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		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 15:31:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
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Music Playlist at MixPod.com
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		<pubDate>Sun, 08 Nov 2009 16:59:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[
Sob os Muros
Giordana Medeiros
Jogou a água no cimento que havia comprado, não tão caro como se poderia imaginar, para os propósitos que nunca teria deduzido, mas eram tão óbvios, que se admira que neles já não houvesse pensado. Era necessário misturar bem, pois seria ele que solidificaria seu exílio. Faria as pilastras de sua morada interior. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moncoeursauvage.wordpress.com&blog=1763479&post=389&subd=moncoeursauvage&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#ff6600;"><img class="aligncenter size-full wp-image-390" title="muro" src="http://moncoeursauvage.files.wordpress.com/2009/11/muro.jpg?w=289&#038;h=200" alt="muro" width="289" height="200" /></span></strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#ff6600;">Sob os Muros</span></strong></p>
<p style="text-align:right;"><span style="color:#0000ff;">Giordana Medeiros</span></p>
<p style="text-align:justify;">Jogou a água no cimento que havia comprado, não tão caro como se poderia imaginar, para os propósitos que nunca teria deduzido, mas eram tão óbvios, que se admira que neles já não houvesse pensado. Era necessário misturar bem, pois seria ele que solidificaria seu exílio. Faria as pilastras de sua morada interior. Alicerces sólidos, que não seriam facilmente derrubados, não que houvesse alguém com este propósito, nunca há, mas era o único meio. Este que lhe ocorrera num dia cinza, onde não era possível iluminar as idéias. Pensava que talvez assim pudesse chegar a algum lugar. Só que, para chegar, é necessário mover-se e não criar raízes. O alicerce que finca no solo, é na verdade a mentira de um abrigo que não existe. Não há soluções simples. Somente dúvidas irresolúveis. Não há como se esconder. De alguma forma a vida lhe encontra. E sozinho a vida é muito mais penosa. Acredite, eu sei. Se você continuar nessa loucura pode ser pior, como se um dia cinza pudesse trazer as soluções de toda uma vida. Mesmo que esta também seja dolorosa como um adágio fúnebre. O violino geme, como se sofresse profundamente, o cello lamenta e o piano chora, com lágrimas musicais, cada mágoa que alimenta sua dor. É assim que as músicas lhe parecem, o sofrimento de quem as compôs transcrito em notas. Não deve ser assim? Como então? Não é assim que ele toma o primeiro tijolo que dará início a sua obra? As canções dizem mais do que parecem dizer. A vida não diz nada do que esperamos ouvir. E há o silêncio que inunda o recinto, que lhe absorve, sugando-lhe o espírito na sua ausência de som. O vácuo suga, a ausência absorve, o nada converte em nada o que está próximo e era alguma coisa. Não é nada então que lhe alimenta erigindo estes muros, colocando o cimento entre os tijolos de sua aflição? Quantos muros serão necessários erguer para cumprir seu objetivo? É isto que lhe guia? E se não for esta resposta por qual ansiava? Ficará preso no seu abrigo. Não haverá mais como sair dessa prisão que ergue dentro de si. Cada tijolo foi feito com sua dor, sofrimento que lhe concede agora uma saída. Mas a saída é não permitir mais saídas. É a cadeia de seus sentimentos que ergue, cada mágoa que lhe invadiu. Não foi sua culpa, mas se penaliza. Pois não há maneiras de se proteger que não seja se escondendo dentro de si. Aumenta estes muros, pois se vier mais uma vaga como impedirá que ela lhe leve? E as ondas que colidem contra os muros, tornam-se mais vorazes com o passar dos anos, por isso é necessário se defender com estas paredes de dor que lhe isolam do que é exterior.</p>
<p style="text-align:justify;">Quem poderá demolir suas defesas? Estas paredes em torno do que é seu. Do que você é, e, na realidade, nunca foi. Pois você não é na verdade o que aparenta ser, mas ninguém se dá conta que você é outro.  E este outro é que está debaixo destes muros. E ninguém o vê. Sozinho neste recinto mórbido. O promontório de sua alma. Quem poderá enxergar o que você é, se você o escondeu em si? Esse seu esconderijo que não pode ser transposto porque você tem tanto, mas tanto medo, que se paralisa, e não deixa transparecer o que é mais verdadeiro em si. Ergue estes muros então. Altos para que ninguém lhe possa ver. Não é seu desejo? Não é isto que procura? Se não lhe vêem não há como lhe ferirem. Sua alma está demais flagelada, feridas profundas que não se curam, que lhe infligem a dor da sobrevivência. O mais fácil é morrer, mas morrer também é difícil. Pode acreditar, nada é tão fácil quanto parece. Há sempre algo que lhe impede, e os dias passam velozes convertendo-se em anos que não deveriam existir. Três décadas que a covardia lhe prende, estático diante do medo. E sua vida escorre entre seus dedos, não há como conter a existência. Existir é a dúvida do ser. E ser, não é nada mais que sofrer eternamente. Portanto, para que sua busca frenética por algo que lhe realize? Só deve saber como passar os dias, nessa corrida de um tempo que não é real e não pode ser contado em segundos, minutos, dias ou anos.  No seu esconderijo não há como observar a vida fora de si. Não fizeste janelas para ver o que ocorre lá fora. Então, não se dá conta que a vida que lhe é exterior continua sem você. E não sentem falta do que você queria ser. Nem do que você era e nunca foi. Ignoram sua ausência, pois não era importante, não sabem nem mesmo o que você foi. E nunca será o que deveria ter sido. Mas não há quem se preocupe agora com isso. Nesse seu exílio não quer que ninguém lhe veja. Este sempre foi seu intento, engole em seco o choro, por que lágrimas se a dor agora lhe é exterior? Compreende? Agora sabe que a dor na verdade sempre esteve dentro de si. Não há como extrair-la porque ela lhe é essencial agora. Nesta prisão, o que faria sem esta companheira de sua solidão? Dor que lhe esposou prematuramente, impedindo que, de outro modo, tivesse a vida por esposa. Agora lhe deve fidelidade e dela não pode fugir. Sabe que não há como lhe ser infiel, porque estão ligados, como gêmeos siameses, dividindo o mesmo corpo. Corações que batem coadunados, no mesmo ritmo, com o mesmo compasso, criam uma só sinfonia. E no compasso desta música vão-se os anos, embalados pela sonoridade de um silêncio que não deixa de ser música também. Mais alto, erija estes muros, espessos para que nem o som possa transpor-los. Assim tudo lhe será indiferente, pois em nada lhe afetará. É assim que deve ser? Cai a noite dentro de você, e nessa escuridão não há como distinguir o que sente. Mas penso que não deve se preocupar com isto, não há problema agora. Está sozinho, se quiser chorar, chore. Ninguém lhe verá. Soluce esta dor que tanto lhe aflige, esse sofrimento que lhe invade. Sei por que sofre.  E me compadeço de sua dor. Queria poder confortá-lo como espera, abraçar-lhe e dizer que há esperança. Mas não há. Não há.</p>
<p style="text-align:justify;">Nada ocorre como esperamos, a esperança é uma fantasia que tentam nos fazer acreditar quando somos pequenos. E não há como se livrar dessas crenças, dessas histórias, dessas ilusões impostas aos homens para lhes fazer fáceis de manipular.  E você, com estes muros em volta, para impedir que outros se aproximem, para parar as vagas que invadem o que lhe é exterior. É assim que se protege de  vir a ser manipulado? Será que estes muros são sólidos? Ou são frágeis como castelos de areia que as ondas destroem no fim do dia ao sabor das marés? Todo tempo esteve compenetrado em seu intento, e nem se deu conta que pode estar a erigir castelos de areia. Como uma criança que pranteia a destruição de seu brinquedo, verá a água demolir estes muros que outrora lhe serviam como cela. É assim que aponta o destino, não há como fugir da ordem das coisas. Entre estas paredes que erigiu pode chorar, mas não poderá se esconder eternamente.  O vento não sopra em outra direção, as chuvas tendem a alcançar-lhe, e não fez um teto para sua prisão. Queria poder ver as estrelas, que flutuam como uma mentira no céu. Luzes que na verdade nem piscam mais, mas continuam brilhando, pois estão tão distante de nós, que seu brilho nos parece eterno. A vida é irremediável. Não há escolhas sem consequencias, terá de se acostumar com isto. Mesmo segregado do que entende por mundo, será alcançado por ele, pois o mundo, antes de tudo, lhe é interior. Se cerrar os olhos sentirá uma estranha sensação, pequena, misteriosa, alegre por que não? É como olhar para dentro. Para nos vermos, completos, mesmo sabendo que sempre nos faltará algo. A ausência de nossos espíritos nunca será preenchida, sobretudo no seu espírito onde tudo falta. E ainda assim sobra sofrimento. Amigo, que se esconde sob altos muros, erguidos com a dor de suas feridas, o cheiro de mar das ondas que chicoteiam as paredes, invade seus pulmões. Afoga-se em solidão, nessa sua cela, com a companhia da dor e das estrelas. A Cassiopéia, sobre você, lhe faz pensar que mesmo às estrelas, que se criaram na desordem do universo, o ser humano quer ordenar, e transforma estrelas, antes solitárias, em constelações que na verdade não existem. Cada estrela é única, você sabe. E sabe ainda que nada as prende, não pode impedir que brilhem sobre você. E nem mesmo deseja isto. Quer a chuva de estrelas sobre si. E elas derramam-se pálidas sobre sua pele. Incandescente pelo banho de luz, sob estes muros que você mesmo erigiu, acredita que algo é seu. Nem que seja este recinto de dor e solidão que lhe abriga, todavia lhe aprisiona.</p>
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		<pubDate>Tue, 13 Oct 2009 00:14:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
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O infinito em mim
Giordana Medeiros
