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Ensaio sobre o Monte Olimpo

Giordana Medeiros

1.Martha

A noite cai lenta sobre nós. Somos muitos nesse apartamento, perdidos num cubículo em trevas. Tateando as paredes como loucos em busca de uma saída para este labirinto. Eu me envolvo nessa aura de desespero, e mantenho fixos meus pés no chão. Sou a que idolatra a razão. E me mantenho lúcida mesmo que o desespero se aproxime. Mantenho em ordem neste recinto, lavo os pratos, limpo os cinzeiros. Varro a sala e arrumo os quartos. Em um deles Rodrigo se mantém ausente do grupo, se exila frente ao computador, conecta-se com o mundo e desconecta-se da vida. Eu quero pensar que este cárcere que nos impomos é temporário, que poderemos sair ilesos, mas a cada dia um pedaço de mim é arrancado. Sou Prometeu acorrentado, e meu fígado é dilacerado pelos abutres porque conferi o fogo à humanidade. Eu conferi a luz. Sou a razão. Atenas então. Seco os pratos devagar enquanto os demais tentam se encontrar. Eu me encontrei. Nos livros que leio, nas cartas que escrevo e recebo. Sou o alicerce deles. Eu sei. Eles sabem. E todos sabemos como é horrível, duro e inapelável viver.  Mas sobrevivemos e adaptamo-nos. Sei que Luana tem medo e por isso se esconde nas estrelas que observa.  O infinito lhe completa. Ela quer o universo e não consegue compreender que estamos todos presos. Ela está presa a mim e aos outros. E mesmo em silêncio sei que sofre, quando observa as estrelas no universo infinito e na Terra tudo a limita. Limpo a lente da luneta para que ela observe melhor o que lhe é exterior, mas o interno é-lhe totalmente desconhecido. Ela bebe vinho e conversa sobre constelações, via lácteas, uma infinidade de galáxias. E todos concordamos em respeitar seus sonhos. Mesmo que seja clara a desconexão com o mundo. “Estamos presos. Eu, você e os outros”. Foi o que lhe disse Moisés. Ela mordeu os lábios e fechou os olhos para o real. É talvez a mais insana de nós. É que sua esperança é tão grande que a afasta do mundo. Eu tenho a lucidez de perceber o assoalho riscado e que estão todos loucos. Rodrigo, Luana, Moisés, Fabrício, Cecília, Adélia, Julius, todos perderam a razão e dependem de mim. Sou eu que cozinho e limpo. Eles são os sonhadores, Julius é aquele que escreve histórias. E conhece todos os escritores. Ele se prende ao manuscrito que escreveu e lê passagens que considera geniais de sua obra. Mas ele sabe, todos sabem que ele não é genial.  Sirvo o café amargo para Moisés enquanto ele fuma e conversa sobre as questões políticas do país. No sofá Cecília acaricia os cabelos de Fabrício, Adélia borda, ela que fia a linha da vida. Parca de nossa existência.  É Clotos. Eu desvendo as almas de todos. Sou eu que confiro a parte que cabe a cada alma, sou Láchesis, mas quem será Átropos?  Quem tem nas mãos a tesoura para dar cabo de nossa existência mesquinha e sem sentido?  Tenho a firme impressão que não posso viver de minha tristeza. Eles também não podem, também não podemos viver de nossas alegrias. Nem do que apenas se sucede. De que então viveremos? Das estrelas de Luana? Do exílio de Rodrigo? Do amor de Cecília e Fabrício? Da política de Moisés? Dos livros de Julius? Ou apenas do silêncio profundo de Adélia, que se detém apenas a bordar e bordar? Eles são tolos sonhadores. Eu não posso deixar que se percam por isso lhes dou o norte. Eles não me agradecem, mas sei que necessitam de mim. Não lhes falto. Sento na poltrona e vigio Cecília e Fabrício. Enquanto isso Julius novamente relê um de seus contos, enquanto isso fuma um cigarro, derruba a cinza no chão. Levanto-me e pego o cinzeiro. Sou eu que conservo a limpeza.  Pois a casa é minha também. Eu vivo aqui, nesse apartamento, onde divido a minha vida com sete conhecidos que me são totalmente desconhecidos. Oito estranhos. E conversamos como se falássemos a nós mesmos. Ninguém escuta, mas falamos. E falar é como extrair um dente. Pois o que temos dentro de nós está encravado na carne.

2.Julius

Minha vida foi dedicada aos livros. Leio muito, crio histórias. E elas são na verdade minha própria vida. Escrevo a maior parte do tempo sobre mim. E sei que o que tenho dentro de mim é real aos outros, nos parecemos em todos os sentidos. Acabo escrevendo para contar aos demais o que se passa em nós, porque assim posso talvez me compreender. Acabo escrevendo para não gritar. E tudo em mim é esta história sem fim. Um livro em branco que se escreve com sangue. “Há tanto sangue em meu derramado coração”. É por isso que escrevo. Mesmo que tenha a firme convicção que acabo por não agradar a meus sete ouvintes. Mas quero que me escutem. Preciso ser ouvido. Por que sei que não existo. Sou o espectro pensante que passeia pelo apartamento. Por favor, me escutem que quero ser ouvido. Minha pena foi carregar esta dor dentro de mim. E serei crucificado pelos meus irmãos. “Pai afasta de mim este cálice. Mas seja feita a Tua vontade e não a minha.” Estou percorrendo a minha Via Crucis. Meu espírito flagelado excede-me e transborda. E assim nascem minhas histórias. Já tentei falar sobre isto aos outros. Mas estão todos perdidos. Não nos encontramos quando nos batemos por este apartamento. Martha que enxuga os pratos é geralmente a única que me escuta. Mas receio que não aprecie meu manuscrito. Mesmo assim ela me escuta. E eu preciso de ouvintes. Sinto-me só, nesse apartamento cheio de pessoas. É como se fossemos estranhos presos tentando nos compreender, sem conseguir desvendar nossos espíritos. Não nos conhecemos. Creio que todos sabem disso. Acendo um cigarro, isso me acalma. Estou desesperado, e ninguém me ouve. Sei que vou enlouquecer se não conseguirmos nos evadir desse apartamento. Talvez porque eu pense demais ou sonhe demais, o certo é que não distingo entre a realidade e o sonho, o sonho é a realidade que não existe (mas que escrevo para que exista), assim intercalo entre as coisas que não podemos tocar com as mãos, ou pisar com os pés, são estas coisas fluídas, belezas da imaginação, com as quais construo minhas obras. Este manuscrito em minha mão, com folhas amassadas que a ninguém interessa é minha trajetória de sonhos, que tempera a minha existência. Martha senta em minha frente com uma xícara fumegante de café em suas mãos, tento lhe falar sobre meu livro. Mas ela se esquiva de mim com a desculpa de pegar o cinzeiro. Minha realidade a todos afugenta. Não querem saber de mim. Nem de si próprios porque a si também desconhecem.  São estranhos a si próprios, eu talvez seja o único que se conheça, talvez o que apenas preserva sua sanidade. O único que conserva a lucidez nesse harém de loucos. Não posso vê-los se perderem ao desespero. Martha, com a vassoura nas mãos, varre, limpa, arruma porque talvez assim  preencha o vazio dentro de si. Ela também está perdida, e agarra-se a nós, como uma tábua de salvação. Não sei se sobreviveremos. Náufragos da sociedade. Os loucos justificam com lógica e coerência sua própria loucura, tenho dúvidas sobre a minha lucidez e a dos outros. Estamos presos, mas temos almas livres. E ela se evade de nós, alma liberta não retorna ao dono, ao mundo explora e ao corpo nunca mais volta. Ninguém conhece o outro, já dizia Pessoa, porque se conhecesse, conheceria o mais íntimo e metafísico inimigo. Por isso creio ser melhor sermos estranhos, pois somos perigosos, feras selvagens defendendo seu território, ainda que seja um apartamento minúsculo onde se batem oito pessoas, estranhas, mas conhecidas, loucas, mas racionais, sei com que gestos cada um se mostra, exceto Rodrigo que não se mostra. Todos os demais se mostram, e tentam ser aprovados, mas desaprovo cada um. Não creio neles como não creio em mim.  Meu Deus, quem sou eu? A quem assisto? Quantos sou? O que é este intervalo entre mim e mim? Estou tão confuso. Sei que todos me vêem e eu os vejo? Ou será que são apenas facetas de mim que não existem realmente? Criei outros eus encarregados de sofrer o que sofro. Sou Zeus e dei origem aos demais Deuses deste Monte Olimpo.

 3. Luana

 O universo é meu mundo. Tenho todo infinito para viver. Viajo nas galáxias que observo pela minha luneta. Há uma imensidade de mundos inóspitos para desvendar. Observar a translação dos planetas. O mundo em que vivo é-me desconhecido. Mas o universo que trago em mim me excede. Todos desconfiam que tenho medo. Mas não temo, não mais, que não estou na Terra. Sou constelação de estrelas. Sou a Via Láctea, saboreio o leite do universo. Não podem me prender nesse apartamento, pois sou o infinito que não se pode reter. Lembro que gostava de me banhar na lagoa próxima a casa da minha mãe durante a noite, pois fazia uma cuia com as mãos na lagoa que refletia as estrelas. Assim podia pensar que as tinha nas mãos. Eu sou a garota que fugiu do cárcere sem precisar, nem ao menos, cruzar a porta que o tranca. Sou cometa errante, não podem me deter. Minha história está disposta no céu, são as constelações em que vivo. Ora sou Andrômeda sacrificada em função da arrogância de Cassiopéia, minha constelação mãe. Sou a mais bela das princesas Etíopes. E fui salva por Perseu. Outra ora sou Berenice que cortou as madeixas que agora brilham no céu. Sou todas as constelações. Sou Hércules e seus doze trabalhos. Brilho sobre a Terra, não estou sujeita as dores terrenas, sou luz.  Doris Lessing já dizia: “Somos todos criaturas das estrelas e das suas forças, elas nos fazem , nós as fazemos, somos parte de uma coreografia que de modo nenhum, nunca podemos pensar em nos separar”. E o universo dança ao nosso redor, tudo está em movimento. Nada está encarcerado como esses oito animais ferozes trancados num apartamento, temendo sair e enfrentar a realidade tão assustadora. Sou talvez aquela que conserva a razão. Pois vivo para as estrelas e não sou como os demais. Como Rodrigo que se conecta ao mundo estando totalmente desconectado dele. Ou Martha que tem necessidade de conservar a casa limpa e tudo numa ordem que não existe. O universo é o caos, ela nunca se dará conta disso. Julius escreve histórias e se perde dentro delas. Cecília vive para Fabrício e Fabrício para Cecília. Moisés e sua política utópica, de uma sociedade perfeita que jamais se concretizará. Ele é puro, a política, um mar de lama. Se ele tiver estômago terá de afundar nessas águas pútridas, sem se contaminar pela corrupção endêmica deste país. Adélia é a mais serena e estranha das mulheres, sempre bordando, talvez procure não se inserir na dança destes personagens. Por isso vivo para as estrelas.  Não há nódoa na luz pálida que me banha. Mesmo que Erídano banhe o céu com sua luz, as águas que circundam Hades não corrompem universo. Artemis matou o seu amado e colocou-o entre as estrelas mais brilhantes. É onde viverei, entre Órion e Sírius, pois quero viver o amor destruído, a dor da separação, o desespero da amante. E Apólo que tanto brilha pelas manhãs em que guia seu carro para trazer luz à humanidade, não mais cerceará o amor que trago em mim. Sou Artemis deusa da lua, da magia, da caça e vida selvagem e trago comigo meu arco com o qual jamais errei o alvo. Sou a mais pura e casta das Deusas. E me banho nas águas das fontes cristalinas. Sou a lua que ilumina a noite. O avesso de mim é Apolo. É ele que impressiona pela beleza e que se esconde durante a noite, no quarto conectando-se ao universo e abandonando-nos neste apartamento em penumbra onde nos batemos como loucos. Martha novamente vem limpar a lente de minha luneta.  Ela me abraça, procurando forças que não posso conceder-lhe. Esperança não há. Todos sabemos disso.

4. Rodrigo

Vivo em conexão com o mundo, pois mesmo preso não quero perder a ligação com a sociedade. Eu que lhes confiro luz. Sou Apólo. Em todas as manhãs ilumino o dia sobre meu carro dourado. Mesmo preso neste apartamento, não sou como os outros e não me misturo a eles. Não quero atravessar o liame entre a razão e a loucura. Os demais o fizeram. Batem-se por este apartamento, eu me conservo são neste quarto. E quando saio deste, é dia claro. Para observar a decadência moral dos que habitam comigo. São loucos. Deuses loucos, neste Olimpo inventado.  A exclusão que me impus, desta vida, desta realidade, esta ruptura que procurei, do meu contato com as coisas, e com estes que dividem a existência comigo, levou-me precisamente àquilo que procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar as coisas e pessoas, pois temia o contágio do mundo, e sabia da sensação dolorosa da vida. Mas para evitar este contato, isolei-me, e isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Coisas que não deveriam doer, me ferem como uma catástrofe. Confesso que errei no modo de fuga… Eu sei. E quando apareço os outros tentam me puxar para o convívio com o grupo. Não posso viver entre eles. Não sou como eles. “Meus hábitos são da solidão, que não dos homens.” Cito Pessoa.  O isolamento me esculpiu. Era rocha, ele foi o artista. Ele me talhou à sua imagem. E disso não posso fugir. Não sou afeito à vida social. Aliás, me aborrece sobremaneira, ouvir as dores dos demais. Não consigo ouvir Julius ler seu manuscrito amassado de imagens literárias de sua própria figura. Ou ver Martha limpar este apartamento, tentando impor ordem ao caos do cárcere. Por isso fico horas em frente ao computador, com meus amigos virtuais, que não são sólidos, são apenas seres de nicknames engraçados, que não sofrem. E me mantêm ligado ao mundo. Não sou como os outros que se batem neste apartamento. Sou talvez o mais lúcido dos que aqui se encontram. Sozinho sou capaz de criar respostas rápidas, de ser agradável e divertido. Mas tudo isto some quando estou perante a um outrem físico. Perco a inteligência. Somente meus amigos virtuais têm idéia de como sou realmente. Aqueles que convivem comigo desconhecem como sou belo. E vêem somente meu corpo físico.  Não têm idéia de quão belo posso ser. Na ponta dos meus dedos está a saída para a felicidade. A abertura de um mundo novo, que se encontra na rede de computadores mundial. Converso em francês, inglês e creio que assim posso entender os homens. Minhas noites em frente à máquina, que já faz parte do que sou, tornam-me mais humano. Mas não sou humano, sou um deus, deus grego como me nomeio nas salas de bate papo, onde converso com outros deuses sobre nossa existência divina. Somos todos belos, divertidos e agradáveis. Mas acho que a saída de tudo é se habituar a não ter paixões e ambições, impulsos, desejos, nem esperanças, a vida é limitada. E na internet você pode ser tudo. O que sempre idealizou, não precisa ser real, você é a ficção da existência. Você não existe mais do que em poucos caracteres.  Assim lhe conhecem, mesmo que não conheçam. Do que lhe vale o ser físico? Nada mais desagradável que apresentar-se sem a armadura do computador frente aos outros. Pois se dão conta o quão frágil você é. Você não é mais o deus grego. Mas um ser humano fraco e mesquinho. Uma figura patética e desagradável, em acordo com a vida, mas em desacordo com si próprio. Eu não sou o que seus olhos lhe mostram. Sou aquilo que descrevi na internet. Sou aquele ser agradável que conheceu, que lhe fez rir sobremaneira. Veja em mim não o que os olhos lhe mostram, mas o que o sonho deseja.  “Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos.” Como diria Pessoa. Veja em mim o sonho que a realidade é crua demais.

