
Insônia
Giordana Medeiros
Caminhava absorto em seus pensamentos, sob a chuva torrencial que lhe encharcava as roupas. Via as pessoas correndo tentando proteger-se inutilmente sob as marquises, e ele fazia questão de caminhar no sentido inverso. Não como uma forma de afronta, apesar do mundo jamais lhe ter acolhido, ele não lhe guardava ressentimentos. Pensava que assim conseguiria manter-se sem mácula. Ter sua própria ideologia, longe da influência dos demais que sempre desvirtuaram seus caminhos. Se a chuva era fria e seu corpo quente, e se a roupa grudava-lhe no corpo, isso não era o bastante para forçá-lo a seguir na direção em que determinava a corrente. Seus lábios tremiam, o calor de seu corpo esvaia-se. Então, resolveu esquentar-se com um conhaque. Se entrasse em qualquer espelunca que visse, não estaria se submetendo a força cogente da maioria, afinal era terça-feira. Somente sentaria, degustaria sua bebida, sem guardar nomes, nem mesmo as feições das pessoas com quem porventura cruzasse. Na noite escura, a chuva cantava, e os raios iluminavam. Mas não se ouvia som algum e nada se via. Entrou num bar cujo neon piscava vermelho: entre. E as portas que não nos convidam? Devemos transpor-las? Sentiu olhos inquisidores sobre si. Olhos que sugestionavam, olhos jocosos, olhos de desdém, olhos que olhavam somente. E ele não queria ver ninguém. Sentou-se no balcão, pediu o conhaque. Quando lhe foi servida a bebida, instintivamente buscou os olhos do garçom. Verdes. Por que tinham de ser verdes? Se fossem castanhos ou negros facilmente seriam esquecidos. Agora aquele verde se fixaria em sua memória, e toda vez que pensasse verde, viria a imagem do bar, do garçom, dos olhos. Era necessário pensar azul. Para que não fosse vítima desse verde incômodo. E azul, era o mar, a terra também como provara Yuri Gagarin . E se ficasse com o azul que se impunha, poderia esquecer o verde, olhos verdes. E o calor da bebida, queimando a garganta. Havia uma canção que se entoava rouca no ar provinda de uma velha jukebox. Se colocasse uma moeda poderia ouvir o que quisesse. Talvez não houvesse Debussy, no acervo da máquina. Mas poderia haver algo mais agradável que a rouquidão daquela voz rasgando-lhe os ouvidos.
Foi até a máquina e depositou alguns centavos que trazia no bolso. Não é que encontrou uma canção que há tempos não ouvia? E ficou perto da máquina, pois temia os homens. Poderia se proteger sob o som que a jukebox transbordava. Alguns casais foram ao centro do bar e começaram a dançar. Ele não quis observar. E voltou-se para dentro de si. A música toca seu coração. E ele toca a música que ninguém pode ouvir. Ou não quer ouvir. A roupa secava no corpo. Já estava começando a cansar-se de estar ali. Até que uma mulher ofereceu-lhe um cigarro. Foi como se tivesse sido açoitado. Como percebera que ele estava ali? Recusou os cigarros de cabeça baixa, para não cruzar seus olhos com os da mulher. Ela insistiu, ele desesperadamente tentou desvencilhar-se da incômoda intromissão. O que queria de si? Que se mostrasse interessado? Não era mais afeito a desventuras amorosas… Agora só a solidão lhe era importante. Porque somente possuía habilidade de tratar consigo mesmo. Os outros lhe eram um tremendo mistério, que ele se recusava a desvendar. Deixe permanecer a incógnita. A pergunta sem resposta que soa como um toque agudo no piano. Ele saiu protegendo o rosto com as mãos para não ter de ver as feições ousadas da mulher. Ela respondeu, praguejando: “Bixa!” Sentiu novamente os olhos sobre si. Olhos de reprovação, olhos que não olhavam somente, julgavam. Saiu do bar humilhado. Por que não compreendiam que ele não queria ver ninguém? Ele não queria mais sentir. Por que os sentimentos só lhe trouxeram sofrimento. A humanidade que sapateia indecorosa sobre sua dor. A chuva não parara, mas a bebida lhe esquentara o suficiente para que seus lábios não mais tremessem. Os raios iluminavam as ruas escuras, onde o perigo se encontrava em cada viela, prostitutas fumando com lábios vermelhos e roupas exíguas, crianças cheirando cola, outras fumando crack. Num mundo cheio de maledicências e vícios, porque não poderiam simplesmente esquecê-lo? O raio que rasga a escuridão… As mãos nos bolsos ensopados, não para esquentá-las, mas como se assim pudesse guardar a si mesmo no bolso. Como faz uma criança ao achar uma bola de gude e abismada por sua beleza vítrea, quer protegê-la.