Depois de minha ausência programada (não escrevia nada suficientemente bom para publicar). Senti que precisava escrever porque algo em mim estava me matando. Corroendo-me por dentro, como um buraco negro interior. Não tenho nada de excepcional para contar, na verdade, não sei como sobrevivi a mim estes últimos meses. Vim como [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moncoeursauvage.wordpress.com&blog=1763479&post=383&subd=moncoeursauvage&ref=&feed=1" />]]></description>
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<p align="center"><strong><span style="color:#ff6600;">O infinito em mim</span></strong></p>
<p align="right"><span style="color:#0000ff;">Giordana Medeiros</span></p>
<p style="text-align:justify;">Depois de minha ausência programada (não escrevia nada suficientemente bom para publicar). Senti que precisava escrever porque algo em mim estava me matando. Corroendo-me por dentro, como um buraco negro interior. Não tenho nada de excepcional para contar, na verdade, não sei como sobrevivi a mim estes últimos meses. Vim como um bêbado, tropeçando em palavras e silêncios. O silêncio é uma espécie de música também. E meus dias foram sonoros e longos. Não via a hora que me surgiria coragem de voltar a escrever. Para isso é necessário muita ousadia e meu desespero me acovardava, medo de não escrever suficientemente bem, de não saber exprimir o que se passa. Não como uma história, com vários personagens e um enredo fantástico. A maioria das vezes escrevo sobre mim, e o que se passa em minha alma. Não creio que a alma nos seja interior, ela é infinita e, como tal, não pode ser retida por nosso corpo diminuto e frágil. E na minha alma uma revolução se debelava. Sou comandada por duas facetas de mim que não se entendem e nem mesmo concordam. Parte de mim tenta me fazer acreditar que não há mais tempo, que tudo passou e o que me resta é resignar-me ao que possuo e cuidar que não perca isso também. A outra parte é minha faceta mais otimista, que persiste, persevera na esperança que ainda há meios. Nunca será muito tarde. O tempo é um obstáculo minúsculo para sua esperança. Não sei se creio no pessimismo de uma ou no ingênuo otimismo da outra. Às vezes fico tão confusa, entre estas faces, que se debelam a todo instante, que acabo ficando inerte de qualquer forma, e perco tanto o que tenho quanto aquilo que sonhava.  Por isso me reprimo, como posso confiar em mim se não compreendo ainda o que sou? E com essa balbúrdia infernal no meu espírito, como posso agir? Se me escondo sou mais impetuosa, se me vêem sou covarde e fraca. Uma astróloga, quando eu ainda era criança, disse-me que devido ter como signo Gêmeos e ascendente Libra, ficaria sempre nessa indecisão. Sou a união dos opostos astrais: o falante e aventureiro Gêmeos e o tímido e reprimido Libra. Alguém tem de achar um meio para estes dois se entenderem&#8230; Mas realmente, quem se preocupará com isso?  Há quem se importe com isso?</p>
<p style="text-align:justify;">Se porventura se lembrarem de mim, nem que para me dizer quanto tempo estive reclusa em mim, procurem-me no interior do mais profundo abismo, no sibilar da brisa primaveril ou no brilho da estrela mais longínqua. Talvez esteja na calda fria e brilhante do cometa. Se me acharem, avisem-me, pois, por mais que me procure, não me acho. Eu acho. Minha faceta Libra se manifesta. E se me ouvirem no canto dos pássaros, gravem este som, que minha música é algo extremamente raro. Minha morada é o silêncio. A dúvida, que perdura numa pergunta sem resposta. Longe para bem além do horizonte, em terras inóspitas e belas, onde o infinito é a longa espera, pode estar meu coração, que é um cofre cujo segredo é uma ária de ópera. E se ele se esconde longe de mim, é que próximo demais pode ser perigoso. Ele é selvagem e minha covardia poderia domesticá-lo. E ele não me obedece, e eu não o compreendo. Muito estranho não acreditar no que lhe diz seu coração. Ele me fala numa língua exótica e que não posso traduzir, por isso não confio quando creio que me diz: “vá em frente.” Reluto, e não sigo. E quando quer que eu espere, teimo em seguir mesmo crendo que é um terrível engano. O maior engano sou eu, que gosto de contar histórias. Se morrer, podem colocar no meu epitáfio: “alguém que gostava de contar histórias como ninguém.” Se há sentido em algo que digo, não sei, mas que me fez um grande bem, tenho certeza.  Aborrecem-me os sentimentos medíocres. Aqueles que não contribuem para o crescimento, mas para o empobrecimento de um espírito. Algo que conheço bem. Não faltam aqueles inquisidores, que julgam e desmerecem o que você é. Basta-me ser como sou. Não que seja a figura mais perfeita do que seja um ser humano. Na verdade, creio que sou um dos mais falhos. Mas tenho uma vontade muito grande de ser melhor, de não ficar entre o que determina a maioria opressora. As minorias são minha casa. Sempre fui o avesso dos ponteiros, <em>gauche</em>, como diria Carlos Drumont, não me chamo Raimundo, não tenho rimas ou soluções. Sou só perguntas, e minha alma é o reflexo da dúvida. E quanto mais se aproxima o ocaso da minha estrela, mais tenebroso se me mostra o horizonte. As noites são negras e frias dentro de mim. Mas continuo <em>fidelis et  fortis</em>, numa busca inalcançável de saber e de conhecimento. Não quero a imortalidade, pois meus dias não se limitam a mim. Espalho pequenas sementes de meus pensamentos, que creio eu, aflorarão em algum espírito fértil.  E me perpetuo desta forma, não tenho ou terei filhos. Somente estas linhas que escrevo, cuja existência, alguém, quem sabe, se dê conta. Não quero reconhecimento, pois não sou dotada de genialidade, pelo contrário. Sou tão insipiente quanto aqueles que procuram respostas. Eu mesma não sei nenhuma. Só tenho minhas dúvidas. E nada mais me ocorre. Nem mesmo a beleza de um poente. Só escuridão quando o sol se vai e a noite cai sobre mim.</p>
<p style="text-align:justify;">Numa vida tão minúscula quanto a minha, nada de fantástico pode ser lembrado. Somente a comum sobrevivência, a necessidade de respirar e ser. Viver é como estar faminto o tempo todo. O que lhe alimenta é, na verdade, algo que lhe aprofundará mais a fome. Têm-se fome de ar, de alimento, de respeito, de conhecimento, de música, de sentimento, de amor. Esta fome insaciável é o que lhe guia. E por isso estou aqui escrevendo. Mais por vontade de dizer o que me apavora, que por qualquer outro motivo. Sou o que me transformaram meus medos e esta fome insaciável. Posso tentar me fazer crédula, procuro o que é santo em mim. Mas só encontro o opróbrio, o desrespeitoso. Sou um frágil sentimento de religiosidade que se mistura ao cientificismo de uma vida. Racionalidade por que me fez tão racional? Sentimentos por que me fizeram sentimental? E você meu reflexo invertido, o que guarda no país dos espelhos? Somem de mim as memórias do que se foi. Não me recordo mais de minha vida que o tempo corrói, recordações que desaparecem como se nunca houvessem existido.  E não sei mais se alguns fatos ocorreram mesmo, porque é uma memória tênue como um sonho. Então penso que sonhei e que não passei por aquilo. É assim que me sinto, como resultado de um sonho que foi apenas planejado e nunca realizado. Sou etérea como as nuvens do céu. Sou o sonho, a nuance, nunca o concreto e real. E se querem saber, sou mais feliz assim. Não me venham com a hipocrisia do discurso. Para que palavras, se tudo está no silêncio? Para que a fala se tudo está na música? Espero a similitude do sonho, não quero me adequar ao que é normal, sou a exceção a regra. (Aquilo que todos esquecem). E nunca serei um rosto em meio à multidão. Por que sabem que estou lá. Como “os frutos da árvore envenenada” que não estão isentos do veneno. Não podem fugir de mim. Sou fatal, como o arsênico ou o cianureto. Meus pensamentos são o veneno que corrói suas certezas. E creiam, as minhas também. Não estou certa de nada. Nada me ocorre de forma simples. Tudo se demora, meus dias são uma espera, e não consigo mais aguardar que me alcancem meus sonhos. Ou será que eu devo alcançá-los? Por que me demoro em concluir este conto?  Não encontro maneiras de dizer “fim” por que sou o infinito, meu espírito não tem fim e me excede. Transborda e se espalha em minha volta. Sou o silêncio que a todos alcança, ou a música que premia os ouvidos. Se pode sentir o que disse é que nossos espíritos se coadunaram e tornaram-se um só. Assim é que me aumenta a alma, como o universo que cresce continuamente. Por isso não posso dizer “fim”, pois é apenas um começo.</p>
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		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 23:01:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[
Eugênio
Giordana Medeiros
Sempre foi um rapaz de olhos tristes. Pelo menos era o que diziam aqueles que o conheciam desde pequeno. Muito cedo descobriu sua vocação para música. Menino, com apenas 9 anos, compôs seu primeiro noturno. Seu piano, que ganhou do pai sempre lhe acompanhou. E sua vida tornou-se aquele piano, seus dedos conheciam cada [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moncoeursauvage.wordpress.com&blog=1763479&post=379&subd=moncoeursauvage&ref=&feed=1" />]]></description>
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<p align="center"><strong><span style="color:#ff6600;">Eugênio</span></strong></p>
<p align="right"><span style="color:#0000ff;">Giordana Medeiros</span></p>