5. Moisés

Está escuro aqui, fumo mais um cigarro. Tento informar aos demais sobre a política de nosso país. E todos me dizem que sou um utópico. Já li Thomas More, ele idealizava uma sociedade perfeita, como Platão em sua República. Mas tenho fé no povo o que posso fazer? Creio que a população em breve tomará consciência de como deve se portar politicamente. Sonho com um país de governo honesto que irá proporcionar o verdadeiro crescimento de nossa economia.  Flutuo sobre este mar de lama que inunda nosso Estado. Sou Poseidon e comando os mares. Com meu tridente em punho ordeno maremotos, sou vingativo e instável. Temem-me os navegantes e oram a mim quando vão se aventurar em meus domínios. No Olimpo sou o irmão mais velho de Zeus. Julius, que adora a escrita, já eu idolatro a oratória. Sou um ser político. E minhas palavras são pela igualdade (ideal francês inalcançável), fraternidade (há como ser fraterno num país tão perigoso?) e liberdade (não de comércio como queria os liberais, mas de condutas, como quer a sociedade). Sou um ser de mente instável e liberta, as marés dirigem os meus dias. E as correntes marinhas me guiam, não tenho morada. Vivo em cada praia que os meus mares banham. Entre as vagas que molham meus pés, que resvalam eternamente em minhas mãos. Sou o oceano tempestuoso e o homem tenta me domar inutilmente. O homem e o mar. Relação de conflitos, como a política, onde as massas são domadas pelos políticos inescrupulosos. E vez ou outra está em voga mais um caso de corrupção. A relação de prestígio do governante eleito é totalmente demolida, para nascer um desprezo sem tamanho. Mas o povo esquece, dez anos no máximo, lá está de volta o político que se apropriou deslavadamente do dinheiro público. Dinheiro dos nossos impostos. E o povo perdoa. Uma população que se apieda frente a promessas de mudança. Mas na política não há calmaria como nos oceanos. Há apenas mares revoltos. Tempestades mortais. E novamente a tentação de ter tudo nas mãos, o dinheiro de todo um país, fará novamente o político se corromper. Corrupto eras, corrupto serás. Não há como mudar isso. Eu pretendo manter-me puro frente a tanta maledicência. Não vou me entregar à lama que inunda o governo. Serei o único a restar sem nódoas no espírito.  Sei que é impossível alcançar a perfeição. Não serei nunca perfeito, porque o repugnaria. O perfeito é desumano. Sou homem, sou carne, sangro. Sou, portanto, o retrato da imperfeição. Mas terei o currículo limpo, caso chegue a comandar algum Estado, ou mesmo criar normas que guiarão a conduta do povo. Sou probo, e me esmero quando se trata de ser honesto. Minha paixão não é o poder, mas alcançar um Estado onde todos os seus habitantes estejam satisfeitos com seu governo. Um Estado em que os mares vivam em calmaria, não esta tempestuosa política nacional, em que de tempos em tempos surge um novo escândalo envolvendo políticos e corrupção. Mensalões que intitulam nossos jornais, declarações vergonhosas, onde justificativas que seriam trágicas caso não fossem cômicas, nos envergonham de sermos brasileiros. Não vou entregar o pão pronto para o consumo, mas vou proporcionar o emprego, a educação necessários para o cidadão (verdadeiramente) poder comprá-los com o dinheiro do seu suor.  As crianças terão escolas públicas de qualidade, segurança para poder andar nas ruas sem preocupar-se com a violência (que é fruto da desigualdade social gritante em nosso país), saúde como requer um verdadeiro estado social. E a democracia, fruto da luta de toda uma geração, o poder se pronunciar sem temer represálias, será a carta de ordem de nossa sociedade. É isso que pretendo proporcionar quando conseguir domar o único mar que foge aos meus domínios: o mar de lama da política nacional. Martha me serve um café quente enquanto converso com Cecília e Fabrício. Fabrício se exalta, Cecília acaricia-lhe os cabelos. O amor os une, mesmo que sejam tão diferentes um do outro.

6.Cecília

Sou a mais bela dentre as deusas deste Olimpo, sou Afrodite, deusa da beleza de do amor. E apaixonei-me por Ares, Fabrício, que tenho no meu colo. Sou casada, mas espero que este, o qual acaricio, desconheça este fato. E minha vida é dedicada a esta ilusão que é o amor. Desconheço as fronteira de minha alma, mas com Fabrício estou pronta a explorá-la. Eu não sei se sou eu realmente, por que não me conheço. “Amar é cansar-se de ser só.” É minha covardia de ser como Luana, que ama as estrelas, ou como Julius que ama a escrita, ou como Moisés que se dedica a política ou pior, como Martha que não ama a ninguém e nada; ou ainda como Adélia que borda exaustivamente, sem pronunciar qualquer palavra.  É esta que mais incógnitas traz consigo, portanto, dentre os loucos desse apartamento é a ela que mais temo. A arte de Julius me comove. Mesmo que não seja tão genial como ele o prega. A arte consiste em fazer os outros sentir o que sentimos. Eu me identifico com o que ele escreve. É como se fosse escrito por mim, aquilo o que ele denuncia. E vejo em suas obras a tristeza de ser para sempre só. Mas eu tenho Fabrício, e sua paixão belicosa, a guerra de amar um homem cuja alma ferida de dor (ele que era um órfão) nunca soube o que é a maternidade. Sinto-me responsável por ele, creio que ele procura em mim a base que ele nunca teve. Moisés, conversa conosco sobre suas idéias políticas, Fabrício se exalta. Por que não podem simplesmente concordarem? Eu não tento fazer de mim a resposta para tudo, mas Moisés prega como se fosse o messias da política nacional. Não acredito que seja tão probo como o prega. Martha abraça Luana em busca de respostas que ela não tem. Nenhum de nós temos. Estamos tal qual loucos se batendo e se ferindo. Como se todos tivéssemos espinhos, não há como conversar sem ferir um pouco. Somos assim, a convivência é letal. Julius é um artista. Sei que a arte é uma maneira de esquivar-se de agir ou viver. Difere da vida. Enquanto a arte é a emoção intelectualizada a vida é a emoção volitiva. Que nasce da vontade, do desejo, da dor, da tristeza. A arte é uma maneira de fingir que não sente a dor que transcreve. Mas todos sabem que é o artista que sofre. Não há como se esquivar de transcrever em palavras a dor que sente. É como se na arte pudéssemos ser tudo que quiséssemos, ousar tudo aquilo que não ousamos, ter aquilo que não temos, e talvez jamais possuiremos. A arte é a fuga do espírito que excede o corpo.  Eu procuro conhecer e desvendar Fabrício esta é minha arte e minha ciência oculta. Digo-lhes: esta é uma tarefa mais árdua que um dos doze trabalhos de Hércules ou um enigma mais obscuro que o da Esfinge. Fabrício é dócil quando sabemos entendê-lo fora isso é arisco como uma fera acuada. E deve-se saber como tratar com ele. Sei que agora ele tem por mim grande amor, e isto é uma imensa responsabilidade para mim. Não quero decepcioná-lo, mas quero que me veja tal qual eu sou. Queria dizer-lhe sem que isso lhe ferisse: “não deposite em mim grandes esperanças. Tenho um marido, Hefesto, que desconhece nosso romance.” Não sou uma deusa caridosa, ao contrário, sou arrogante e mesquinha. O amor é egoísta, vai sabê-lo. A beleza nos torna um tanto envaidecidos de nós mesmos. Sou bela, sou o amor. Compreendam-me ou não, vocês vão se sentir dependentes de mim. O amor vicia, e sei que Fabrício está enamorado de mim como de uma droga. Estou aqui para satisfazê-lo. É meu e eu sou sua. Ares e Afrodite, o amor e a guerra que se unem. Porque amar é lutar contra um sentimento que lhe aprisiona. Talvez por isso suportemos estar juntos nesse cárcere, com estes estranhos que nos intimidam, cada um com sua idiossincrasia. E acima de tudo vemos o mundo deste Monte Olimpo. E em nada interferimos, apesar dos pobres mortais crerem em nossa intromissão. Somos apenas humanos, como vocês. Parvos humanos, desorientados, numa prisão auto-imposta. Quem nos conferirá a chave desta cela? Como poderemos fugir desta situação? Quero Fabrício junto a mim, mas me desfaço dos demais.  Como me desfiz de Hefesto, meu marido. Que se percam no mundo. Só lhes tenho simpatia. Mas o amor de minha vida é Ares, e nas batalhas estarei ao lado de meu amante.  “Mas também não é tudo assim escuridão e morte”. Já diria Hilda Hilst. Há dias claros, como a manhã que nasce. Difícil conciliar a manhã de fora com a treva de dentro. Mas devo fazê-lo. Abrir os olhos para Apolo em sua carruagem dourada.

7. Fabrício

Sinto-me estranhamente confortável no colo de Cecília. Amo-a é certo. Mas temo este amor que faz de mim prisioneiro. Não quero ser frágil. Não o posso que sempre tive de ser forte. Não tive pai ou mãe, fui criado pela vida. Tive de me fazer forte para enfrentar todas as guerras. Os ferimentos pelo meu corpo traduzem minha vida belicosa. Tive de matar um dragão a cada dia. Alimentar-me já me era uma batalha. Fui pobre toda minha vida. E tive de muito lutar para sobreviver. Creio que o que vivi não foi sofrimento. Por que mesmo que seja profunda a dor, não deve ser considerada mais que uma dor que temos. Sei que quando a sentimos nos parece infinita. Mas não há dor infinita, como não há ser humano infinito. Somos seres limitados e a dor também tem seus limites. É tudo uma questão de perspectiva. A dor do parto pode parecer imensa, mas logo que nasce a criança, a mulher não se lembra mais das contrações por que passou. As batalhas que venho enfrentando, apesar de parecem colossais, não são infinitas. São limitadas, e, após transposto cada obstáculo, estou pronto para mais um embate. Moisés tenta me fazer crer em seu “mundo perfeito” na sua Utopia, mas lhe desperto para a realidade do mundo. Eu sei o que o mundo realmente é. O que os demais nesse apartamento nem imaginam. São todos bem nascidos, tiveram quem os alimentasse e abrigasse. Tenho pena de suas idéias mesquinhas, de sua arrogância velada de serem bem providos enquanto, para mim a realidade mostra suas verdadeiras feições. Sou o desespero humano. Sou Ares o deus da guerra, Afrodite, que na verdade é casada com Hefesto, é minha grande paixão. Cecília pensa que não conheço seu segredo. Sei que fora deste apartamento conserva seu marido Hefesto, o deus do fogo. Mas de nossa relação, haverá de nascer Eros o mais jovem dos deuses, que despertará o amor nos homens com suas flechas, e aqueles que travarão guerras ao meu lado, Fobos e Deimos, o medo e o pavor. Não seremos uma família, que Cecília não abandonará jamais Hefesto, mas meus filhos hão de assolar este mundo, com o vício do amor ou com o temor que assombra os corações. Pavor, que é o mais próximo do desespero, minará a confiança dos homens. O medo, é um sentimento mais presente, a tudo tememos. O medo de nos vermos sós por toda vida. O medo de jamais conseguir ser o que se quer. O medo de errar, sempre presente em nossas escolhas. Medo e Pavor meus filhos mais queridos. Já Eros, vai enlouquecer os homens. O amor que é a renúncia de sua própria solidão. A solidão que não pesa em absoluto na juventude, vai maltratar nossos corações com o caminhar dos anos. Ver-se só é o pior pesadelo. De repente nos vemos sós, e esta é a visão mais abominável. Eu o sei que sempre fui só. Não tinha a quem amar nem como ser amado. Cecília mostrou-me a doçura do amor. Não sei como desfazer-me mais dele. Sei que as dores do coração não devem doer mais que as dores do corpo. Sei que não há sensação mais angustiante que possa doer mais que o amor, o ciúme  e a saudade, que possa sufocar mais que o pavor, que possa transmutar o homem como a cólera e a ambição. Mas não a dor que se compare a dor física. Aquela que não temos como controlar, que as lágrimas não curam (chorar por um amor é a ação mais digna a fazermos quando este estiver perdido), a dor física como a do parto, não dilacera o espírito, mas é quase insuportável para o corpo. Não menosprezo as dores do espírito, mas não há dor comparável a que o corpo físico nos proporciona. Sou Ares e estou entre os deuses deste Olimpo. Sei que os homens nos pedem tudo, mas não reconhecem que por eles já fizemos muito, como conceder-lhes o dom de sonhar. Eu que sempre fui órfão, nunca tive tal privilégio, sonhar não é para aqueles que têm de lutar pela vida. Sonhos, ainda que sejam impossíveis, são uma dádiva, é um dom que os deuses concedem aos humanos e que a aqueles não é concedido. Calo-me sobre o colo de Cecília, que me acaricia os cabelos. Em mim, o temor do abandono. Será que ela me ama mais que a Hefesto?

