
Quando fui outra
Giordana Medeiros
Hoje passei o dia relembrando, é que encontrei uma foto que me fez recordar tantas coisas… E sei que me espelho em Proust para seguir vivendo, pois também estou em busca do tempo perdido. Tempus fugit. Minhas memórias começariam com estas palavras. E uma menininha de onze anos, sempre tão sozinha… Aquela garotinha que tenho vontade de aninhar em meus braços para que não sofra… Mas sei que é impossível poupá-la da dor que irá sentir. Ela segue numa madrugada fria de junho, com as mãos nos bolsos do jeans surrado, tanto quanto o all star companheiro de tantos passos. E essa menininha tão frágil, irá enfrentar diversos perigos, e se fortalecerá com as feridas em seu espírito, e lutará contra males da alma, que lhe furtarão quase duas décadas, em que ela esperava um momento que fosse seu instante. Mas era tudo um sonho. E ela só descobrirá isso se passar por todos esses percalços. No fim estará tão sozinha quanto nos seus primevos dias. Só que com mais experiência, cicatrizes, e uma bagagem enorme de sofrimento. Naquela manhã fazia tanto frio. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.” Era o que dizia a canção que tocava no walkman que levava consigo. Onde estão aqueles dias que me abandonaram por completo? Nunca mais houve uma manhã tão fria… E a música ficou eternamente gravada em mim. “O que você vai ser quando você crescer?” Acho que era feliz, não sei, eu tinha um futuro pela frente e imaginava estar trilhando meu sucesso. E só erigi os muros da minha prisão. Agora estou enclausurada por estas lembranças. Se pudesse ter agido de forma diversa… Poderia ter procurado vias menos doloridas, e ter aproveitado mais a infância que se foi, a juventude a qual virei as costas. Hoje tenho tanto remorso. De tudo que poderia ter sido, e que não sou. Tenho tanto a lamentar. Meu sofrimento é ter perdido tanto tempo. Poderia ter me poupado de toda dor.
Se eu pudesse dar as mãos a essa garotinha para guiá-la pelo caminho certo. E soprasse-lhe ao ouvido as escolhas corretas. Por que óculos tão grandes? Por que se furtar ao convívio das pessoas? E que faz escondida atrás desses livros? É sábado! Sempre leva consigo um livro, por que a literatura é um esforço para tornar a vida real. Sua vida é um punhado de sonhos que rega com as lágrimas de seu sofrimento. Nunca se deu conta que não era de Dante, Cervantes, Shakespeare, Machado de Assis ou Kafka que sentiria falta no futuro. Eram tão poucos seus companheiros, nunca foram realmente amigos, pois os anos os levaram como o vento que leva aos poucos as dunas da praia. Eles se foram, mas deixaram sua marca em mim. Recordo-me deles, todavia seus rostos estão sumindo de minha memória, pois o tempo é na verdade uma borracha que vai apagando nossas histórias. Associava músicas a minha vida. Continuo associando, e sempre há uma música que interpreta plenamente todo sentimento de um momento. Conheço-me, mas estou sem mim. Aquilo tudo que era meu, meu futuro que me parecia tão mágico, a expectativa de uma vida brilhante, tudo se perdeu, no reboliço de uma história que ficou pela metade. Não fiz as escolhas certas, perdi-me em sonhos que não eram meus. E fechei os olhos ao que realmente gostava. Fui tola e leviana em minhas decisões. Por isso se pudesse guiar essa menininha naquela manhã fria de outono, eu far-lhe-ia seguir por um caminho diverso. Onde sei que seria muito mais feliz. Ela faria aquilo que gosta realmente, seria um tanto menos exigente consigo mesma. E perdoar-se-ia por ser tão diferente. Ela era uma menina que tinha urgência de viver. Sempre fiz tudo aos atropelos. Tola. Sei que fui… Sei que sou… Mas sou o produto de uma vida de desenganos. Existo sem que eu saiba. E morrerei sem que o queira. É isso o que tenho a dizer sobre meu tolo coração. Sobre minha existência abjeta. Talvez seja sempre melhor aquilo que passou. O presente é a sensação de um passado que desejamos viver novamente. Futuro? O que há mais para se viver? Não desejo que chegue o futuro, mas que o passado retorne.