<p style="text-align:justify;">Sempre foi um rapaz de olhos tristes. Pelo menos era o que diziam aqueles que o conheciam desde pequeno. Muito cedo descobriu sua vocação para música. Menino, com apenas 9 anos, compôs seu primeiro noturno. Seu piano, que ganhou do pai sempre lhe acompanhou. E sua vida tornou-se aquele piano, seus dedos conheciam cada tecla, e corriam soltos, criando notas musicais. Nunca fora lá muito sociável, passava horas ensaiando, de modo que sua infância e adolescência se foram muito antes que percebesse. Mesmo com grande talento, não ascendera profissionalmente. Veio à cidade, saiu do campo, da cidadezinha em que vivia com sua família, tentar a vida como músico.  Nos primeiros meses, viveu a duras penas com um ordenado minúsculo que recebia como professor de piano. Depois arranjou emprego num banco, de modo que pudesse arranjar-se melhor financeiramente. Vivia numa pensão onde felizmente aceitaram o piano e a rotina de ensaios que sempre se submetera. Quando não estava compondo suas músicas melancólicas, estava com seus poetas e escritores, aos quais tanto prezava. Chamava-se Eugênio, e desde que abandonara o campo pela cidade já fazia duas décadas.  Nunca mais voltou, e as lembranças da vida que abandonou, sempre lhe assombravam, como uma nostalgia amarga, pela vergonha de voltar sem poder levar nada além do que trouxe. Ou menos que isso.  Eugênio sempre foi dado a devaneios. Sua mente não cabia em seu corpo, num único instante apenas, queria estar em vários lugares onde o coração lhe levava, mesmo que não fosse para muito longe, para a sala na qual os vizinhos preparavam a árvore de natal. Ou para a esquina onde havia um homem vestido de papai Noel, distribuindo panfletos. E ressentia-se por aquele homem, que no verão tinha de usar roupas quentes, por apenas imaginar como penava. Devia sofrer também a família do homem, pois necessitava do ordenado que este recebia para estar durante todo o dia sob o sol, distribuindo panfletos. Via a alegria das crianças que voltavam da escola, pulando, conversando, sorrindo. E lembrava-se dos anos em que se escondera atrás do piano, de seu pai, que sempre lhe apoiara, e que quando foi embora lhe estendeu a mão dizendo: “Deus lhe abençoe meu filho!” A mãe não conseguia conter as lágrimas, porque ele era homem, tinha de percorrer longos caminhos, às vezes, por dentro de si mesmo.  Eugênio seguiu, por entre vales e colinas, pisando a relva, orvalhada da manhã, para chegar de onde havia partido. Mas já não estava lá. Não estava lá.   A cidade é mesquinha e ilusória. A vida um rio cuja corredeira lhe puxa contra sua vontade. Passamos a vida inteira tentando nadar contra a corrente.</p>
<p style="text-align:justify;">-Seu Eugênio, não lhe agrada a comida?</p>
<p style="text-align:justify;">A dona da pensão, uma senhora de meia idade, gorda, cuja beleza se perdeu com o tempo, despertava-lhe para a realidade. Todos da mesa se voltaram para Eugênio, que ficou desconcertado ao observar que nem tocara a comida. Ensaiou uma desculpa, e cortou um pedaço do bife, já frio, mastigando com certa dificuldade. Não era lá a melhor refeição do mundo, mas era o que podia pagar. Os outros hóspedes tentaram inserir-lo na discussão em que participavam à mesa:</p>
<p style="text-align:justify;">-Então, seu Eugênio, que lhe parece essa política do Obama?</p>
<p style="text-align:justify;">Outro hóspede, que chegava atrasado para o almoço, repreendeu:</p>
<p style="text-align:justify;">-Vamos cuidar de nosso país e deixemos para lá os dos outros.</p>
<p style="text-align:justify;">Eugênio sentiu-se feliz de ter sido salvo da resposta, e retornou para seus pensamentos.</p>
<p style="text-align:justify;">A vida só resta seguir. E se era triste, é que muito se perdera por seu caminho. Ninguém compreendia suas músicas melancólicas. Mas continuava as escrever, mesmo que não houvesse muitos para ouvir-las.  Como os pássaros que cantam na floresta, onde ninguém pode ouvir seu canto, e saber se é belo. E dizer que é belo.  Assim sob o mundo que o ignorava solenemente, ele compunha noturnos, suítes, sonatas&#8230;  No coração, um sonho tão grande que nem ele próprio lhe conhecia os limites. Ele só pensava em poesia, música, e nas grandes sinfonias que um dia criaria. Veio o emprego no banco e a esperança que um dia lhe viesse outro melhor. Um dia foi o futuro que nunca chegou.  E se conformou, os sonhos, sinfonias e poemas ficaram postergados para um dia, data que não se localiza em nenhum calendário. Um dia foi indo e um dia não voltou.  Tinha muitos projetos, poesias por escrever, melodias que faltava serem compostas, sinfonias que aguardavam em partituras.  Mas não realizava nada, talvez por medo que todos seus sonhos fossem engolidos por este estranho monstro de cimento armado que se chama cidade.  Já pensou diversas vezes em voltar, para um lugar mais calmo, de onde saiu, mas lhe doía profundamente a idéia de voltar como o filho pródigo, que se arrependera de andar com suas próprias pernas, que se perdeu em sonhos, e voltou como o mais minúsculos dos homens.  Na mocidade se perdera dos sentimentos da juventude, pois nem ao menos levantava os olhos dos livros. Agora é tarde, tarde para voltar, tarde para corrigir e o milagre da mocidade não se repete. E só na arte a beleza é imortal, como o versos de Keats: “<em>A thing of beauty is a joy for ever</em>” Seu momento luminoso passou, pois ele mesmo apagou a vela de sua juventude. Com um simples sopro ignorou aquilo que era belo em si. Mas como diria Érico Veríssimo “na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça”.  Suas músicas, que eram etéreas como sonhos, preservavam a juventude e os sonhos, assim não morreriam jamais, mesmo o tempo que devora os homens, não consegue jamais matar a música, pois esta se eterniza em som. Poesia mesmo que transcrita em papel, também, pois a arte é a idéia mais próxima da eternidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Na sua vida sempre as mesmas caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam seus dramas, suas vidas insignificantes, suas idiossincrasias&#8230; Mas há a canção. E a música é a ligação com o mágico, com o fantástico. Abre a mente para o longínquo espaço. A tudo embeleza. Mesmo nesta noite próxima ao Natal, nesta sala de móveis gastos, uma televisão antiga com imagem dupla onde passava a novela das oito horas, e uma árvore de plástico que lembrava as festividades de fim de ano. Ele poderia se trancar em si, viajando em partituras.</p>
<p style="text-align:justify;"> Subiu para o quarto sem terminar o jantar. Para se encontrar com o piano vertical, único bem que possuía. Único bem que lhe possuía. Tocou o teclado, sentiu um aperto no peito, veio-lhe o adágio de Albinoni. A música então se derramou triste sobre a noite que chegava.  Os olhos de Beethoven lhe fitavam pétreos do pequeno busto sobre a estante.  E em sua volta livros e mais livros de histórias que ele não viveu. Ele tocava “<em>to the montains, and fountains, and ghosts, and posts, and witches, and ditches</em>”.  E das poucas graças que lhe acompanharam pela sua vida, e da benção que seu pai lhe concedeu quando colocou os pés no mundo, restaram-lhe os sonhos, que se desfaziam em música e poesia, sonhos em versos e partituras, que não morrem, mas se eternizam, mesmo que jamais surja a grande sinfonia, mesmo que não se crie o belo romance, ou uma feliz antologia há esta expectativa feliz de ser ouvido. Como se aquele pássaro no meio da floresta fosse enfim descoberto.   Somente assim conseguia se expressar, através da arte que lhe escolheu, pois não se escolhe a arte, ela que lhe escolhe, e você agraciado desta dádiva deve se dedicar a este dom, a esta vocação. A noite agora já escurecia o quarto, distante, crianças cantavam uma música natalina, Eugênio parou de tocar para ouvir a canção, “são desses momentos preciosos que a vida é feita” pensou. “Noite feliz, noite feliz, oh senhor Deus de amor, pobrezinho nasceu em Belém&#8230;” Soava ao longe a canção, que mergulha em esperança este pobre e solitário coração.</p>
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		<pubDate>Fri, 21 Aug 2009 02:01:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ 

Memorial de um desconhecido
 Giordana  Medeiros
Este conto é parte de um diário que encontrei sob uma árvore no parque, em razão da curiosidade e também como não havia nome ou endereço do possuidor, levei-o comigo para casa onde me envolvi na narração da vida desse rapaz, suas frustrações e desejos, vitórias e derrotas e todo um universo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moncoeursauvage.wordpress.com&blog=1763479&post=365&subd=moncoeursauvage&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p align="center"><strong><span style="color:#ff6600;"> </span></strong></p>
<p align="center"><strong><span style="color:#ff6600;"><img class="aligncenter size-full wp-image-377" title="mao%20e%20caderno" src="http://moncoeursauvage.files.wordpress.com/2009/08/mao20e20caderno1.jpg?w=233&#038;h=236" alt="mao%20e%20caderno" width="233" height="236" /></span></strong></p>
<p align="center"><strong><span style="color:#ff6600;">Memorial de um desconhecido</span></strong></p>
<p align="right"><span style="color:#ff6600;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#0000ff;">Giordana  Medeiros</span></span></p>
<p style="text-align:justify;">Este conto é parte de um diário que encontrei sob uma árvore no parque, em <span style="color:#ff6600;"><span style="color:#000000;">razão</span></span> da curiosidade e também como não havia nome ou endereço do possuidor, levei-o comigo para casa onde me envolvi na narração da vida desse rapaz, suas frustrações e desejos, vitórias e derrotas e todo um universo complexo de relações. Escolhi alguns trechos para compor este conto. A veracidade do relato não pode ser comprovada, autoria tão pouco. Mas, com certeza, é uma boa história.</p>
<p style="text-align:justify;">1º de janeiro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Ano novo, resolvi escrever este memorial para poder compreender-me, talvez ao visualizar minha realidade possa encontrar respostas para todo este vazio dentro de mim. Quando houve a contagem regressiva, acreditava piamente que este novo ano era o começo de uma nova história. Minha história. Não começo com uma folha em branco, pois há muito já não o sou. Estou coberto de histórias, sou o resultado de uma série de fatos, que me antecedem. A vida me antecede a cada minuto. O mundo já existia, a sociedade também. A solidão não foi algo que inventei, mas que conheço bem. Esse é na verdade um vazio cheio de palavras, mas sem sons. Uma leitura silenciosa e fatalista. Essa é minha vida.</p>
