
Sob o som do saxofone
Giordana Medeiros
Amassou mais uma vez a folha de papel que retirara com violência da máquina de escrever. Recomeçou do início: “Carlos, meu irmão, estou escrevendo esta carta, pois tenho esperanças que ela chegue algum dia as suas mãos. Já me disseram que cartas de suicidas ficam com a polícia, e fazem parte do processo que averigua a causa mortis. Entretanto torço para que leia estas palavras antes de esquecer-me por completo.” Pegou o maço de cigarros, retirou um, colocou na boca e friccionou o fósforo na caixa, colocou a mão sobre o palito para proteger a chama até que acendesse o cigarro. Quando conseguiu, soltou a fumaça num grande suspiro. Releu o trecho escrito. Achou ruim e, novamente, formou uma bola de papel que foi arremessada ao chão onde encontraria uma dezena de outras similarmente escritas e também desprezadas. Não sabia ao certo o que queria escrever. Ele não desejava, na verdade, deixar um relato melodramático de seus últimos dias, nem acusar ninguém por sua escolha, nem mesmo deixar um testamento não-oficial, dividindo os escassos bens que possuía que quase se resumiam àquela máquina de escrever, com a qual escrevia seus romances. Aliás, o último não passara da quinta página. E não tinha nem ânimo de escrever. Sua carta de suicida não passava nem mesmo do primeiro período. Estava com um bloqueio criativo, nome pomposo para os mais validos; como era pobre, sofria na verdade de falta de sonhos e perspectivas. Ele não mais ansiava por nada. E sentia um vazio enorme. Era um artista desiludido diante da força massacrante da vida. Na verdade a arte é um vazio que alguém entendeu. A este vazio, essa solidão enorme frente à folha em branco, ele compreendia. Não a esta sensação de derrota, que percorria suas veias, como um veneno que tomava todo seu ser. Maculando os outrora sonhos, convertendo-os em desilusões. Queria dizer ao irmão, porque se escondia dele quando este o procurava. Desde criança escondia-se no guarda-roupa, no escuro, respirando naftalina, para poder estar consigo mesmo. Pois quando estava com Carlos, tudo era somente Carlos. Seus olhos claros, seu corpo esguio que não parecia nem mesmo suar. E sempre que ele se escondia de Carlos, sua mãe ralhava: “Não vê como ele gosta de você?” Ele era praticamente obrigado a gostar de Carlos, porque todos gostavam. Ninguém jamais esquecera Carlos. Mas ele, quando se escondeu definitivamente do irmão mais novo e do restante da família, foi esquecido, como um dos móveis velhos que recheavam a sala de estar da Bisavó Ricarda.
Agora estava disposto a se tornar novamente lembrado, pois afinal alguém teria de tomar conta do corpo que apareceria bem na hora do jantar. Atrapalhando, como sempre incomodou o seu corpo roliço, suarento, seu jeito acanhado e suas unhas roídas até a carne. Lembrava-se que quando sua mãe morreu, foi a última vez que vira Carlos, tiveram de dar um fim ao corpo, e dividir os móveis do início do século, outrora pertencentes à Bisavó Ricarda. Não quis ficar com nada. Lembrava-se que cada peça fazia Carlos recordar algo. Como aquele capacho antigo que ficava junto à lareira, ou aquele espaldar junto à estante. A cristaleira que mamãe amava. Não quis nada. Como também não exigiu o amor e a dedicação da mãe. Não quis nem mesmo ficar com os retratos. “Veja bem, moro sozinho num apartamento minúsculo, onde guardaria estas relíquias? E para quem?” Disse ao seu irmão, praticamente obrigou-o a ser guardião das memórias da família. “É um presente de casamento, terá todos os móveis e o casarão.” A família crescia, Carlos tivera dois filhos, que corriam enlouquecidos pela casa e pelo terreno amplo em que se localizava o “sobrado dos Ferreira” . A família dele era conhecida, seu avô e seu pai foram grandes jornalistas fundaram o maior jornal da cidade: “O diário do povo”. A fortuna que amealharam foi dilapidada pelos péssimos investimentos do pai e do avô, e o alcoolismo que marcou a vida de ambos. Como uma herança maldita. De herança ele recebera somente a facilidade com as palavras, e o profundo conhecimento de si mesmo. Sabia que Carlos ressentia-se de seu distanciamento. Mas tivera de estar longe do que Carlos era. E estar somente com o que sabia de si. Seu silêncio, sua vida medíocre e a insanidade de ser humano. Sentia-se mesquinho por furtar-se ao convívio dos demais. E tão incrivelmente minúsculo, por todos terem se esquecido tão facilmente dele. Agora ouvia o som do silêncio, o som de sua respiração, do seu coração pulsando e gritando: estou vivo! E a isso se resumia seu mundo. A simplicidade de ter de estar somente consigo. E quando se escondia de Carlos, fugia do abismo que separava os dois. O cuidado que todos tinham com a saúde frágil do caçula. E do desprezo que todos sentiam pela presença suarenta do filho mais velho, obeso, lerdo e melancólico. Carlos sempre chorava quando não o encontrava. Ele sentia remorso e ia ao encontro do irmão, abandonando seu esconderijo. Onde guardava os esqueletos de suas dores. E tudo que tinha estava naquele apartamento, até mesmo as baratas. Como aquela que corria desabaladamente para debaixo do rodapé, deixando a cabeça e as antenas de fora. Se Carlos visse, iria logo sugerir um dedetizador muito bom que exterminou os insetos de sua casa, “o sobrado dos Ferreira”, inclusive os cupins que estavam destruindo os móveis.