8.Adélia

Estou muito entretida com meu bordado para atentar para as pequenas guerras que se debelam neste cárcere. Dizem-me que sou Hera, mas não sou nem ao menos casada com Julius que se nomeia Zeus. Nem sou ciumenta, não me afeiçôo a ninguém, não sou como Martha que a todos abraça e afaga. Não me envolvo em devaneios como Julius ou mesmo Luana. Luana quer o infinito, Julius compreender o que lhe excede. Não me entrego a tais ilusões. Sou muito prática. Quero dar um ponto final a esta novela, abrindo a esta porta que nos encarcera para que todos possamos seguir as nossas vidas. Não compreendem que nós, humanos que somos, nunca nos realizamos. Não somos deuses e nem ao menos estamos presos neste Olimpo. Somos na realidade parte do manuscrito de Julius, que afirma ter nos criado, pois é real. Sou a que em silêncio ouve tudo a sua volta.  Tenho a percepção que somos meros personagens, Julius, o escritor que se intitula Zeus, é na verdade quem deu origem a esta novela. É hora de terminar este teatro, que se apresentem os atores, para o aplauso ou mesmo para a vaia. Reconheçam-se meros personagens do devaneio de um escritor. Em cena as facetas de um único homem, ele na verdade é um pouco de todos nós. Cada um dos deuses do Olimpo apresenta uma fraqueza humana. Julius tem todas. E a loucura de cada um é parte da insanidade de um só. Julius está sozinho nesse apartamento. Com seu manuscrito na mão, tentando evadir de sua realidade.  Sente os pés no chão, a barba por fazer e os olhos fixos na janela onde um pombo arrulha compassado. Sonzinho neste recinto é a você que impôs esta prisão, Julius. Acorde de seu sonho. Porque sonhar não é permitido aos deuses. Somente se quiser afirmar-se humano. Desperte escritor e reconheça a mediocridade de sua obra que mesmo assim lhe ultrapassa. É um ser mesquinho sentado na poltrona, com o cigarro numa mão, e as folhas amassadas do seu manuscrito na outra. Tentou criar alguém para compartilhar de sua dor. Nenhum de nós, a que concedeu deidade, existe realmente. Eu sou Hera e confesso minha inveja de não estar viva, como você, de não sentir as emoções que lhe afloram ao espírito. Só você pode ir até a cozinha, verificar o caos do apartamento, e que há muito tempo não se alimenta, e resolver tomar um banho (que também não ocorre com freqüência) para ir comer algo em algum lugar. Pode arrumar os livros na estante, desligar o computador sobre a mesa, tal qual faria Martha em sua racionalidade, e após o banho, trocar as roupas por algo limpo e seco. Agora envaidecido de si mesmo, de sua própria existência, coloca os sapatos, faz a barba e deixa o apartamento. Está livre pode ver? Saiu do exílio que se auto-impôs. Agora o sol fere-lhe os olhos. Apólo, em sua carruagem brilha sobre você. Prova da terra e voe, não aprendeu nada com Ícaro? Somente não tente tocar a carruagem de Apólo. Sente numa cafeteria e pede um expresso e algo para comer. E, pensando em suas criaturas, sorri de sua própria estupidez. Na verdade eram pedaços de sonhos, indivíduos imaginários, fruto do seu desespero, do seu temor. Não há prisão que lhe encarcere, pois em qualquer lugar em que estiver, sua mente se evadirá, como o faria Luana e seu universo infinito. Você, Julius, guarda o infinito em si.

“Para mim são iguais, deuses ou homens, na confusão prolixa do destino incerto. Desfilam-me neste quarto andar, incógnito, em sucessões de sonhos, e não mais para mim do que foram para os que acreditaram neles. Manipansos dos negros de olhos incertos e espantados, deuses-bicho dos selvagens de sertões emaranhados, símbolos figurados de egípicios, claras divindade gregas, hirtos deuses romanos, Mitra senhor do sol e da emoção, Jesus senhor da conseqüência e da caridade, critérios vários do mesmo Cristo, santos novos, deuses das novas vilas, todos desfilam, todos na marcha fúnebre (romaria ou enterro) do erro e da ilusão. Marcham todos, e atrás deles marcham, sombras vazias, os sonhos que, por serem sombras no chão, os piores sonhadores julgam que estão assentes sobre a terra – pobres conceitos sem alma nem figura, Liberdade, Humanidade, Felicidade, o Futuro Melhor, a Ciência Social, e arrastam-se na solidão da treva como folhas movidas um pouco para frente por uma cauda de manto régio que houvesse sido roubada por mendigos”.

     Fernando Pessoa In O livro do desassossego.

 

A raposa e as uvas

 Giordana Medeiros

Sentou-se à beira do rio, como sempre fizera, para recolher o barro branco do seu leito. Barro com o que moldava suas bonecas, a casinha destas, o sonho destas, que apesar de belos, eram apenas barro.  E ela também era feita de barro, um barro sujo, que contrastava com a alvura de suas bonecas. O límpido sonho que lhe era tão grande que era necessário criá-lo de algum modo. Mesmo que tudo não passasse de barro que secava ao sol. Depois tão frágil que exigia a delicadeza do toque.  Com palha de milho fazia a cabeleira loira das bonecas. Ela, com seu cabelo negro pixaim, queria cabelos loiros, macios, que brilhavam ao sol. Os cabelos de Mariana. A filha da patroa, que tinha bonecas de louça, bonecas loiras de olhos azuis que lhe espelhavam, como se Mariana levasse outras Marianazinhas nas mãos. Bonecas francesas perfumadas, limpas e secas, de uma alvura glacial. Ela não podia ter bonecas assim, Mariana que disse: “afinal você é preta, deve ter bonecas pretas”. Mas as bonecas pretas não são princesas, são as filhas da empregada que têm de lavar a roupa, a louça e assistirem com olhos tristes as crianças loiras brincarem na piscina em que não podiam nadar, porque elas eram pretas. Mas ela podia nadar no rio, buscar pedrinhas coloridas lavadas pela água cristalina, que guardava numa caixinha que, para ela, era o seu baú do tesouro. Ela o escondia debaixo da sombra da mangueira, num buraco que cavou sob uma pedra. Lá estavam suas maiores riquezas dentro de uma lata de manteiga. Um dólar que o pai de Mariana lhe dera quando ele fora para os Estados Unidos e disse-lhe que esta era a moeda que circulava naquele país, que não passava de sonho. E ela sonhava com a Estátua da Liberdade, que dizia a todos naquela nação: “vocês são livres”. Ela não era. Sua mãe não o era. Pois jamais pisariam naquele solo, jamais ouviriam as pessoas enrolarem a língua daquele modo engraçado que fazia Mariana. Também havia na lata um broche de pérolas falsas, que sua avó lhe dera e ela nunca usara, porque não possuía roupas chiques em que se pode colocar o broche. Mas era uma boa lembrança daquele sorriso enrugado e sem dentes que a avó possuía. O cabelo branco, olhos bondosos e humildes, as mãos calejadas de quem muito trabalhara e pouco, mas muito pouco ganhara. Um mapa do Brasil, pequeno que recortara de uma revista, “um país imenso, cheio de riquezas, com um povo trabalhador e alegre” esse é o Brasil. O país em que nascera, e em que envelheceria e morreria. Um país de brancos e negros (como ela), índios e amarelos, mulatos, mamelucos e cafusos. Orgulho da bandeira de papel que ganhara na escola, do verde louro da sua flâmula. Era dela também? Ou somente da gente loura, com bonecas de louça?

Voltou-se para o rio, tinha de pegar o barro, com uma latinha enferrujada recolheu a massa úmida e áspera, com a qual faria seu mundo: o paraíso de barro. Poderia criar uma boneca a sua imagem, e conferir-lhe vida por um sopro. E eis que nasce uma boneca pálida de suas mãos, uma massa que ela enrola, puxa, amolda, e logo está pronta a mais perfeita boneca de barro que ela já fizera. “Você é tão linda”, disse num soluço, lágrimas abençoam sua criatura. Coloca a cabeleira de palha sobre a cabeça desta como se a coroasse rainha do seu reino de lama. Depois nascem cadeiras, camas, um menino jogando bola, uma cesta de frutas, potinhos de barro, que secam ao sol, para endurecerem e ela finalmente poder brincar de casinha. Mas somente fazer os brinquedos já era uma brincadeira, mal sabia Mariana como ela se divertia. “Do pó viestes, e ao pó retornarás”. Lembrava às suas criações mesmo sem nenhuma necessidade, talvez as bonecas já soubessem que seu destino estava nas mãos de sua criadora. E quando não mais lhe fossem agradáveis ela os destruiria, ceifando sua curta existência. Mas o mais fácil é que haveria barro suficiente para moldar novos mundos e novas brincadeiras. Gostava também de jogar bolinha de gude, aquela beleza vítrea como um milagre. Um suspiro que fica preso no mundo. E a luz que surge verde e azul quando passa através do vidro, do suspiro de um desejo nunca antes revelado? Mas Mariana não brincava de bolinha de gude que era jogo de moleque. Adorava passar horas penteando aquele cabelo loiro, frente ao espelho, como se desejasse que ele fotografasse sua imagem e congelasse-a para sempre: bela, jovem, bonita. Quem liga para Mariana? Jogava bolinha de gude sim, como brincava no rio e jogava bola. Mas detestava olhar-se no espelho que guarda uma verdade que não gostamos de ver. Olhava o céu límpido como os olhos de Mariana. E quando ela chorava, eles ficavam mais azuis e seu rosto guardava uma melancolia tão divina quanto o olhar daqueles santos na capela da fazenda. Sentia-se tão minúscula, uma pessoa de pele suja e olhar triste. Sempre empregada jamais princesa. “Uma negrinha estúpida” como dizia Mariana. Mas ela tinha seu reino de barro, suas princesas de cabelos de palha de milho. Suas criaturas que necessitavam dela, de seu toque, para serem criadas. Ela tinha seu mundo, com os livros de histórias que sua mãe pegava escondido, na biblioteca do casarão, para que ela lesse. Uma vez, até mesmo surpreendeu Mariana que fazia pouco das bolinhas de gude que trazia consigo, e ela insinuou que aquela fazia tal qual a raposa e as uvas. Afinal, quem desdenha quer comprar. Ela não era uma “negrinha estúpida”.

Enquanto brincava, a pele negra brilhava ao sol como uma uva roxa. E ela mesma poderia ser a uva a que Mariana desdenhava. Ela conhecia todos os insetos que havia na fazenda, todos os pássaros e os bichos da mata próxima. Coisas que Mariana nem suspeitava. Era livre, muito embora não o fosse como queria. Há as roupas a lavar, a casa a limpar. E na escola podia jogar futebol com os meninos sem o receio de sujar a roupa. Coisas que eram proibidas à menina rica de vestido de renda. Podia suar, podia gritar, tudo podia. Uma existência de animal livre, que não se restringe à etiqueta e reuniões chatíssimas regadas a chá. Nem mesmo às aulas enfadonhas de piano, latim e francês. Ela era a negrinha, a negrinha feliz que não tem rédeas, que pode lamber a bacia do bolo e correr como cavalo xucro pelo mato. E não havia cercas que a limitassem. Cerca de arame farpado corta, mas cicatriza. Há outros ferimentos que não cicatrizam jamais. E esses sãos os grilhões que lhe prendiam. O fato de ser somente a filha da empregada, de ter a pela escura, o cabelo ruim… Essa imagem que lhe apresentava o espelho a que tentava fugir, por ser pavoroso ser quem não se quer.  Ela tinha um mundo de barro, mas somente o barro estava ao seu alcance, não os dólares verdes dos americanos, os livros com histórias tão bonitas que ficavam adormecidos na biblioteca, as bonecas de louça com cabelos sedosos. Ah, esse mundo que ela desejava tanto, esse mundo tão bonito quanto um sonho, esse ela não podia ter. E Mariana era rica, já fora a Disneylândia, já viu neve, que deve ser como a pele macia e fria da menina de cabelos loiros. Mariana já se banhou no mar. E ela restrita aos portões da fazenda. Um mundo minúsculo para quem quer tanto. Ela queria desbravar oceanos. Ver o mundo que leu nos livros, livros ilícitos que tinha de pegar escondido. Livros a que Mariana rejeitava e ela tanto os queria. E tudo que ela tinha era tão pouco e feio. Bonecas de barro de olhos de pedra e cabelos de palha. Que horrendas criaturas! E sua ira destruía seus sonhos modelados, porque não eram caros, porque eram rudes, como seus pés acostumados a andarem descalços. E isso não a agradava. Nem a princesa de barro sobreviveu a sua raiva. Criadora e criatura aos pedaços. Aquela de joelhos lamentando sua sorte. Esta destruída, como uma estátua demolida, sorrindo um sorriso duro e seco, talvez de ironia ou de desespero. Mas Mariana sorria um sorriso branco e perfeito. Por isso que toda vez que ela mandava trazer-lhe água a “negrinha estúpida” cuspia no copo. Era uma maneira de se vingar das uvas que não poderia jamais colher.