<p style="text-align:justify;">13 de janeiro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Senti os dedos da morte sobre mim. Eram suaves. Não pesavam em absoluto. Era uma sensação boa, de uma saída num labirinto. Minha vida é o labirinto onde me perco sempre. Um emaranhado de sentidos que não tem sentido. Só sei que hoje dei fim a um de seus capítulos, a partir de agora, há uma nova fase, novos personagens entram nesta trama. Um enredo mais rico. Mas se estreita mais o liame entre a razão e a insanidade. Equilibro-me entre estes como se andasse numa corda bamba. Para onde vai pender esta balança?</p>
<p style="text-align:justify;">2 de fevereiro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">As horas andam devagar, como se Chronos quisesse fazer perdurar a tortura deste dia. Entre estes muros brancos, o silêncio se estende, mas sinto vontade de gritar, para acabar de vez com a serenidade. Quero a explosão, balbúrdia, o silêncio guarda um estrondo em si, eu sei, eu sinto! Mas ninguém se ocupa de descobri-lo. Negam a realidade, querem viver sob a ilusão perpétua que a vida é suportável. Não posso viver aqui, não posso viver aqui&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">10 de março de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Havia uma história a ser escrita no início deste memorial. Não a encontrei. Tudo que vejo mudou muito, desde que decidi que o ano seria o início de uma nova história. No fim estou relendo um livro antigo. Mas sempre que voltamos a ler um livro, encontramos uma nova perspectiva para entender o seu enredo. Estou caminhando em território minado. Cada passo pode ser fatal. Retorno para casa: estão todos lá. Mas é como se não estivessem. Não há ninguém, e começo a desejar os muros brancos e serenos. Não é incrível como podemos nos acostumar com uma sensação desagradável até que ela se torna essencial a nós? E quando todos querem nos fazer feliz a infelicidade se insere em nossa vida entre as frestas de seus dedos. Querem me proteger como a um objeto delicado. Mas não adianta, o frágil sempre se quebra. E já estou em frangalhos. Não resta nada de mim. Vou dormir.  </p>
<p style="text-align:justify;">28 de março de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Meus olhos se deparam com imagens desconexas. E se tudo que vejo não é na verdade real? É um poema, meu pequeno poema impossível. Onde há muitas palavras para dizer o que sinto, mas no fim o sentido é um só. Meu coração é uma coisa triste e frágil. Tudo que quero dizer pode ser resumido. Mas sou naturalmente prolixo. Minha existência é cheia de palavras sem sentido. Hoje poderia buscar a razão de toda a dor numa sentença, há diagnósticos precisos para o que sinto. Traduzir em ciência minha dor. Será que a ciência pode fazer isso? Será que isso é a saída? E por que procuro saídas se já estou tão familiarizado com esta sensação? Tenho medo de perder-me novamente, mas num caminho que desconheço. Onde não possa sentir-me, e saber que existir é algo deveras difícil. Não quero viver sem dar-me conta disso. Vou aguardar que as derradeiras chuvas de março caiam sobre mim.</p>
<p style="text-align:justify;">14 de abril de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Sei que dia é hoje, mas isso é importante? Se não soubesse faria alguma diferença? Hoje poderia ser qualquer dia, mas hoje é 14 de abril! Meus sonhos desfizeram-se em 14 de abril. Meu mundo ruiu em 14 de abril. Tudo está acabado em 14 de abril. Há alguém se importando com isso? É apenas 14 de abril. O que se há para fazer? Assistir televisão, comendo pipoca, bebendo guaraná, numa letargia absurda. Se houvesse uma maneira de destacar minha vida, passaria um marca texto verde-limão sobre 14 de abril. Mas não importa. Não mais. Foi, não é mais.</p>
<p style="text-align:justify;">30 de maio de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Peguei-me sentido de novo. Isso não é bom. Achei que depois de tudo poderia superar esta sensação asfixiante, este sonho que se desfez em lágrimas.  Sempre soube que era um desejo irrealizável. Mas, sempre haverá um “mas”, um “se”&#8230; Como dar fim a uma história que nem começou? Onde os personagens não se conhecem e não se falam? É uma comédia? Não, um drama. Poderia ser pior, uma tragédia. Mas sou muito fraco e covarde.  No fim todos riem porque não entendem do que se trata. Nunca sentiram profundamente o roteiro desta peça, que senti e não acho a menor graça.</p>
<p style="text-align:justify;">01 de junho de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje é um dia especial. É cheio de expectativas, pode-se esperar um milagre. Como se percebessem que eu existo. E não serei apenas uma presença incômoda, ignorada, num canto da sala enquanto todos se divertem. Sou sempre excluído. Mas amanhã posso ser protagonista. Hoje é o sonho, amanhã tudo se desmancha em realidade. Deixe-me sentir o hoje, que amanhã fatalmente não serei quem sou hoje.  Anos seguem-se velozes, em oito anos já não sei o que serei. Há o sonho, a expectativa. Por isso o dia de hoje é tão especial. Amanhã poderia não ocorrer para que tudo se resuma a hoje. Se o mundo terminasse em hoje&#8230; Mas o fim é sempre o futuro. O futuro é o amanhã tão distante que provavelmente nunca ocorra.</p>
<p style="text-align:justify;">17 de junho de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">“Não espere de mim algo que não posso conceder-lhe”. É o que me diz a vida. Aceito com resignação.  A vida desgosta-me como um remédio inútil. Mas não me furto de tomá-lo, pela ilusão do placebo, pelo desejo de cura, pelo desejo insistente de me adequar ao que é correto. Normal. No fim minhas idéias se confundem neste memorial, minhas memórias sem vida. As minhas confissões. Se nelas nada digo é porque não há nada a se dizer. Escrevo sozinho no quarto escuro, como sempre tenho sido, como sempre serei. Minha vida é uma ironia do destino. </p>
<p style="text-align:justify;">Estava lá no momento que ocorreu? Não, como nunca estamos perto quando um botão se abre em flor. Estive sempre atrasado. Um segundo atrasado, um instante que me distancia de tudo que poderia ter sido e não fui. A minha história não tem história. São apenas sentimentos aos quais falta sentido. Não quero relatar meus dias, mas meus pensamentos mais profundos. É a eles que pertenço e eles são tudo que possuo.</p>
<p style="text-align:justify;">20 de julho de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Ontem escrevi um poema, e nele pretendia exprimir meu universo. Como se em rimas fosse possível contar uma história. Muitos o fazem: Dante, Goethe&#8230; Faz-me falta a Beatriz e Mephisto. Fé ou a total ausência dela. Não me encontro neste mundo. Olho em volta e tudo que vejo desconheço. Como um estrangeiro no meu próprio país. Sei que não tenho talento para rimas, mas sei contar histórias. Tenho o feito desde criança. E minhas histórias foram perdendo a pureza, amadureceram em dor. Como nós nascemos do trauma do parto. Há algo mais abrupto que isto? Creio que não.</p>
<p style="text-align:justify;">03 de agosto de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Não quero ser mais que um contador de histórias. Há uma pergunta sem esperança que trago comigo, mas que não a profiro. É um desejo. Uma possibilidade que se insere neste memorial apenas pela sua ausência. Não vou escrever-la. Resta-me guardá-la entre meus sonhos mais queridos. Há algum rumo a tomar quando estamos confusos? Há bússolas que me mostrem a direção que devo seguir? Pus todas minhas estrelas no céu. Mas guardo aquela que mais me brilha. É minha.</p>
<p style="text-align:justify;"> 25 de agosto de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Tenho um mau pressentimento. Uma amargura, uma agonia que me inquieta. Como se algo muito ruim fosse ocorrer. É fruto de um sonho que tive. Havia uma chuva de papel picado e poeira. E não sei por que esta imagem não me apetecia.</p>
<p style="text-align:justify;">11 de setembro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Ocorreu hoje o pior ato terrorista da história. Algo que se fixará na memória de todos eternamente. Agora sei por que senti aquela inquietação. E a chuva de papel picado e poeira se transformou numa imagem real e tenebrosa. O mundo enfrenta uma instabilidade social. Eu enfrento a minha instabilidade pessoal. Eu me desfaço todos os dias como as Torres de desfizeram em destroços. E foram-se tantas vidas. Eu sou um só e minha tragédia pessoal não traz dor comparada a daqueles que faleceram inocentes hoje. Nunca fui inocente. Meu veredito sempre foi culpado. Minha pena é permanecer neste mundo.  O mundo sente o peso da diferença religiosa, de hábitos e costumes. São estrangeiros no seu próprio país. Bem vindos ao clube.</p>
<p style="text-align:justify;">24 de setembro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Quero um pouco de consolo, meu terror é o medo de estar eternamente sozinho.  Ninguém vive para si. E para quem eu vivo? Por que eu vivo? Por que insistir neste jogo se já perdi minha Rainha e os Bispos? Um jogo fadado à derrota. Ao menos se conseguisse fazer algum peão chegar à última casa, convertendo-o em Rainha&#8230;  Se eu prosseguir posso me tornar rei? Antes que ouça o Xeque Mate, empresta-me tuas asas, que quero voar!</p>
<p style="text-align:justify;">16 de outubro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Creio que tenho relatado pouco de minha vida aqui. Não me descrevo nem a ninguém. Também não falo de meus dias, do que sou ou fui. Não importa. É minha maneira de falar de mim. Sou o que tenho por dentro. Meu espírito é muito mais importante do que meu aspecto. Talvez por me considerar um Quasímodo. Talvez por que não veja os sinos de Notre Dame. Há sempre uma boa leitura para um dia chuvoso. Choveu pela primeira vez desde abril.</p>
