
Despida das armaduras
Giordana Medeiros
Com um calhamaço de folhas numa mão, uma xícara fumegante de chá em outra, Alanis tentava decorar as falas de sua personagem na série Weeds. Ela estava “descansando” da extenuante rotina de shows que havia realizado no ano anterior na Europa e Estados Unidos, e no início deste ano na América do Sul. Como não sabia descansar sem se ocupar, resolveu investir em sua carreira artística. Na realidade ela adorava atuar, e sua evolução como atriz era notável, e novos convites para que atuasse chegavam a todo momento. Depois da médica Audra Kitson, um novo papel já estava programado. Agora como uma garota com problemas alimentares. Esse lhe apavorava, tendo em vista ela mesma já ter sofrido com tais problemas. A anorexia era um fantasma para ela, precisava expurgar-lo, nem que fosse interpretando na ficção algo que foi tão real em sua vida. Ela se recordava da dor que a doença lhe causara, as feridas que deixou em seu espírito, e ela não sabia se estas já haviam cicatrizado completamente, mas ela se aventurava. Na realidade era um desafio, e ela adorava se ver desafiada. E lançava-se de cabeça numa aventura. Ela organizaria, inclusive, uma maratona para beneficiar as pessoas que sofrem de transtornos alimentares. Ela mesma correria a maratona, agora que estava curada, queria ajudar quem também sofre com este mal. E havia ainda o livro que estava escrevendo. Ela tinha múltiplos talentos, e como uma boa geminiana, tentava explorar todos de uma vez só. Agora pensava se seus fãs apreciariam seu trabalho como a médica Audra Kitson, ela se dedicava ao máximo. E queria, na verdade, ver a reação de seus fãs ao assistir a série. Será que teriam uma boa impressão de seu trabalho? E eram tantas falas, pois ela estaria na maior parte dos capítulos desta temporada. Ela sempre se lançando aos desafios…
Alanis havia sofrido muito com o fim do relacionamento com seu ex-noivo Ryan Reynolds, que foi acompanhado de perto pela mídia sensacionalista. E durante este período, compôs as músicas de seu último cd, Flavors of Entanglement. Ela sempre usou o trabalho como uma maneira de escapar da dor. Mas esta nos persegue insistente, há momentos em que ela nos alcança, e lágrimas brotam em nossos olhos, contudo ela não queria mais chorar. E nem se entregaria à dor. Reuniu todas as forças que possuía e superou todo o sofrimento. Estava muito feliz com seu novo namorado. Ele, um ativista ambiental, despertou-lhe o desejo de proteger o planeta. Ela se dedicou a campanha da Earth Hour, uma hora em que todos deveriam deixar de usar energia elétrica, um protesto contra o desperdício e a poluição do planeta. Sempre foi ligada a causa ambiental, muitos dos seus amigos já se empenhavam na proteção do planeta. Foi mágico descobrir a floresta tropical e estar com os índios, o que fez quando esteve em turnê pela América do Sul. Alanis estava ligada a diversas causas beneficentes, ela também ajuda a reconstruir as cidades destruídas pelas tsunamis na Indonésia. Foi assistir de perto a superação daquelas pessoas com a vida marcada pela tragédia. E tanto os índios quanto as pessoas da Indonésia estavam tão felizes, viviam uma vida de tantas restrições, mas conseguiam sorrir, com a pureza que é comum àqueles de bom coração. Ela amou nadar com os botos no Rio Amazonas, bem como, visitar as crianças da Indonésia e ajudar, nem que seja com um pouco, diante de tantas dificuldades.
A vida presenteava-lhe a todo momento, e ela não mais diria não à ela. Gostava de pegar seu carro e dirigir pela auto-estrada, bem como o fazia com sua moto, para sentir o vento em seu rosto. Ela sempre se entregava ao novo. Estava aprendendo a jogar capoeira, uma luta dos escravos brasileiros, que lhe encantou ao visitar o Brasil. E fazia tanto, por que queria sentir o mundo, ela era uma cidadã do mundo e sabia da responsabilidade que adquirira por sua posição de destaque nele. E consciente de seu dever, se lançava aos desafios. Agora deveria decorar suas falas para poder atuar com maestria em mais um episódio da série Weeds. Havia rumores que deveria aparecer nua em cena, mas ela não temia, afinal era consciente de seu corpo, não se envergonhava dele. Ela finalmente convivia bem com o que era exterior e interiormente. Se tivesse que aparecer nua não seria algo inteiramente novo. tendo em vista ter estrelado um videoclipe totalmente nua. Thank You é lembrado até hoje pela coragem que teve de deixar-se isenta de qualquer proteção, mal sabiam que as roupas não são a única armadura que possuímos. Ela não se constrangia em estar nua, não mais desde que superara os problemas com a anorexia. E tudo que ela queria era ajudar àqueles que também sofrem com distúrbios alimentares, mostrar que não estão sozinhos, e que há cura para tal dor. Olhou o relógio e percebeu que deveria apressar-se, dentro de minutos deveria ser maquiada para aparecer em cena. Leu mais uma vez as falas, tinha uma memória muito boa, afinal para decorar tantas letras, das músicas que compôs durante toda carreira, somente uma memória aguçada e profissionalismo. Tinha prazer em tudo que fazia, estava feliz com seu trabalho, com tudo que havia feito, e, ao olhar para trás, não guardava decepções ou mágoas. “Tive que cruzar todo este caminho para chegar até aqui.” Pensou, feliz por ser tudo aquilo que imaginava ser. Poucos alcançam tal nível de realização. Ela era privilegiada.
Bateram na porta do camarim para informá-la que deveria ir para a sala de maquiagem. Terminou seu chá. Arrumou o script, tomou fôlego: estava pronta. Observou seus cachorrinhos que brincavam um com outro, afagou-lhes a cabeça. Se tivesse filhos seria uma mãe tão dedicada quanto o é para seus filhotes. Mas o desejo da maternidade, não lhe pressionava. Não se sentia obrigada a fazer mais nada, fazia tudo por paixão. E por isso estava tão feliz. Saiu do camarim, seguida por seus filhotes que lhe acompanhavam sempre. Na sala de maquiagem, foi acolhida com carinho pelas funcionárias. Ela sabia que ninguém mais lhe exigia nada, além de sua própria consciência, porque tinha uma tendência muito forte ao perfeccionismo. Ela tinha de dosar sua própria vontade, pois sempre exigia o melhor de si mesma. E isso era na verdade seu “calcanhar de Aquiles”. Esse perfeccionismo que lhe levou à anorexia, e outros problemas de cunho pessoal. Deveria se dedicar, mas dosando seu entusiasmo. E ela estava aprendendo a fazê-lo com o acompanhamento terapêutico. Superava seus desafios dentro de suas possibilidades, não tentava mais fazer algo que estava fora de seu alcance, também não mais o exigia dos outros. Muitos conflitos surgiram dessa vontade que os outros agissem com o mesmo entusiasmo que ela. Agora ela tinha consciência de si, dos outros, e do que ela representa neste mundo. Enquanto tivesse certeza disso, sabia que seria muito feliz. A maquiadora informou-lhe que havia terminado, e foi chamada a atuar. Quando foi anunciado o início das gravações sentiu-se protegida com suas armaduras e livre como um pássaro novo que aprende a voar.
Parabéns!
Muito bom!
Uma boa fase da Alanis.
E de todos os artístas que tive a oportunidade conhecer um pouco ou melhor, ir a fundo, o dela foi o que mais me cativou na época. Lembro que até tinha me emocionado na época JLP.
Legal.
:]