Vem comigo

Giordana Medeiros

Quero por perto as lembranças que tanto me inspiraram, as recordações de toda uma vida que me fortaleceram nestas tempestades, mares bravios que me sacodem a nau, e tentam me desviar do curso que escolhi. Quero você por perto também, segure minha mão, vem comigo nesta noite, cruzar este deserto que se estende para além do horizonte. Nessas noites pontilhadas de luz onde a brisa sibila árias em nossos ouvidos. Vamos correr o mundo com nossos corações, embalados pela música que as estrelas compuseram para nós. Vem, não há o que nos impeça, podemos nos tornar andarilhos vivendo do que o mundo nos oferece. O sol brilhará em nossos caminhos, a lua iluminará nossa viagem. Seguiremos felizes, cruzando fronteiras que não existem, pois somos livres e não pertencemos a nenhum país. Agora pegue minha mão porque quero seguir sonhando, não me desperte dessa ilusão. Pudera ser assim sempre, o sonho, a música, a luz. Vem comigo, não me abandone, pois temo que desperte do sono, a música silencie e a luz se apague. Não há limites aos sonhos, o que limita é a realidade. Ela que cerceia nossos horizontes, que enrijece nossos músculos, e percebemo-nos fracos, mas tão fracos… Somos tão fracos. E com você sou invencível, por isso temo que me abandone. Quero que se sinta como eu, o corpo leve que voa com o vento, como numa obra de Chagal. Nossas memórias são o combustível de nossa nau que segue a cruzar o rio, pois é um barco a vapor, e para isso fomos criados. A água do rio é límpida como nossas almas. Não há nódoa que nos macule, somos puros, tal qual índios, mansos selvagens. Ofereço minha mão, aceite-a e vem comigo. Escalar montanhas, dançar na chuva, secar nossos corpos ao sol. Meu caminho só existe com você. Siga comigo. Seja meu alicerce, sustente-me, que preciso de alguém que me dê forças. Em torno de mim só há discórdia. Não quero esta feia realidade. Recuso-me a aceitá-la. Há trevas onde vivo. Preciso do abrigo deste sonho, vem comigo. Nossas vidas podem ser como esta que imagino. Posso escrever toda nossa história, para dá-la mais veracidade. Mas não quero que se torne realidade, pois o real tem o poder de enfear o que é belo. O etéreo é nossa fortaleza. O que lhe oferece a vida que não lhe posso conceder no meu sonho?  Vem lhe convido a cruzar a mundo, lhe ofereço o infinito, o universo, estrelas distantes, planetas desertos. Onde possamos ser realmente felizes.

A mentira deste mundo, que é tão sólido e frio, não nos ameaça. Nosso sonho é o nosso refúgio, não me abandone. Pegue minha mão. E vamos nessa aventura que se mostra tão prazerosa e inofensiva. Minha solidão é tão terrível quanto temível. Minha doce amargura de ficar sob as luzes desta noite, esperando que me aceite. Escuto o sonho de olhos fechados. Se abrir-los verei que tudo desmoronou em realidade. Não quero isso, quero sua companhia nessa caminhada sem destino. Vem comigo, vamos para cidades interioranas e simples, onde galinhas ciscam o chão e acordamos com o cantar dos galos. Há um pomar de frutas frescas e a paz que circunda nossos espíritos. Podemos ir para o litoral, provar do mar e constatar o gosto deliciosamente salgado do infinito. O horizonte que se estende até onde não podemos mais enxergar. Mas sabemos que há algo e por isso continuamos. Pequenos pássaros voam sobre as ondas e retornam à praia, singelos, como devem ser os sonhos. E há toda esta solidão que me enche de amargura. Por isso insisto: vem comigo, as ondas resvalam em nossos pés, a espuma é branca, e a vida iluminada de ilusão, não esta cinza manhã de dezembro. Há tanto para mostrar-lhe, um mundo inteiro de novidades. E se vier, posso lhe apresentar este infinito que carrego em mim. Todas as direções que seguirmos findarão em felicidade. Eu nunca vou parar de amar você. Vem, nessa estrada sem nome, que termina em lugar algum. Mas mesmo assim chegaremos a algum lugar. Nem que seja na certeza de estarmos sempre juntos. Se formos de trem poderemos ver as paisagens correrem por nossas janelas, é a vida passando veloz por nós. A vida acontece tão rápido. Nunca nos damos conta disso. Mas quando estamos juntos o tempo passa arrastado, como se conseguíssemos mudar o curso das horas. Se não vier o que farei? Não posso estar sem você. Minha vida se resumiu durante estes anos a sua doce presença, seu sorriso mudo, sua beleza rara que me enfeitava o dia. Onde posso viver se não ao seu lado? Os sonhos são a imagem de nossos desejos. E tudo que desejo é estar com você, deixar-me estar nesses dias chuvosos de verão, observando a chuva bater nos telhados porque, com você ao meu lado, tudo me parece tão fantástico…

Vem, não há o que nos impeça, não há leis que nos proíbam, nem mesmo grades que nos prendam. Podemos cavalgar sobre unicórnios, e assistir ninfas dançarem sob a chuva, sentir o cheiro da relva molhada, que tanto lhe agradava. Minha mente pode nos levar a lugares exóticos, a selvas virgens e praias desertas. Segure minha mão que levarei você até onde possa nos levar a imaginação. E esta não tem limites ou regras. Tudo que quiser você terá. Não me deixe nessa dúvida, nessa dor de aguardar que se decida, que escolha a imagem do impossível e não o possível sólido que  existe, mas não lhe agrada como não agrada a mim. Vamos navegar os oceanos, conhecer continentes distantes, nestes mares verdes que se mostram tão revoltos. Mas para nós os mares são sempre mansos, calmaria de sonho, que para nós seria a verdade. A mentira de estar numa vida paralela, que nos liberta ao contrário da verdade que nos aprisiona. Um mundo que nesse universo sem fim é tão pequeno. O universo se expande como nossas mentes. Não vê que nada mais nos cerceia? Há tantos lugares para ir, há tantas coisas para ver, vamos voar com as aves migratórias que cruzam continentes. Vamos provar das nuvens, vamos nadar nesse céu azul, que de tão azul poderia ser oceano também. Vamos correr juntos para encontrar o fim do arco-íris como fazem as crianças em sua ingênua esperança.  Há tanto a se fazer. Pode ver? Se vier, posso lhe dar o mundo, ou as constelações que enfeitam as noites.  Peço para que venha como outros não vieram. Mesmo que soubessem que não o suportaria. Mas nada do que disse ou diga pode mudar o que é, o que fomos, o que sou. Nada pode fazer que venha e embarque em meu sonho. Eu sou qualquer coisa pequena, rastejante e sem Deus, que caminha nesse breu a procura de qualquer gesto, um toque de mão humana devagar em minha face. Mas você não vem. Eu estou tão viva que qualquer outra coisa viva e próxima merece minha mão estendida. Por isso lhe ofereço esta mão que clama pela sua, minha mão que pede e oferece. Mas você não pode aceitá-la. Ou eu que não deveria estendê-la? Seus olhos da cor do mar, como alguém que por muito tempo ficou olhando detidamente o mar e lhe aprisionou na íris, um olhar verde, móvel, inquieto como as vagas que ora penetram ora levam. Vem comigo, por favor, que agora suplico, não me abandone, não posso estar sem você.

 Por mais que clame sua presença, sua companhia nesta longa jornada, sei que não virá. As noites não terão o brilho das estrelas nem o mar o verde vítreo dos seus olhos. E minha vida fica limitada a esta realidade cinza em que não voamos nem somos felizes. Nem alegres ao menos. Não estou triste, mas sempre que abraço minha loucura recomeço a chorar. Tudo estanca na letra da velha canção, you just call out my name, tudo era tão bonito e antigo para nós. Éramos nós. And you know wherever I am, gostava de tudo assim mesmo que meio pesado. Mas havia a beleza de seus olhos. I’ll come running to see you again, vacilando entre as emoções, como um ébrio que tropeça nas palavras, winter, spring, summer or fall, gostava de sua voz como se gosta do som das ondas resvalando eternamente nas pedras, all you have to do is call, ou do que ficou de si, and I’ll be there, mas agora no passado, you’ve got a friend.  Até que tudo poderia ser assim como numa história inventada e você ressurgisse na neblina e aceitasse a mão que lhe ofereci. E dissesse: “vem comigo que tenho tanto a lhe mostrar”. E me chamasse como há pouco tanto lhe chamei e apresentasse tudo com que a pouco sonhei, com toda magia que criei para lhe mostrar um mundo maravilhoso tal qual ele não é.  Mas você não virá, não é?  Tudo é agora como um trecho dos Fragmentos do discurso amoroso de Rolland Barthes. “Mas também às vezes a Noite é outra: sozinho, em postura de meditação (será talvez um papel que me atribuo?) penso calmamente no outro, como ele é: suspendo toda interpretação; o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa), mas nada quero possuir; é a noite do sem proveito, do gasto sutil, invisível: estoy a escuras: eu estou lá sentado simples e calmamente no negro interior do amor.” Não importa mais o que existe e não existe. Nem mesmo as águas verdes de seus olhos, ou o vermelho rubi do sangue das feridas. As noites não lhe trazem nem o sol brilha em nossos caminhos. Há sombras sobre nós, as lágrimas regam as flores em nossos jardins. E estou cansada de ouvir a voz rouca de Billie Holiday: “I’m fool to want you, I’m fool to hold you”. Na verdade estou cansada de fazer tantos planos. Só queria que segurasse minha mão e viesse comigo, mas nada é como sonhamos, nunca é. Não era você, não é? Talvez fosse ou pudesse ter sido, ou poderia voltar a ser.  Isso teria, quem sabe, um gosto de mel e pudesse estancar finalmente o sangue destas feridas.  E tudo que quisera é que viesse comigo a lugar algum, mas que viesse comigo aonde não chegaríamos, mas que apenas viesse. Mas agora sou eu que espero que me diga: “-Vem”. Posso esperar uma eternidade…

Sempre ao meu lado

Giordana Medeiros

Uns dias são mais fáceis que outros. Mas há aqueles em que sou tomado de uma profunda angústia como se estivesse me afogando num mar de desespero…  Nesse vazio totalmente repleto de pessoas e palavras. Tento me exprimir de uma maneira mais clara, mas começo a pensar que não há quem entenda o que digo. Nessa noite quente de primavera, sinto-me como um náufrago, pois minha nau afundou nesse mar tormentoso da vida. E agora me agarro a qualquer coisa que flutue para não me perder. Não temo a morte. Na verdade é-me indiferente o risco dela. Não tenho medo do que me espera, só espero que venha logo. Numa dessas noites chuvosas, repletas de relâmpagos e sons. Prefiro noites assim, o silêncio me aflige. E quero que a música em mim transborde e exceda-me, não posso esconder em mim o que me é mais sincero. A verdade em mim é insuportável. Não me repreenda, pois apenas me confesso, não quero que me julgue, porque não o faço a você. É o único ao meu lado agora. Se pudesse ver tudo que vejo, se pudesse sentir o que sinto, como  se uma lâmina transpassasse o meu peito, e já não batesse em mim esse coração solitário e descrente. Coração selvagem, como um índio não civilizado, índio antropófago, que se alimenta de outros corações, mas no fim não resta ninguém. Somente o som compassado de sua música. Ela é a percussão de minha vida. E sei que, se pudesse, mesmo ele me abandonaria. Até mesmo você me abandonou, não é? Estou reaprendendo a andar, é difícil você sabe… Muitas vezes não conseguimos sustentar o peso de nossas faltas. É mais fácil aprender andar quando somos crianças, pois não carregamos o mundo sobre nós. Eu tenho vivido, continuo vivendo, mesmo que não veja o término desta pena. O sol nasce e nada acontece, deveria acontecer algo, eu sei, mas NADA, NADA MESMO, acontece. O dia prossegue tedioso, pesado, rotineiro. E sei que a vida ocorre fora de mim. Em mim somente esta dor, por que me sinto assim? Acho que me roubaram a esperança, não há como aguardar que esta me surpreenda numa noite chuvosa, como ocorria quando era criança. E você dizia que não deveria espantá-la porque ela trazia sorte. E suas palavras me enchiam de esperança. Como se estes insetozinhos verdes me cobrissem todo o corpo. Tinha muita sorte. Geralmente havia sorvete na sobremesa. Hoje não há sorvete que diminua minha dor. Tento fazer felizes os outros para tentar ser feliz também. Como se a felicidade deles fosse a semente da felicidade que não há em mim.

Eu não compreendo em que ponto errei o caminho, acho que não cheguei onde deveria chegar. E parece que me perco a cada passo e não me encontro.  Não mais… Você me dava o norte, agora sou um navio à deriva. Acredite, não sei retomar a direção de minha vida. No mundo quem não tem objetivos se perde, é um clichê, mas é a pura verdade. Não tenho mais sonhos, não quero nada mais que tenho hoje, e desisti de tudo que pretendia ser. Não sou nada. Ou pior que isso, menos que nada, sou a ínfima sub-partícula do átomo, mas mesmo ela já é algo e eu não existo. Pelo menos é o que as outras pessoas demonstram, é como não passasse de um espectro, mas não acredito neles também. Sou tão cético, que temo estar perdendo algo importante. Aqueles crédulos são tão felizes e conformados com sua sorte, e eu não posso me resignar a isso. Não posso! Se pudesse sorrir pelo simples fato de ver o nascer do sol. Se pudesse enxergar a alegria nas miudezas, nos fatos corriqueiros, mas isto é um dom que não possuo. Perdi a fé, e ao perder esta também se vai a esperança, e sem esperança a felicidade não vinga, como uma semente num solo infértil. Mas não há nem mesmo a semente, somente o solo ressequido onde nada nasce, solo arenoso, levado pelo vento, dunas que caminham ao sabor da brisa. Espero que possa me ouvir mais do que o fazia antes, e que não esteja incomodando-o com minhas aflições. Mas quero dizer isto, sem que me interrompa, tal qual o fazia antes. Eu queria ser especial, um único instante me sentir especial e não apenas este mísero ser que sou. Um entre uma multidão, sem nenhuma importância, cuja falta não se sente. Mas mesmo quando deveria ser importante fui anulado, como o livro abandonado, cuja leitura, mesmo que profícua, não desperta qualquer interesse. Eu sou assim, desinteressante e monótono. Sei que você já sabe disso, sempre me ignorou mesmo quando estava presente. E para você era somente mais um prato na mesa, um assento ocupado na sala de jantar, nunca pudemos conversar mais que conversamos agora. Você jamais me deu oportunidade. Nunca se preocupou com meu desespero. Eu tinha tanto medo. E, quando pequeno, você me contava histórias tão belas, fábulas, que me inspiraram a escrever, porque também eu queria contar histórias. Queria agradecer por isso: obrigado. Queria agradecer por você ter me amado, mesmo que de um jeito bem estranho e distante. Eu sempre quis dizer quando me ignorava, que eu estava ali, sempre ao seu lado, e que mesmo que não quisesse me ouvir, minhas palavras só diriam: amo você. E queria que soubesse disso. Não queria que você me deixasse sem que pudesse dizer esta frase que me sufocou durante todos estes anos. Agora ela sai em meio a lágrimas e como um soluço de tristeza e mágoa. Poderia ter sido diferente, mas nunca me deu oportunidade. Porque não era como os outros, não era engraçado ou expansivo. Somente um rapaz tímido e desajeitado, que sempre derramava o suco sobre a mesa. Não era forte, sei que você tentou me fazer mais que este homem fraco e triste que me tornei. Você achava que somente era necessário nutrir-me, mas há ainda outras coisas. E são tantas as que me faltaram, mas não por sua culpa, ninguém tem culpa afinal. A vida é assim.  