<p style="text-align:justify;">25 de novembro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">O ano está findando. As chuvas derramam-se sobre o cerrado, Brasília fica verde outra vez. E o Natal se aproxima. Vou andando solitário como a lua no céu. Mas as densas nuvens de chuva não me permitem que a veja. Nem mesmo as estrelas. Sei que estão lá, isso me basta. É fácil ter fé quando a presença material se confirma. Sou um homem de pouca fé. Por que pude tocá-las eu creio. Toco as estrelas em sonho, não são quentes, mas luminosas e frias, como a calda de um cometa. Não entendo nada de física&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">14 de dezembro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Resolvi que terminarei este memorial no fim deste ano. E depois de escrever o fim desta história não vou eternizar outros anos mais. Este vai ser o único que verei relatado, transcrevi em palavras toda carga de emoção porque fui tomado nestes meses que se desenrolaram. Amei, chorei, sofri, no fim estou desiludido e cético.  A alma humana é um abismo, a queda é fatal. Talvez por isso tenha mergulhado em minha alma. Porque sabia que o que era não poderia sobreviver à queda. Todavia agora ainda não sei quem sou&#8230; Talvez um dia descubra, talvez não&#8230; Creio que não.</p>
<p style="text-align:justify;">24 de dezembro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Véspera de Natal. Sou sempre tocado por esta data. Vivia o Natal muito antes, em agosto já escrevia minha cartinha ao Papai Noel. Este ano não pedi nada. Não creio que felicidade seja algo fácil de embrulhar e colocar debaixo da árvore de Natal. Provavelmente ganharei um par de meias, se fosse pelo menos um jogo de Xadrez&#8230;  Mas prefiro mesmo felicidade. Mas não se ganha felicidade se não puder presenteá-la a alguém.  Como se embrulha felicidade? A quem posso dá-la? Felicidade rima com eternidade, mas nem sabem como estas duas são frágeis. A felicidade é facilmente convertida em dor, eternidade, como é débil o para sempre&#8230; Creio que este nem existe mais&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">31 de dezembro de 2001</p>
<p style="text-align:justify;">Esta é minha despedida deste memorial. Depois não vou relê-lo, vou abandoná-lo sob uma árvore num parque. Não quero destruí-lo, mas concedê-lo a alguém. Não que haja algo de proveitoso em suas páginas, somente um relato de sensações que me assombraram neste início do século XXI. A você que o terá em suas mãos, não há necessidade de saber quem sou. Sou qualquer um, ou posso também ser você. Faça bom proveito, despeço-me. Uma derradeira lágrima escorre pela minha face. Segue a melancolia a derramar-se sobre mim.</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
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		<pubDate>Wed, 05 Aug 2009 23:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[
Um sorriso de domingo
Giordana Medeiros
Rua silenciosa, pássaros cantando, o sol esquentando o dia, deixando tudo morno e agradável. Céu azul como somente o inverno brasiliense pode proporcionar. Uma xícara de café quente numa das mãos, um bom livro em outra. Sento-me num banco do jardim para aproveitar o domingo. E se aparece um vizinho, com [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moncoeursauvage.wordpress.com&blog=1763479&post=355&subd=moncoeursauvage&ref=&feed=1" />]]></description>
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<p align="center"><strong><span style="color:#ff9900;">Um sorriso de domingo</span></strong></p>
<p align="right"><span style="color:#0000ff;">Giordana Medeiros</span></p>
<p style="text-align:justify;">Rua silenciosa, pássaros cantando, o sol esquentando o dia, deixando tudo morno e agradável. Céu azul como somente o inverno brasiliense pode proporcionar. Uma xícara de café quente numa das mãos, um bom livro em outra. Sento-me num banco do jardim para aproveitar o domingo. E se aparece um vizinho, com um aceno, digo olá e dou boas vindas a este oásis no meio do deserto de prédios, que se estendem até perder de vista. Mas mesmo neste mundo de cimento armado, há pássaros que cantam como se estivessem no campo. E também borboletas e beija-flores. Meu reduto neste mundo. Um minuto de paz neste ritmo frenético da vida. Como correr em meio a uma densa floresta, e numa clareira, encontrar um rio de água cristalina e pura. O sentido de um domingo é não ser. Não ser trabalhado, não ser visto e não ter qualquer sentido. Para que compreender? Deixe-me estar neste dia sonolento, que se arrasta e desfaz-se em segunda-feira. Muitas vezes acordar cedo no domingo pode não ser um pecado. Poder ver o dia nascer com suas cores características, tudo tão belo e calmo. Muito calmo. Não há o que fazer, mas não há necessidade que haja. Degusto meu café amargo que não macula a docilidade do dia e proporciono-me uma leitura agradável, para que planos? Não quero programar-me, posso deixar-me estar neste vazio. Nesta solidão que necessito, e muitas vezes é-me insuportável. Mas hoje não, vou sentir meu domingo com um sorriso nos lábios, como se toda dor fosse suportável. Vou caminhar por essas avenidas vazias, sob o silêncio que inunda a cidade. Quando as crianças começam a invadir as ruas com suas bicicletas coloridas, bolas e pipas, sou vítima de uma felicidade indescritível. Como quando era uma dessas crianças que se lançava às ruas, com meus pés descalços e meus joelhos ralados, para brincar.  E tudo isso no domingo.</p>
<p style="text-align:justify;">Um dia percebi que as manhãs de cada dia têm sua característica própria. E a peculiaridade do domingo é toda esta mansidão que se estende sobre as pessoas e coisas. Não iria ser domingo se não fosse assim. E todos os dias guardam em si uma chama de esperança de se tornarem domingo. As carolas vão à missa. O sino da igreja badala. Roupas engomadas e limpas são exibidas. Não uso relógio no domingo. Para que saber as horas? Eu não quero seguir os desmandos de Chronos ao menos hoje.  Estou cansada de viver a espera do sentido. Meus sentimentos são o avesso da razão.  Sou toda sentimento. E quase nenhuma razão. No domingo, sou mais feliz. E se todos os dias fossem domingo? Não seria a mesma coisa, pois tem de haver o monótono trabalho para que haja feriado. O que seria do domingo se não houvesse a semana em si? O homem logo se entediaria com a existência perpétua da felicidade. E não seria mais felicidade. Converter-se-ia em monotonia. Não vamos estragar a espera da semana, cujo término é o prazer do domingo.  Se tenho de aguardar anos para que surja esta pérola, a espera é a esperança em si. Não há obrigações que me exijam. Não quero compromissos, tudo é meu hoje. Nem que seja apenas este café que saboreio ou este livro que me entretêm. Se posso aproveitar melhor o dia, com algo mais lucrativo, ou mesmo dormindo até tarde, como outros fazem por avareza ou preguiça, não me importa. Domingo é meu. Muitas vezes me recordo de fatos que ocorreram neste primeiro dia da semana. E meus olhos revêem acontecimentos como um <em>déjà vu</em>. Num instante sou eu que estou a acompanhar um circo que chegava à cidade. Toda música e cores. O engolidor de chamas, que lançava uma labareda e apagava a tocha com a boca, palhaços que divertiam a todos com suas brincadeiras. E a multidão de crianças correndo atrás da caravana do circo.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu no meio daquela multidão, num colorido domingo. Havia música, dança e algodão doce. Lembro-me de ter despertado com a caravana que chegava à cidade. O mágico, que fazia aparecer pombas com a facilidade que as fazia desaparecer. E o som que ecoava na cidade, contagiando a todos com aquela felicidade. Malabaristas que faziam voar bolas e malabares sem deixar cair nenhum. Contorcionistas com elasticidade sobre-humana, que se dobravam como se fossem feitos de borracha. Pessoas em pernas de pau distribuindo folhetos com os horários das apresentações. A música que jamais me saiu da cabeça. Um dos meus momentos mais extraordinários. Lembro de ter pedido aos meus pais que me levassem naquele circo, e fui a uma das apresentações. Era mágico estar naquele lugar, e recordo-me com doçura do dia que o circo despertou-me no domingo. E devo salientar: era domingo de Páscoa. Além dos chocolates que aguardava com a paciência exígua de uma criança, depois da semana santa inteira expiando os pecados (no sábado de aleluia havia confessado ao padre que tinha trapaceado no jogo de bolinhas de gude, meu mais grave pecado, pelo qual fui penitenciada a rezar vinte Ave-Marias), fui agraciada com aquela surpresa, aquela magia que só o circo pode proporcionar. E se pudesse sair dançando ao som daquela música, como aquela trupe fizera, sairia agora. Mesmo que os vizinhos pudessem estranhar tal comportamento. Eu me lançaria nas ruas, dando voltas, com aquele som. Eu sentia tudo e via todas as cores. Se voltasse aos meus sete anos, como naquele domingo feliz, para poder vivenciar tudo de novo&#8230;  Hoje o que me entusiasma é tão insignificante. Eu quero o entusiasmo infantil. O “maior de todos” era o maior, mesmo que não fosse de todos. Lembro-me que quando criança imaginava que o quintal de minha avó era gigantesco. Quando cresci, depois de anos sem ver-lo, ele ficou incrível e estranhamente menor.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando sai do circo, queria fazer tudo igual aos artistas, e decepcionava-me o fato de não ter a mesma agilidade, elasticidade ou a magia do ilusionista. Eu tinha sete anos ainda, era inocente e me impressionava com facilidade. Tinha um grupo de amigos fiéis, uma imaginação privilegiada e muito entusiasmo. Mesmo hoje, que sou desprovida quase totalmente destas qualidades, ainda me agrada o domingo. Pena que o circo não realize mais desfiles ao chegar numa cidade. Acho que continuaria a impressionar as crianças como o fizera a mim. E olhando aquelas crianças, na rua em que morava, brincando, correndo, sorrindo, desejava tornar-me novamente uma delas. Mas uma vez disse que Chronos devora seus filhos. Isso é a verdade mais literal. O tempo nos devora, rouba-nos a infância, consome nossos corpos. E o que resta é somente pó. “Do pó vieste ao pó retornarás”. Acho que ouvi isto em alguma das aulas de catecismo que fui. Viemos de partículas que se uniram e formaram os primeiros compostos protéicos, para depois, por alguma condição propícia, surgir o primeiro ser unicelular. E pela cadeia evolucionária chegamos a este ser complexo que somos hoje. No fim vamos nos desfazer com auxílio de vermes que se alimentarão de nossa carne. O tempo nos devora. A vida é passageira e curta. Muito curta. Anos que correm velozes, quando nos damos conta, o passado fugiu de nós. Resta-nos somente o futuro. O presente, não é mais que a sensação de perda, a perda dos anos que se desfizeram em sonhos. E sonhos são eternos. Guardo os meus como o fazia com minha coleção de bolinhas de gude que ganhava jogando com os meninos: num lugar muito especial.  As bolinhas de gude eram meu tesouro, meus sonhos também o são. Não quero desfazer-me deles jamais. O café terminou, o entregador de jornais chegou com o jornal de domingo, e tive de despertar para a realidade. A notícia de capa era mais um caso de corrupção, e no país do futebol, um grupo de garotos jogava pelada, sem se importar com a falta de caráter de seus políticos. Sorri, ainda era domingo.</p>
