As Pessoas da Sala de Jantar
Giordana Medeiros
O que está sob as aparências? O que se esconde sob o manto da hipocrisia? Um casamento frustrado? Filhos que não serão felizes um momento sequer em seu destino traçado em linhas tortas antes deles nascerem? Será que minha típica família burguesa poderá sobreviver a todos estes questionamentos, que nunca foram feitos por puro medo? Como poeira, estas questões vão se acumulando sobre os móveis, sobre as pessoas, sobre o mundo. Toda uma realidade escondida, sob o peso de perguntas nunca antes feitas. E respostas que não precisam ser ditas. Uma silenciosa guerra à mesa de jantar. Como se nenhum dos que compõe esta cena se conhecesse realmente, embora convivamos diariamente e tomemos parte das aflições uns dos outros. Que tal solicitarmos a um Deus de madeira oca que nos traga uma harmonia que nunca existiu? Somos uma família? Ou pessoas estranhas vivendo realidades inventadas? Talvez possamos nos encontrar em algum consultório psiquiátrico onde curemos nossas doenças ou nos libertemos deste sentimento que nos corrói por dentro, tornando-nos mais vazios a cada dia.
“Ave Maria, cheia de graça, concedei-me uma paz que não existe, dei-me esperança que não me alcança, fazei-me boa como nunca fui… E abençoe minha família, Amém.” Estamos vivendo. Você sabe… Mas os dias já não são para sempre… E “o futuro não é mais o que era antigamente”. Por favor, não desista de mim. Eu que vivo este pesadelo de náufrago, isolada numa realidade que não me concede saída. Deixe-me sonhar que já não posso. Essas palavras mordazes, ditas entre sorrisos, que machucam tanto. Somos tão diferentes, tão díspares, como podemos ser uma família? E os retratos nas paredes? Quando fomos tão felizes? Já nem me lembro mais… Foi. Escorreu entre os meus dedos e não pude reter. No fim, resta-nos um silêncio dolorido, em que aceitamos desculpas que não foram proferidas. E continuamos seguindo, mas sem saber bem por onde.
Será que um dia já me perceberam verdadeiramente? Ou apenas quando pedi socorro, debatendo-me, afogando-me em ilusões, compreenderam o quanto sofria? Então engoliram suas culpas. Todos temos de “engolir sapos”. Aquele sentimento engasgado na garganta que nos momentos de raiva fere imensamente. Como estilhaços de uma bomba que ferem quem não queremos ferir. “Se você engravidar filhinha, será um cataclismo na família, e a família é o mais importante, não?” “Se rezar todas as noites Deus a amenizará de todos os seus pecados e faltas” E esse estranho ressentimento que me inunda o espírito também diminuirá? Acredito que nunca fui boa o suficiente. E quando já não tinha mais onde me sustentar tudo ruiu sobre mim. Passei quase uma década procurando saber onde errei. No fim, foi uma série de erros. Todos erramos.
Agora nos sentamos à mesa e engolimos nossas dores. Sorrimos amarelo e não conversamos sobre o que realmente dói. E um gosto amargo se mistura ao sabor do filet mignon do almoço: “– uma delícia!” E nossas mágoas, e nossos preconceitos e nossa imensa dor? Onde escondemos tudo isso? Sob nossas máscaras sorridentes de família feliz que apresentamos a nossos amigos falsos, a toda esta sociedade hipócrita fundada em aparências. Por que nos impõe este peso tão grande de sermos felizes? E se não o formos? Se temos de suportar nossos fracassos, como nos apresentaremos aos outros que nos cobram sucessos inalcançáveis como bom emprego e corpo atlético? “Filha minha não será mãe solteira.” Até onde podemos nos olhar sem enxergar nosso lado mais sombrio? Uma aflição que se sobrepõe ao amor. É tão difícil amarmos uns aos outros quando já não nos conhecemos mais.
“Quando chegar, tranque o portão. Protegemos a quem amamos.” E vivemos amordaçados, temerosos, pois desconhecemos àqueles com quem vivemos. Todos sob as máscaras que criamos para nos proteger uns dos outros. “Espere-me na escada” que leva ao céu ou ao inferno, o que estiver mais próximo. Uma explosão de rancor que transborda em minha alma. Mas nem eu mesma sei realmente o porquê. “E as pessoas da sala de jantar? Estão preocupadas em nascer e morrer.” Não enxergam a sua volta, tão ocupadas em seu mundo mesquinho. Míopes, só vêem o que está adstrito a sua pessoa. Somos escravos do nosso egoísmo. “Passe-me o feijão, sim?” E aquela cadeira vazia? Quando será novamente ocupada? Não está faltando alguém? Por que ignoramos este detalhe ou fingimos que o desconhecemos? “É acertado previamente não se falar assuntos desagradáveis à mesa”. Quando, então, apresentaremos todas as nossas queixas? Se é vedado à palavra? Se é proibido discutir aquilo que realmente nos aflige? Quero falar de todo este sentimento que me entope, que me ocupa em toda minha capacidade e, ao final de uma década, já não há mais espaço em mim onde aprisioná-lo. Mas enquanto continuarmos mudos, saboreando nossas mágoas, sorrindo falsamente uns para os outros, jamais tomaremos real conhecimento de nós mesmos.
“Você sabe quem sou? Você sabe quem realmente sou?” Sou um fantasma, uma sombra que se esgueira pelos cantos a procura de uma luz que não pode gerar. E está tudo tão escuro será que percebe? Creio que não há luz no fim do túnel. Só o som de nossas acusações reverberando em nossos espíritos. Pode ser verdade, mas quem tem coragem de provar? É melhor nos escondermos sob os escudos da aparência para que todos apreciem a estabilidade de nossa família, tão feliz nos retratos. E na realidade há sempre uma sombra caindo sobre nós. Polidamente nos sentamos à mesa e comemos nossos legumes. Quando na verdade queremos gritar: escutem-me! Eu sofro! Nós sofremos! Enfrentamos uma guerra diária sem pegarmos em armas, que deixa tantos feridos quanto uma guerra real. “Mas feche a janela que vai chover, e saiba: amo você”. Sim, sob as cinzas da dor há ainda uma brasa incandescente de amor. Um resquício de alegria, um momento em que fomos verdadeiramente felizes, uma semente de esperança. E é esta esperança que nos sufoca, que nos impele, todos os dias, a encontrar algo que faça valer à pena. E, no final, sempre encontramos.

Que belo texto Gi.
Logo no título já saí cantando (óbvio) … e depois , pra minha alegria, pude cantar, nem uma, nem duas … mas várias músicas da legião urbana. Como não gostar?
Tu me surpreendes … adornas este blog com pensamentos belos, pensamentos fortes, densos, assim … meio Caio, meio Renato Russo, meio Clarice L. assim meio …. tu!
“Só o som de nossas acusações reverberando em nossos espíritos.”
Ainda por cima completamente musical … é sonoro.
Parabéns!
Belo texto. Adorei.
Bjs
Elis.
Imaginei-me à mesa observando meus familiares mascarados pela própria dor tentando fugir de si mesmos. Mas logo vi que cada um deles pensava o mesmo referente aos outros, incluindo-me na observação.
Uma verdadeira obra sentimentalista.
Não encontrei motivos pra não gostar.
Beijos!
giiiiordana!
menina, quantas saudades de você!
quantas!
espero que esteja bem, garota!