Minhas lágrimas não lhe incomodam tanto quanto antes, você achava que não havia em minha vida razões para elas. E elas nasciam assim: sem razões, mas volumosas.  Eu chorava tanto, que lhe incomodava. Você não tinha tempo para me ouvir lamentar. Não queria ouvir meus dissabores, minhas dores. Então deixei de chorar e guardei dentro de mim esta dor. Não me fez muito bem, confesso. Mas não lhe constrangia em frente aos seus amigos, às pessoas que valia a pena ouvir. Eu então me calei e me escondi em mim. Nas minhas histórias internas que me faziam esquecer o mundo e o seu desprezo. Eu enxergava você, sabia o que lhe agradava, e mais que isso: o que lhe desagradava, mas nunca se preocupou comigo. Nunca soube de mim mais do que os outros lhe contavam. E nesses dias vim descobrindo em mim coisas que nem mesmo eu sabia. Sei que não posso amar alguém, com o amor que se exige entre um homem e uma mulher. Não posso. Não sei, não consigo. Talvez por isso tenha me condenado à solidão eterna. Sem família ou amigos, não há quem vá lamentar minha morte. Não que não tenha me esforçado para me fazer agradável. É meu esforço diário, mas não há quem me ame, mais do que cordialmente, e preciso da paixão que não mais inflama em mim. Estou tão habituado a dor, que acho que desaprendi a amar. Não sei mais como amar alguém, nem me fazer querido. Talvez nunca o tenha sabido, pois mesmo você, nunca me deu mais que dois minutos de atenção. Não quero que isso lhe pese em absoluto, mas talvez se soubesse o quanto isso me feriu, pudesse compreender a razão de esperar um abraço seu ao lhe presentear com meu carinho. Não se recorda de todas as vezes que esperei você chegar para lhe dizer algo que ocorrera comigo? É o que faço nesse momento, mas agora você tem que me ouvir, pois não sairei daqui sem que me ouça. Tenho ainda tanto a contar-lhe, fruto de três décadas de desprezo. Estou cheio de histórias, cheio de dúvidas as quais queria que ouvisse, mesmo que não me responda nada, que não me diga mais o caminho que devo tomar, mas só quero estar aqui. E se a chuva desta véspera de Natal, permitir quero ficar por mais algumas horas, estou tão confortável, quanto quando me colocava em seus ombros nas longas caminhadas que fazíamos. Em silêncio, numa madrugada púrpura, me recordo de uma das raras ocasiões que falou comigo. Eu tinha fome, você me disse que haveria bolo para o café da manhã ao chegarmos em casa. Isso foi o mais próximo do “eu amo você” que eu pude ouvir de seus lábios. Mas já me era suficiente, eu só queria que ainda estivesse aqui pai, mas sei que mesmo que não possa mais lhe ouvir, você estará para sempre ao meu lado. Adeus, meu amigo.

 

muro

Sob os Muros

Giordana Medeiros

Jogou a água no cimento que havia comprado, não tão caro como se poderia imaginar, para os propósitos que nunca teria deduzido, mas eram tão óbvios, que se admira que neles já não houvesse pensado. Era necessário misturar bem, pois seria ele que solidificaria seu exílio. Faria as pilastras de sua morada interior. Alicerces sólidos, que não seriam facilmente derrubados, não que houvesse alguém com este propósito, nunca há, mas era o único meio. Este que lhe ocorrera num dia cinza, onde não era possível iluminar as idéias. Pensava que talvez assim pudesse chegar a algum lugar. Só que, para chegar, é necessário mover-se e não criar raízes. O alicerce que finca no solo, é na verdade a mentira de um abrigo que não existe. Não há soluções simples. Somente dúvidas irresolúveis. Não há como se esconder. De alguma forma a vida lhe encontra. E sozinho a vida é muito mais penosa. Acredite, eu sei. Se você continuar nessa loucura pode ser pior, como se um dia cinza pudesse trazer as soluções de toda uma vida. Mesmo que esta também seja dolorosa como um adágio fúnebre. O violino geme, como se sofresse profundamente, o cello lamenta e o piano chora, com lágrimas musicais, cada mágoa que alimenta sua dor. É assim que as músicas lhe parecem, o sofrimento de quem as compôs transcrito em notas. Não deve ser assim? Como então? Não é assim que ele toma o primeiro tijolo que dará início a sua obra? As canções dizem mais do que parecem dizer. A vida não diz nada do que esperamos ouvir. E há o silêncio que inunda o recinto, que lhe absorve, sugando-lhe o espírito na sua ausência de som. O vácuo suga, a ausência absorve, o nada converte em nada o que está próximo e era alguma coisa. Não é nada então que lhe alimenta erigindo estes muros, colocando o cimento entre os tijolos de sua aflição? Quantos muros serão necessários erguer para cumprir seu objetivo? É isto que lhe guia? E se não for esta resposta por qual ansiava? Ficará preso no seu abrigo. Não haverá mais como sair dessa prisão que ergue dentro de si. Cada tijolo foi feito com sua dor, sofrimento que lhe concede agora uma saída. Mas a saída é não permitir mais saídas. É a cadeia de seus sentimentos que ergue, cada mágoa que lhe invadiu. Não foi sua culpa, mas se penaliza. Pois não há maneiras de se proteger que não seja se escondendo dentro de si. Aumenta estes muros, pois se vier mais uma vaga como impedirá que ela lhe leve? E as ondas que colidem contra os muros, tornam-se mais vorazes com o passar dos anos, por isso é necessário se defender com estas paredes de dor que lhe isolam do que é exterior.

Quem poderá demolir suas defesas? Estas paredes em torno do que é seu. Do que você é, e, na realidade, nunca foi. Pois você não é na verdade o que aparenta ser, mas ninguém se dá conta que você é outro.  E este outro é que está debaixo destes muros. E ninguém o vê. Sozinho neste recinto mórbido. O promontório de sua alma. Quem poderá enxergar o que você é, se você o escondeu em si? Esse seu esconderijo que não pode ser transposto porque você tem tanto, mas tanto medo, que se paralisa, e não deixa transparecer o que é mais verdadeiro em si. Ergue estes muros então. Altos para que ninguém lhe possa ver. Não é seu desejo? Não é isto que procura? Se não lhe vêem não há como lhe ferirem. Sua alma está demais flagelada, feridas profundas que não se curam, que lhe infligem a dor da sobrevivência. O mais fácil é morrer, mas morrer também é difícil. Pode acreditar, nada é tão fácil quanto parece. Há sempre algo que lhe impede, e os dias passam velozes convertendo-se em anos que não deveriam existir. Três décadas que a covardia lhe prende, estático diante do medo. E sua vida escorre entre seus dedos, não há como conter a existência. Existir é a dúvida do ser. E ser, não é nada mais que sofrer eternamente. Portanto, para que sua busca frenética por algo que lhe realize? Só deve saber como passar os dias, nessa corrida de um tempo que não é real e não pode ser contado em segundos, minutos, dias ou anos.  No seu esconderijo não há como observar a vida fora de si. Não fizeste janelas para ver o que ocorre lá fora. Então, não se dá conta que a vida que lhe é exterior continua sem você. E não sentem falta do que você queria ser. Nem do que você era e nunca foi. Ignoram sua ausência, pois não era importante, não sabem nem mesmo o que você foi. E nunca será o que deveria ter sido. Mas não há quem se preocupe agora com isso. Nesse seu exílio não quer que ninguém lhe veja. Este sempre foi seu intento, engole em seco o choro, por que lágrimas se a dor agora lhe é exterior? Compreende? Agora sabe que a dor na verdade sempre esteve dentro de si. Não há como extrair-la porque ela lhe é essencial agora. Nesta prisão, o que faria sem esta companheira de sua solidão? Dor que lhe esposou prematuramente, impedindo que, de outro modo, tivesse a vida por esposa. Agora lhe deve fidelidade e dela não pode fugir. Sabe que não há como lhe ser infiel, porque estão ligados, como gêmeos siameses, dividindo o mesmo corpo. Corações que batem coadunados, no mesmo ritmo, com o mesmo compasso, criam uma só sinfonia. E no compasso desta música vão-se os anos, embalados pela sonoridade de um silêncio que não deixa de ser música também. Mais alto, erija estes muros, espessos para que nem o som possa transpor-los. Assim tudo lhe será indiferente, pois em nada lhe afetará. É assim que deve ser? Cai a noite dentro de você, e nessa escuridão não há como distinguir o que sente. Mas penso que não deve se preocupar com isto, não há problema agora. Está sozinho, se quiser chorar, chore. Ninguém lhe verá. Soluce esta dor que tanto lhe aflige, esse sofrimento que lhe invade. Sei por que sofre.  E me compadeço de sua dor. Queria poder confortá-lo como espera, abraçar-lhe e dizer que há esperança. Mas não há. Não há.

Nada ocorre como esperamos, a esperança é uma fantasia que tentam nos fazer acreditar quando somos pequenos. E não há como se livrar dessas crenças, dessas histórias, dessas ilusões impostas aos homens para lhes fazer fáceis de manipular.  E você, com estes muros em volta, para impedir que outros se aproximem, para parar as vagas que invadem o que lhe é exterior. É assim que se protege de  vir a ser manipulado? Será que estes muros são sólidos? Ou são frágeis como castelos de areia que as ondas destroem no fim do dia ao sabor das marés? Todo tempo esteve compenetrado em seu intento, e nem se deu conta que pode estar a erigir castelos de areia. Como uma criança que pranteia a destruição de seu brinquedo, verá a água demolir estes muros que outrora lhe serviam como cela. É assim que aponta o destino, não há como fugir da ordem das coisas. Entre estas paredes que erigiu pode chorar, mas não poderá se esconder eternamente.  O vento não sopra em outra direção, as chuvas tendem a alcançar-lhe, e não fez um teto para sua prisão. Queria poder ver as estrelas, que flutuam como uma mentira no céu. Luzes que na verdade nem piscam mais, mas continuam brilhando, pois estão tão distante de nós, que seu brilho nos parece eterno. A vida é irremediável. Não há escolhas sem consequencias, terá de se acostumar com isto. Mesmo segregado do que entende por mundo, será alcançado por ele, pois o mundo, antes de tudo, lhe é interior. Se cerrar os olhos sentirá uma estranha sensação, pequena, misteriosa, alegre por que não? É como olhar para dentro. Para nos vermos, completos, mesmo sabendo que sempre nos faltará algo. A ausência de nossos espíritos nunca será preenchida, sobretudo no seu espírito onde tudo falta. E ainda assim sobra sofrimento. Amigo, que se esconde sob altos muros, erguidos com a dor de suas feridas, o cheiro de mar das ondas que chicoteiam as paredes, invade seus pulmões. Afoga-se em solidão, nessa sua cela, com a companhia da dor e das estrelas. A Cassiopéia, sobre você, lhe faz pensar que mesmo às estrelas, que se criaram na desordem do universo, o ser humano quer ordenar, e transforma estrelas, antes solitárias, em constelações que na verdade não existem. Cada estrela é única, você sabe. E sabe ainda que nada as prende, não pode impedir que brilhem sobre você. E nem mesmo deseja isto. Quer a chuva de estrelas sobre si. E elas derramam-se pálidas sobre sua pele. Incandescente pelo banho de luz, sob estes muros que você mesmo erigiu, acredita que algo é seu. Nem que seja este recinto de dor e solidão que lhe abriga, todavia lhe aprisiona.

O infinito em mim

Giordana Medeiros

Depois de minha ausência programada (não escrevia nada suficientemente bom para publicar). Senti que precisava escrever porque algo em mim estava me matando. Corroendo-me por dentro, como um buraco negro interior. Não tenho nada de excepcional para contar, na verdade, não sei como sobrevivi a mim estes últimos meses. Vim como um bêbado, tropeçando em palavras e silêncios. O silêncio é uma espécie de música também. E meus dias foram sonoros e longos. Não via a hora que me surgiria coragem de voltar a escrever. Para isso é necessário muita ousadia e meu desespero me acovardava, medo de não escrever suficientemente bem, de não saber exprimir o que se passa. Não como uma história, com vários personagens e um enredo fantástico. A maioria das vezes escrevo sobre mim, e o que se passa em minha alma. Não creio que a alma nos seja interior, ela é infinita e, como tal, não pode ser retida por nosso corpo diminuto e frágil. E na minha alma uma revolução se debelava. Sou comandada por duas facetas de mim que não se entendem e nem mesmo concordam. Parte de mim tenta me fazer acreditar que não há mais tempo, que tudo passou e o que me resta é resignar-me ao que possuo e cuidar que não perca isso também. A outra parte é minha faceta mais otimista, que persiste, persevera na esperança que ainda há meios. Nunca será muito tarde. O tempo é um obstáculo minúsculo para sua esperança. Não sei se creio no pessimismo de uma ou no ingênuo otimismo da outra. Às vezes fico tão confusa, entre estas faces, que se debelam a todo instante, que acabo ficando inerte de qualquer forma, e perco tanto o que tenho quanto aquilo que sonhava.  Por isso me reprimo, como posso confiar em mim se não compreendo ainda o que sou? E com essa balbúrdia infernal no meu espírito, como posso agir? Se me escondo sou mais impetuosa, se me vêem sou covarde e fraca. Uma astróloga, quando eu ainda era criança, disse-me que devido ter como signo Gêmeos e ascendente Libra, ficaria sempre nessa indecisão. Sou a união dos opostos astrais: o falante e aventureiro Gêmeos e o tímido e reprimido Libra. Alguém tem de achar um meio para estes dois se entenderem… Mas realmente, quem se preocupará com isso?  Há quem se importe com isso?