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		<pubDate>Sun, 26 Jul 2009 02:52:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[
A mente tem vida própria
Giordana Medeiros
A vida tem mente própria e a mente tem vida própria. Somos todos loucos em busca de uma razão fugidia. Inconstante. Sei o que quero, mas não tenho forças para consegui-lo. Tudo me parece distante e difícil. Como se alguém me estendesse a mão e depois me negasse-a. E vivo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moncoeursauvage.wordpress.com&blog=1763479&post=343&subd=moncoeursauvage&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p align="center"><strong><span style="color:#ff9900;"><img class="aligncenter size-full wp-image-344" title="testes_mente" src="http://moncoeursauvage.files.wordpress.com/2009/07/testes_mente.jpg?w=249&#038;h=250" alt="testes_mente" width="249" height="250" /></span></strong></p>
<p align="center"><strong><span style="color:#ff9900;">A mente tem vida própria</span></strong></p>
<p align="right"><span style="color:#0000ff;">Giordana Medeiros</span></p>
<p style="text-align:justify;">A vida tem mente própria e a mente tem vida própria. Somos todos loucos em busca de uma razão fugidia. Inconstante. Sei o que quero, mas não tenho forças para consegui-lo. Tudo me parece distante e difícil. Como se alguém me estendesse a mão e depois me negasse-a. E vivo nesse mundo. Outrora havia sons, horizontes. Mas não eram reais, não eram reais. Vertigens, miragens mirabolantes de uma mente perturbada e solitária. Foi minha culpa? Será que foi minha culpa? Eu fiz algo errado? Será um castigo? Por não ter me comportado bem, por ter me furtado ao convívio dos demais&#8230; Tinha medo que estivessem a rir de mim&#8230; E ouvia seus pensamentos, e todos me desmereciam. As pessoas começaram a tornar-se apenas borrões, não lhes via os rostos, assim não sabiam se olhavam realmente para mim. Então, então&#8230; Meu oceano de palavras não teve valor algum, pois as palavras que precisava fugiram de mim no meu momento crucial. Agora&#8230; Há agora? Sei que vivo à sombra de um passado que me persegue e assombra. Hoje não sei o que quero, pois estou infeliz com o que sou.  Eu sei que poderia ter sido mais e sei que nada sou.  Meu desespero é ter de escrever sem leitores, ninguém mesmo se interessa. Acho que não me faço entender. Talvez ninguém queira mesmo entender. Quando busco em mim o silêncio, encontro tormenta. Sei que todos os instrumentos tocam ao mesmo tempo numa balbúrdia monumental. Difícil se concentrar. Quando criança queria ser cientista. Fugi da ciência, para concentrar-me nos sentimentos. Acho que lidava melhor com coisas indefiníveis e imprevisíveis. Mas fui tola ao escolher meu destino, confiei demais em caminhos já traçados. Tive medo, novamente, de construir meu próprio caminho. E agora não há mais como voltar atrás. Todos conjecturam novas possibilidades, mas apenas consigo enxergar as possibilidades que deixei para trás. Todos sabiam o que eu era, mas me negaram a possibilidade de sabê-lo. E quando dei por mim, já não era mais o que deveria ser. Sou um projeto erigido à surdina, longe de meus olhos. Assim não pude ver no que me transformava.</p>
<p style="text-align:justify;">Posso gritar e tentar desfazer-me desta casca que me cobre e me sufoca, mas se assim fizer&#8230; Haverá consequências, e não posso suportá-las, são demasiadamente pesadas. Não posso caminhar sozinha sob o peso desta cruz. O que me alivia? Onde posso descansar meu corpo sacrificado? Estas chagas que ardem, este corpo que de nada me vale? Não sou o que sou. Sou o que querem que eu seja. E nada me alegra neste uniforme que me vestiram. Nessa cartilha que me obrigaram a decorar. Por que fui tão fraca? Minha mente vivia, pulsava e obrigava-me a ceder. Abri mão de meus sonhos, pelos sonhos dos outros. Por que não lutei pela minha própria vida? Porque era justo desta que tentava desfazer-me. E isto é difícil. Os joelhos tremem e o corpo implora, mais um minuto&#8230; Mais um minuto&#8230; Quando finalmente domei meu cavalo selvagem, vi que tudo que me tornei, era uma pintura assinada por outro artista. Não sou eu. Não sou eu. O que sou eu? Por que há tantas perguntas a fazer e tão poucas respostas recebidas?  Sou uma mentira, um embuste. Nada em mim é verdadeiramente meu. Só minhas palavras que não surgem em sons, mas em letras escritas sobre a folha em branco para que ninguém leia. Somente eu. Depois de ler vou rasgar o papel e tudo ficará como está. Para Sartre, o homem foi condenado a ser livre. É mesmo uma pena? Eu me infligi o cárcere perpétuo, a mentira, a superficialidade dos sentimentos. Nada é real. Somente este sofrimento de ter me tornado algo que não compreendo. Se tivesse feito minhas próprias escolhas&#8230; Mas sempre tive medo. O medo é uma constante, medo das pessoas, do mundo, da sociedade. Se mesmo eu não me compreendo como o mundo pode compreender-me? “I can give not what men call love.” P. B. Shelley . Minha mente está mesmo controlada? E este texto cheio de dor, este soluço recolhido e esta decepção que sinto, isto é normal? Ninguém mais confia no que digo ou faço. Porque eu confiaria? Pode não ser real. Pode não ser normal. Minha vida não pode mais se restringir a mim. Todos se preocupam com que faço. Tudo é monitorado. E se estou triste, minhas lágrimas não podem regar minha dor. E se estou alegre todos desconfiam de minha felicidade. Meus sentimentos não são mais apenas meus.</p>
<p style="text-align:justify;">Era uma vez alguém que nunca chegou a ser&#8230; E foi o que não era. Minha história se resume à duas sentenças.  O espelho esconde de mim minha verdadeira face. O que vejo é o Retrato de Dorian Grey. E o que sou é a figura que não envelhece, que não se deforma, que se conserva eternamente.   Mas todos só querem saber do que é exterior. O importante, que ficava inacessível aos olhos, perdeu toda sua necessidade. Posso desfazer-me de mim tão fácil quanto as outras pessoas o fazem. Sou insignificante. Desimportante. Nem um pouco interessante.  Por isso fugi para dentro de mim. E minha mente logo acusou meu desaparecimento. A mente tem vida própria, já disse. Não pude viver sozinha, e não posso&#8230; Mas não sou a companhia mais agradável. Sei que é o que todos pensam. É o que todos demonstram.  Serei sempre coadjuvante na minha própria peça. E quando fecharem-se as cortinas, os aplausos não serão para mim. Se fechar os olhos posso imaginar um mundo diverso. Nesta história, posso ser a atriz principal, num cenário menos hostil, pessoas amigáveis e sensíveis. Lembro-me de ter pedido a minha mãe um irmãozinho igual a mim. Porque desde criança me ressentia minha solidão. Não veio este presente, como não vieram outros, e passaram-se os anos. Só consegui ter mesmo a companhia deste amigo de papel prensado, que não escolhe quem abrirá suas páginas. Um universo ao meu alcance. Pude representar várias peças. “Sei o que sou, mas não sei o que posso ser”, discordo de Shakespeare, pois não sei o que sou e sei o que posso ser. E não é o que espero, não é o que espero. Eu renuncio ao que sou, este ente que desconheço e que não compreendo, pelo que espero ser.  Não me negue este desejo. Vida que sempre me negou abrigo, porque sempre me virou as costas, quando o mundo me aniquilava. E para que não o denunciasse cortou-me as mãos e a língua, como malfeitores fizeram à Lavínia. Entretanto este crime perdura. E logo serão denunciados os culpados.</p>
