
A mente tem vida própria
Giordana Medeiros
A vida tem mente própria e a mente tem vida própria. Somos todos loucos em busca de uma razão fugidia. Inconstante. Sei o que quero, mas não tenho forças para consegui-lo. Tudo me parece distante e difícil. Como se alguém me estendesse a mão e depois me negasse-a. E vivo nesse mundo. Outrora havia sons, horizontes. Mas não eram reais, não eram reais. Vertigens, miragens mirabolantes de uma mente perturbada e solitária. Foi minha culpa? Será que foi minha culpa? Eu fiz algo errado? Será um castigo? Por não ter me comportado bem, por ter me furtado ao convívio dos demais… Tinha medo que estivessem a rir de mim… E ouvia seus pensamentos, e todos me desmereciam. As pessoas começaram a tornar-se apenas borrões, não lhes via os rostos, assim não sabiam se olhavam realmente para mim. Então, então… Meu oceano de palavras não teve valor algum, pois as palavras que precisava fugiram de mim no meu momento crucial. Agora… Há agora? Sei que vivo à sombra de um passado que me persegue e assombra. Hoje não sei o que quero, pois estou infeliz com o que sou. Eu sei que poderia ter sido mais e sei que nada sou. Meu desespero é ter de escrever sem leitores, ninguém mesmo se interessa. Acho que não me faço entender. Talvez ninguém queira mesmo entender. Quando busco em mim o silêncio, encontro tormenta. Sei que todos os instrumentos tocam ao mesmo tempo numa balbúrdia monumental. Difícil se concentrar. Quando criança queria ser cientista. Fugi da ciência, para concentrar-me nos sentimentos. Acho que lidava melhor com coisas indefiníveis e imprevisíveis. Mas fui tola ao escolher meu destino, confiei demais em caminhos já traçados. Tive medo, novamente, de construir meu próprio caminho. E agora não há mais como voltar atrás. Todos conjecturam novas possibilidades, mas apenas consigo enxergar as possibilidades que deixei para trás. Todos sabiam o que eu era, mas me negaram a possibilidade de sabê-lo. E quando dei por mim, já não era mais o que deveria ser. Sou um projeto erigido à surdina, longe de meus olhos. Assim não pude ver no que me transformava.
Posso gritar e tentar desfazer-me desta casca que me cobre e me sufoca, mas se assim fizer… Haverá consequências, e não posso suportá-las, são demasiadamente pesadas. Não posso caminhar sozinha sob o peso desta cruz. O que me alivia? Onde posso descansar meu corpo sacrificado? Estas chagas que ardem, este corpo que de nada me vale? Não sou o que sou. Sou o que querem que eu seja. E nada me alegra neste uniforme que me vestiram. Nessa cartilha que me obrigaram a decorar. Por que fui tão fraca? Minha mente vivia, pulsava e obrigava-me a ceder. Abri mão de meus sonhos, pelos sonhos dos outros. Por que não lutei pela minha própria vida? Porque era justo desta que tentava desfazer-me. E isto é difícil. Os joelhos tremem e o corpo implora, mais um minuto… Mais um minuto… Quando finalmente domei meu cavalo selvagem, vi que tudo que me tornei, era uma pintura assinada por outro artista. Não sou eu. Não sou eu. O que sou eu? Por que há tantas perguntas a fazer e tão poucas respostas recebidas? Sou uma mentira, um embuste. Nada em mim é verdadeiramente meu. Só minhas palavras que não surgem em sons, mas em letras escritas sobre a folha em branco para que ninguém leia. Somente eu. Depois de ler vou rasgar o papel e tudo ficará como está. Para Sartre, o homem foi condenado a ser livre. É mesmo uma pena? Eu me infligi o cárcere perpétuo, a mentira, a superficialidade dos sentimentos. Nada é real. Somente este sofrimento de ter me tornado algo que não compreendo. Se tivesse feito minhas próprias escolhas… Mas sempre tive medo. O medo é uma constante, medo das pessoas, do mundo, da sociedade. Se mesmo eu não me compreendo como o mundo pode compreender-me? “I can give not what men call love.” P. B. Shelley . Minha mente está mesmo controlada? E este texto cheio de dor, este soluço recolhido e esta decepção que sinto, isto é normal? Ninguém mais confia no que digo ou faço. Porque eu confiaria? Pode não ser real. Pode não ser normal. Minha vida não pode mais se restringir a mim. Todos se preocupam com que faço. Tudo é monitorado. E se estou triste, minhas lágrimas não podem regar minha dor. E se estou alegre todos desconfiam de minha felicidade. Meus sentimentos não são mais apenas meus.