Se porventura se lembrarem de mim, nem que para me dizer quanto tempo estive reclusa em mim, procurem-me no interior do mais profundo abismo, no sibilar da brisa primaveril ou no brilho da estrela mais longínqua. Talvez esteja na calda fria e brilhante do cometa. Se me acharem, avisem-me, pois, por mais que me procure, não me acho. Eu acho. Minha faceta Libra se manifesta. E se me ouvirem no canto dos pássaros, gravem este som, que minha música é algo extremamente raro. Minha morada é o silêncio. A dúvida, que perdura numa pergunta sem resposta. Longe para bem além do horizonte, em terras inóspitas e belas, onde o infinito é a longa espera, pode estar meu coração, que é um cofre cujo segredo é uma ária de ópera. E se ele se esconde longe de mim, é que próximo demais pode ser perigoso. Ele é selvagem e minha covardia poderia domesticá-lo. E ele não me obedece, e eu não o compreendo. Muito estranho não acreditar no que lhe diz seu coração. Ele me fala numa língua exótica e que não posso traduzir, por isso não confio quando creio que me diz: “vá em frente.” Reluto, e não sigo. E quando quer que eu espere, teimo em seguir mesmo crendo que é um terrível engano. O maior engano sou eu, que gosto de contar histórias. Se morrer, podem colocar no meu epitáfio: “alguém que gostava de contar histórias como ninguém.” Se há sentido em algo que digo, não sei, mas que me fez um grande bem, tenho certeza.  Aborrecem-me os sentimentos medíocres. Aqueles que não contribuem para o crescimento, mas para o empobrecimento de um espírito. Algo que conheço bem. Não faltam aqueles inquisidores, que julgam e desmerecem o que você é. Basta-me ser como sou. Não que seja a figura mais perfeita do que seja um ser humano. Na verdade, creio que sou um dos mais falhos. Mas tenho uma vontade muito grande de ser melhor, de não ficar entre o que determina a maioria opressora. As minorias são minha casa. Sempre fui o avesso dos ponteiros, gauche, como diria Carlos Drumont, não me chamo Raimundo, não tenho rimas ou soluções. Sou só perguntas, e minha alma é o reflexo da dúvida. E quanto mais se aproxima o ocaso da minha estrela, mais tenebroso se me mostra o horizonte. As noites são negras e frias dentro de mim. Mas continuo fidelis et  fortis, numa busca inalcançável de saber e de conhecimento. Não quero a imortalidade, pois meus dias não se limitam a mim. Espalho pequenas sementes de meus pensamentos, que creio eu, aflorarão em algum espírito fértil.  E me perpetuo desta forma, não tenho ou terei filhos. Somente estas linhas que escrevo, cuja existência, alguém, quem sabe, se dê conta. Não quero reconhecimento, pois não sou dotada de genialidade, pelo contrário. Sou tão insipiente quanto aqueles que procuram respostas. Eu mesma não sei nenhuma. Só tenho minhas dúvidas. E nada mais me ocorre. Nem mesmo a beleza de um poente. Só escuridão quando o sol se vai e a noite cai sobre mim.

Numa vida tão minúscula quanto a minha, nada de fantástico pode ser lembrado. Somente a comum sobrevivência, a necessidade de respirar e ser. Viver é como estar faminto o tempo todo. O que lhe alimenta é, na verdade, algo que lhe aprofundará mais a fome. Têm-se fome de ar, de alimento, de respeito, de conhecimento, de música, de sentimento, de amor. Esta fome insaciável é o que lhe guia. E por isso estou aqui escrevendo. Mais por vontade de dizer o que me apavora, que por qualquer outro motivo. Sou o que me transformaram meus medos e esta fome insaciável. Posso tentar me fazer crédula, procuro o que é santo em mim. Mas só encontro o opróbrio, o desrespeitoso. Sou um frágil sentimento de religiosidade que se mistura ao cientificismo de uma vida. Racionalidade por que me fez tão racional? Sentimentos por que me fizeram sentimental? E você meu reflexo invertido, o que guarda no país dos espelhos? Somem de mim as memórias do que se foi. Não me recordo mais de minha vida que o tempo corrói, recordações que desaparecem como se nunca houvessem existido.  E não sei mais se alguns fatos ocorreram mesmo, porque é uma memória tênue como um sonho. Então penso que sonhei e que não passei por aquilo. É assim que me sinto, como resultado de um sonho que foi apenas planejado e nunca realizado. Sou etérea como as nuvens do céu. Sou o sonho, a nuance, nunca o concreto e real. E se querem saber, sou mais feliz assim. Não me venham com a hipocrisia do discurso. Para que palavras, se tudo está no silêncio? Para que a fala se tudo está na música? Espero a similitude do sonho, não quero me adequar ao que é normal, sou a exceção a regra. (Aquilo que todos esquecem). E nunca serei um rosto em meio à multidão. Por que sabem que estou lá. Como “os frutos da árvore envenenada” que não estão isentos do veneno. Não podem fugir de mim. Sou fatal, como o arsênico ou o cianureto. Meus pensamentos são o veneno que corrói suas certezas. E creiam, as minhas também. Não estou certa de nada. Nada me ocorre de forma simples. Tudo se demora, meus dias são uma espera, e não consigo mais aguardar que me alcancem meus sonhos. Ou será que eu devo alcançá-los? Por que me demoro em concluir este conto?  Não encontro maneiras de dizer “fim” por que sou o infinito, meu espírito não tem fim e me excede. Transborda e se espalha em minha volta. Sou o silêncio que a todos alcança, ou a música que premia os ouvidos. Se pode sentir o que disse é que nossos espíritos se coadunaram e tornaram-se um só. Assim é que me aumenta a alma, como o universo que cresce continuamente. Por isso não posso dizer “fim”, pois é apenas um começo.

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Eugênio

Giordana Medeiros

Sempre foi um rapaz de olhos tristes. Pelo menos era o que diziam aqueles que o conheciam desde pequeno. Muito cedo descobriu sua vocação para música. Menino, com apenas 9 anos, compôs seu primeiro noturno. Seu piano, que ganhou do pai sempre lhe acompanhou. E sua vida tornou-se aquele piano, seus dedos conheciam cada tecla, e corriam soltos, criando notas musicais. Nunca fora lá muito sociável, passava horas ensaiando, de modo que sua infância e adolescência se foram muito antes que percebesse. Mesmo com grande talento, não ascendera profissionalmente. Veio à cidade, saiu do campo, da cidadezinha em que vivia com sua família, tentar a vida como músico.  Nos primeiros meses, viveu a duras penas com um ordenado minúsculo que recebia como professor de piano. Depois arranjou emprego num banco, de modo que pudesse arranjar-se melhor financeiramente. Vivia numa pensão onde felizmente aceitaram o piano e a rotina de ensaios que sempre se submetera. Quando não estava compondo suas músicas melancólicas, estava com seus poetas e escritores, aos quais tanto prezava. Chamava-se Eugênio, e desde que abandonara o campo pela cidade já fazia duas décadas.  Nunca mais voltou, e as lembranças da vida que abandonou, sempre lhe assombravam, como uma nostalgia amarga, pela vergonha de voltar sem poder levar nada além do que trouxe. Ou menos que isso.  Eugênio sempre foi dado a devaneios. Sua mente não cabia em seu corpo, num único instante apenas, queria estar em vários lugares onde o coração lhe levava, mesmo que não fosse para muito longe, para a sala na qual os vizinhos preparavam a árvore de natal. Ou para a esquina onde havia um homem vestido de papai Noel, distribuindo panfletos. E ressentia-se por aquele homem, que no verão tinha de usar roupas quentes, por apenas imaginar como penava. Devia sofrer também a família do homem, pois necessitava do ordenado que este recebia para estar durante todo o dia sob o sol, distribuindo panfletos. Via a alegria das crianças que voltavam da escola, pulando, conversando, sorrindo. E lembrava-se dos anos em que se escondera atrás do piano, de seu pai, que sempre lhe apoiara, e que quando foi embora lhe estendeu a mão dizendo: “Deus lhe abençoe meu filho!” A mãe não conseguia conter as lágrimas, porque ele era homem, tinha de percorrer longos caminhos, às vezes, por dentro de si mesmo.  Eugênio seguiu, por entre vales e colinas, pisando a relva, orvalhada da manhã, para chegar de onde havia partido. Mas já não estava lá. Não estava lá.   A cidade é mesquinha e ilusória. A vida um rio cuja corredeira lhe puxa contra sua vontade. Passamos a vida inteira tentando nadar contra a corrente.

-Seu Eugênio, não lhe agrada a comida?

A dona da pensão, uma senhora de meia idade, gorda, cuja beleza se perdeu com o tempo, despertava-lhe para a realidade. Todos da mesa se voltaram para Eugênio, que ficou desconcertado ao observar que nem tocara a comida. Ensaiou uma desculpa, e cortou um pedaço do bife, já frio, mastigando com certa dificuldade. Não era lá a melhor refeição do mundo, mas era o que podia pagar. Os outros hóspedes tentaram inserir-lo na discussão em que participavam à mesa:

-Então, seu Eugênio, que lhe parece essa política do Obama?

Outro hóspede, que chegava atrasado para o almoço, repreendeu:

-Vamos cuidar de nosso país e deixemos para lá os dos outros.

Eugênio sentiu-se feliz de ter sido salvo da resposta, e retornou para seus pensamentos.

A vida só resta seguir. E se era triste, é que muito se perdera por seu caminho. Ninguém compreendia suas músicas melancólicas. Mas continuava as escrever, mesmo que não houvesse muitos para ouvir-las.  Como os pássaros que cantam na floresta, onde ninguém pode ouvir seu canto, e saber se é belo. E dizer que é belo.  Assim sob o mundo que o ignorava solenemente, ele compunha noturnos, suítes, sonatas…  No coração, um sonho tão grande que nem ele próprio lhe conhecia os limites. Ele só pensava em poesia, música, e nas grandes sinfonias que um dia criaria. Veio o emprego no banco e a esperança que um dia lhe viesse outro melhor. Um dia foi o futuro que nunca chegou.  E se conformou, os sonhos, sinfonias e poemas ficaram postergados para um dia, data que não se localiza em nenhum calendário. Um dia foi indo e um dia não voltou.  Tinha muitos projetos, poesias por escrever, melodias que faltava serem compostas, sinfonias que aguardavam em partituras.  Mas não realizava nada, talvez por medo que todos seus sonhos fossem engolidos por este estranho monstro de cimento armado que se chama cidade.  Já pensou diversas vezes em voltar, para um lugar mais calmo, de onde saiu, mas lhe doía profundamente a idéia de voltar como o filho pródigo, que se arrependera de andar com suas próprias pernas, que se perdeu em sonhos, e voltou como o mais minúsculos dos homens.  Na mocidade se perdera dos sentimentos da juventude, pois nem ao menos levantava os olhos dos livros. Agora é tarde, tarde para voltar, tarde para corrigir e o milagre da mocidade não se repete. E só na arte a beleza é imortal, como o versos de Keats: “A thing of beauty is a joy for ever” Seu momento luminoso passou, pois ele mesmo apagou a vela de sua juventude. Com um simples sopro ignorou aquilo que era belo em si. Mas como diria Érico Veríssimo “na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça”.  Suas músicas, que eram etéreas como sonhos, preservavam a juventude e os sonhos, assim não morreriam jamais, mesmo o tempo que devora os homens, não consegue jamais matar a música, pois esta se eterniza em som. Poesia mesmo que transcrita em papel, também, pois a arte é a idéia mais próxima da eternidade.

Na sua vida sempre as mesmas caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam seus dramas, suas vidas insignificantes, suas idiossincrasias… Mas há a canção. E a música é a ligação com o mágico, com o fantástico. Abre a mente para o longínquo espaço. A tudo embeleza. Mesmo nesta noite próxima ao Natal, nesta sala de móveis gastos, uma televisão antiga com imagem dupla onde passava a novela das oito horas, e uma árvore de plástico que lembrava as festividades de fim de ano. Ele poderia se trancar em si, viajando em partituras.

 Subiu para o quarto sem terminar o jantar. Para se encontrar com o piano vertical, único bem que possuía. Único bem que lhe possuía. Tocou o teclado, sentiu um aperto no peito, veio-lhe o adágio de Albinoni. A música então se derramou triste sobre a noite que chegava.  Os olhos de Beethoven lhe fitavam pétreos do pequeno busto sobre a estante.  E em sua volta livros e mais livros de histórias que ele não viveu. Ele tocava “to the montains, and fountains, and ghosts, and posts, and witches, and ditches”.  E das poucas graças que lhe acompanharam pela sua vida, e da benção que seu pai lhe concedeu quando colocou os pés no mundo, restaram-lhe os sonhos, que se desfaziam em música e poesia, sonhos em versos e partituras, que não morrem, mas se eternizam, mesmo que jamais surja a grande sinfonia, mesmo que não se crie o belo romance, ou uma feliz antologia há esta expectativa feliz de ser ouvido. Como se aquele pássaro no meio da floresta fosse enfim descoberto.   Somente assim conseguia se expressar, através da arte que lhe escolheu, pois não se escolhe a arte, ela que lhe escolhe, e você agraciado desta dádiva deve se dedicar a este dom, a esta vocação. A noite agora já escurecia o quarto, distante, crianças cantavam uma música natalina, Eugênio parou de tocar para ouvir a canção, “são desses momentos preciosos que a vida é feita” pensou. “Noite feliz, noite feliz, oh senhor Deus de amor, pobrezinho nasceu em Belém…” Soava ao longe a canção, que mergulha em esperança este pobre e solitário coração.

 

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Memorial de um desconhecido

 Giordana  Medeiros

Este conto é parte de um diário que encontrei sob uma árvore no parque, em razão da curiosidade e também como não havia nome ou endereço do possuidor, levei-o comigo para casa onde me envolvi na narração da vida desse rapaz, suas frustrações e desejos, vitórias e derrotas e todo um universo complexo de relações. Escolhi alguns trechos para compor este conto. A veracidade do relato não pode ser comprovada, autoria tão pouco. Mas, com certeza, é uma boa história.

1º de janeiro de 2001

Ano novo, resolvi escrever este memorial para poder compreender-me, talvez ao visualizar minha realidade possa encontrar respostas para todo este vazio dentro de mim. Quando houve a contagem regressiva, acreditava piamente que este novo ano era o começo de uma nova história. Minha história. Não começo com uma folha em branco, pois há muito já não o sou. Estou coberto de histórias, sou o resultado de uma série de fatos, que me antecedem. A vida me antecede a cada minuto. O mundo já existia, a sociedade também. A solidão não foi algo que inventei, mas que conheço bem. Esse é na verdade um vazio cheio de palavras, mas sem sons. Uma leitura silenciosa e fatalista. Essa é minha vida.