Ele sentiu a face rubra. O rosto formigava, seus ouvidos zuniam. Tinha de encontrar abrigo. Não para o corpo que nada lhe valia, mas para o espírito, que estava sempre tão aflito. As coisas estavam tão diferentes. Não foram sempre assim, mas com o tempo, suas relações pessoais desmoronaram como um prédio que perde seus alicerces. Ele não mais conhecia o que era estar com outros homens. E tinha medo de estar com estes. A sociedade lhe oprimia de forma que não mais procurava estar com ela. E nessa noite escura com o vento, as árvores sacudidas, e a chuva incessante, sentia-se mais protegido que se estivesse com outro alguém. Encontrar-se-ia nessa noite com o que tinha de mais sincero e puro. Nem que fossem suas lágrimas salgadas e quentes que se misturavam às gotas de chuva. Lágrimas que se escondem como ele. E se esconder foi seu abrigo. Somente virando as costas para o mundo, pode se proteger da indiferença deste. Procurava desafiar a vastidão inútil do mundo, com sua insignificância também de minúsculo valor. Braços abertos para sentir as gotas caírem em suas mãos. Água límpida que lhe batizava. Num momento sentiu-se como um garoto fresco e limpo que vai de manhã para a escola. O destino é algo muito curioso. Nunca se sabe por que caminhos ele vai te levar. Você apenas segue. Sem saber o que lhe espera além do horizonte. Água abençoada que lhe expurgava as faltas, cumpra a sua sina. Desvende seus mistérios. Ele era indecifrável ao olhar leigo, necessitava de alguém que desvendasse os mais difíceis hieróglifos. Em casa, depois de abençoado pela pura água da chuva, procurou a cama como se dormir fosse um bote salva-vidas num mar tempestuoso. Ele tinha medo. Tanto, que às vezes queria levar para o sono algo consigo, algo do dia, como se fosse uma garantia que no outro dia ele acordaria. E o mundo estaria igual. Mas sempre que acordava estava tudo diferente…
Deitou-se na cama, e tentou dormir, mas a noite é perversa, impede-o de sonhar. Na verdade ele foi expulso do sonho. E não tem mais abrigo algum. Onde pode se esconder dos olhos, que reprovam, julgam, submetem e humilham? Onde? Escutava a música da chuva, trovões graves, ventania aguda. Árvores balançando-se. São bailarinas neste espetáculo. “Porque está tudo tão frio dentro de mim?” Ele se questionava, mesmo sabendo, que para tal pergunta não havia respostas. Sabia apenas que sua chama interior havia se extinguido. Seu corpo, não mais se inflamava. Aceitava submisso. A insônia que lhe prolongava o dia. A dor que lhe aumentava o sofrimento. A solidão que lhe sustentava nos seus tristes momentos. “Estou tentando reconstruir minha vida”. Pensou e riu. À contra gosto, mais por fingimento. Como uma defesa dolorosa, um ato masoquista, ou para mostrar que ele era um mártir que fingia não estar sofrendo, quando na verdade estava dilacerado. Esperando que alguém conseguisse ver o arrependimento e a piedade que ele sentia, e que só por heroísmo sorria. “Porque lençóis tão limpos para este corpo moribundo? Deixe-me pagar minha penitência. E atravessar minha via crucis, se quiserem, coroem-me com uma coroa de espinhos…” E falou com um ar de desafio para o quarto em penumbra. Ninguém lhe respondeu. Também não aguardava respostas. Ele apenas dizia como alguém que leva uma bofetada e diz que não está doendo quando na verdade está doendo. E se santifica em sua dor. A realidade menos lisonjeira é que ele lera muitos livros, mas neles nada encontrara que desmistificasse essa existência abjeta que vivia. Se esperasse mais algum tempo talvez a chuva parasse ou o dia nascesse e o sol iluminasse o quarto, pois ele precisava de algo luminoso para a escuridão de sua vida. Ele se via tão desamparado, mas era obrigado a contar consigo mesmo, pelo menos hoje em dia é assim. As pessoas só têm um recurso: elas próprias. E por isso estava rindo, não para ofender alguém, pois ninguém lhe via agora, mas por saber de sua posição ridícula. E da situação que era um pouco cômica em si. Adormeceu sorrindo, quando o dia já amanhecia. As gotas de chuva escorriam pela janela como lágrimas. Como se a vida chorasse a morte de uma de suas vítimas.