Havia a possibilidade de doarem o seu corpo para alguma faculdade, mais uma forma de humilhar-lo mesmo depois de morto. Agora ouvia o saxofone do vizinho, que era um excelente músico cuja fortuna não acompanhou seu talento. E a única mulher porque se apaixonou, abandonou-o por não conseguir viver com a escassez de luxo e dinheiro. Já ele, o escritor falido, seria lembrado pelo silêncio e ausência nas reuniões do condomínio. “Nem sabia que o apartamento 202 estava ocupado.” Diriam alguns. Ele só cruzava com poucos moradores, e vínculos, que se assemelhava a uma amizade, ele tinha apenas com o saxofonista. Um artista reconhece outro. São ligados pelo mesmo vazio. Dores que se encontravam. E se comunicavam. A música é a dor que se esparrama em som. A literatura é o sangue das feridas sobre o papel. E tais dores são irmãs e se reconhecem. Agora ele se preparava para seu derradeiro ato. “O corpo quer a alma entende…” O cadafalso já estava pronto, em breve sentiria a asfixia que finalmente faria parar o pulso frenético, que lhe lembrava a cada segundo que estava vivo. A história dele ficaria pelo avesso, como um de seus contos que restaram pela metade, esboços de vida que nunca saíram do papel. No fim não tinha medo do céu ou do inferno, mas “acreditava em anjos e porque ele acreditava, eles existiam”. Quando morresse um anjo com asas grandes, corpo esguio e cabelos loiros, tão loiros quanto os de Carlos, viria pegar-lhe a mão. E não se esconderia mais, pois seria finalmente achado. Como um tesouro escondido, um sonho que não foi sonhado, e que ficou como um plano que jamais chegou a ser. Ele poderia ter sido tanto, mas todo o foco concentrava-se em Carlos. Ele era esquecido, num canto, dentro do guarda-roupa, inalando naftalina e observando o trabalho das aranhas tecendo suas teias. O que ele era? O que Carlos era? O que são realmente os homens? O que verdadeiramente são, senão o que o impossível cria em seus espíritos ? Ele queria fumar mais um cigarro, mas o maço estava vazio. Procurou fumar os restos dos cigarros que transbordavam do cinzeiro. Ele tentou com obediência servil representar o papel de ser, mas lhe foi impossível. Pois não esteve jamais preparado para atuar nesta comédia que é a vida. Encarava a máquina de escrever, que exigia, que cobrava, mas as palavras fugiam. Ele não tinha idéia do que escrever. Pensou em resumir tudo num “adeus”. Mas achou muito cômico e desistiu. Imaginou tecer comentários sobre a dor que lhe afligia desde que Carlos nasceu, mas achou muito dramático. E todas as idéias eram descartadas uma a uma, como todos os seus sonhos que foram abandonados. Não se compreendia, nem a si mesmo nem aos sonhos. É difícil compreender-se. Como é difícil perder-se sem se achar. Mesmo que achar-se seja de novo a mentira que estava vivo. Ele estava vivo? E num suspiro. Porque não encontrava palavras para despedir-se da vida e do mundo. Talvez só do mundo, pois a vida já lhe expulsara muito antes, adiou a idéia do suicídio para alguns dias, talvez anos que se sucederiam vazios, melancólicos, sob o som do saxofone do vizinho.

Achei um texto nem tanto pesado como alguns. heheh!. Mas escuro e ofegante do personagem. Bom texto pelo sentido. E não é atoa da notícia que me contaras.
Desculpa alguma palavra.
Um envolvente abraço pra ti.
:]