13 de janeiro de 2001

Senti os dedos da morte sobre mim. Eram suaves. Não pesavam em absoluto. Era uma sensação boa, de uma saída num labirinto. Minha vida é o labirinto onde me perco sempre. Um emaranhado de sentidos que não tem sentido. Só sei que hoje dei fim a um de seus capítulos, a partir de agora, há uma nova fase, novos personagens entram nesta trama. Um enredo mais rico. Mas se estreita mais o liame entre a razão e a insanidade. Equilibro-me entre estes como se andasse numa corda bamba. Para onde vai pender esta balança?

2 de fevereiro de 2001

As horas andam devagar, como se Chronos quisesse fazer perdurar a tortura deste dia. Entre estes muros brancos, o silêncio se estende, mas sinto vontade de gritar, para acabar de vez com a serenidade. Quero a explosão, balbúrdia, o silêncio guarda um estrondo em si, eu sei, eu sinto! Mas ninguém se ocupa de descobri-lo. Negam a realidade, querem viver sob a ilusão perpétua que a vida é suportável. Não posso viver aqui, não posso viver aqui…

10 de março de 2001

Havia uma história a ser escrita no início deste memorial. Não a encontrei. Tudo que vejo mudou muito, desde que decidi que o ano seria o início de uma nova história. No fim estou relendo um livro antigo. Mas sempre que voltamos a ler um livro, encontramos uma nova perspectiva para entender o seu enredo. Estou caminhando em território minado. Cada passo pode ser fatal. Retorno para casa: estão todos lá. Mas é como se não estivessem. Não há ninguém, e começo a desejar os muros brancos e serenos. Não é incrível como podemos nos acostumar com uma sensação desagradável até que ela se torna essencial a nós? E quando todos querem nos fazer feliz a infelicidade se insere em nossa vida entre as frestas de seus dedos. Querem me proteger como a um objeto delicado. Mas não adianta, o frágil sempre se quebra. E já estou em frangalhos. Não resta nada de mim. Vou dormir.  

28 de março de 2001

Meus olhos se deparam com imagens desconexas. E se tudo que vejo não é na verdade real? É um poema, meu pequeno poema impossível. Onde há muitas palavras para dizer o que sinto, mas no fim o sentido é um só. Meu coração é uma coisa triste e frágil. Tudo que quero dizer pode ser resumido. Mas sou naturalmente prolixo. Minha existência é cheia de palavras sem sentido. Hoje poderia buscar a razão de toda a dor numa sentença, há diagnósticos precisos para o que sinto. Traduzir em ciência minha dor. Será que a ciência pode fazer isso? Será que isso é a saída? E por que procuro saídas se já estou tão familiarizado com esta sensação? Tenho medo de perder-me novamente, mas num caminho que desconheço. Onde não possa sentir-me, e saber que existir é algo deveras difícil. Não quero viver sem dar-me conta disso. Vou aguardar que as derradeiras chuvas de março caiam sobre mim.

14 de abril de 2001

Sei que dia é hoje, mas isso é importante? Se não soubesse faria alguma diferença? Hoje poderia ser qualquer dia, mas hoje é 14 de abril! Meus sonhos desfizeram-se em 14 de abril. Meu mundo ruiu em 14 de abril. Tudo está acabado em 14 de abril. Há alguém se importando com isso? É apenas 14 de abril. O que se há para fazer? Assistir televisão, comendo pipoca, bebendo guaraná, numa letargia absurda. Se houvesse uma maneira de destacar minha vida, passaria um marca texto verde-limão sobre 14 de abril. Mas não importa. Não mais. Foi, não é mais.

30 de maio de 2001

Peguei-me sentido de novo. Isso não é bom. Achei que depois de tudo poderia superar esta sensação asfixiante, este sonho que se desfez em lágrimas.  Sempre soube que era um desejo irrealizável. Mas, sempre haverá um “mas”, um “se”… Como dar fim a uma história que nem começou? Onde os personagens não se conhecem e não se falam? É uma comédia? Não, um drama. Poderia ser pior, uma tragédia. Mas sou muito fraco e covarde.  No fim todos riem porque não entendem do que se trata. Nunca sentiram profundamente o roteiro desta peça, que senti e não acho a menor graça.

01 de junho de 2001

Hoje é um dia especial. É cheio de expectativas, pode-se esperar um milagre. Como se percebessem que eu existo. E não serei apenas uma presença incômoda, ignorada, num canto da sala enquanto todos se divertem. Sou sempre excluído. Mas amanhã posso ser protagonista. Hoje é o sonho, amanhã tudo se desmancha em realidade. Deixe-me sentir o hoje, que amanhã fatalmente não serei quem sou hoje.  Anos seguem-se velozes, em oito anos já não sei o que serei. Há o sonho, a expectativa. Por isso o dia de hoje é tão especial. Amanhã poderia não ocorrer para que tudo se resuma a hoje. Se o mundo terminasse em hoje… Mas o fim é sempre o futuro. O futuro é o amanhã tão distante que provavelmente nunca ocorra.

17 de junho de 2001

“Não espere de mim algo que não posso conceder-lhe”. É o que me diz a vida. Aceito com resignação.  A vida desgosta-me como um remédio inútil. Mas não me furto de tomá-lo, pela ilusão do placebo, pelo desejo de cura, pelo desejo insistente de me adequar ao que é correto. Normal. No fim minhas idéias se confundem neste memorial, minhas memórias sem vida. As minhas confissões. Se nelas nada digo é porque não há nada a se dizer. Escrevo sozinho no quarto escuro, como sempre tenho sido, como sempre serei. Minha vida é uma ironia do destino. 

Estava lá no momento que ocorreu? Não, como nunca estamos perto quando um botão se abre em flor. Estive sempre atrasado. Um segundo atrasado, um instante que me distancia de tudo que poderia ter sido e não fui. A minha história não tem história. São apenas sentimentos aos quais falta sentido. Não quero relatar meus dias, mas meus pensamentos mais profundos. É a eles que pertenço e eles são tudo que possuo.

20 de julho de 2001

Ontem escrevi um poema, e nele pretendia exprimir meu universo. Como se em rimas fosse possível contar uma história. Muitos o fazem: Dante, Goethe… Faz-me falta a Beatriz e Mephisto. Fé ou a total ausência dela. Não me encontro neste mundo. Olho em volta e tudo que vejo desconheço. Como um estrangeiro no meu próprio país. Sei que não tenho talento para rimas, mas sei contar histórias. Tenho o feito desde criança. E minhas histórias foram perdendo a pureza, amadureceram em dor. Como nós nascemos do trauma do parto. Há algo mais abrupto que isto? Creio que não.

03 de agosto de 2001

Não quero ser mais que um contador de histórias. Há uma pergunta sem esperança que trago comigo, mas que não a profiro. É um desejo. Uma possibilidade que se insere neste memorial apenas pela sua ausência. Não vou escrever-la. Resta-me guardá-la entre meus sonhos mais queridos. Há algum rumo a tomar quando estamos confusos? Há bússolas que me mostrem a direção que devo seguir? Pus todas minhas estrelas no céu. Mas guardo aquela que mais me brilha. É minha.

 25 de agosto de 2001

Tenho um mau pressentimento. Uma amargura, uma agonia que me inquieta. Como se algo muito ruim fosse ocorrer. É fruto de um sonho que tive. Havia uma chuva de papel picado e poeira. E não sei por que esta imagem não me apetecia.

11 de setembro de 2001

Ocorreu hoje o pior ato terrorista da história. Algo que se fixará na memória de todos eternamente. Agora sei por que senti aquela inquietação. E a chuva de papel picado e poeira se transformou numa imagem real e tenebrosa. O mundo enfrenta uma instabilidade social. Eu enfrento a minha instabilidade pessoal. Eu me desfaço todos os dias como as Torres de desfizeram em destroços. E foram-se tantas vidas. Eu sou um só e minha tragédia pessoal não traz dor comparada a daqueles que faleceram inocentes hoje. Nunca fui inocente. Meu veredito sempre foi culpado. Minha pena é permanecer neste mundo.  O mundo sente o peso da diferença religiosa, de hábitos e costumes. São estrangeiros no seu próprio país. Bem vindos ao clube.

24 de setembro de 2001

Quero um pouco de consolo, meu terror é o medo de estar eternamente sozinho.  Ninguém vive para si. E para quem eu vivo? Por que eu vivo? Por que insistir neste jogo se já perdi minha Rainha e os Bispos? Um jogo fadado à derrota. Ao menos se conseguisse fazer algum peão chegar à última casa, convertendo-o em Rainha…  Se eu prosseguir posso me tornar rei? Antes que ouça o Xeque Mate, empresta-me tuas asas, que quero voar!

16 de outubro de 2001

Creio que tenho relatado pouco de minha vida aqui. Não me descrevo nem a ninguém. Também não falo de meus dias, do que sou ou fui. Não importa. É minha maneira de falar de mim. Sou o que tenho por dentro. Meu espírito é muito mais importante do que meu aspecto. Talvez por me considerar um Quasímodo. Talvez por que não veja os sinos de Notre Dame. Há sempre uma boa leitura para um dia chuvoso. Choveu pela primeira vez desde abril.

25 de novembro de 2001

O ano está findando. As chuvas derramam-se sobre o cerrado, Brasília fica verde outra vez. E o Natal se aproxima. Vou andando solitário como a lua no céu. Mas as densas nuvens de chuva não me permitem que a veja. Nem mesmo as estrelas. Sei que estão lá, isso me basta. É fácil ter fé quando a presença material se confirma. Sou um homem de pouca fé. Por que pude tocá-las eu creio. Toco as estrelas em sonho, não são quentes, mas luminosas e frias, como a calda de um cometa. Não entendo nada de física…

14 de dezembro de 2001

Resolvi que terminarei este memorial no fim deste ano. E depois de escrever o fim desta história não vou eternizar outros anos mais. Este vai ser o único que verei relatado, transcrevi em palavras toda carga de emoção porque fui tomado nestes meses que se desenrolaram. Amei, chorei, sofri, no fim estou desiludido e cético.  A alma humana é um abismo, a queda é fatal. Talvez por isso tenha mergulhado em minha alma. Porque sabia que o que era não poderia sobreviver à queda. Todavia agora ainda não sei quem sou… Talvez um dia descubra, talvez não… Creio que não.

24 de dezembro de 2001

Véspera de Natal. Sou sempre tocado por esta data. Vivia o Natal muito antes, em agosto já escrevia minha cartinha ao Papai Noel. Este ano não pedi nada. Não creio que felicidade seja algo fácil de embrulhar e colocar debaixo da árvore de Natal. Provavelmente ganharei um par de meias, se fosse pelo menos um jogo de Xadrez…  Mas prefiro mesmo felicidade. Mas não se ganha felicidade se não puder presenteá-la a alguém.  Como se embrulha felicidade? A quem posso dá-la? Felicidade rima com eternidade, mas nem sabem como estas duas são frágeis. A felicidade é facilmente convertida em dor, eternidade, como é débil o para sempre… Creio que este nem existe mais…

31 de dezembro de 2001

Esta é minha despedida deste memorial. Depois não vou relê-lo, vou abandoná-lo sob uma árvore num parque. Não quero destruí-lo, mas concedê-lo a alguém. Não que haja algo de proveitoso em suas páginas, somente um relato de sensações que me assombraram neste início do século XXI. A você que o terá em suas mãos, não há necessidade de saber quem sou. Sou qualquer um, ou posso também ser você. Faça bom proveito, despeço-me. Uma derradeira lágrima escorre pela minha face. Segue a melancolia a derramar-se sobre mim.

 

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Um sorriso de domingo

Giordana Medeiros

Rua silenciosa, pássaros cantando, o sol esquentando o dia, deixando tudo morno e agradável. Céu azul como somente o inverno brasiliense pode proporcionar. Uma xícara de café quente numa das mãos, um bom livro em outra. Sento-me num banco do jardim para aproveitar o domingo. E se aparece um vizinho, com um aceno, digo olá e dou boas vindas a este oásis no meio do deserto de prédios, que se estendem até perder de vista. Mas mesmo neste mundo de cimento armado, há pássaros que cantam como se estivessem no campo. E também borboletas e beija-flores. Meu reduto neste mundo. Um minuto de paz neste ritmo frenético da vida. Como correr em meio a uma densa floresta, e numa clareira, encontrar um rio de água cristalina e pura. O sentido de um domingo é não ser. Não ser trabalhado, não ser visto e não ter qualquer sentido. Para que compreender? Deixe-me estar neste dia sonolento, que se arrasta e desfaz-se em segunda-feira. Muitas vezes acordar cedo no domingo pode não ser um pecado. Poder ver o dia nascer com suas cores características, tudo tão belo e calmo. Muito calmo. Não há o que fazer, mas não há necessidade que haja. Degusto meu café amargo que não macula a docilidade do dia e proporciono-me uma leitura agradável, para que planos? Não quero programar-me, posso deixar-me estar neste vazio. Nesta solidão que necessito, e muitas vezes é-me insuportável. Mas hoje não, vou sentir meu domingo com um sorriso nos lábios, como se toda dor fosse suportável. Vou caminhar por essas avenidas vazias, sob o silêncio que inunda a cidade. Quando as crianças começam a invadir as ruas com suas bicicletas coloridas, bolas e pipas, sou vítima de uma felicidade indescritível. Como quando era uma dessas crianças que se lançava às ruas, com meus pés descalços e meus joelhos ralados, para brincar.  E tudo isso no domingo.