Para Pessoa “o mal verdadeiro, o único mal são as convenções e ficções sociais que se sobrepõe as realidades naturais”. Eu sempre fui avessa às convenções sociais. E passei a vida lutando para me manter autêntica, seguir meus próprios conceitos de moral e ética. A sociedade repudia o que é diferente, o que não compreende. Teme aquilo que não se subsume ao que é convencional. Eu sempre fui discriminada por ser o que sou. Ninguém me compreendia, não tinham idéia do que eu sentia. E me excluíam do convívio social. Sou uma caverna inexplorada que guarda milhares de seres desconhecidos. Guardo tantas descobertas em mim. Não há quem me desvende. “Nasci em num tempo em que a maioria dos jovens havia perdido a crença em Deus pela mesma razão que seus maiores a haviam tido – sem saber porquê.” E perdi a crença em mim mesma. Via-me de modo diverso dos demais e meus sonhos também não se pareciam com os dos outros. Eu nunca aceitei a divindade completamente e não soergui a humanidade como sucedânea de Deus. Sou cética, mas temo a força da fé. Na verdade nunca soube crer em Deus. Como não sei me fazer entender pelos demais. Sou tão confusa e incongruente… Creio que amar-me é ter pena de mim. Como tenho pena da garotinha indo para escola naquela madrugada fria de outono. Sei que não pode me escutar, que só a vejo na lembrança, não sinto o frio que lhe eriça os pelos, mas recordo-me de seus passos. Lembro-me que na escola tive as piores experiências sociais que se pode viver. O fato “é que sempre era outono no outono. E o inverno sempre vinha depois fatalmente. E só há um caminho para a vida, que é a vida.” O que parece não dizer nada sempre diz alguma coisa. O que quero dizer é que ela não siga pelos caminhos que segui. Neste outono, ela completa doze anos. E não haverá comemorações, seu único presente será a presença na folha de chamada. Quero que ela discirna entre o real e o sonho para que jamais venha confundir-los.
Sonhos são perigosos, são desejos tão profundos que podem misturar-se à realidade. Eu sei. Tenho algo que aquela menina, tão desajeitada, não tinha: experiência… Lembro-me das palavras que ela disse a si mesma nesse dia, que “viveria em seus sonhos que é a realidade que desejava, e a realidade seria somente o sonho, o pesadelo que tinha de viver quando estava acordada”. Foi quando o sonho que não era mais sonho se revoltou e tentou tomar de assalto a realidade. Foi uma confusão sem tamanho. Não compreendia mais nada, pois não tinha idéia do que era real. O que é real? O que eu queria ver ou o que meus olhos me mostravam? Os meus olhos me mostravam o que queria ver, ou eu interpretava os fatos de forma distorcida? Foram quase duas décadas perdidas nesse dilema. Hoje estou curada do sonho. Foi duro, mas me desvencilhei da realidade imaginada. Tenho de viver o que é imposto a mim pela vida. Não posso conformar o destino aos meus desejos. E decidi viver, a vida, o tangível. Mas foi sofrido desvencilhar-me do sonho. É tão bom sonhar. O absurdo, o improvável é comum. Entreguei-me ao sonho, pois desconhecia os perigos de se sonhar. E aprendi. Mas foi difícil, tenho de dizer. Só se aprende pelo meio mais difícil. Se pudesse contar a ela o que terá de passar, para que possa finalmente se encontrar. Ela está perdida. Num mundo em que ninguém poderá entrar por anos. Ninguém somente ela conhecerá este sonho que assumirá o controle de sua razão. Quando ela acordar, lamentará sua tolice. Quem se entrega ao sonho e recusa a realidade, pode ter felicidade, mas esta é irreal e passageira. E somente duas décadas depois, quando finalmente despertar, ela se dará conta disso. Se ela pudesse me ouvir… Chutando as pedras no caminho e sonhando, lá se vai ela, para longe, longe da realidade.
Interessante a forma de pensar sobre o contexto.
Mas nada sou dentro.
Bom texto.
Um envolvente abraço pra ti.
se cuida.
:]