Era uma vez alguém que nunca chegou a ser… E foi o que não era. Minha história se resume à duas sentenças. O espelho esconde de mim minha verdadeira face. O que vejo é o Retrato de Dorian Grey. E o que sou é a figura que não envelhece, que não se deforma, que se conserva eternamente. Mas todos só querem saber do que é exterior. O importante, que ficava inacessível aos olhos, perdeu toda sua necessidade. Posso desfazer-me de mim tão fácil quanto as outras pessoas o fazem. Sou insignificante. Desimportante. Nem um pouco interessante. Por isso fugi para dentro de mim. E minha mente logo acusou meu desaparecimento. A mente tem vida própria, já disse. Não pude viver sozinha, e não posso… Mas não sou a companhia mais agradável. Sei que é o que todos pensam. É o que todos demonstram. Serei sempre coadjuvante na minha própria peça. E quando fecharem-se as cortinas, os aplausos não serão para mim. Se fechar os olhos posso imaginar um mundo diverso. Nesta história, posso ser a atriz principal, num cenário menos hostil, pessoas amigáveis e sensíveis. Lembro-me de ter pedido a minha mãe um irmãozinho igual a mim. Porque desde criança me ressentia minha solidão. Não veio este presente, como não vieram outros, e passaram-se os anos. Só consegui ter mesmo a companhia deste amigo de papel prensado, que não escolhe quem abrirá suas páginas. Um universo ao meu alcance. Pude representar várias peças. “Sei o que sou, mas não sei o que posso ser”, discordo de Shakespeare, pois não sei o que sou e sei o que posso ser. E não é o que espero, não é o que espero. Eu renuncio ao que sou, este ente que desconheço e que não compreendo, pelo que espero ser. Não me negue este desejo. Vida que sempre me negou abrigo, porque sempre me virou as costas, quando o mundo me aniquilava. E para que não o denunciasse cortou-me as mãos e a língua, como malfeitores fizeram à Lavínia. Entretanto este crime perdura. E logo serão denunciados os culpados.
A minha dor que transbordou de mim, agora é tão mesquinha… Sou humana, sou frágil, sou amarga, sou sensível, sou uma série de coisas que não me traduzem, porque sou muitas em uma só. Meu espírito é de tal forma complexo, que somente a figura de um caleidoscópio pode traduzi-lo. Mas no fim são apenas espelhos. Somente espelhos. É tudo tão simples. Sou a complexidade mais simples que existe. Mas ninguém se preocupa em traduzir-me. Ninguém se ocupa em ouvir-me, mesmo que não tenha voz forte o suficiente para ser ouvida em meio a tal balbúrdia. Padeço de muitos males, o pior deles é o pavor deste vazio que me consome. Será eternamente assim? O silêncio trás um estrondo em si. Não consigo me guiar por estes caminhos, pois não foram por mim escolhidos e levam-me a lugares que não queria ir. Se desobedecer estas estradas, se dirigir na contra-mão da história, pode ser uma possibilidade. Mas o tempo passa, rápido e atroz, Chronos devora seus próprios filhos. É impossível fugir ao tempo. Ele não teve o seu poder de cura em mim. Somente abriu novas feridas entre aquelas que já sangravam. Minha mente foi dividida entre aquilo que me transformavam e o que eu era. E desse ser que era, não me lembro. Ficou enterrado durante décadas e padeceu de asfixia. Agora não há mais como ressuscitá-lo, talvez com alguma poção mágica, que possa dar vida aos mortos, mas é perigoso ressuscitar aquilo que o tempo enterrou. Assim pode ser mais fácil compreender este texto, um muro de lamentações, por um passado roubado, por um futuro distante, por uma história transformada. Nada do que sou é o que era. O que serei: nada mais do que sou agora. Hoje sou nada, o que serei: nada. Algo sem valor algum. Posso enumerar meus defeitos, mas não posso corrigi-los porque já fazem parte de mim. O que sou e que não compreendo. Entendo que quiseram fazer de mim algo nobre. Mas não foi o que me tornei. Sou como a espada a qual não se pode dar o corte. Pode se limar eternamente. Produzida do mais puro aço. Mas se não tem corte, para que serve? Para enfeitar, como um prêmio numa prateleira ganho décadas atrás, e do qual não se recorda por que. Sou grata por tentarem guiar-me quando meus olhos não conseguiam ver. Mas agora que vejo, com assombro constato que tomei errôneos caminhos. Sinto-me consternada como quem está perdido. Onde devo ir? Seguir, sempre em frente, pois não há mais como voltar. Não serei nunca quem sou realmente. Tenho de aprender a conviver com o que me tornei. Este estranho com quem me deito todas as noites. Amá-lo (será possível?) e tentar compreender… Muito mais que só entender. Enfim, perdoar este inimigo que está dentro de mim.
Giordana! Que bom que voltou!
Saudades de você!
Oi, Giordana,
Obrigado pela visita ao “Abobrinhas”. Também gostei muito do seu blog. Vou virar um visitante frequente.
Abraços.
Estou tentando postar um comentário em seu último post, mas não consigo. Poxa, não é assim que se trata os visitantes…
Abraços.
Confesso que este texto lembrara-me de quem eu era. E assim como discordo de várias conclusões que o personagem exala de seu ser, eu tembém posso tentar concordar com algumas.
Mas estranhos os conhecemos ou apagamos de nossas vidas.
Bom texto.
Um envolvente abraço pra você.
Boa semana. se cuida.
:]