Um dia percebi que as manhãs de cada dia têm sua característica própria. E a peculiaridade do domingo é toda esta mansidão que se estende sobre as pessoas e coisas. Não iria ser domingo se não fosse assim. E todos os dias guardam em si uma chama de esperança de se tornarem domingo. As carolas vão à missa. O sino da igreja badala. Roupas engomadas e limpas são exibidas. Não uso relógio no domingo. Para que saber as horas? Eu não quero seguir os desmandos de Chronos ao menos hoje.  Estou cansada de viver a espera do sentido. Meus sentimentos são o avesso da razão.  Sou toda sentimento. E quase nenhuma razão. No domingo, sou mais feliz. E se todos os dias fossem domingo? Não seria a mesma coisa, pois tem de haver o monótono trabalho para que haja feriado. O que seria do domingo se não houvesse a semana em si? O homem logo se entediaria com a existência perpétua da felicidade. E não seria mais felicidade. Converter-se-ia em monotonia. Não vamos estragar a espera da semana, cujo término é o prazer do domingo.  Se tenho de aguardar anos para que surja esta pérola, a espera é a esperança em si. Não há obrigações que me exijam. Não quero compromissos, tudo é meu hoje. Nem que seja apenas este café que saboreio ou este livro que me entretêm. Se posso aproveitar melhor o dia, com algo mais lucrativo, ou mesmo dormindo até tarde, como outros fazem por avareza ou preguiça, não me importa. Domingo é meu. Muitas vezes me recordo de fatos que ocorreram neste primeiro dia da semana. E meus olhos revêem acontecimentos como um déjà vu. Num instante sou eu que estou a acompanhar um circo que chegava à cidade. Toda música e cores. O engolidor de chamas, que lançava uma labareda e apagava a tocha com a boca, palhaços que divertiam a todos com suas brincadeiras. E a multidão de crianças correndo atrás da caravana do circo.

Eu no meio daquela multidão, num colorido domingo. Havia música, dança e algodão doce. Lembro-me de ter despertado com a caravana que chegava à cidade. O mágico, que fazia aparecer pombas com a facilidade que as fazia desaparecer. E o som que ecoava na cidade, contagiando a todos com aquela felicidade. Malabaristas que faziam voar bolas e malabares sem deixar cair nenhum. Contorcionistas com elasticidade sobre-humana, que se dobravam como se fossem feitos de borracha. Pessoas em pernas de pau distribuindo folhetos com os horários das apresentações. A música que jamais me saiu da cabeça. Um dos meus momentos mais extraordinários. Lembro de ter pedido aos meus pais que me levassem naquele circo, e fui a uma das apresentações. Era mágico estar naquele lugar, e recordo-me com doçura do dia que o circo despertou-me no domingo. E devo salientar: era domingo de Páscoa. Além dos chocolates que aguardava com a paciência exígua de uma criança, depois da semana santa inteira expiando os pecados (no sábado de aleluia havia confessado ao padre que tinha trapaceado no jogo de bolinhas de gude, meu mais grave pecado, pelo qual fui penitenciada a rezar vinte Ave-Marias), fui agraciada com aquela surpresa, aquela magia que só o circo pode proporcionar. E se pudesse sair dançando ao som daquela música, como aquela trupe fizera, sairia agora. Mesmo que os vizinhos pudessem estranhar tal comportamento. Eu me lançaria nas ruas, dando voltas, com aquele som. Eu sentia tudo e via todas as cores. Se voltasse aos meus sete anos, como naquele domingo feliz, para poder vivenciar tudo de novo…  Hoje o que me entusiasma é tão insignificante. Eu quero o entusiasmo infantil. O “maior de todos” era o maior, mesmo que não fosse de todos. Lembro-me que quando criança imaginava que o quintal de minha avó era gigantesco. Quando cresci, depois de anos sem ver-lo, ele ficou incrível e estranhamente menor.

Quando sai do circo, queria fazer tudo igual aos artistas, e decepcionava-me o fato de não ter a mesma agilidade, elasticidade ou a magia do ilusionista. Eu tinha sete anos ainda, era inocente e me impressionava com facilidade. Tinha um grupo de amigos fiéis, uma imaginação privilegiada e muito entusiasmo. Mesmo hoje, que sou desprovida quase totalmente destas qualidades, ainda me agrada o domingo. Pena que o circo não realize mais desfiles ao chegar numa cidade. Acho que continuaria a impressionar as crianças como o fizera a mim. E olhando aquelas crianças, na rua em que morava, brincando, correndo, sorrindo, desejava tornar-me novamente uma delas. Mas uma vez disse que Chronos devora seus filhos. Isso é a verdade mais literal. O tempo nos devora, rouba-nos a infância, consome nossos corpos. E o que resta é somente pó. “Do pó vieste ao pó retornarás”. Acho que ouvi isto em alguma das aulas de catecismo que fui. Viemos de partículas que se uniram e formaram os primeiros compostos protéicos, para depois, por alguma condição propícia, surgir o primeiro ser unicelular. E pela cadeia evolucionária chegamos a este ser complexo que somos hoje. No fim vamos nos desfazer com auxílio de vermes que se alimentarão de nossa carne. O tempo nos devora. A vida é passageira e curta. Muito curta. Anos que correm velozes, quando nos damos conta, o passado fugiu de nós. Resta-nos somente o futuro. O presente, não é mais que a sensação de perda, a perda dos anos que se desfizeram em sonhos. E sonhos são eternos. Guardo os meus como o fazia com minha coleção de bolinhas de gude que ganhava jogando com os meninos: num lugar muito especial.  As bolinhas de gude eram meu tesouro, meus sonhos também o são. Não quero desfazer-me deles jamais. O café terminou, o entregador de jornais chegou com o jornal de domingo, e tive de despertar para a realidade. A notícia de capa era mais um caso de corrupção, e no país do futebol, um grupo de garotos jogava pelada, sem se importar com a falta de caráter de seus políticos. Sorri, ainda era domingo.

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A mente tem vida própria

Giordana Medeiros

A vida tem mente própria e a mente tem vida própria. Somos todos loucos em busca de uma razão fugidia. Inconstante. Sei o que quero, mas não tenho forças para consegui-lo. Tudo me parece distante e difícil. Como se alguém me estendesse a mão e depois me negasse-a. E vivo nesse mundo. Outrora havia sons, horizontes. Mas não eram reais, não eram reais. Vertigens, miragens mirabolantes de uma mente perturbada e solitária. Foi minha culpa? Será que foi minha culpa? Eu fiz algo errado? Será um castigo? Por não ter me comportado bem, por ter me furtado ao convívio dos demais… Tinha medo que estivessem a rir de mim… E ouvia seus pensamentos, e todos me desmereciam. As pessoas começaram a tornar-se apenas borrões, não lhes via os rostos, assim não sabiam se olhavam realmente para mim. Então, então… Meu oceano de palavras não teve valor algum, pois as palavras que precisava fugiram de mim no meu momento crucial. Agora… Há agora? Sei que vivo à sombra de um passado que me persegue e assombra. Hoje não sei o que quero, pois estou infeliz com o que sou.  Eu sei que poderia ter sido mais e sei que nada sou.  Meu desespero é ter de escrever sem leitores, ninguém mesmo se interessa. Acho que não me faço entender. Talvez ninguém queira mesmo entender. Quando busco em mim o silêncio, encontro tormenta. Sei que todos os instrumentos tocam ao mesmo tempo numa balbúrdia monumental. Difícil se concentrar. Quando criança queria ser cientista. Fugi da ciência, para concentrar-me nos sentimentos. Acho que lidava melhor com coisas indefiníveis e imprevisíveis. Mas fui tola ao escolher meu destino, confiei demais em caminhos já traçados. Tive medo, novamente, de construir meu próprio caminho. E agora não há mais como voltar atrás. Todos conjecturam novas possibilidades, mas apenas consigo enxergar as possibilidades que deixei para trás. Todos sabiam o que eu era, mas me negaram a possibilidade de sabê-lo. E quando dei por mim, já não era mais o que deveria ser. Sou um projeto erigido à surdina, longe de meus olhos. Assim não pude ver no que me transformava.

Posso gritar e tentar desfazer-me desta casca que me cobre e me sufoca, mas se assim fizer… Haverá consequências, e não posso suportá-las, são demasiadamente pesadas. Não posso caminhar sozinha sob o peso desta cruz. O que me alivia? Onde posso descansar meu corpo sacrificado? Estas chagas que ardem, este corpo que de nada me vale? Não sou o que sou. Sou o que querem que eu seja. E nada me alegra neste uniforme que me vestiram. Nessa cartilha que me obrigaram a decorar. Por que fui tão fraca? Minha mente vivia, pulsava e obrigava-me a ceder. Abri mão de meus sonhos, pelos sonhos dos outros. Por que não lutei pela minha própria vida? Porque era justo desta que tentava desfazer-me. E isto é difícil. Os joelhos tremem e o corpo implora, mais um minuto… Mais um minuto… Quando finalmente domei meu cavalo selvagem, vi que tudo que me tornei, era uma pintura assinada por outro artista. Não sou eu. Não sou eu. O que sou eu? Por que há tantas perguntas a fazer e tão poucas respostas recebidas?  Sou uma mentira, um embuste. Nada em mim é verdadeiramente meu. Só minhas palavras que não surgem em sons, mas em letras escritas sobre a folha em branco para que ninguém leia. Somente eu. Depois de ler vou rasgar o papel e tudo ficará como está. Para Sartre, o homem foi condenado a ser livre. É mesmo uma pena? Eu me infligi o cárcere perpétuo, a mentira, a superficialidade dos sentimentos. Nada é real. Somente este sofrimento de ter me tornado algo que não compreendo. Se tivesse feito minhas próprias escolhas… Mas sempre tive medo. O medo é uma constante, medo das pessoas, do mundo, da sociedade. Se mesmo eu não me compreendo como o mundo pode compreender-me? “I can give not what men call love.” P. B. Shelley . Minha mente está mesmo controlada? E este texto cheio de dor, este soluço recolhido e esta decepção que sinto, isto é normal? Ninguém mais confia no que digo ou faço. Porque eu confiaria? Pode não ser real. Pode não ser normal. Minha vida não pode mais se restringir a mim. Todos se preocupam com que faço. Tudo é monitorado. E se estou triste, minhas lágrimas não podem regar minha dor. E se estou alegre todos desconfiam de minha felicidade. Meus sentimentos não são mais apenas meus.

Era uma vez alguém que nunca chegou a ser… E foi o que não era. Minha história se resume à duas sentenças.  O espelho esconde de mim minha verdadeira face. O que vejo é o Retrato de Dorian Grey. E o que sou é a figura que não envelhece, que não se deforma, que se conserva eternamente.   Mas todos só querem saber do que é exterior. O importante, que ficava inacessível aos olhos, perdeu toda sua necessidade. Posso desfazer-me de mim tão fácil quanto as outras pessoas o fazem. Sou insignificante. Desimportante. Nem um pouco interessante.  Por isso fugi para dentro de mim. E minha mente logo acusou meu desaparecimento. A mente tem vida própria, já disse. Não pude viver sozinha, e não posso… Mas não sou a companhia mais agradável. Sei que é o que todos pensam. É o que todos demonstram.  Serei sempre coadjuvante na minha própria peça. E quando fecharem-se as cortinas, os aplausos não serão para mim. Se fechar os olhos posso imaginar um mundo diverso. Nesta história, posso ser a atriz principal, num cenário menos hostil, pessoas amigáveis e sensíveis. Lembro-me de ter pedido a minha mãe um irmãozinho igual a mim. Porque desde criança me ressentia minha solidão. Não veio este presente, como não vieram outros, e passaram-se os anos. Só consegui ter mesmo a companhia deste amigo de papel prensado, que não escolhe quem abrirá suas páginas. Um universo ao meu alcance. Pude representar várias peças. “Sei o que sou, mas não sei o que posso ser”, discordo de Shakespeare, pois não sei o que sou e sei o que posso ser. E não é o que espero, não é o que espero. Eu renuncio ao que sou, este ente que desconheço e que não compreendo, pelo que espero ser.  Não me negue este desejo. Vida que sempre me negou abrigo, porque sempre me virou as costas, quando o mundo me aniquilava. E para que não o denunciasse cortou-me as mãos e a língua, como malfeitores fizeram à Lavínia. Entretanto este crime perdura. E logo serão denunciados os culpados.

A minha dor que transbordou de mim, agora é tão mesquinha… Sou humana, sou frágil, sou amarga, sou sensível, sou uma série de coisas que não me traduzem, porque sou muitas em uma só. Meu espírito é de tal forma complexo, que somente a figura de um caleidoscópio pode traduzi-lo.  Mas no fim são apenas espelhos. Somente espelhos. É tudo tão simples. Sou a complexidade mais simples que existe. Mas ninguém se preocupa em traduzir-me. Ninguém se ocupa em ouvir-me, mesmo que não tenha voz forte o suficiente para ser ouvida em meio a tal balbúrdia. Padeço de muitos males, o pior deles é o pavor deste vazio que me consome. Será eternamente assim?  O silêncio trás um estrondo em si. Não consigo me guiar por estes caminhos, pois não foram por mim escolhidos e levam-me a lugares que não queria ir. Se desobedecer estas estradas, se dirigir na contra-mão da história, pode ser uma possibilidade. Mas o tempo passa, rápido e atroz, Chronos devora seus próprios filhos. É impossível fugir ao tempo.  Ele não teve o seu poder de cura em mim. Somente abriu novas feridas entre aquelas que já sangravam. Minha mente foi dividida entre aquilo que me transformavam e o que eu era. E desse ser que era, não me lembro. Ficou enterrado durante décadas e padeceu de asfixia. Agora não há mais como ressuscitá-lo, talvez com alguma poção mágica, que possa dar vida aos mortos, mas é perigoso ressuscitar aquilo que o tempo enterrou. Assim pode ser mais fácil compreender este texto, um muro de lamentações, por um passado roubado, por um futuro distante, por uma história transformada. Nada do que sou é o que era. O que serei: nada mais do que sou agora.  Hoje sou nada, o que serei: nada. Algo sem valor algum. Posso enumerar meus defeitos, mas não posso corrigi-los porque já fazem parte de mim. O que sou e que não compreendo. Entendo que quiseram fazer de mim algo nobre. Mas não foi o que me tornei. Sou como a espada a qual não se pode dar o corte. Pode se limar eternamente. Produzida do mais puro aço. Mas se não tem corte, para que serve? Para enfeitar, como um prêmio numa prateleira ganho décadas atrás, e do qual não se recorda por que.  Sou grata por tentarem guiar-me quando meus olhos não conseguiam ver. Mas agora que vejo, com assombro constato que tomei errôneos caminhos. Sinto-me consternada como quem está perdido. Onde devo ir? Seguir, sempre em frente, pois não há mais como voltar. Não serei nunca quem sou realmente. Tenho de aprender a conviver com o que me tornei. Este estranho com quem me deito todas as noites. Amá-lo (será possível?) e tentar compreender… Muito mais que só entender.  Enfim, perdoar este inimigo que está dentro de mim.

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