostalgia, pelas recordações que chegam como ecos, de uma história que nunca começou realmente, apenas ficou na expectativa, numa interminável espera… Convertendo-se aos poucos em tristeza e decepção. Remendo as palavras com imagens, fotografias de uma época que está guardada, arquivada na memória… Às vezes sinto falta de coisas simples, como de um caminho por onde segui, da sombra de uma árvore onde deitei, ou de uma música que escutei num determinado momento. Não adianta tentar reproduzir novamente estes fatos. Tudo depende da circunstância… Eu gostaria de ficar sempre aqui, neste quarto escuro, escutando ao longe um piano tocando a Sonata ao Luar de Beethoven. Com uma taça de vinho na mão, e meu coração aos pedaços… Sinto as sombras se esvaírem e a luz tênue do sol chegar transformando a noite em dia. E sorrio, um sorriso triste, como aquele que surge quando esquecem de telefonar em seu aniversário e dias depois tentam saudá-lo quando não faz mais sentido felicitá-lo… Eu quero mesmo um punhado de estrelas maduras e doces como a vida. Estrelas que se possa colocar na boca como drops de hortelã… Você chamaria isto de paz. Eu não consigo ver isto como paz, pois escorre de mim uma coisa escura, e paz não é algo escuro, mas tento não fazer perguntas… E minhas trevas se estendem infinitamente, pela luminosidade do dia que apenas começa. Você tem mania de definir as coisas, até as coisas indefiníveis… Você definia-me, mas nunca lhe defini, pois não queria colocar limites no que você é. E você limitava-me, cercava-me com sua indecisão, com sua indiferença… Não lhe compreendo, jamais lhe compreendi. Apenas sei que chegou e sua chegada modificou em mim todas as coisas que eram suaves, toda cordialidade ou amenidade que construí… Eu erigi muros para proteger-me do mundo e você demoliu minhas defesas, fincou sua bandeira em minha alma e apossou-se de mim. E agora o que sou? Sou o oposto do que fui. E pretendo voltar a ser o que era, só que para isso tenho de ir. Agora compreende a razão desta pungente despedida? Eu ansiava por você como quem anseia pela salvação, porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devastava por dentro. Agora que chegou, posso ver-me mais claramente, e a luz, que você trouxe um dia, apagou. E entendo agora que tenho de ir para alcançar as estrelas. Estrelas açucaradas, que iluminam o céu da boca… Por favor, tenho medo deste horizonte que se abre, não, não me deixe ir…

Crítica do show da Alanis

Giordana Medeiros

O show, para mim, começou bem antes da Alanis chegar ao palco. Cheguei as 13:30 da tarde no Ginásio Nilson Nelson onde outros fãs, desde meio dia, já se encontravam na fila da área vip. Fiz novas amizades, conheci pessoas especiais como a Marcela(esta desde o aeroporto JK em que esperávamos a Alanis), o Félix e sua tattoo da Dona Nadine, revi velhos amigos como a Karen, o Jairo, o Paulo, a Luciana, o Júlio, o Gui e outros com quem dividi minhas expectativas, esperanças e ansiedade pela apresentação. Ficamos horas na fila, que passaram, confesso, sem nem ao menos sentirmos, tendo em vista que estávamos tão felizes que as horas voaram rapidamente, nem mesmo a chuva incessante na capital do país, feriu nosso ânimo. E chegavam notícias todo o tempo sobre a rotina de nossa cantora preferida. Muitos amigos foram premiados, como a Kathy e o Rapha que puderam ver a Alanis no camarim, e ficamos felizes por eles, por terem conseguido o que todos ansiavam e sonhavam. À nós, ficou reservado o prazer de assistir um show vibrante do início ao fim.

Alanis entrou ao som de The couch, que foi dividido em três partes. Escutamos ao longe o som do voz da Alanis que entrou aclamada no palco. Foi uma euforia total. A platéia começou a gritar muito antes, quando viu a rockeira chegar com seus cachorros no Ginásio. E o show não foi em nenhum momento parado como distorce a mídia com suas críticas ferinas. A platéia gritou, pulou, dançou e entrou verdadeiramente em transe com as canções. Alanis estava muito feliz no palco e demonstrava isso com muitos obrigados, thank yous, e inclusive respondeu a empolgação do público, dizendo “You are so sweet”. Foi mágico, estupendo, não há palavras para descrever o show. Apesar de não ter lotado o Ginásio, a platéia de seis mil pessoas não deixou por menos e cantou todas as músicas, felizes, empurraram uma atuação magistral da artista.

Depois seguiu-se Uninvited, cantado em uníssono pelo público, até as músicas novas como Versions of Violence, Moratorium, Tapes e Not as we foram acompanhadas por um coro afinado. Essa última com vozes gritando: “fock you Ryan” em referência ao ex-noivo da Alanis. You Oughta Know foi a música mais prestigiada pelo público, Ironic foi cantada quase que inteiramente pela platéia e Everithing foi dedicada pela Alanis para os presentes: “todas as pessoas complicadas”… So Unsexy foi minha preferida da noite mas toda a parte acústica com Hand In My Pocket e Everything foi radiante. Flinch, que nunca me agradou muito, ficou tão bela que mudei meus conceitos quanto a esta canção. As músicas do Jagged Little Pill foram as mais aclamadas e trouxeram um sabor de nostalgia dos anos noventa. Foram executadas You Learn, All I Really Want e Not The Doctor, além das já mencionadas You Oughta Know, Ironic e Hand in My Pocket. O público, entusiasmado, não ficou apático em momento algum, respondendo com gritos e aplausos a cada canção executada. E sentia-se o prazer de Alanis em estar fazendo o show, não parou um único segundo, frenética, ocupava o palco inteiro, com piruetas, interpretava cada sensação que aflorava em sua música. A platéia foi ao delírio. Foi uma apresentação fantástica, fiquei triste quando chegou a vez de Thank You, a última canção da noite. Após a despedida da artista muitos esperaram para pegar palhetas e outras lembranças do show. Mas a melhor lembrança é aquela que ficará guardada na memória de cada um dos presentes.

No outro dia, um grupo de fãs, onde estou incluída, ainda tentou despedir-se da Alanis no aeroporto, infelizmente não a vimos, mas Mariana e Rodrigo pegaram o mesmo vôo que ela e conseguiram tirar fotos com a cantora. Mesmo não tendo o prazer de ter conseguido conversar nem, ao menos, tirar uma foto com a Alanis, estou feliz pela apresentação, que me deixou quase afônica, pois cantei todo momento com a Alanis. Foi muito divertido, muitíssimo prazeroso e espero que o show de Porto Alegre, para o qual também tenho ingressos, seja tão bom quanto o de Brasília. Um concerto fenomenal. Esta foi a sensação impressa em todo o público. Satisfeitos, felizes e aguardando por mais um regresso de Alanis à Brasília o público deixou o Ginásio extasiado com o show.

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