<p style="text-align:justify;">A minha dor que transbordou de mim, agora é tão mesquinha&#8230; Sou humana, sou frágil, sou amarga, sou sensível, sou uma série de coisas que não me traduzem, porque sou muitas em uma só. Meu espírito é de tal forma complexo, que somente a figura de um caleidoscópio pode traduzi-lo.  Mas no fim são apenas espelhos. Somente espelhos. É tudo tão simples. Sou a complexidade mais simples que existe. Mas ninguém se preocupa em traduzir-me. Ninguém se ocupa em ouvir-me, mesmo que não tenha voz forte o suficiente para ser ouvida em meio a tal balbúrdia. Padeço de muitos males, o pior deles é o pavor deste vazio que me consome. Será eternamente assim?  O silêncio trás um estrondo em si. Não consigo me guiar por estes caminhos, pois não foram por mim escolhidos e levam-me a lugares que não queria ir. Se desobedecer estas estradas, se dirigir na contra-mão da história, pode ser uma possibilidade. Mas o tempo passa, rápido e atroz, Chronos devora seus próprios filhos. É impossível fugir ao tempo.  Ele não teve o seu poder de cura em mim. Somente abriu novas feridas entre aquelas que já sangravam. Minha mente foi dividida entre aquilo que me transformavam e o que eu era. E desse ser que era, não me lembro. Ficou enterrado durante décadas e padeceu de asfixia. Agora não há mais como ressuscitá-lo, talvez com alguma poção mágica, que possa dar vida aos mortos, mas é perigoso ressuscitar aquilo que o tempo enterrou. Assim pode ser mais fácil compreender este texto, um muro de lamentações, por um passado roubado, por um futuro distante, por uma história transformada. Nada do que sou é o que era. O que serei: nada mais do que sou agora.  Hoje sou nada, o que serei: nada. Algo sem valor algum. Posso enumerar meus defeitos, mas não posso corrigi-los porque já fazem parte de mim. O que sou e que não compreendo. Entendo que quiseram fazer de mim algo nobre. Mas não foi o que me tornei. Sou como a espada a qual não se pode dar o corte. Pode se limar eternamente. Produzida do mais puro aço. Mas se não tem corte, para que serve? Para enfeitar, como um prêmio numa prateleira ganho décadas atrás, e do qual não se recorda por que.  Sou grata por tentarem guiar-me quando meus olhos não conseguiam ver. Mas agora que vejo, com assombro constato que tomei errôneos caminhos. Sinto-me consternada como quem está perdido. Onde devo ir? Seguir, sempre em frente, pois não há mais como voltar. Não serei nunca quem sou realmente. Tenho de aprender a conviver com o que me tornei. Este estranho com quem me deito todas as noites. Amá-lo (será possível?) e tentar compreender&#8230; Muito mais que só entender.  Enfim, perdoar este inimigo que está dentro de mim.</p>
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		<pubDate>Thu, 16 Jul 2009 02:07:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
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Sob o som do saxofone
Giordana Medeiros
Amassou mais uma vez a folha de papel que retirara com violência da máquina de escrever. Recomeçou do início: “Carlos, meu irmão, estou escrevendo esta carta, pois tenho esperanças que ela chegue algum dia as suas mãos. Já me disseram que cartas de suicidas ficam com a polícia, e fazem [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moncoeursauvage.wordpress.com&blog=1763479&post=333&subd=moncoeursauvage&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p align="center"><strong><span style="color:#ff9900;"><img class="aligncenter size-full wp-image-334" title="maquina_de_escrever" src="http://moncoeursauvage.files.wordpress.com/2009/07/maquina_de_escrever.jpg?w=336&#038;h=231" alt="maquina_de_escrever" width="336" height="231" /></span></strong></p>
<p align="center"><strong><span style="color:#ff9900;">Sob o som do saxofone</span></strong></p>
<p align="right"><span style="color:#0000ff;">Giordana Medeiros</span></p>
<p style="text-align:justify;">Amassou mais uma vez a folha de papel que retirara com violência da máquina de escrever. Recomeçou do início: “Carlos, meu irmão, estou escrevendo esta carta, pois tenho esperanças que ela chegue algum dia as suas mãos. Já me disseram que cartas de suicidas ficam com a polícia, e fazem parte do processo que averigua a <em>causa mortis</em>. Entretanto torço para que leia estas palavras antes de esquecer-me por completo.” Pegou o maço de cigarros, retirou um, colocou na boca e friccionou o fósforo na caixa, colocou a mão sobre o palito para proteger a chama até que acendesse o cigarro. Quando conseguiu, soltou a fumaça num grande suspiro. Releu o trecho escrito. Achou ruim e, novamente, formou uma bola de papel que foi arremessada ao chão onde encontraria uma dezena de outras similarmente escritas e também desprezadas. Não sabia ao certo o que queria escrever. Ele não desejava, na verdade, deixar um relato melodramático de seus últimos dias, nem acusar ninguém por sua escolha, nem mesmo deixar um testamento não-oficial, dividindo os escassos bens que possuía que quase se resumiam àquela máquina de escrever, com a qual escrevia seus romances. Aliás, o último não passara da quinta página. E não tinha nem ânimo de escrever. Sua carta de suicida não passava nem mesmo do primeiro período. Estava com um bloqueio criativo, nome pomposo para os mais validos; como era pobre, sofria na verdade de falta de sonhos e perspectivas. Ele não mais ansiava por nada.  E sentia um vazio enorme. Era um artista desiludido diante da força massacrante da vida.  Na verdade a arte é um vazio que alguém entendeu. A este vazio, essa solidão enorme frente à folha em branco, ele compreendia. Não a esta sensação de derrota, que percorria suas veias, como um veneno que tomava todo seu ser. Maculando os outrora sonhos, convertendo-os em desilusões. Queria dizer ao irmão, porque se escondia dele quando este o procurava. Desde criança escondia-se no guarda-roupa, no escuro, respirando naftalina, para poder estar consigo mesmo. Pois quando estava com Carlos, tudo era somente Carlos. Seus olhos claros, seu corpo esguio que não parecia nem mesmo suar. E sempre que ele se escondia de Carlos, sua mãe ralhava: “Não vê como ele gosta de você?” Ele era praticamente obrigado a gostar de Carlos, porque todos gostavam. Ninguém jamais esquecera Carlos. Mas ele, quando se escondeu definitivamente do irmão mais novo e do restante da família, foi esquecido, como um dos móveis velhos que recheavam a sala de estar da Bisavó Ricarda.</p>
<p style="text-align:justify;">Agora estava disposto a se tornar novamente lembrado, pois afinal alguém teria de tomar conta do corpo que apareceria bem na hora do jantar. Atrapalhando, como sempre incomodou o seu corpo roliço, suarento, seu jeito acanhado e suas unhas roídas até a carne. Lembrava-se que quando sua mãe morreu, foi a última vez que vira Carlos, tiveram de dar um fim ao corpo, e dividir os móveis do início do século, outrora pertencentes à Bisavó Ricarda. Não quis ficar com nada. Lembrava-se que cada peça fazia Carlos recordar algo. Como aquele capacho antigo que ficava junto à lareira, ou aquele espaldar junto à estante. A cristaleira que mamãe amava. Não quis nada. Como também não exigiu o amor e a dedicação da mãe. Não quis nem mesmo ficar com os retratos. “Veja bem, moro sozinho num apartamento minúsculo, onde guardaria estas relíquias? E para quem?” Disse ao seu irmão, praticamente obrigou-o a ser guardião das memórias da família. “É um presente de casamento, terá todos os móveis e o casarão.” A família crescia, Carlos tivera dois filhos, que corriam enlouquecidos pela casa e pelo terreno amplo em que se localizava o “sobrado dos Ferreira” . A família dele era conhecida, seu avô e seu pai foram grandes jornalistas fundaram o maior jornal da cidade: “O diário do povo”. A fortuna que amealharam foi dilapidada pelos péssimos investimentos do pai e do avô, e o alcoolismo que marcou a vida de ambos. Como uma herança maldita. De herança ele recebera somente a facilidade com as palavras, e o profundo conhecimento de si mesmo. Sabia que Carlos ressentia-se de seu distanciamento. Mas tivera de estar longe do que Carlos era. E estar somente com o que sabia de si. Seu silêncio, sua vida medíocre e a insanidade de ser humano. Sentia-se mesquinho por furtar-se ao convívio dos demais. E tão incrivelmente minúsculo, por todos terem se esquecido tão facilmente dele. Agora ouvia o som do silêncio, o som de sua respiração, do seu coração pulsando e gritando: estou vivo! E a isso se resumia seu mundo. A simplicidade de ter de estar somente consigo. E quando se escondia de Carlos, fugia do abismo que separava os dois. O cuidado que todos tinham com a saúde frágil do caçula. E do desprezo que todos sentiam pela presença suarenta do filho mais velho, obeso, lerdo e melancólico. Carlos sempre chorava quando não o encontrava. Ele sentia remorso e ia ao encontro do irmão, abandonando seu esconderijo. Onde guardava os esqueletos de suas dores. E tudo que tinha estava naquele apartamento, até mesmo as baratas. Como aquela que corria desabaladamente para debaixo do rodapé, deixando a cabeça e as antenas de fora. Se Carlos visse, iria logo sugerir um dedetizador muito bom que exterminou os insetos de sua casa, “o sobrado dos Ferreira”, inclusive os cupins que estavam destruindo os móveis.</p>
<p style="text-align:justify;">Havia a possibilidade de doarem o seu corpo para alguma faculdade, mais uma forma de humilhar-lo mesmo depois de morto.  Agora ouvia o saxofone do vizinho, que era um excelente músico cuja fortuna não acompanhou seu talento.  E a única mulher porque se apaixonou, abandonou-o por não conseguir viver com a escassez de luxo e dinheiro. Já ele, o escritor falido, seria lembrado pelo silêncio e ausência nas reuniões do condomínio. “Nem sabia que o apartamento 202 estava ocupado.” Diriam alguns. Ele só cruzava com poucos moradores, e vínculos, que se assemelhava a uma amizade, ele tinha apenas com o saxofonista. Um artista reconhece outro. São ligados pelo mesmo vazio. Dores que se encontravam. E se comunicavam. A música é a dor que se esparrama em som. A literatura é o sangue das feridas sobre o papel. E tais dores são irmãs e se reconhecem.  Agora ele se preparava para seu derradeiro ato.  “O corpo quer a alma entende&#8230;” O cadafalso já estava pronto, em breve sentiria a asfixia que finalmente faria parar o pulso frenético, que lhe lembrava a cada segundo que estava vivo. A história dele ficaria pelo avesso, como um de seus contos que restaram pela metade, esboços de vida que nunca saíram do papel. No fim não tinha medo do céu ou do inferno, mas “acreditava em anjos e porque ele acreditava, eles existiam”. Quando morresse um anjo com asas grandes, corpo esguio e cabelos loiros, tão loiros quanto os de Carlos, viria pegar-lhe a mão. E não se esconderia mais, pois seria finalmente achado. Como um tesouro escondido, um sonho que não foi sonhado, e que ficou como um plano que jamais chegou a ser. Ele poderia ter sido tanto, mas todo o foco concentrava-se em Carlos. Ele era esquecido, num canto, dentro do guarda-roupa, inalando naftalina e observando o trabalho das aranhas tecendo suas teias. O que ele era? O que Carlos era? O que são realmente os homens? O que verdadeiramente são, senão o que o impossível cria em seus espíritos ? Ele queria fumar mais um cigarro, mas o maço estava vazio. Procurou fumar os restos dos cigarros que transbordavam do cinzeiro. Ele tentou com obediência servil representar o papel de ser, mas lhe foi impossível. Pois não esteve jamais preparado para atuar nesta comédia que é a vida.  Encarava a máquina de escrever, que exigia, que cobrava, mas as palavras fugiam. Ele não tinha idéia do que escrever. Pensou em resumir tudo num “adeus”. Mas achou muito cômico e desistiu. Imaginou tecer comentários sobre a dor que lhe afligia desde que Carlos nasceu, mas achou muito dramático. E todas as idéias eram descartadas uma a uma, como todos os seus sonhos que foram abandonados. Não se compreendia, nem a si mesmo nem aos sonhos. É difícil compreender-se. Como é difícil perder-se sem se achar. Mesmo que achar-se seja de novo a mentira que estava vivo. Ele estava vivo? E num suspiro. Porque não encontrava palavras para despedir-se da vida e do mundo. Talvez só do mundo, pois a vida já lhe expulsara muito antes, adiou a idéia do suicídio para alguns dias, talvez anos que se sucederiam vazios, melancólicos, sob o som do saxofone do vizinho.</p>
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		<pubDate>Thu, 02 Jul 2009 23:22:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>giordana</dc:creator>
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Despida das armaduras
Giordana Medeiros
Com um calhamaço de folhas numa mão, uma xícara fumegante de chá em outra, Alanis tentava decorar as falas de sua personagem na série Weeds. Ela estava “descansando” da extenuante rotina de shows que havia realizado no ano anterior na Europa e Estados Unidos, e no início deste ano na América do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moncoeursauvage.wordpress.com&blog=1763479&post=320&subd=moncoeursauvage&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#ff6600;"><img class="aligncenter size-full wp-image-322" title="WEEDS (Season 5)" src="http://moncoeursauvage.files.wordpress.com/2009/07/s5-11.jpg?w=204&#038;h=273" alt="WEEDS (Season 5)" width="204" height="273" /></span></strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#ff6600;">Despida das armaduras</span></strong></p>
<p style="text-align:right;"><span style="color:#0000ff;">Giordana Medeiros</span></p>
<p style="text-align:justify;">Com um calhamaço de folhas numa mão, uma xícara fumegante de chá em outra, Alanis tentava decorar as falas de sua personagem na série Weeds. Ela estava “descansando” da extenuante rotina de shows que havia realizado no ano anterior na Europa e Estados Unidos, e no início deste ano na América do Sul. Como não sabia descansar sem se ocupar, resolveu investir em sua carreira artística. Na realidade ela adorava atuar, e sua evolução como atriz era notável, e novos convites para que atuasse chegavam a todo momento. Depois da médica Audra Kitson, um novo papel já estava programado. Agora como uma garota com problemas alimentares. Esse lhe apavorava, tendo em vista ela mesma já ter sofrido com tais problemas. A anorexia era um fantasma para ela, precisava expurgar-lo, nem que fosse interpretando na ficção algo que foi tão real em sua vida. Ela se recordava da dor que a doença lhe causara, as feridas que deixou em seu espírito, e ela não sabia se estas já haviam cicatrizado completamente, mas ela se aventurava. Na realidade era um desafio, e ela adorava se ver desafiada. E lançava-se de cabeça numa aventura. Ela organizaria, inclusive, uma maratona para beneficiar as pessoas que sofrem de transtornos alimentares. Ela mesma correria a maratona, agora que estava curada, queria ajudar quem também sofre com este mal. E havia ainda o livro que estava escrevendo. Ela tinha múltiplos talentos, e como uma boa geminiana, tentava explorar todos de uma vez só. Agora pensava se seus fãs apreciariam seu trabalho como a médica Audra Kitson, ela se dedicava ao máximo. E queria, na verdade, ver a reação de seus fãs ao assistir a série. Será que teriam uma boa impressão de seu trabalho? E eram tantas falas, pois ela estaria na maior parte dos capítulos desta temporada. Ela sempre se lançando aos desafios&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Alanis havia sofrido muito com o fim do relacionamento com seu ex-noivo Ryan Reynolds, que foi acompanhado de perto pela mídia sensacionalista. E durante este período, compôs as músicas de seu último cd, Flavors of Entanglement. Ela sempre usou o trabalho como uma maneira de escapar da dor. Mas esta nos persegue insistente, há momentos em que ela nos alcança, e lágrimas brotam em nossos olhos, contudo ela não queria mais chorar. E nem se entregaria à dor. Reuniu todas as forças que possuía e superou todo o sofrimento. Estava muito feliz com seu novo namorado. Ele, um ativista ambiental, despertou-lhe o desejo de proteger o planeta. Ela se dedicou a campanha da Earth Hour, uma hora em que todos deveriam deixar de usar energia elétrica, um protesto contra o desperdício e a poluição do planeta. Sempre foi ligada a causa ambiental, muitos dos seus amigos já se empenhavam na proteção do planeta. Foi mágico descobrir a floresta tropical e estar com os índios, o que fez quando esteve em turnê pela América do Sul.  Alanis estava ligada a diversas causas beneficentes, ela também ajuda a reconstruir as cidades destruídas pelas tsunamis na Indonésia. Foi assistir de perto a superação daquelas pessoas com a vida marcada pela tragédia. E tanto os índios quanto as pessoas da Indonésia estavam tão felizes, viviam uma vida de tantas restrições, mas conseguiam sorrir, com a pureza que é comum àqueles de bom coração. Ela amou nadar com os botos no Rio Amazonas, bem como, visitar as crianças da Indonésia e ajudar, nem que seja com um pouco, diante de tantas dificuldades.</p>
<p style="text-align:justify;">A vida presenteava-lhe a todo momento, e ela não mais diria não à ela. Gostava de pegar seu carro e dirigir pela auto-estrada, bem como o fazia com sua moto, para sentir o vento em seu rosto. Ela sempre se entregava ao novo. Estava aprendendo a jogar capoeira, uma luta dos escravos brasileiros, que lhe encantou ao visitar o Brasil. E fazia tanto, por que queria sentir o mundo, ela era uma cidadã do mundo e sabia da responsabilidade que adquirira por sua posição de destaque nele. E consciente de seu dever, se lançava aos desafios. Agora deveria decorar suas falas para poder atuar com maestria em mais um episódio da série Weeds. Havia rumores que deveria aparecer nua em cena, mas ela não temia, afinal era consciente de seu corpo, não se envergonhava dele. Ela finalmente convivia bem com o que era exterior e interiormente. Se tivesse que aparecer nua não seria algo inteiramente novo. tendo em vista ter estrelado um videoclipe totalmente nua. Thank You é lembrado até hoje pela coragem que teve de deixar-se isenta de qualquer proteção, mal sabiam que as roupas não são a única armadura que possuímos. Ela não se constrangia em estar nua, não mais desde que superara os problemas com a anorexia.  E tudo que ela queria era ajudar àqueles que também sofrem com distúrbios alimentares, mostrar que não estão sozinhos, e que há cura para tal dor. Olhou o relógio e percebeu que deveria apressar-se, dentro de minutos deveria ser maquiada para aparecer em cena. Leu mais uma vez as falas, tinha uma memória muito boa, afinal para decorar tantas letras, das músicas que compôs durante toda carreira, somente uma memória aguçada e profissionalismo. Tinha prazer em tudo que fazia, estava feliz com seu trabalho, com tudo que havia feito, e, ao olhar para trás, não guardava decepções ou mágoas. “Tive que cruzar todo este caminho para chegar até aqui.” Pensou, feliz por ser tudo aquilo que imaginava ser. Poucos alcançam tal nível de realização. Ela era privilegiada.</p>
<p style="text-align:justify;">Bateram na porta do camarim para informá-la que deveria ir para a sala de maquiagem. Terminou seu chá. Arrumou o script, tomou fôlego: estava pronta.  Observou seus cachorrinhos que brincavam um com outro, afagou-lhes a cabeça. Se tivesse filhos seria uma mãe tão dedicada quanto o é para seus filhotes. Mas o desejo da maternidade, não lhe pressionava. Não se sentia obrigada a fazer mais nada, fazia tudo por paixão.  E por isso estava tão feliz. Saiu do camarim, seguida por seus filhotes que lhe acompanhavam sempre. Na sala de maquiagem, foi acolhida com carinho pelas funcionárias. Ela sabia que ninguém mais lhe exigia nada, além de sua própria consciência, porque tinha uma tendência muito forte ao perfeccionismo. Ela tinha de dosar sua própria vontade, pois sempre exigia o melhor de si mesma. E isso era na verdade seu “calcanhar de Aquiles”.  Esse perfeccionismo que lhe levou à anorexia, e outros problemas de cunho pessoal. Deveria se dedicar, mas dosando seu entusiasmo. E ela estava aprendendo a fazê-lo com o acompanhamento terapêutico. Superava seus desafios dentro de suas possibilidades, não tentava mais fazer algo que estava fora de seu alcance, também não mais o exigia dos outros. Muitos conflitos surgiram dessa vontade que os outros agissem com o mesmo entusiasmo que ela. Agora ela tinha consciência de si, dos outros, e do que ela representa neste mundo. Enquanto tivesse certeza disso, sabia que seria muito feliz. A maquiadora informou-lhe que havia terminado, e foi chamada a atuar. Quando foi anunciado o início das gravações sentiu-se protegida com suas armaduras e livre como um pássaro novo que aprende a voar.</p>
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		<pubDate>Thu, 02 Jul 2009 13:05:30 +0000</pubDate>
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Corinthians campeão da Copa do Brasil!
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<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#ff6600;">Corinthians campeão da Copa do Brasil!</span></strong></p>
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